Sangue de Mármore - Fanfic Interativa

30 Algo Que Não Deveria Ser Contado


Notas iniciais
Boa leitura a todas ♥

Algo Que Não Deveria Ser Contado

Ela acordou do pesadelo assim que a cabeça de seu pai terminava de rolar para os seus pés. Alisha jogou as cobertas no chão e correu até o banheiro, tendo tempo apenas para se ajoelhar e vomitar tudo o que havia devorado um pouco mais cedo. Ficou ali, dobrada, por quase meia hora, até que sua garganta estivesse em carne viva e ela sentisse que era difícil respirar. Seus cabelos se grudavam ao suor de seu rosto e a camisola se enrolou toda em suas panturrilhas. Apenas a luz da Lua iluminava o quarto, o suficiente para ver sua companheira adormecida nos próprios sonhos, completamente alheia. Melhor assim, desde que não a acordasse, tudo ficaria bem. Era o quinto pesadelo em uma semana, desde que… Desde que olhar para o príncipe se tornara insuportável.

A paciência nunca foi uma de suas aliadas e Alisha acreditava que aquela espera só definhava seu controle interior. O próprio espírito lhe dizia pelos sonhos que era preciso agir logo, ou ela enlouqueceria. Sabia disso. Quanto mais tempo tomava para se preparar, mais pessoas lá fora sofriam com as formas que o império era tratado, uma rebelião se inflamaria e iriam querer a cabeça do imperador da mesma forma que ele quis a de seu pai. Nesse momento, seria melhor apenas deixar que a maré o derrubasse e o matasse, mas onde estaria a vingança? Qual seria seu papel na queda do império? Não, era a escolha de um covarde fugir agora que já estava ali, com toda aquela comida e todo aquele conforto.

Em momento algum ela pensou que era tedioso passar as horas deitada na cama ou assistindo aos programas de fofocas da tv russa. Era adorável. Era incrível. Alisha amou cada segundo de tudo o que sentia, de seus dedos deslizando pela seda macia e fria, do aroma doce dos sais de banho e dos óleos hidratantes. Até mesmo as roupas não era horríveis, desde que se usasse apenas as partes debaixo (roupões de algodão, seda e tecidos tão macios e finos que ela se sentia uma senhora hindu. Talvez só faltasse um pouco de cor naqueles tecidos, mas facilmente poderia tingi-los. E a música! E a comida! E os servos! Os deuses eram testemunhas de que, se Alisha Mahara não odiasse as pessoas que viviam naquele lugar, ela estaria eternamente grata a eles por a permitirem sentir tantas coisas diferentes e boas que nunca havia imaginado.

A garota limpou sua boca na pia e olhou para o espelho. Alisha lhe devolveu o olhar. Pele parda, cabelos desgrenhados e pretos até os seios, olhos de coruja que pareciam extrair sua própria vida e toda a altura de uma mulher de pernas longas demais. Deixou seu reflexo para buscar ar na janela aberta. As cortinas brancas esvoaçavam do lado de fora, com a brisa e o orvalho da madrugada. Seria um momento mágico, se não se sentisse enjoada e sonolenta. Seus olhos pesavam apenas por tentar erguê-los para a luz da Lua, e ao erguê-los, ela captou o movimento de outra cortina, do outro lado da parede do palácio, além de muitos quartos, bem onde deveria ser o quarto de Savyna. E além do dela, era o quarto de Azra. E as três últimas janelas seriam da sala de estar. Se ao menos estivessem dormindo do outro lado daquele andar, então poderia escalar as gárgulas, ornamentos e estátuas da fachada do palácio e se enfiar na janela do quarto do príncipe. Mas se fosse querer tentar isso, ela precisaria dar a volta em toda a construção, pendurando-se por tempo demais para ser vista pelos guardas nos jardins e nos postos de vigilância. Sem contar as câmeras.

