Notas iniciais
Boa leitura, meus queridos!

O Primeiro Ato

Naquela manhã, tudo já estava pronto. Quase uma semana após seu baile de aniversário, Heid iria eliminar garotas de sua Seleção. As fichas de inscrição junto das fotos das escolhidas estavam sobre sua cama e ele as observou mais uma vez antes de fechar o zíper da calça e colocar uma jaqueta sobre os ombros, pois fazia um leve frio após as chuvas do dia anterior. E sim, os carros esperavam no jardim para levá-las até o aeroporto, o jatinho estava abastecido com destino a Paris e todas as famílias já haviam sido comunicadas por Verônica. Agora só restava que ele fosse até lá e contasse a elas. E claro que essa era a pior parte.

Ele hesitou em deixar a sala de chá da família real.

— E lá vai ele para um grande passo — pela voz de seu pai rouca e fraca, Heid virou nos tornozelos e o ajudou a alcançar uma cadeira. Suas pernas pareciam enfraquecer a cada dia, a voz falhava assim que ele acordava e suas dores de cabeça deram espaço a longas horas de sono em que seu filho se prostrava ao seu lado, temendo que ele subitamente deixasse de respirar.

— Pai, você não deveria sair da cama.

O imperador fez um movimento que poderia dizer “tanto faz” ou “eu não ligo”, mas foi tão leve que Heid segurou seu pulso e tentou medir a pulsação. Não entendia disso, como Azra deveria entender, mas se pudesse se certificar de que tudo ia bem… Bem? Nada estava indo bem, nada nunca ia bem.

— Eu sabia que você precisava de apoio — ele disse, ainda com a voz rouca e grave — Meu filho.

— Estou certo, pai, sei quem devo manter e quem devo eliminar.

— Isso é bom — o imperador sorriu — E sabe quem deve me apresentar?

— Ainda não. — confessou.

— Ande logo, não sei se aguentarei até o seu casamento.

E aquilo foi um disparo à queima roupa que deixou Heid estático por tempo suficiente para que o pai o encarasse e sorrisse. Como podia falar de maneira tão banal sobre sua própria morte? Heid nunca mediu quanto tempo ainda restava a seu pai, mas compará-lo ao seu casamento parecia… muito curto. Um tempo muito curto.

— Ah, filho, isso não deve te atemorizar… Você está pronto. Eu sei disso. Rivero tem me contado sobre como cuida sozinho de tudo, sem pedir ajuda e tentando ser justo. Nem sempre podemos ser dignos ou honrados, certas escolhas sempre trarão consequências graves, mas é por isso que fomos criados para esse cargo. Coroa ou trono é só uma forma de nos pagar, desde que compram nossas vidas assim que nascemos e nos criam para sermos os responsáveis pelo sucesso. Eu fui criado para isso, igual a você, e o seu filho também será. Lembre-se, Heid, estamos neste palácio porque precisamos tomar essas decisões que ninguém mais tomaria.

— Pai…

— Você nunca soube meu nome — Heid não conseguiu esconder sua surpresa. Seus pais nunca falavam sobre seus nomes ou suas antigas identidades antes de se tornarem o Imperador e a Imperatriz. Era um assunto proibido, algo que ele não poderia entender até ter de abandonar seu próprio nome e vestir a identidade de Imperador. — Por isso minhas escolhas não se refletem em meus desejos egoístas, ou naquilo que penso que irá me beneficiar, pois o meu eu já não existe e sou apenas um instrumento para o bem, para a prosperidade. Um dia, nem você irá lembrar de seu nome, Heid, e neste dia tudo terá se completado em seu dever com o Império. Porque fomos criados para isso.

— Eu sei, eu entendo.

— Heid, como seu pai, eu o amo. Meu pai não me amava, pois ele era apenas um imperador. Mas por você eu abri um novo espaço em mim e me tornei também o seu pai. E por isso posso entender os pais do império e cuidar de suas crianças, assim como cuidei da minha.

