Notas iniciais
Boa leitura!

Aula de Mizandre

Ordenou à criada que procurasse por um vestido de baile, para que estivesse preparada para a aula de dança. Se aprendesse a dançar de calça e tênis, não adiantaria nada, pois no final ela estaria usando uma saia e saltos. Quando a mulher voltou com um belo cetim bordado com lã crua de vários tons de vermelho, Mizandre ficou tentada a elogiar sua eficiência em fazer exatamente aquilo que ela queria, mas não abriu a boca, pois julgou que se sua criada ficasse orgulhosa demais poderia deixar de fazer um bom trabalho. Assim, olhou para o vestido com descaso e jogou-o na cama, começando a tirar a camisola de seda roxa. A mulher esperou até que fosse necessária para vesti-la, e vestiu-a bem, não puxou um fio de seu cabelo, nem apertou seus braços com os botões das mangas ou mesmo enrolou o forro da saia em sua roupa íntima. Aquela criada era tão boa em seu ofício que Mizandre não percebeu até que estivesse pronta, em frente ao espelho. Aquele vermelho lhe caía bem, deixava evidente a cor de seus lábios, o rubor das bochechas e até o azul dos olhos. As madeixas foram presas em duas tranças, amarradas sobre sua cabeça como uma coroa dourada. Exuberante, Mizandre dispensou-a.

Estava quase no horário da aula.

Em Franca, não chegou a participar de muitas festas dançantes, as únicas que frequentou eram mais informais e não havia valsas nem casais, apenas jovens na pista de dança com um DJ dirigindo as músicas. O baile de aniversário do príncipe era completamente diferente. Mesmo sem a mínima ideia do que esperar das aulas com Verônica, não sentia medo nem ansiedade. Tinha certeza de que se sairia bem, como em tudo.

Mizandre olhou seu reflexo uma última vez e sorriu, treinando um pouco suas habilidades faciais antes de se mostrar ao mundo. A sala de chá estava cheia de selecionadas já prontas, impacientes, eufóricas. Quando Mizandre entrou, os olhares que recebeu eram de pura maldade, pois a repudiavam por ter sido esperta o suficiente para escolher bem a sua roupa. Era a única com um vestido de baile. E a única com saltos. Torceu para que todas pisassem no pé do príncipe e se arrependessem amargamente por não terem aprendido da maneira correta.

Mas, na verdade, estava procurando um lugar para ficar.

Com tantos grupos já formados e tantas cadeiras ocupadas, era difícil achar onde se enfiar naquela sala. Mizandre não era do tipo isolada e tapada, como algumas ali, ela gostava de estar perto de outros grupos, para conversar e trocar assuntos. Mas todas a odiavam, é claro, pois tinham inveja de sua perfeição. Não precisava de amigas assim, suas amigas em Franca eram meninas suficientes para si mesmas e nunca a olharam com desprezo, ninguém na Seleção deveria ter amor-próprio. Bom, quase ninguém.

Havia alguém que não a invejava por tudo.

Aproximou-se da janela perto da adega, onde Joanna estava sentada junto de outra menina, conversando. Quando a perceberam, elas cumprimentaram com um sorriso gentil e Mizandre se sentou próxima.

— Bom dia, Mizandre — Joanna disse, sem segundas intenções.

— Bom dia — respondeu, olhando a terceira integrante do grupo. Era uma ruiva que nunca tinha reparado antes.

— Você conhece Sabrina? — a iberyana perguntou, introduzindo-as.

— Não — a franca meneou a cabeça para Sabrina — Prazer em conhecê-la.

— Prazer — Sabrina retrucou — O que vocês fizeram com o príncipe?

Mizandre piscou. Uma abordagem nada sutil, de fato. Quando ergueu os olhos, Joanna a encarava com um sorriso divertido, sarcástico. Ela provavelmente não tinha contado nada a Sabrina e por isso a menina estava tão desesperada. Inveja branca, muito descarada para ser maldosa. Se ninguém havia contado por que o príncipe as chamou para seu jatinho, então Mizandre não se sentiu compelida a dizer. Deu de ombros.

— Conversar, o de sempre.

— Mas o quê? O que ele queria? Por que vocês? — os olhos de Sabrina brilhavam e suas bochechas explodiam como tomates, cheias de adrenalina. Que quadro horrível, ruivas deveria sofrer tanto para sequer expressar suas emoções… Eram muito vulneráveis a elas. Sem contar que rosa ficava horrível em seu guarda-roupa.

