Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
17 Manhã de Alisha
Notas iniciais
Manhã de Alisha
Acordou com um salto, feito um gato que tomava um banho de água fria. Ao redor, muita luz e azul. Seus dedos tocavam confortáveis lençóis brancos e o pescoço doía de ter usado aqueles travesseiros macios demais. Seu corpo não estava acostumado àquilo. Ainda tinha muitos problemas com tudo o que estava acontecendo ao seu redor. As roupas eram sufocantes, a comida era muito temperada, ou melhor, a comida era muita. Tanta que não conseguia conter a vontade de repetir e repetir até acreditar que iria explodir ou sair da mesa rolando. Provavelmente seu corpo já sentia as consequências daqueles três dias em contato com a realeza: sua pele perdera a textura áspera e os banhos frequentes lhe deram um aspecto “limpo”. Os cabelos tinham mais brilho e até a tez não parecia tão colada aos ossos. Em três dias. Imagine uma vida inteira regada por aqueles luxos.
Despertou, é claro, assim que percebeu biologicamente que havia amanhecido. A luz que entrava pelas janelas era cegante, mas agradável, abraçando seu corpo ainda sonolento. Espreguiçou-se e rolou para fora, para colocar as pantufas felpudas e o roupão com as suas iniciais bordadas em dourado. Tantos mimos que ela até podia começar a pensar em perdoar o imperador. Só pensar, mesmo.
Sua companheira de quarto ronronava docemente, com os cabelos ruivos jogados sobre o travesseiro e um braço branco leitoso estendido por cima dos cobertores azuis. A menina não ficara dentro do quarto quando chegaram, também demorou a se recolher para dormir. Alisha não tivera a oportunidade de conversar com ela, mesmo para perguntar se havia alguma regra dentro do quarto, alguma trégua para ser respeitada. Não queria acordá-la de seu sono tão doce, então caminhou o mais levemente possível até o banheiro, para aliviar a bexiga e lavar o rosto. O relógio na mesa de canto indicava seis horas da manhã, ainda tinha três horas até as lições de dança, então aproveitaria para se exercitar e descobrir mais sobre o ambiente em que estaria morando pelos próximos tempos.
Quando já estava com as roupas comuns que trouxera consigo, saiu para a sala de chá. Estava vazia e silenciosa, com espaço suficiente para ser usada. Alisha primeiro estalou as costas e então os braços. Colocou a perna sobre uma das mesas de madeira e abaixou o tronco até o joelho, esticando toda a lombar e peito do lado esquerdo. Fez o mesmo no lado direito e então começou os agachamentos. Em vinte minutos havia terminado as sessões para aquecer o corpo. Normalmente fazia aquilo antes de sair de seu apartamento atrás de comida e o que mais conseguisse roubar no mercado sem ser vista. Mesmo com um lugar apenas seu, continuou ajudando todos os sobreviventes desabrigados que resistiam naquele barracão, vivos graças a ela.
Agora pensou neles e na responsabilidade que deixara nas mãos de Ozea. Ele jurara cuidar e proteger de todos os rebeldes enquanto ela estivesse em sua missão suicida. Era um bom amigo e companheiro de briga, mas um péssimo ladrão. Temia que ele fosse preso no primeiro dia de furtos e colocasse todos na cadeia antes do dia terminar. Não, isso não aconteceria. O mundo não era apenas ruim. Haviam altos e baixos, tudo para que equivalesse no final.
Balançou a cabeça e tirou aqueles pensamentos de si. Tinha de concentrar em outras coisas agora, já tinha tomado as decisões, não adiantava lamentar. O corpo, desperto, estava analisando a sala, todos os seus locais perfeitos para se esconder atrás de estofados e vasos grandes demais, e todas as saídas de emergência, que se resumiam à porta dos quartos, a porta que dava para as escadas e, em último caso, as janelas. Uma parede inteira com janelas grandes. Parou em frente a uma e abriu-a, olhando para baixo. O telhado era baixo demais, tudo o que havia além do vidro eram arabescos e gesso, inconsistente demais para se segurar. Poderia arriscar um salto dali, mas nunca pulara de tão alto. Apenas em última escolha.
Voltou para dentro, a sala ainda era um lugar apenas seu, vazia e sem vida. Começou a olhar para os livros nas prateleiras, eram escritos no idioma comum, mas mesmo com essa colher de chá Alisha não podia lê-los. A mentira sobre sua certidão de nascimento caíra em, todos sabiam que a burocracia local era tão ruim quanto a burocracia estatal e a imperial. Mas na verdade ela nunca fora registrada, todo documento que tinha se resumia a uma carteirinha de comprovação de vacinas gratuitas, ofertadas pelo governo. Isso tinha lhe garantido muito, como entrar na Seleção, mas não validava matrículas em escolas ou atendimento em hospitais. Alisha gostaria de saber ler, parecia algo tão simples e ela parecia tão burra por não saber fazer sozinha…
— Bom dia — parou a mão na lombada de um volume, alguém se aproximou e ela nem percebeu. Quanta desatenção.
— Bom dia — respondeu à garota, ela se vestia com calça e camiseta, mas não tão medíocres quanto as roupas de Alisha.
— Que bom que não sou a única que levanto cedo — a menina esticou um braço por cima da cabeça e se alongou — Você sabe se eles servem o café da manhã se pedirmos?
— Não sei — Alisha piscou, aquela era uma ideia que nem chegou a cogitar. De repente notou o vazio dentro do estômago. Estava acostumada a não comer de manhã, mas aqueles dias de mordomias lhe estavam tirando nos eixos. — Podemos chamar eles?
