Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
9 Primeiros Passos de Anastasiya
Notas iniciais
Versalhes, F R A N C A
Poderia admitir que o palácio era muito mais luxuoso do que esperara, na verdade tudo ali parecia brilhar em ouro e prata e cristal... dinheiro demais para se preocupar com para onde ia os investimentos em educação e saúde do império. Ana não os culparia por aquilo, na verdade. Diferentemente dos rebeldes, ela entendia a cegueira que preenchia os olhos daqueles que tinham muito. Com tanto brilho ofuscando, era fácil não perceber a fome do mundo. Ela mesma nunca percebeu até perder quase tudo.
A comida estava incrível. Era um deleite ao paladar, aqueles tons adocicados entre uma acidez peculiar que os pratos romenos de sua avó não conseguiam capturar. Um tempero a mais. Agridoce, um gosto que condizia muito com ela mesma, brincou em pensamento, sem esboçar qualquer traço no rosto. Era uma estátua, comendo silenciosamente, alimentando-se como de pó e vento. Alheia a explosão de sabores e gorduras que pingava de cada pedaço de carne que cortava com os talheres de prata.
E os talheres...! O cabo do conjunto era adornado ao estilo barroco, com curvas que ela percebeu serem vestígios de uma tendência mais rococó, mas ainda barroco, exageradamente cheio de nós e entrancas obscuras no metal. Havia textura sob o topo até os dentes do garfo, como ondas de um riacho contínuo, calmo. E os dentes eram pontudos, com cabeças que poderiam causar um acidente feio a quem estivesse esfomeado. Como muitas meninas naquela mesma estavam.
Elas comiam com os olhos, com o olfato, com os ouvidos e por fim a boca, mastigando e já engolindo, sem perder o suco da carne e a cremosidade dos molhos. Se enchessem suas barrigas acostumadas a miséria, teriam uma dor de barriga naquela noite. Ana não via tanta comida assim desde os seus oito anos, mas não era tola de se empanturrar e esperar que aquilo não quisesse sair depois. Achou engraçado aquele pensamento e bebericou um pouco de leite.
Leite. Encarou a taça em sua mão, a marca de seu batom em um dos cantos da boca em formato de flor do cristal. Era realmente leite que estava bebendo. Ergueu os olhos apenas o suficiente para analisar os demais copos pela mesa e percebeu que todas foram servidas de leite. Inclusive a imperatriz. Aquela não era uma bebida para almoços, esperava tudo, até mesmo água, mas não leite. Bebeu novamente. Estava gelado, com pedrinhas de gelo ao fundo, e parecia ter sido levemente misturado a morangos maduros... seus olhos chegaram às bandejas de cristal que completavam a coleção em forma de flor da copa, a travessa estava cheia de morangos com peles brilhantes que refletiam a luz intensa das lâmpadas. No fundo do cristal uma poça de líquido branco se acumulava. Realmente haviam mergulhado os morangos no leite.
Esticou a mão e pegou um deles, dando uma mordida. Agridoce. Um pouco mais doce que o molho de antes, mas ainda harmonizava muito com ela própria.
Não queria conversar com ninguém ali. Veja bem, Anastasiya não é uma menina odiosa, ela não se irrita com facilidade, nem desenvolve raiva por coisas que não entende ou conhece, ela apenas não sente nada em relação a qualquer coisa que não lhe chame a atenção. Julguei que tomar esse tempo para explicar isso fosse necessário. Prossigamos.
Passou-se algum tempo e as selecionadas mais sofisticadas terninaram suas refeições, sobrando à mesa apenas aquelas que traziam sob a pele o legado dos sempre famintos. Ana decorou o nome de todas, sem perceber é claro. Reviu tantas vezes o sorteio que precisou de sua avó esconder a fita para que não virasse a noite olhando o rosto do príncipe chamando seu nome. Aos gritos. Em sua mente, ele chamava aos gritos.
— Vocês podem ir para seus quartos. Os guardas as levarão. — a imperatriz gesticulou na direção dos homens parados a porta. Eles assentiram e caminharam com o grupo. Ana se levantou para segui-las. — Senhorita Volkov, espere.
A imperatriz a avaliava de cima a baixo, seus olhos percorrendo até a espinha. Ela não havia reparado em sua existência até então, e Ana chegou a pensar que não se lembrava do nome Volkov... estava enganada, é claro. Jurou ter visto os guardas diminuírem os passos quando escutaram a mulher.
— Sim, majestade?