— Sou grato por tudo — Heid murmurou, mas não conseguia parar de apertar as mãos do pai, enquanto ele falava com aquela voz rouca e a pele tão fria.

— Não quero que você deixe de ser quem é…

— Eu não irei.

— Isso é bom — o imperador sorriu e tocou sua face, de um modo que há anos não fazia. Heid não conseguiu segurar as lágrimas. Era como uma despedida. Ele sentia isso. — Estou orgulhoso de você.

E o silêncio de Heid preencheu todas as respostas que poderia dar. Ele queria seu pai ali, queria que continuasse a ser o imperador, sábio e perfeito para aquilo. Queria seu pai ali para continuar a ser o seu pai. Nunca, nunca imaginou que ele havia feito um sacrifício de egoísmo apenas para amá-lo. Não era o dever de um imperador amar. Mas ele sabia, sabia como nunca tivera tanta certeza na vida, que seus pais o haviam amado desde o primeiro dia até o seu último. Mesmo após o túmulo, ainda teria o amor deles.

— Há algo que quero que você saiba, mas precisa ser nosso segredo.

— Sim, pai, qualquer coisa. — ele assentiu — Eu farei.

— Menino tolo, não quero pedir nada a você — e então ele suspirou — Sempre pedem algo de você. O que quero é lhe dar um presente. É tudo o que eu posso te oferecer, tudo o que ainda restou para te oferecer. Você não imagina o quão pobre sou, então estou te dando tudo o que realmente tenho. — seu pai tocou o próprio peito e disse, com todas as palavras — Anthony Weatherbough Pazzlav. É quem eu sou. E agora é quem você também é — ele tocou o coração de Heid com a ponta dos dedos e fechou os olhos lacrimejosos. O nome de seu pai. Ele sabia o nome de seu pai. Era um crime, uma traição contra o Império. Mas era o maior ato de amor que Heid poderia receber.

— Pai…

— Não é um nome grandioso, mas minha mãe era muito britânica.

— Pai.

— Sim, Heid?

— Obrigado. — ele o abraçou, enfim — Muito obrigado. Obrigado.

— Não conte a sua mãe — o imperador brincou, mas estava tão comovido quanto seu filho. Era a primeira vez em anos que ele dizia seu próprio nome em voz alta.

— E ela? Qual o nome dela?

— Isso é algo que Viviane deveria dizer a você, não eu.

Heid gargalhou. Anthony e Viviane. Como poderia ser mais perfeito? Eram os melhores nomes do mundo. Ele podia ver ambos juntos, jovens e egoístas, vivendo e se amando. Quando ainda eram Anthony e Viviane.

— Agora vá, você precisa fazer isso.

O príncipe assentiu e se levantou, mas antes de deixar a sala, beijou a testa de seu pai e agradeceu novamente.

Ela quase saiu correndo para as escadas, no salão principal em que todas as selecionadas que ele iria mandar para suas casas aguardavam com rostos incertos e temerosos. Verônica o cumprimentou com um aceno, mas não retribuiu seu sorriso. É claro que não retribuiu, o que ele estava pensando ao ficar todo feliz diante daquela situação? Seu pai tivera as melhores intenções, sem dúvida, mas Heid não conseguia fingir tristeza quando seu coração parecia quase sair pela boca.

— Esse dia deveria chegar, em algum momento — ele limpou a garganta, esboçando um olhar frio — Não é fácil, nem para vocês e nem para mim. Mas certas atitudes não podem ser toleradas ou perdoadas. — as meninas se entreolharam mas continuaram atentas — Viemos para este palácio para esconder nossa localização dos rebeldes, todas vocês foram avisadas disso, mas todas também compartilharam fotos com amigos em suas redes sociais mostrando o palácio e até mesmo citando-o em certas publicações. Ontem uma revista colocou na capa a sua recente visita ao vilarejo de Mariyinsky, na companhia de meu primo. Sei que a intenção de nenhuma de vocês era essa, mas se a imprensa sabe onde estamos, então nossos inimigos também sabem. Não posso bloquear a conta pessoal de vocês, nem restringir os usos de suas redes sociais quando é o único modo de manter contato com suas famílias. Algumas se mostraram sensatas e por isso merecem a nossa confiança, mas vocês transgrediram a privacidade e segurança da família real e por isso não são dignas de nossa confiança.

