Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
11 Fofocas de Sabrina
Notas iniciais
Versalhes, F R A N C A
Estava se arrastando escadas acima, quase carregada pelo guarda que se submetera a levá-la até seu quarto. Sentia a barriga inchada e ainda arrotava os temperos exóticos da refeição, mesmo após algumas horas conversando com outras meninas e a imperatriz. A mulher era uma pessoa muito amável, realmente. Sabrina sentia-se à vontade, mais do que imaginou que se sentiria dentro de um palácio tão, tão grande e cheio de coisas pequenas e delicadas que ela poderia quebrar se encostasse um fio de cabelo (do jeito que era desastrada…). O homem não disse uma palavra sequer, embora soltasse risadas sarcásticas conforme vendo-a se esfregar contra a parede, usando de apoio aquele corredor, até o quarto. Ficara com um dos mais longes, no final do corredor. Agradeceu-o por tê-la levado até ali e o guarda ficou feliz em ser útil, fez um cumprimento e já virava as costas, quando a porta de um dos quartos do começo do corredor se abriu e de lá saiu o príncipe.
O príncipe.
Heid arrumou os cabelos com as mãos e não os viu do outro lado do corredor, apenas continuou caminhando apressado para o outro lado das escadas, onde subiria até sabe-se lá que outros lugares o palácio escondia. Sabrina não compreendeu muito bem o que aquilo significava, mas quando voltou a olhar o guarda, notou que ele estava boquiaberto.
— O príncipe estava no quarto de uma selecionada? — ela murmurou consigo mesma e o homem voltou-se com um olhar espantado, quase pedindo para que ficasse quieta — Mas já? Meu Deus, esse menino não perde tempo. Precisarei ser mais cuidadosa.
O guarda abriu a porta e pediu que ela entrasse.
Quando o fez, algo ainda mais surpreendente e assustador aconteceu: ele também entrou. E fechou a porta atrás de si. Sozinhos, dentro daquele quarto que Sabrina nem conhecia, nem sabia se havia uma cama ali dentro ou uma gaiola de tortura, pois ele não a deixara ver. Estava com as costas largas contra a porta e os olhos férreos perfurando até a sua alma, com tanta força que Sabrina humildemente recuou alguns passos.
— Você não pode falar sobre isso — ele ordenou.
Algo no ventre de Sabrina deu uma reviravolta e ela se envolveu com os braços. Tudo bem, o guarda parecia ser bem bonito para um homem em uma farda e com uma potencial habilidade em combate corpo-a-corpo, já que não carregava armas, mas mesmo assim não era o suficiente para que… quisesse algo com ele.
O homem abriu um sorriso maldoso.
— Não estou falando disso, senhorita. — seus olhos mudaram levemente, agora estavam mais feroses, mas ao mesmo tempo brincalhões. — Ninguém pode saber o que você viu sobre o príncipe, se isso incriminar a reputação de vossa alteza.
Havia uma leve ondulação em “vossa alteza”, como se as palavras soassem asperas em sua língua. Chamar outro homem de vossa alteza lhe devia ser difícil, pois ele carregava um orgulho visível no modo como colocava as mãos dentro dos bolsos e movia o queixo para os lados, em expressões de inquisição.
Sabrina deveria estar tão assustada que nem mesmo percebeu que ele era diferente de tudo que já tinha visto em sua pacata vida no fim de mundo em sua pequena ilha no extremo norte da Noruécia. Santos deuses, ele tinha a pele escura, igual raramente vira na televisão e em algumas aulas no colégio. Não escura como a de algumas selecionadas indianas ou mesmo da imperatriz, mas… negra. Ele era negro. Podia ver pelo formato de seu nariz, a grossura dos fios de seu cabelo, trançados até metade dos ombros. E os lábios grossos semiabertos. Ela piscou, atônita.