A imperatriz a chamou com a mão, para que se aproximasse de sua cadeira. Mesmo a fome deu espaço à curiosidade das demais garotas na mesa e Ana se sentiu compelida a encolher, mas manteve os ombros retos, a coluna ereta e o rosto imóvel. Inexpressivamente perfeita. Sem ódio, sem amor, sem qualquer sentimento que a condenasse.
— Anastácia Volkov. — repetiu a imperatriz — Volkov não é um sobrenome que muitas pessoas gostariam de usar nesses dias tão conturbados. Já pensou em usar o sobrenome de sua mãe? Evitaria muito ódio desnecessário. — a cigana sorriu com uma compreensão fria — Qual o sobrenome de sua mãe?
— Strauss — embora sua voz fosse incolor, os olhos amendoados se fixaram nas bochechas gordas da imperatriz e disseram tudo o que a mulher queria ouvir. Ou não queria.
— Eu temia que sim — sua majestade, se levantou e moveu as pesadas roupas consigo. — Anastácia Strauss Volkov. Para você é uma infelicidade, realmente.
Permaneceu em silêncio, ouvindo. Todos no palácio estavam ouvindo. Até mesmo as paredes e a toalha de mesa. Deslizou o dedo pelo tecido, imaginando como seria ser derrubada no chão, com os braços atrás das costas e as ordens de prisão.
— Seus pais...
— Não falo com eles há anos. — respondeu rapidamente, engolindo a leve raiva que crescia em seu peito.
— Claro — a imperatriz assentiu — Claro, você não tem culpa. — ela parecia estar corrigindo a si mesma, balançando a cabeça levemente — Mas... não chegue... não tente... — ela bufou. A imperatriz bufou. — Por favor, não andem pelo palácio ou tentem chegar até o príncipe sozinhas.
— Sim, majestade — Ana fez mesura e esperou ser dispensada.
— Chamem um guarda — não pôde esconder o horror que percorreu seu rosto, aquelas palavras pareciam uma ameaça muito, muito bem escondida — para escoltá-la até o quarto. Ninguém caminha sozinho no palácio, senhorita, é pela nossa segurança.
Anastasiya cumprimentou-a de novo, mas não deixou de ouvir as entrelinhas da imperatriz. "Você não é bem vinda, não tente nada. Não se aproxime de meu filho. Não confiamos em você". E, é claro, os guardas estavam lá para a 'nossa' segurança. A segurança deles.
Em seu quarto, após ser quase carregada pelo guarda até lá, Ana tirou os sapatos com um chute e se jogou na cama. Se tivessem colocado uma adaga entre os colchões, teria sido seu fim, mas por sorte aquilo traria mais problemas para a família real que para ela. Assassinar a filha de criminosos políticos apenas porque não gostava dela. Aquilo seria motivo suficiente para os direitos humanos e os demais rebeldes, sorriu consigo mesma. Se tornar uma mártir era a forma mais fácil de ajudar àquela monarquia cair.
Mas Anastácia não tinha nenhuma relação com seus pais, nem com os sobrenomes que carregava. Ela tinha apenas oito anos quando eles foram presos e toda a fortuna da família foi dividida entre parentes muito distantes, que nunca mais deram sinal de vida. Toda a família que possuía eram seus avós, que a criaram, dentro dos bons e religiosos dogmas do império, para que nunca cometesse o erro de seus pais, de achar que as pessoas teriam capacidade de se governar.
Ela não faria nada contra Heid. Estava ali para competir por uma aliança, por um amor. Ana ergueu a cabeça assim que ouviu o clique na porta do quarto, parecia um animal assustado, mas apenas uma criada entrou. Era uma moça não muito mais jovem que ela. Longos cabelos louro-dourados, com cachos perfeitos batendo-lhe ao final das costas, pele dourada e olhos castanhos igualmente derretidos com mel. Era a imagem da beleza, na opinião de Anastácia, uma beleza raramente vista, provavelmente vinda de Italyca.
— Estou honrada em ser vossa criada pessoal pelo tempo em que participar da Seleção — ela se curvou, quase chegando ao chão. De joelhos. — Meu nome é Rowena, mas pode me chamar como desejar, milady.
Tão linda e tão humilhada. Que desventuras teria Rowena enfrentado para chegar até ali, sem olhar para cima, sobrepujada. Queria perguntar sobre sua história, conhecer sua família e descobrir seus sonhos, desejos, vontades mais secretas. Coisas que ela imaginava serem impossíveis de realizar. Mas apenas a encarou, ainda atirada sobre a cama e sentindo cada músculo de seu corpo doer.