Alguém começou a soluçar e ele percebeu que estava sendo frio demais. Verônica percebeu seu olhar desesperado e tomou a palavra para si.

— Em todos os meus anos com esta família, meus parentes nunca souberam onde eu estava ou quando poderia mandar notícias. Não me sinto mal por isso, desde que é o meu dever e fico feliz em servir ao império cuidando da residência de nossos governantes. Uma imperatriz deve reconhecer que seus motivos pessoais não podem influenciar na política ou ter consequências reais sobre nossa segurança. Eu concordo com príncipe Heid e desejo uma boa vida para todas.

— Suas malas já foram colocadas no voo que sairá daqui uma hora. — ele olhava para Verônica, tinha certeza que muitas estavam enfurecidas e o queriam fuzilar com os olhos. — Aproveitem esse tempo para se despedir de suas amigas.

Heid voltou para a sala de chá da família real, mas seu pai não estava mais lá. Para sua surpresa, quem se sentava em uma das poltronas era a imperatriz, e ela o aguardava com certa impaciência.

— Por que seu pai estava fora da cama? — ela ergueu uma sobrancelha que significava “você o tirou de seu descanso? Você sabe que ele precisa repousar, seu pai está doente! Que péssimo filho você é!”.

— Ele saiu por vontade própria — foi tudo o que conseguiu responder — Mas Anthony estava muito bem hoje, ele parecia mais animado que o normal.

A imperatriz piscou os longos cílios e abriu a boca, mas não soltou som. Ela estava em choque.

— Você também está muito linda hoje, Viviane, como um raio de sol — Heid se aproximou e beijou-a no rosto.

Viviane.

A mãe ergueu os olhos até ele e uma lágrima escorreu por sua bochecha direita.

Heid não estava preparado para ser forte igual a ela.

Não queria perder o seu nome.

Não queria ser o imperador.

Mas ficou feliz quando ela lembrou quem realmente era. Ficou feliz por Anthony e Viviane.

Verônica se retornava no carro sozinha, após levar as dezesseis eliminadas para o aeroporto. Elas choravam, riam nervosas, estavam sérias e às vezes diziam coisas duras sobre como foram tratadas naquelas duas semanas. A governanta, em todos os seus anos de serviço, nunca viu o jovem príncipe ser tão preciso em sua atuação, ele deveria ter ensaiado várias vezes em frente ao espelho, ou então descobrira aquela habilidade nata. De todo modo, ela se sentiu orgulhosa. Dezesseis não era um número alarmante, ainda havia muitas concorrentes. O motorista a observava pelo retrovisor, ele era muito estranho. Ela nunca gostou que a ficassem encarando, principalmente homens. Quando pararam em frente ao palácio, saiu sem se despedir e retornou ao palácio da maneira silenciosa que apenas mulheres hábeis em usar saltos conseguiam fazer. Mariyinsky a recebeu de braços abertos, como um lar.

Ainda se impressionava com o quanto Versalhes não fazia falta.

Os empregados limpavam alguns lustres e aspiravam os sofás usados pelos convidados do baile de aniversário, ela os havia mandado começarem a limpeza pelo segundo andar, no qual as garotas e a família real passavam a maior parte de seu tempo, agora eles haviam progredido para o primeiro andar. Logo estariam esfregando o chão e batendo as cortinas. Tudo se encontrava em paz, o abastecimento fora feito pela manhã e os guardas que retornavam a Versalhes tiveram o bom senso de arrumar os quartos disponibilizados para sua estadia. Agora tudo o que precisava era de um novo jardineiro e de um cantor para manter suas garotas entretidas. Ela pensava muito bem em todos os entretenimentos de Versalhes, mas desde que bobos-da-corte deixaram de ser tendência em 1700, ficava cada vez mais difícil ter ideias originais.