— Você é africano! — apontou-o, sem qualquer sinal de repúdio ou raiva — Nossa, eu nunca vi alguém como você! Digo, eu já vi nos livros de geografia, mas não pessoalmente… oh, você é tão mais alto e magro e… Diferente. Eu imaginei pessoas mais baixas, mais largas igual a Vênus da pré-história, mas você é.... diferente.
Henry se divertiu com a surpresa e empolgação da menina, ela deveria nunca ter saído de sua cidade, para estar tão espantada com o mundo ao redor. Ele não era o único negro dentro do palácio, nem na Eurásia. Claro que sua população diminuíra muito com as campanhas de “retorno às origens” dos povos, mas Franca ainda era o país com mais quantidades de descendentes de africanos em toda a parte européia. Ela também era diferente, não de um modo que ele nunca havia presenciado, mas diferente. Sua pele era branca como gelo e os cabelos de um laranja como lava. Talvez fossem os perfeitos opostos dos povos da Eurásia.
— Hey, irmã, eu sou franco. Nasci e fui criado aqui. Calma, querida.
— Eu posso tocar seu cabelo? Digo, não sei se isso é ofensivo, eu só queria sentir a textura… Eu deixo você tocar o meu.
— Tem certeza que quer deixar um homem tocá-la num quarto fechado, a sós? — de novo aquele olhar selvagem e Sabrina teve outro arrepio, mas dessa vez ela entendeu que não era a sério. Não era, certo?
— Você tem razão — assentiu e então olhou ao redor, pela primeira vez. Lindo, tudo lá era lindo, mas nem um pouco mais fascinante que ele. — Qual o seu nome?
— Henry, milady, mas pode me chamar de seu fiel guarda Henry. — ele se curvou e esticou a mão, pedindo. Sabrina lhe entregou sua palma e ele beijou-a suavemente. Lábios grossos, macios. Ruborizou de leve. — Talvez, eu esteja sendo inadequado — o homem se voltou para a porta imediatamente e então sorriu de lado — Não deveria flertar com uma das pretendentes do príncipe, deveria?
Flertar? Como… fazer a corte? Sabrina precisava se abanar imediatamente, ou morreria de êxtase nos próprios sapatos. Ficou estática, tão vermelha quanto seus cabelos, e ele abriu a porta lentamente, saindo com tanta calma que parecia pedir para ela pedir para que ele ficasse.
— Desejo uma boa noite para a senhorita… — seus olhos percorreram a mão estendida de Sabrina, ainda perdida naquele momento encantador, e subiram por seu pulso, braço, ombro, até parar em seu rosto corado. — Você sabe meu nome, ma’am, poderia saber o seu?
— Sabrina — ela disse, morta.
— Boa noite, Sabrina. — seu sorriso era cavalheiresco, mas seus modos, como se curvou e fechou a porta.... Sabrina virou para a cama e simplesmente caiu nela, gritando contra o travesseiro.
Seu coração parecia a ponto de sair do peito, seu sangue corria todo para o rosto, para seus olhos e os ouvidos, ela estava cega e surda de tudo. Nem mesmo o estômago cheio lhe incomodava mais. Um homem de verdade havia flertado com ela, como nos filmes que assistia e como nas fanfics que lia na internet. Meu Deus, ele era maravilhoso, perfeito. Tão irresistível! E… espere. Piscou consigo mesma. Aquilo não era um romance inteiro, eles mal haviam conversado. Que história é essa de irresistível, Sabrina, meus deuses, você é uma menina muito imatura e tola. Colocou a própria cabeça sob o travesseiro e se prendeu ali, como uma forma de se castigar.
Deveria ser assim na primeira vez que uma garota sentia… aquele tipo de sentimento. Essa euforia, misturado a um orgulho feminino inflado e um pouco de amor-próprio baixo. Onde estava a Sabrina que abandonara tudo para vir até ali? Largara seus namorados em Vengsøy, o pai e todas as expectativas que um dia colocaram sobre ela, apenas para que tivesse um futuro que ela havia escolhido para si mesma. Fora isso o que disse a Jörg, antes de deixá-lo para trás. Essa Sabrina não ficava caindo de amores por qualquer guarda que quisesse trocar algumas palavras doces. Tinha de ser a mulher forte e decidida que escolhera ser, pronta a qualquer coisa para até aquilo que sempre sonhara ter: uma vida longe de Vengsøy.