De repente as náuseas tomaram seu rosto e Alisha se dobrou para frente, recuando da janela e em direção a estante mais próxima. Sua mão deslizou no ar sem conseguir alcançar apoio e ela apenas se ajoelhou e cuspiu a bile que subia a garganta, agora que nada havia no estômago. Enquanto a hindu se contorcia e cuspia o ácido, a menina realocada para seu quarto se levantou e correu até ela, sem se importar com o frio da madrugada ou a luz fraca que revelava seu corpo nu através da camisola fina. Nada poderia tê-la deixado tão despreocupada a ponto de ignorar isso, a não ser uma pessoa passando mal bem do outro lado de seu quarto.

Os cabelos presos em tranças se desmancharam e voaram louros ao redor de seus ombros, uma imagem digna de ser pintada, de uma dama em choque correndo de um monstro. Ou de encontro a um monstro. Por era assim que Alisha a viu e se afastou.

— O que está acontecendo?

— Nada — sua voz saiu cortada e grossa, como uma lixa. Era exatamente assim que a garganta de Alisha parecia dentro de seu corpo, raspando e impelindo sangue para cima. O gosto da bile com o metálico faria qualquer um vomitar, se já não estivesse vomitando.

— Com certeza não é nada — a moça, nova no quarto e na vida de Alisha, tomou um abajur de cima da mesa de canto e o acendeu bem ao lado do corpo da hindu. A poça de tudo o que já havia jogado para fora se revelou a centímetros dos dedos do pé de Sirena, mas ela não recuou. — Você está vomitando os seus órgãos para fora.

— Não seja boba — queria ter dito, mas tudo que saiu pareceu mais um rosnado, nada amigável.

— Vou chamar Verônica.

E ela foi. Saiu correndo do quarto, ignorando pela segunda vez a prudência e a decência, caminhando pelo corredor com um guarda armado e a postos bem ao lado da porta da sala de chá, que não esboçou reação quando ela saiu. Sirena alcançou a última porta do único quarto individual e bateu fortemente com um punho, o que não era nada elegante, mas necessário para o momento. Silêncio.

— Senhora Verônica! — dessa vez chamou, mas ainda sentia medo de gritar. Era melhor não acordar as demais meninas, nem o palácio inteiro.

O guarda se moveu, começava a caminhar em sua direção. Sirena fechou a mão e bateu de novo na porta.

— Senhora Verônica! — agora realmente gritou.

O homem não entendia porquê uma selecionada abandonaria seu quarto no meio da noite, mas ao menos ela estava chamando a governanta, o que significava que tinha um problema urgente que não envolvia um ataque rebelde ou um assassinato, logo seu serviço não era necessário. A não ser que ela precisasse acordar a governanta antes. Sirena bufou em alto e bom som e agarrou a maçaneta, que estava trancada.

— Diabos…!

— Senhorita — o guarda a assustou — Com licença — ele a empurrou para o lado e fechou a própria mão em um punho, socando a madeira com tanta força que Sirena temeu pela dor que ele pudesse estar infringindo nos próprios dedos. Mas ele estava impassível, do modo que apenas os homens conseguiam ser, diante da dor. — Senhora Avorea, por favor acorde e se dirija ao corredor.

E a voz também era a de um homem, com certeza. Em poucos segundos a porta se abriu com uma governanta pouco desperta, mas muito assustada. Ela olhava para o guarda a espera de uma notícia devastadora, mas então percebeu a presença de Sirena e sua expressão se alterou para o choque.

— O que houve?

— A senhora precisa vir até nosso quarto, é urgente! — a italiana segurou a mão de sua governanta e a puxou para o corredor. Verônica amarrava seu roupão enquanto seguia Sirena, momentaneamente alheia às suas longas madeixas castanhas que batiam em seu quadril. Ela nunca deixava os cabelos soltos a não ser para dormir.