— Eu a chamarei de Rowena. — foi a única resposta que deu. A criada assentiu e se levantou, parada a porta. Aguardando. — Pode se retirar, vou dormir.
Rowena assentiu novamente e saiu, fechando a porta suavemente.
Rolou de costas na cama, encarando o teto branco e liso. As paredes tinham cor de café com leite, as janelas eram igualmente brancas e as cortinas mal impediam as raios solares de entrarem no quarto. Toda a mobília era de madeira branca, pintada tão perfeitamente que poderia jurar ser a cor natural da peça. Todos os puxadores de armários, guarda-roupa e até mesmo a porta eram de metal ouro escuro, haviam poucas formas, tudo parecia liso demais. Sem qualquer luxo que se vira na entrada do palácio. Talvez por se tratar dos quartos dos convidados. Ana não se importou, ainda era melhor do que tinha na casa de seus avós.
O final de tarde e a noite lhe dariam tempo para dormir e pensar. Pensar muito. Tinha de decidir exatamente quais passos dar, se quisesse se aproximar do príncipe. Não podia chamar a atenção, mas tampouco ser ignorada completamente. Deveria agir como uma dama perfeita, aprender todos os códigos de conduta da corte e se unir a pessoas influenciáveis e influentes. A opção mais prática e mais perigosa seria Merizandre. Meriendre. Me… Ah, aquele nome era difícil demais. Tirou o pequeno pedaço de papel de dentro do sutiã e leu. Mizandre.
Bem, a selecionada franca era rica e nobre, podia dizer apenas pelo modo como olhava de cima para todas as demais meninas. Ela seria uma pouca amizade. Dificilmente a cativaria com seus modos tão… simplórios. Mas poderia mostrar lealdade e convencê-la de que era uma fã de sua perfeição. No entanto, perder essa confiança seria igualmente fácil. Mizandre seria um risco que não estava disposta a pagar.
Outra nobre dentro da Seleção… havia a menina que viera da Russya, também. Embora Kateryna fosse de Moscou e ela da parte romena da Russya. Havia muita diferença cultural, senão linguística, mas daria um jeito. Se adaptaria, como sempre.
Kateryna não era nobre, mas seu pai fora chamado de Barão desde os vinte anos, desde que nunca mais largou sua cadeira como ministro da Russya. Ele era importante, influente, e ela era sua filha perfeita, cercada dos maiores tutores e professores da Eurásia. Todos conheciam a fama de ser a nora perfeita para um filho da nobreza. Kat era uma opção muito viável, além de ter se mostrado igualmente distante e pouco interessada no palácio. Poderiam se dar bem.
Definitivamente Alisha de Hindu não era uma opção. Definitivamente.
Havia outras em sua lista, claro.
Sirena Patrizia era uma italyana, tinha sangue comum, mas ascendera com sua família. Conhecia o comércio dos di Duccio, sim. Ela também agira com maestria diante da família real. Nem mesmo um fôlego foi disperdiçado. Quieta, educada, minimamente gentil. Sirena era tão boa quanto Kateryna.
Definiu que seu primeiro passo seria se aproximar de Kateryna e depois de Sirena. Quando formasse um trio de amigas, talvez isso consolidasse a aparência que tinham para as demais e estariam seguras. O príncipe talvez visse o elo da amizade como um sinal de que podia se aproximar, de que não mordiam, e até mesmo poderia se sentir mais à vontade em conversar com as três. Se ao menos tivesse o controle de quanto tempo a viagem até o novo palácio tomaria, podia decidir quando abordar cada uma.
Aninhou a cabeça entre os cobertores e sentiu uma leve brisa entrar pela janela. Confortavelmente deitada.
Pensou em como seus avós estava, provavelmente ainda chovia em Bucareste, era a estação das chuvas. Estariam colocando baldes novos debaixo das goteiras e cobrindo as janelas com cobertas e toalhas contra os ventos fortes que entravam pelas frestas. Agora que estava fora, eles poderiam usar seu quarto para dormir, era o único cômodo da casa que não precisa de forro de madeira, pois tinha teto de cimento. Os avós sempre a trataram como a princesa que ela havia sido, quando ainda tinham a fortuna. Anastácia não gostava daquilo, mas aceitava, para que eles ficassem felizes. Assim como Klaus havia aceitado a escola militar, apenas para que o resto da família que ainda tinham pudesse ver seu fim em felicidade.
Enquanto os avós ainda estivessem vivos, eles fariam aquilo que enchia seus corações de fé num futuro diferente. Diferente daquele que os pais tomaram. Longe da prisão e da vergonha de seu sobrenome.
Era o que Ana também queria.
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