— Tem esse sino aqui — a garota caminhou até a parede e puxou uma corda grossa trançada e com um nó do tamanho de um punho em sua ponta. Nada aconteceu quando o fez, mas ela se afastou e se sentou em uma poltrona de frente para as prateleiras de livros. Sozinhas na sala de chá, em silêncio.
Alisha voltou a olhar os livros, sem saber se parecia suspeita para a estranha. Queria voltar para o quarto e começar um mapa para demarcar todos os territórios que reconhecesse dentro do palácio, mas isso sim a faria parecer suspeita, se simplesmente fugisse dali. A menina fazia abdominais sobre a poltrona, com a cabeça para baixo e as pernas para cima. Ignorando completamente o olhar de Alisha. Passado algum tempo, a porta dupla da sala de chá se abriu e uma criada colocou a cabeça para dentro, olhando-as.
— Chamaram? — ela perguntou, seu sotaque muito evidente.
— Ah, sim — a garota parou os exercícios e se virou no assento, hábil. — Você pode nos trazer biscoitos e café?
A criada assentiu e se retirou.
— Parece que podemos pedir café da manhã — ela comentou, sorrindo para Alisha, que devolveu com um sorriso amarelo. — Nossa, que esquecida. Eu sou Belle, da Arabyca.
— Alisha, de Hindu — respondeu com um tom respeitoso.
— Por que está acordada, Alisha?
— Costume. — deu de ombros — Acordo sem perceber e também faço exercícios para começar o dia.
— Que coincidência — a menina riu — Estou indo para fora, para correr. Quer me acompanhar?
Poderia. Ela poderia fazer aquilo, apenas concordar e esquecer os seus planos por algumas horas. Belle tinha músculos definidos e parecia saber como se fortalecer, talvez ela ensinasse alguns truques. Mas… não conseguia.
— Eu não gosto de correr — mentiu, como fazia bem — Nem de insetos.
— Ah, tudo bem — a arabyca murmurou e voltou a se alongar e aquecer.
Passado alguns minutos, a criada voltou com um carrinho prateado coberto de pratos de biscoitos, pão, geléia e jarros de leite, café e água. Ela colocou a comida perto da mesa em que elas estavam próximas e começou a servir, pacientemente, até que o móvel estivesse cheio com o café da manhã. Ela se afastou e saiu com o carrinho atrás de si. Belle se inclinou e pegou uma fatia de pão com geléia e um copo de café, quase cheio. Alisha a observou comer antes de se aproximar e também pegar para si um biscoito. Era adocicado e tinha gosto de canela.
— Estou indo, se a governanta perguntar, diga que estou na estrada perto do aeroporto — Belle fez um positivo com o dedo e saiu.
Alisha comeu mais cinco biscoitos antes de servir um copo de leite e ligar a televisão. Raramente ela assistira a televisão. Ninguém que conhecia tinha uma e mesmo quando colocavam as TVs em praça pública durante o Jornal Nacional, não sentia vontade de assistir. Ver o rosto do imperador e de seu filho só a enfurecia ainda mais. E tantas pessoas com vidas iguais a dela se amontoavam para vê-los!
Engoliu o resto do leite e se levantou, decidida a descobrir onde estavam os aposentos da família real e qual a forma mais fácil de chegar até eles sem ser vista. Deixou a sala de chá e se aventurou em um corredor próximo da porta de que havia saído. Ele era curto, com apenas mais três portas. Nenhum som vinha de trás delas, nem mesmo roncos. Tentou outro corredor, mas não chegou a ouvir um passo sequer antes de perceber que, se para chegar ao quarto das selecionadas havia um salão, então provavelmente também haveria um salão para chegar até o quarto do imperador e do príncipe. Isso lhe dava duas opções de portas anexas. Uma delas mais usada que outra, percebeu pela maçaneta onde a cobertura de ouro já começava a sair. Encostou seu ouvido na madeira e esperou. Nada.
Pousou a mão na maçaneta e virou-a o mais lentamente possível.
— Senhorita Sumort. — era a governanta, parada atrás dela, com as mãos na cintura e um olhar ameaçador. — O que a senhorita está fazendo aqui?
— E-eu — balbuciou — E-eu pensei em ir para as cozinhas. O leite acabou.
— Leite? — a mulher ergueu uma sobrancelha. Ela avaliou a mentira de Alisha e então notou as migalhas de biscoito presas em sua camiseta. — Já serviram o café da manhã? Bom, bom. — Verônica tomou-lhe o pulso — As cozinhas ficam no subsolo, menina. Esse é o salão de costura da imperatriz, apenas as selecionadas convidadas pela imperatriz podem entrar aí. Eu salvei sua cabeça da decapitação, agradeça-me e nunca mais tente achar sozinha onde algum lugar fica.
— Sim, senhora — Alisha deixou-a levá-la novamente para dentro da sala de chá, onde outras duas selecionadas já estavam sentadas em volta da mesa, servidas de biscoitos e bolinhos de maçã. A governanta puxou a corda para os criados e pediu uma nova jarra de leite.
Enquanto tudo isso acontecia, Alisha se sentou diante de uma janela e encarou a piscina esverdeada logo abaixo. Seu coração batia forte na caixa toráxica e ela tentava acalmar todos os pensamentos incriminatórios que passavam por sua mente. Tinha certeza que estaria morta, certeza que seria pega. Precisava ser mais inteligente que aquilo, mais sorrateira.
Suas mentiras não funcionariam para sempre.

Alisha assiste seu pai ser morto em praça pública
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