Assim que elas entraram, o som dos grunhidos de vômito de Alisha chegaram aos seus ouvidos e o cheiro da bile e do sangue também. Verônica acendeu as luzes e foi até o banheiro, onde se deparou com mais vômito no sanitário e uma pia suja de restos de comida. Alcançou uma toalha limpa e voltou para junto das garotas. Alisha agora apenas sentia as ânsias, nada mais saia de sua boca. Mesmo assim, Sirena segurou seus cabelos para trás e começou a sussurrar que estava tudo bem colocar para fora. Verônica primeiro limpou seu rosto e mandou-a cuspir tudo que estivesse em sua língua e no céu da boca, depois colocou a toalha sobre a poça de vômito e mediu a temperatura do corpo de Alisha com os dedos.

Ela ardia em febre.

Verônica orientou ao guarda que fosse chamar um dos enfermeiros da ala de saúde do palácio. Sirena se sentou ao lado da companheira de quarto e prendeu seus cabelos molhados de suor em um nó, enquanto assoprava sobre seu rosto. Agora Alisha se sentia delirante, todo o seu corpo estava coberto de uma camada oleosa de suor. E havia aquele sentimento de que algo muito errado aconteceria.

Surya não era boba. Ela podia parecer boba, mas não era. Quando Harumi se recusou a falar sobre o príncipe pela terceira vez, ela entendeu que algo havia acontecido. Já a havia perdoado pelo incidente do vestido, talvez o perdão tivesse vindo junto do esquecimento do porquê da briga, mas não deixou de olhar com suspeita para ela. Agora que eram rivais, definitivamente. Então, quando a amiga saiu do quarto para ir tomar o café da manhã, a hindu se sentou em frente a sua penteadeira e penteou os cabelos junto dos pensamentos borbulhantes.

“Ela está estranha desde o baile” foi assim que começou “algo aconteceu lá”. Se pudesse imaginar um cenário para Harumi ter feito algo com o príncipe seria… “isolado, com ninguém por perto, e de noite” desfez um nós em sua franja com rapidez “teria acontecido de repente, nenhum dos dois esperando”, aquilo teria sido horrível, pois significaria que ambos haviam sentido algo. E Surya queria que ela sentisse algo. “Haru não esconderia nada de mim, esconderia?”

Mas Surya sabia que não podia criar ilusões para uma amizade de duas semanas. Ela estaria esperando demais de alguém que nem conhecia direito.

A escova parou na metade do comprimento de seu cabelo, ela olhava para seu reflexo, mas sem realmente se ver. A mente muito distante. Uma sensação de desalento se espalhou a partir de seu peito para os braços e a barriga, era como gelo e lhe causou arrepios. Então seu coração se abriu para o espelho e ela viu que ali dentro não havia nada. E se sentiu sozinha. Sentiu-se em qualquer lugar, menos no palácio. Aquele era o segundo pior lugar do mundo, depois de sua casa.

Lembrou-se do ministro hindu, do que ele havia dito durante o baile. Ela não estava sozinha ali, pessoas contavam com ela. Hindu a estava apoiando, pois era sua filha. Dezesseis selecionadas foram eliminadas, mas não estava entre elas. Isso deveria significar que havia passado pela primeira fase? Sim, significava. Não havia nenhum lugar que quisesse estar mais do que ali. Mesmo sendo horrível e mesmo sem ninguém.

No final, as coisas sempre foram solitárias.

E Surya sempre passou assim.

Foi o destino, ou pura sorte, que a encontrou assim que saiu para o jardim. Ela cheirava a uma flor, com o chapéu escondendo seu rosto e a mão suspensa no ar, para dar equilíbrio. Azra podia dizer que era ela apenas por ver suas costas, sem dizer que havia algo hipnotizante sobre a largura de seus ombros que o deixava fascinado. Seguindo o conselho de Savyna, ele passou três dias sem ver Kateryna. Fora uma batalha travada com dor e angústia, mas no final venceu e sua irmã lhe permitiu vê-la por cinco horas. Se fosse o necessário para afastar os rumores de dentro do palácio, então ele faria isso. Desde que haviam se mudado, o imperador suspendera a presença dos ministros e comandantes, mas agora que o príncipe tomava suas decisões de Mariyinsky, mais e mais hóspedes chegavam para morar ali. E Azra detestava trombar com eles pelo caminho.