— Senhora Verônica — o chefe do estábulo a cumprimentou com um sorriso matutino — Bom dia para a senhora.

— Bom dia, Senhor Alan. O clima está perfeito para exercitar os cavalos de corrida.

— Sim — o homem assentiu — Odeth preparou uma torta de framboesa para os criados com o que sobrou das framboesas da estação, a senhora deveria ir buscar um pedaço.

— Obrigada, irei com certeza. — ela sorriu e se despediu do Sr. Alan.

Subiu as escadas e entrou na sala de chá das selecionadas. Desde que a sala de estar fora aberta, os números entre uma sala e outra eram bem divididos, aquelas que preferiam a privacidade e a calma ficavam na sala de chá, as que queriam rir e conversar iam para a sala de estar. Savyna e Azra fizeram o favor de manter todas à vontade, eles deveriam ser parte da criadagem, em sua opinião, mas temia que isso os ofendesse. Eram tão prestativos!

Assim que entrou, o leve murmúrio se interrompeu. Verônica causava aquele efeito sempre que aparecia, as meninas perdiam a voz, ou se assustavam. Aquela reação era seguida de colunas endireitadas, movimentos graciosos e práticas de leitura e bordado, o que as garotas deveriam achar que as fazia crescer em seu conceito. A governanta não admitiria que ela própria não sabia bordar, mas ficava muito feliz em ver o esforço que as pretendentes do jovem príncipe colocavam quando era preciso.

— Senhora Verônica — Sirena se aproximou, era uma das moças mais bem educadas da Seleção e Verônica gostava muito de conversar com ela sobre Italyca e a burguesia local. Tinha um ótimo cérebro, além de uma beleza angelical. Se fosse preciso indicar alguma futura imperatriz ideal, indicaria ela, com certeza. — Os primos do príncipe estiveram aqui há pouco e nos convidaram para ir até o Palácio Vorontsov, em Alupka.

— Vorontsov é uma ruína desde os tempos da Grande Guerra. — ela a lembrou.

— É uma viagem para explorar as ruínas. — a menina oscilou um pouco em continuar, mas claramente estava falando em nome de todas aquelas que queriam ir, por isso prosseguiu. — Vai ser divertido.

— Quem as chamou?

— Savyna Czarevitch — ela olhou de soslaio para uma outra selecionada, buscando auxílio — … e seu irmão.

— Vocês já saíram com Azra esta semana, seria inapropriado o fazerem novamente.

— Eu entendo, Sra. Verônica.

O desapontamento foi grande, a sala de repente ficou mais silenciosa e estática. As garotas realmente queriam ir para uma cidade fantasma explorar as ruínas de um palácio queimado? Verônica não conseguia entender como isso poderia ser divertido. As roupas iriam se sujar, teriam de caminhar por um longo trajeto e ficariam cansadas antes de encontrarem qualquer objeto “precioso” para sua aventura. Apenas Savyna e Azra podiam ter uma ideia tão estranha sobre diversão, e se surpreendia que Sirena concordasse com aquilo. Mas talvez ela estivesse sendo velha demais. Verônica lera a revista sobre o vilarejo e recebeu algumas cartas reclamando da estranha proximidade do primo do príncipe com as selecionadas. Era inapropriado, claro, mas Azra estava de férias do exército e ele sempre fora muito livre para ficar tanto tempo em um lugar só. Savyna… não se impressionava com a garota. Talvez…

— Com certeza não podem ir com o primo do príncipe, a não ser que o próprio príncipe vá junto.

Sirena ergueu as sobrancelhas, assustada com aquela sugestão.

— Mas príncipe Heid está ocupado com… várias coisas.

— Lamento, mas não permitirei que alimentem as críticas da imprensa. Vocês, mais do que qualquer outras, devem saber que esse tipo de comportamento levantará rumores.