Ele era mesmo um merda por estar dando em cima da garota de seu próprio príncipe…
Sabrina decidiu que ele era asqueroso, um mentiroso de duas caras. Iria odiá-lo, pronto.
No dia seguinte, estaria viajando para ainda mais longe, então não precisava se preocupar com ele. Mas havia outra coisa incrível para preencher sua mente no momento… O príncipe havia visitado uma das selecionadas no quarto.
Sorriu e tirou o celular do bolso traseiro do jeans. Todas as suas amigas em Vengsøy precisavam saber disso.
As malas das selecionadas foram despachadas primeiro, já que não precisariam delas para passar a noite em Versalhes. Todas as meninas dormiram até as nove da manhã, um descanso merecido, e tomaram o desjejum em seus quartos, para não perderem tempo. As roupas foram trocadas, um novo look fora escolhido para que estivessem “uniformizadas”. Ao invés de seu jeans, Sabrina teria de colocar um vestido horrível que parecia muito com o estilo que a imperatriz usava, quente demais para respirar, apertado demais para se mover. Como uma prisão. Sentia-se realmente presa naquela roupa e labutou consigo mesma se não era capaz de ter alguma crise de claustrofobia em meio ao segundo vôo que fazia em apenas uma semana. Isso sem que ela nunca tivesse andado de avião.
A única coisa que lhe permitiu não entrar em crise fora olhar para fora da janela, para o céu infinito. Se trocassem os lugares desta vez, estaria perdida. Não queria surtar perto do príncipe, nem do imperador e da imperatriz, mas não era algo que pudesse controlar.
Todos os seus temores foram sanados, já que dividiriam o avião em duas cabines, uma para a família real e os funcionários pessoais da família, outra para as selecionadas. E elas poderiam escolher seus lugares, graças aos deuses. Sabrina quase atropelou uma aeromoça enquanto ia até o primeiro assento da cabine com vista para a janela. Sentou-se e apertou o cinto, do modo que aprendera em Paris. Faria tudo perfeitamente, para não morrer de ansiedade ou preocupação neurótica.
— O lugar está ocupado? — uma selecionada parou ao seu lado. Praticamente todos os assentos já haviam sido escolhidos, sobrando apenas um ao seu lado e outro ao lado de Mizandre. Duas meninas caminharam para dentro e a mais rápida chegou a Sabrina primeiro.
— Não, pode sentar. — foi tudo o que respondeu e observou-a enquanto apertava o sinto ao seu lado. Ela tinha uma pele queimada de sol, muitas sardas em seu nariz não eram naturais, mas sinais da vida debaixo do Sol. A garota deveria morar em uma cidade litorânea do Mediterrâneo. Vengsøy também tinha praias, mas elas eram tão geladas que pareciam mais com rios de gelo e água que queimava a garganta de quem tentasse bebê-la. — Eu me chamo Sabrina, qual seu nome?
— Joanna — a garota respondeu, sem erguer os olhos do trabalho que era apertar todos os cintos do assento. Quando terminou, ela olhou diretamente para Sabrina e sorriu — Sou de Iberya.
— Noruécia.
— Sim, eu pensei que fosse. — seus olhos inteligentes também pareciam sorrir.
Sabrina não gostava de ter uma aparência tão “típica” das ilhas da Noruécia, a pele tão branca que poderiam ver suas veias contra a luz de uma lâmpada ou os cabelos ruivos que pareciam cenouras penduradas em sua cabeça. Já lera tantos comentários maldosos em suas fotos no Instagram que havia desistido de tirar selfies e agora focava em fotografar apenas as coisas bonitas que encontrava por aí.