Mas talvez Kat também não gostasse deles e por isso estava ali do lado de fora, então de alguma forma precisava agradecê-los. Aproximou-se dela lentamente, tomando em cada passo toda a calma do mundo para admirá-la de longe. E quando já estava bem a suas costas, pigarreou.

— Oh — ela se virou, erguendo a cabeça e o chapéu para vê-lo. — É você.

Não parecia muito surpresa.

— Sou eu.

— Boa tarde.

— Espere! Vamos caminhar juntos.

— Por quê?

— Somos amigos e nos encontramos no jardim, há momento mais oportuno que este?

Kateryna olhou ao redor.

— Suspeito que não.

— Então vamos? — ele lhe ofereceu o braço.

A russa demorou um pouco, indecisa, mas acabou por segurá-lo. Uma caminhada com a bela dona de seu coração, poderia haver hora mais ideal para se sentir feliz? Azra abriu um sorriso. Mas Kateryna não se sentia tão comovida quanto ele.

O primo do príncipe realmente ficara um pouco mais afastado nos últimos dias, mas parecia tão convencido de que ela queria sua companhia quanto antes. Kateryna não era uma tola. Outros homens já a haviam cortejado e ela podia dizer pelo modo que Azra a olhava que ele estava pensando que se apaixonara por ela. Mas ela mesma duvidava muito da profundidade desses sentimentos, no máximo ele a achava mais bonita que a maioria. Afinal, nunca haviam se conhecido de fato. Kat tinha certeza de que em poucas semanas ele seria mais um dos que haviam ficado para trás, culpando-a por não ter correspondido a suas investidas quando ainda estavam fascinados.

Uma hora todos percebem.

— Como tem estado?

— Bem. E o senhor?

— Ocupado com alguns pedidos tolos de meus irmãos. Em breve as levarei para uma antiga cidade-capital de Ucranya, espero que você vá, Kat.

— Temo que eu não me sinta muito bem ao ar livre — era uma mentira, mas de que outra forma poderia dizer a ele que não queria participar de suas cantadas?

— Mesmo vivendo tantos dias no mesmo lugar?

— O palácio é grande — foi sua melhor resposta.

Kateryna recebera uma carta de seu pai na última quinta-feira. Fazia quase uma semana desde o baile do príncipe e de sua conversa. Algo mudara em relação a tudo. Na manhã seguinte, ela apenas sabia que deveria evitar tudo o que a distraísse de seu caminho, de seu objetivo. Nem mesmo o príncipe lhe importava agora, ela apenas devia saber tudo o que se passava dentro das paredes da sala de reuniões e tudo o que saía da boca dos ministros recém-chegados. Ela os recebeu, cumprimentou os conhecidos (praticamente todos) e perguntou sobre suas famílias, passara quase a manhã inteira com a esposa do Primeiro Ministro de Franca e havia descoberto várias opiniões ameaçadoras, eventos suspeitos e nomes de batizado que respeitavam as honrarias aos traidores da pátria. Ela nunca imaginou o quão cheio de inimigos um palácio podia ser, mas ninguém realmente venerava o príncipe ou o imperador. E isso foi o que mais a surpreendeu. Pois, afinal, ela mesma havia sido tão cega a ponto de se deixar levar pelo senso comum que esquecera de se questionar se era de fato o melhor para o império. E por que deveria ser o melhor para o império? Insular nunca fez nada por Russya. Iberya apenas sugava todos os recursos que deveriam ser distribuídos igualmente. Se tudo o que fosse produzido continuasse em seu país, ela teria nascido no país mais rico e desenvolvido da Eurásia.