— Sim, Sra. Verônica. — Sirena fez uma mesura e virou as costas.

Verônica se sentia mal por tê-las impedido de sair do palácio, ninguém se acostumava tão rápido à vida da família real, sempre presos pelas responsabilidades e segurança.

— A semana que vem seria um momento propício para voltarem a sugerir esse passeio.

As meninas assentiram com sorrisos leves e a governanta se permitiu tirar aquela culpa dos ombros. Se ao menos qualquer uma delas compreendesse um pouco mais sobre o mundo… Mas ninguém tinha o direito de tirar os sonhos que traziam no peito. Alguma ali seria uma imperatriz, no final, e era seu dever instruí-la no caminho certo. E Deus quisesse que fosse Sirena. Verônica nunca gostara de categorizar pessoas, ela já havia cuidado de ciganos demais para entender que nem todas as crianças deveriam ser repreendidas ou castigadas, mas duvidava que isso pudesse ser flexível para a família real. Afinal, eles não eram indivíduos, eram governantes.

— Senhora Verônica… — alguém a tirou de seus pensamentos, era a menina Surya de Hindu, que quase nunca falava, mas tinha um adorável sorriso. — Temo que precisarei de uma nova muda de roupa de cama.

— Alguma coisa aconteceu com a antiga? — a governanta a acompanhou em direção a seu quarto. Com o canto dos olhos podia ver a hindu se contorcendo de vergonha. Seja o que for, não poderia ser pior que colocar fogo no colchão, como Savyna fizera aos quatro anos.

— Foi apenas um acidente.

O quarto cheirava a sabonete e essência de banho, havia poças de água por todo o chão até as camas, ao fundo, e os cobertores, fronhas e lençóis foram amontoados dentro da banheira, cheia e com muitas bolhas. Verônica encarou Harumi Saito, esfregando o que parecia ser tinta ou vinho de uma almofada. Ao notar a visitante, a oriental se levantou e enfiou tudo de volta na banheira, um pouco estabanada. Um pouco de água respingou nos pés de Verônica.

— O que vocês aprontaram? — aquela pergunta saíra ríspida, mas no fundo ela ria, pois parecia-se muito com algo que o príncipe e seus primos arrumariam para se desfazer de um acidente. Surya entrou no banheiro e olhou, culpada, para a companheira de quarto.

— Eu estava dormindo e aconteceu. Só percebi depois de acordar.

Verônica ergueu os olhos, intrigada, mas então viu a camisola suja pendurada ao lado das toalhas e o que parecia ser uma calcinha. Se não fosse uma governanta e já estivesse acostumada àquele trabalho, teria corado. Abriu um sorriso calmo, pois nenhuma menina deveria ser castigada por aquele tipo de incidente.

— Não se preocupem, deixem tudo aí e chamarei os criados. Senhorita Saito, não se importe com isso. — ela fez um gesto enfático e a moça quase correu para fora do banheiro, grata por não ser culpada por tudo. Agora que as duas tinham resolvido “limpar” a bagunça de Srta. Surya, os criados teriam o dobro de trabalho. Mas Verônica não estava brava com elas, na verdade admirava muito aquele tipo de resolução, mesmo que desnecessária. Era algo que mostrava responsabilidade e iniciativa, o que uma imperatriz de fato precisava ter.

Após as eliminações, tudo o que queria era ver meninas responsáveis.

Verônica as mandou para a sala de chá e ordenou que criados fossem até o quarto, também orientou as demais selecionadas sobre aquela situação e sugeriu que, caso voltasse a acontecer, que fossem discretas e pedissem por uma criada para levar os lençóis sujos. O real problema era a mancha que ficaria no colchão, impossível de ser esfregada. Bem, a governanta imaginou que ninguém notaria se tudo fosse coberto de lençóis de novo, então não deu qualquer instrução quanto a isso para os servos, que acataram as suas ordens e se foram com eficiência.