— Você fica bem nesse vestido — Joanna comentou, quebrando o silêncio que se assentara entre elas.
— O quê? Não, você está mentindo! Essa coisa é horrível.
A iberyana riu.
— Sim, é horrível, mas pelo menos seus ombros são estreitos o suficiente para parecer delicada. Eu pareço um lutador de sumô dentro de um collant de balé.
Sabrina também riu, imaginando a cena do lutador.
— Não, claro que não! A cor combina com sua pele. Se eu ficasse no sol para me bronzear, viraria um camarão. E eu já tenho o cabelo vermelho, então seria ainda mais bizarro.
Joanna gargalhou, pressionando o apoio para copos do assento. Algumas meninas olharam diretamente para elas, mas as conversas continuaram como burburinhos de água. Menos no lugar onde a infeliz última a chegar dividia o espaço com Mizandre de Franca, a pior das selecionadas, na opinião de quase todas ali. Sabrina também não gostava dela.
Antes que pudesse fazer outro comentário engraçado para que sua companheira de lugar risse, a porta da cabine em que estavam se abriu de supetão e a governanta Verônica caminhou até o meio das fileiras, olhando muito bem para cada uma. Ela parou ao lado de Joanna e colocou a mão sobre seu ombro.
— Joanna Carmella de Aragão, levante-se.
Joanna obedeceu, não sem antes lançar um olhar para todas as outras selecionadas e seguir a governanta. A mulher apenas parou ao lado de outra dupla e chamou uma das duas.
— Mizandre Merveilleux de Marion, venha também.
E Mizandre se soltou do cinto tão facilmente que poderia estar levitando, quando caminhou até onde Joanna estava parada, esperando. Ambas as meninas eram opostos admiráveis. Mizandre e seus cachos dourados, a pele branca como porcelana e aquele rosto simplesmente perfeito. Mesmo que o vestido fosse horroroso, ela ainda parecia elegante dentro dele. Já Joanna era uma negação para o gosto sofisticado da imperatriz. Seus ombros pareciam realmente estar saltando para fora das mangas baixas, a cor vibrante do azul combinava com sua pele morena, mas esse era todo o ponto positivo que tinha. A iberyana era musculosa, forte, ameaçadora. Ao seu lado, a franca parecia uma boneca pronta para ser destroçada numa briga de punhos contra um tiranossauro rex. Quando era criança, Sabrina realmente fizera um duelo assim com seus brinquedos.
— E Kateryna Petrov.
A russa se levantou e acompanhou a governanta. Ela acompanhou as três meninas para fora do vôo, como que expulsando-as dali. Quando, por fim, a porta da cabine se fechou, os murmúrios retornaram ainda mais altos e mais atentos ao que a outra tinha a dizer.
— Elas estão fora? — alguém perguntou.
— Será que fizeram algo errado? — outra pessoa se levantou do lugar e olhou por cima do banco.
Sabrina empalideceu, ligando os pontos de tudo.
— Oh, meus deuses, o príncipe foi ao quarto de uma delas. — os olhos imediatamente se voltaram para ela. Sentiu que a atenção a fortalecia — É verdade, ontem eu vi o príncipe saindo de um dos quartos! Eu não sei quem era, mas ele parecia muito apressado.
— Será que Heid é um desses? — a selecionada na fileira de trás gemeu — Homens são todos iguais!
— Isso significa que alguma delas realmente… abriu as pernas para ele? — outra gritou, quase explodindo.
— Verônica parecia estar a ponto de bater nas três. Eles devem suspeitar de que alguma delas fez isso! Vocês sabem que precisamos ser virgens para casar! — uma terceira argumentou.
Alguém deslizou para seu lado e sorriu-lhe. Sabrina não a reconheceu.
— Conte mais sobre o que você viu, garota.
E ela contou, porque simplesmente não conseguia segurar.

Henry
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