Se havia sido tão tola a ponto de ignorar esse simples fato, o que mais seu pai, formado em ciências políticas, poderia saber que ela nem fazia ideia? O que sua mãe diria, tendo sido uma das mais jovens professora de filosofia da Universidade Imperial de Petersburgo? Kateryna não merecia os pais que tinha, não fazia jus ao nome de sua família. O que mais passou-lhe despercebido, o que podia significar a vida ou a morte? Será que Azra sabia de algo que ela sequer sonhava? Será que Raffel era um dos aliados confiáveis ou um dos inimigos a se manter próximo? Ela não se espantaria que o próprio ministro tivesse ordenado que seu filho a seduzisse para conseguir informações ou alguma influência sobre seu pai.

Aquela era a guerra de que o pai falara no baile.

E estavam sempre inseguros.

— Sobre o que você está pensando? — ele perguntou, a olhava com um sorriso.

— O inverno está chegando mais rápido que o normal.

— Ah, sim — Azra olhou para o céu, que ainda estava muito azul — Eu nunca vi o inverno da Russya. É assim tão ruim?

— Eu morei em Petersburgo — ela o lembrou, como se não fosse óbvio que Ucranya e Russya eram países diferentes que formavam todo o território russo. Havia pelo menos dois mil quilômetros entre Mariyinsky e sua casa. — Era raro não nevar um dia no ano.

Ele fez uma expressão espantada, mas não parecia muito interessado nisso. Assuntos sobre o clima não eram a fascinação de homens como Azra. Era “papo de mulher”.

Eles pararam a caminhada após dar uma volta completa ao redor do palácio.

— Foi uma caminhada revigorante, senhor Czarevitch.

Azra se inclinou, com uma mesura.

— O prazer foi todo meu, Kat.

Ela não duvidava que fora.

Azra a viu subir as escadas e desaparecer para dentro do salão, ele não a queria deixar ir, mas o que diria para fazê-la parar? Ficaram a caminhada toda em silêncio, quase cinco minutos apenas olhando para o nada, esperando que alguma coisa caísse do céu e a fizesse falar. Estava decepcionado com aquele tempo desperdiçado, após três dias…! Não havia saciado em nada sua vontade de ficar com ela. Uma vontade sufocante e que não se acalmava quando estava ao seu lado.

Ele se perguntava se as outras pessoas apaixonadas se sentiam assim sempre. Obviamente já havia namorado outras mulheres, mas nenhuma parecia tão séria quanto Kateryna. E nenhuma o deixava excitado apenas pelo prazer de sua companhia. Sempre havia algo a que desejar. Mas ele não desejava em Kat. Esse era o amor real, não? Era isso que ele deveria buscar com a mulher que fosse viver o resto de sua vida. Não uma atração física, mas espiritual.

Pegou-se caminhando novamente, do ponto que havia parado. O palácio era largo o bastante para render alguns passos, quando se queria pensar, e ele logo se viu do outro lado, diante da piscina. Alguns bancos pareciam solitários e havia roseiras bravas subindo desordenadamente por seus pés. Resolveu caminhar naquela direção. A natureza sempre lhe chamava, quando estava confuso. Era assim no acampamento do exército e era assim ali no palácio. As árvores pareciam ouvintes pacientes, mesmo quando não dizia as palavras em voz alta, e os pássaros podiam lhe confortar com um simples pio. Se parasse para respirar fundo, o ar preenchia o seu silêncio e ele descansava a cabeça em uma pedra e adormecia.

Não era raro acordar com um formigueiro passeando sobre seu corpo ou com os morcegos de noite. Seus companheiros diziam que ele era um bicho do mato. Azra gostava de pensar que era cigano. Para o resto do mundo, podia significar a mesma coisa. Talvez até ele acreditasse um pouco nisso.