Agora tudo o que queria era uma manhã tranquila, com incidentes não mais estressantes do que aquele. Ela havia julgado que se sairia bem mesmo com as garotas que fossem embora, mas após duas semanas convivendo, instruindo e repreendendo-as, não pôde negar que havia se afeiçoado a elas. Verônica olhou brevemente para as remanescentes da sala e parou os olhos por um curto tempo em uma, não Sirena ou Surya, nem outro bom partido como Kateryna. Algumas britânicas foram muito educadas e gentis, a própria imperatriz mãe do atual imperatriz fora uma britânica. E, no entanto, todas haviam partido por um erro infantil. A governanta se perguntava se era alguma ironia que a única daquele grupo que deveria realmente ir embora fosse a única que não possuísse um celular.

Se havia alguém que não possuía chances naquela Seleção, era Alisha de Hindu.

A grande Notre Dame erguia-se contra o sol frio do outono que abatera o centro de Paris. Os estudantes vestiam suéteres e camisas de mangas longas, com boinas e chapéus característicos francos. Em uma praça, Miguel tocava seu violino com um pouco de entusiasmo, embora o estojo do instrumento estivesse vazio. A dois bancos de distância, Amelie e Rebecca conversavam entre sussurros, fingindo que nada tinham em relação com o músico. E, conforme caminhava escondido pelo grupo de soldados enviados para cuidar da universidade por hoje, Henry ignorou completamente a existência de seus amigos. Sua patrulha ficaria no bloco de ciências exatas, próximo à praça de Miguel, longe de Rebecca e a dez minutos de Amelie. Qualquer ocorrência poderia soar, se uma delas fosse pega vendendo os entorpecentes antes do sinal do fim das aulas, mas, até agora, cinco meses se passaram sem que qualquer outro membro fosse pego pela polícia. Era um alívio, pois seu tempo livre diminuía a cada semana.

Os soldados seguiram a comandante Bragança, que despachou-os diante dos degraus do templo. Ela os viu se dispersarem e se recolheu para a instituição, onde tinha assuntos a tratar com o reitor. Seus conhecimentos acabavam aí, Henry não poderia dizer quando Paris seria invadida, mas tinha certeza de que não demoraria mais um verão. As árvores enfim estavam douradas, ele gostava daquela estação. Lembrava-o de casa.

— Renx, patrulhe a saída leste — ordenou seu superior e ele respondeu automaticamente.

Era fácil ser um soldado do palácio, desde que se lembrasse de responder “sim, senhor” e fosse obedecer ao que quer que lhe mandassem imediatamente. Parando para pensar, seu treinamento de oficial pouco era colocado em prática. Ele nunca precisou correr atrás de um ladrão, nem se colocar na frente de uma arma para proteger uma família inocente. Se soubesse disso, teria concordado com o plano anos mais cedo. Talvez até estivesse no exército, agora.

Era tudo mais questão de tempo, agora.

Paciência nunca foi sua palavra preferida, mas se aguentara vinte e dois anos para a rebelião, aguentaria mais alguns meses.

No alto de seus vinte e quatro anos, Harumi sabia que deveria ser uma adulta responsável

Notas finais
Capítulo incluindo momento família, um pouco sobre o dever dos imperadores para com o Império, a eliminação, um pouco de Verônica, um pouco de Surya e Harumi, e um pouco de rebeldes. O que acharam? A partir de agora, quero tomar um ritmo diferente de tempo, não seguirei a linha de narrar dia-a-dia das selecionadas, mas sim os momentos importantes para a história. Irei abrir um jogo, nos próximos três meses tudo ficará praticamente igual, depois tudo vai parecer desmoronar e no final eu não sei o que vou fazer. Em três meses, será inverno e talvez as coisas fiquem um pouco mais complicadas em Mariyinsky, na Russya. #O que vocês mais querem saber sobre a história? #Existe algum lado que gostariam de ver? #Vocês apoiam KatxAzra? #Acham que eu deveria colocar mais personagens secundários? Beijos da Lady!