O céu, antes azul, começava a escurecer, entrando no seu crepúsculo rosa, laranja e por fim roxo, caindo na escuridão dispersada apenas pela luz da lua e das estrelas. Era o seu momento do dia preferido, Azra sempre se achou uma pessoa noturna, mas a única inspiração que os astros lhe causavam era quando pareciam borrados em uma tela de aquarelas. Ele sempre pensou no crepúsculo dessa forma. E foi quando seu coração parou uma segunda vez.

Como se Deus não estivesse satisfeito por fazê-lo de bobo por Kateryna, ele encontrou a mulher de sua vida de novo, de uma forma completamente diferente e assustadora. Ele poderia enfiar uma flecha no próprio peito antes de dizer que aquilo era romântico. Na verdade, era aterrador.

— Oh, meu Deus — ela graniu, exatamente, como um pato, e se afastou com passos atrapalhados — Meu Deus do céu.

O coração de Azra voltou a bater, dessa vez levando-o a se curvar até a grama, rindo tanto que seus pulmões doíam. Ela era uma selecionada, sem sombra de dúvida, e não era uma selecionada qualquer. Que tipo de garota usava as roupas de baile para montar um balanço nas árvores do jardim? De pé sobre a bolsa de tecido, ela o encarava. Estivera se balançando, mas agora seu rosto mostrava o quanto ela queria desaparecer completamente. Bochechas muito vermelhas, mais vermelhas que o tom bronzeado e as sardas causadas pelo sol. Os cabelos, que deveriam estar presos, se armavam rebeldes e voavam para todos os lados. Ela era a própria imagem da deselegância e da falta de vergonha.

E ele nunca viu algo mais bizarro na vida.

Nem quando Savyna engoliu uma barata africana somente para provar que era gostoso.

A menina caiu, seu pé ainda preso no balanço, as costas erguidas e a nuca explodindo de dor. Os sentidos de Azra retornaram imediatamente e ele se ajoelhou para esguê-la. Havia uma bola enorme se formando no local entre seus cabelos e a orelha esquerda, mas ela não gritou de dor e nem chorou. Ela estava de olhos muito fechados, murmurando para que fosse embora e a deixasse ali. Mesmo depois de vê-a despencar de um metro de altura. Azra a levantou e tirou as folhas que se enroscavam em suas madeixas crespas.

— Você está bem?

— Sim, obrigada, pode ir — ela fez um gesto com a mão.

— Vai precisar de gelo nesse galo.

— Vou pegar, pode ir.

— O que foi?

A garota mordeu os lábios e então, para sua surpresa, acertou um soco em seu ombro e abriu os olhos grandes como os de coruja. E ele se lembrou, e não conseguiu conter a segunda dose de gargalhas que faziam seu peito explodir.

— É você!

— Eu vou embora — ela se levantou, mas ele a segurou pelo pulso e cambaleou para a frente, contendo o riso.

— Eliane?

— Eleonora — a garota o corrigiu, mas logo abriu um leve sorriso que significava que não estava levando aquilo tão a sério.

— Eu imaginei quando a encontraria de novo, com certeza em situações mais agradáveis — e então lançou um olhar curioso para o balanço de saias e calças sociais. — Sua criada sabe disso?

— Pensei que as roupas eram minhas, de qualquer forma.

Azra apenas riu.

— O que foi? — ela agora o encarava com um ar de desconfiança — Você parece triste.

— Eu pareço?

— Está olhando para o nada e sorrindo dessa forma que bobos apaixonados fazem.

— Ah, não devo ser uma pessoa discreta, então — ele assentiu — Você vai voltar para o palácio?

Eleonora ergueu as sobrancelhas e o analisou minuciosamente, pesando o que aquela pergunta poderia significar. Ele queria sua companhia para desabafar? Queria levá-la para o palácio em segurança? Ou fora apenas uma forma de fugir do tema?

— Vou ficar.

Ela era teimosa demais para deixá-lo fugir.

— Devemos ficar juntos, então.

Ela sabia que era impossível Azra estar bobamente apaixonado por ela, mas não deixou de desejar isso, enquanto ele a olhava como o único foco de sua atenção e tudo que importasse fosse ficarem juntos. Eleonora abriu um sorriso breve, tão robótico que teria dado uns tapas em si mesma se não fosse preciso ser uma mentirosa. Ela detestava fingir reações.

— Eu aceito a sua companhia, mas apenas se me contar quem é que rouba os seus pensamentos quando está na presença de uma jovem tão irresistível quanto eu.

— A senhorita faz um julgamento muito alto de si mesma.

Nora abriu a boca numa exclamação muda, e quase o acertou com outro soco no ombro, mas Azra foi mais rápido. Ela voltou para seu balanço e se sentou, como uma perfeita dama de jeans e camiseta do rock ‘n Berlin. O primo do príncipe se encostou na árvore em que amarrara as roupas e cruzou os braços, com um sorriso brilhando no canto dos lábios. Estava visivelmente fazendo uma piada dela em sua mente. Algo que ela jamais descobriria o que era.

— Agora que já cansou de depreciar a minha beleza, pode começar a desembuchar.

— Jamais imaginei que seria uma curiosa, dona Nora.

— Você não me dá escolha.

Azra riu e suspirou, desistindo.

— Estou apaixonado por Kateryna Petrov.

— Ah, ela — Eleonora revirou os olhos — Mais óbvio impossível, você sabe que todo mundo já sabe, não?

— Estou cada vez mais convencido de que minhas habilidades de ser sorrateiro se deterioraram quando deixei o Exército. — ele piscou, galanteador — Agora me conte alguma coisa sobre você que não deveria contar a ninguém.

— Não sou tão fácil, assim — ela revirou os olhos, mas estava um pouco divertida.

— Isso é injusto.

— Eu disse que todo mundo já sabia das suas intenções com Petrov, então, tecnicamente, você não me contou nenhuma novidade. É totalmente justo.

— Recuso-me a te dar o crédito de ter razão.

— Uma pena, homens que admitem a derrota são sempre mais charmosos.

Azra a encarou, incomodado.

— Você tem uma mente muito afiada.

— É o meu maior orgulho. — Eleonora piscou, desta vez ela sendo a galanteadora — Depois de ser uma jovem de companhia irresistível.

— E ela não perde uma oportunidade.

Eleonora poderia continuar com aquilo o resto da noite, mas teriam de perder o jantar e aquela cama deliciosa do segundo andar com lençóis de seda e travesseiros de penas de ganso, o que ela não estava disposta a fazer nem pelo Príncipe do Império.

— Já que você é covarde demais para começar, eu irei. — ela fez silêncio, com um suspense crescente — Já roubei um banco.

— Você o quê? — de olhos muito abertos e com o queixo caído, o primo do príncipe a encarava com descrença — Não, é mentira.

— Bem, veja como quiser. Eu já te contei que estive em orfanatos a vida inteira, então é fácil ver que eu sempre tive como fugir, motivos para cometer crimes e um lugar para onde voltar sem que qualquer um suspeitasse de uma pobre órfã.

— Você tem um ponto indubitável.

— Como sempre.

— Bem, senhorita Nora, não tenho nenhuma história sobre crimes para contar, nada que não comprometa a integridade jurídica de outras pessoas, ao menos.

— Não seremos antiéticos — ela assentiu, mas sorria. O humor de ambos combinava muito bem.

— Já menti sobre ter caxumba para não ir a uma expedição mortal até a Áfrika.

Eleonora ergueu as sobrancelhas com profunda admiração.

— Mentiu para o Exército? Para o Imperador?

— Foi mais para o Comandante dos Socorristas, mas tem quase o mesmo efeito, suponho. — como ela apenas o encarou com ainda mais admiração, Azra mudou o pé de apoio e se sentiu envergonhado pelo que havia dito. Não era algo a revelar com orgulho. Na verdade, ninguém precisava saber. — Eu sei o que você está pensando…

— Isso é traição! — Eleonora murmurou, abaixando a voz confidencialmente — Você não podia fazer isso!

— Era o meu primeiro mês, eu não queria morrer no meu primeiro mês.

— Você se recusou a ajudar, recusou sua posição. E você nem é um soldado. Nossa. — ela piscou, tão aturdida que ele próprio queria morrer asfixiado pelas mãos que balançavam desajeitadas ao lado do corpo — É um nível completamente diferente de covardia.

— Muito obrigado, senhora ladra de bancos.

— Tudo bem, eu posso não ter muito crédito, mas eu tinha fome. Você tinha medo de morrer.

— Nós dois tínhamos medos mortais, e a fome é um medo que leva a morte.

— Você não precisa se desculpar comigo, eu acho isso incrível — ela sorriu — É a primeira vez que vejo um oficial falando com toda a certeza que cometeu uma traição. Não te dá um frio na barriga? Você não sente que deveria fazer isso mais vezes? Afinal, é injusto que você tenha de dar a sua vida por um império que nem sempre dá a si mesmo para você, sem contar as outras pessoas, algumas são estupradores e pedófilos, você não deveria dar sua vida por eles.

— O quê? — agora era Azra quem se sentia perturbadoramente confuso. Ela o estava condenando ao inferno ou o condecorando com o título do melhor traidor e covarde do Império?

— Não precisava me contar isso.

— Eu sei.

— Não pode confiar em mim. A gente não se conhece.

— Eu sei.

Eleonora bufou, abafando uma gargalhada, e então deixou seu balanço. Estava bem mais escuro agora. Logo o jantar seria servido, então ela precisava voltar para o palácio e trocar suas roupas de Eleonora para as roupas de Srta. Astried.

— Vou levar seu segredo para a cova.

— E eu, o mesmo.

— Obrigada pela confiança.

— Obrigado por me chamar de covarde.

— Ora, Azra — ela deu aquele olhar que dizia “você é realmente tão bobo a ponto de estar chateado com isso? Ah, não importa, eu acho uma gracinha” e cruzou os braços, do modo como Savie também fazia para lhe dar uma bronca — Assim como aqueles que assumem a derrota, os covardes são os machos mais charmosos.

— Estou começando a achar que essas suas opiniões são provenientes de uma personalidade sádica e possessiva.

— Dominante — a garota fez um movimento displicente com a mão e deu-lhe as costas — As minhas opiniões só refletem o meu sonho de vida de transformar o mundo em um lugar para mulheres.

— O mundo é assim tão separatista?

— O erro do mundo, — e podemos incluir quatro guerras mundiais que quase nos destruíram, — sempre foi manter os homens no poder e as mulheres dentro de casa.

— Viva a revolução!

— Homens como você só me dão esperança de um futuro melhor, Azie.

— Viva Nora, para presidente.

Passos a frente, ela se virou e gargalhou.

— Duas traições numa noite, lembre-me de não convidá-lo para a minha chapa.

— Você não seria nada sem um rostinho bonito para arrecadar votos de fêmeas.

— Por mais irritante que seja — ela olhou para o céu, para a lua, e então repudiou o quanto aquilo era uma verdade amarga — Suspeito que precise seguir esse conselho. Mas duvido muito que o seu seja o rostinho de que preciso.

E o deixou antes que pudesse retrucar, pois ela precisava dar a última resposta.

Após trocar de quarto para que nenhum incidente envolvendo uma boa noite de sono e o sonambulismo de sua antiga colega de quarto acontecesse, Sirena não esperava acordar de madrugada tomada pelo desespero

Notas finais
A atriz de Sirena é Hailee Steinfield e, como a leitora que a fez não está mais participando da fanfic, eu a tornei minha NPC. #Vocês apoiam AZNORA? #Alguma suspeita sobre as condições de Alisha? #Surya deveria se preocupar tanto com Haru? #Estão ansiosas para o passeio até o castelo abandonado? #Estão sentindo falta do Heid? Espero que conversem comigo ♥ Beijos da Lady