— Porque somos interessantes — voltou a dar de ombros, olhando para a janela com descaso. Joanna soltou um risinho anasalado. Estava entrando no jogo, então.

— Ora… — a ruiva fechou os punhos, mas não disse nada, apenas engoliu a sua irritação e a assoprou para longe. O silêncio reinava serenamente entre as figuras esmaecidas de Joanna e Mizandre, absortas com o fato de serem as privilegiadas favoritas de Heid.

Kateryna então entrou na sala de chá e ergueu a atenção de todos para ela pois, pasmem, estava vestida para um baile. Com um corpete que chegava a sua garganta, um corselete que parecia asfixiá-la e saltos que batiam na madeira sem dó ou piedade, ela caminhou confortavelmente até uma cadeira isolada, perto da porta de saída. Ninguém falou por algum tempo, até que se acostumassem com ela existindo ali. Mizandre se perguntou se teria surtido o mesmo efeito quando apareceu. Agora as três favoritas do príncipe estavam na sala, duas delas usavam vestidos e a outra estava tão a vontade em chinelos e bermuda que aparentemente não compareceria à aula de dança. Mizandre viu uma das garotas se levantar e voltar para o quarto.

— Aposto que foi trocar de roupa — falou, entre dentes, com um sorriso viperino.

Joanna observou em silêncio e Sabrina soltou um risinho.

— Você é uma cobra.

— Como? — a ruiva arregalou os olhos, levantando junto as suas parcas sobrancelhas. O horror era tão visível que Mizandre quase se sentiu mal por ser tão sincera. Joanna também a observava com um canto de olho.

— Eu falo mal das pessoas porque é verdade e você concorda porque não presta — moveu seu queixo para a janela — Desse jeito nunca terá espaço nesta competição.

O rosto de Sabrina ficou vermelho, igual a seus cabelos, e ela se levantou pisando duro, abandonando-as. Quando a poeira havia abaixado, Mizandre se permitiu um sorriso debochado nos lábios, saboreando uma vitória pequena. Se havia algo que não suportava era gente que corria para as asas dos outros querendo um lugar para se manter quentinho e observar toda a ação de perto. Não seria na sua asa que aquela garota iria ficar. E nem na de Joanna, visivelmente, pois a iberyana fez um positivo com a mão.

A governanta chegou pouco antes de começarem uma guerra e, milagrosamente, todas eram só sorrisos e gentilezas enquanto ela estava por perto. Mizandre sabia atuar para conquistar um homem, mas não gostava dos joguinhos entre mulheres. Queria competir de peito aberto, derrubar uma por uma simplesmente porque podia. Esses jogos por baixo dos panos não lhe servia nesse quesito, era uma estratégia para fracos. Assim como veneno ao invés de um punhal.

Elas saíram para as escadas e entraram em um dos corredores adjacentes. A aula seria na segunda porta. O salão era simples, estava livre de qualquer móvel, com apenas espelhos dispostos próximos das paredes. Verônica pediu para que ficassem no centro e que tomassem um espaço de um metro para que não esbarrassem em sua vizinha. Joanna, de fato, não saiu da sala de chá. Ela era a única que estava faltando na aula.

A governanta parou de frente para elas e tirou do blazer um controle do tamanho de seu dedo. Quando apertou o botão, música clássica começou a tocar dos auto-falantes instalados no teto. Mizandre nem os havia percebido. A música era calma, com violinos e violoncelos, perfeita para um casal apaixonado dançar pertinho de seu par. Elas formariam duplas, para que a aula fosse eficiente. Verônica ensinou a maneira correta de segurar em seu acompanhante, nunca tocar outro lugar que não o cotovelo e mão da pessoa que a conduzisse. Conversar apenas em tom baixo e por um breve período, se a dupla passasse muito tempo conversando isso seria considerado inapropriado. Os pés deveriam acompanhar o ritmo exato da valsa, ou estariam arruinando o dueto. Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Precisavam ter esse compasso em mente durante todo o tempo, por isso conversas eram dispensáveis se não quisessem passar vergonha na frente do príncipe.

Quando as instruções terminaram, a governanta mandou-as formarem as duplas. E sem Joanna a vista, Mizandre percebeu que sobrava apenas as invejosas, já decididas sobre com quem dançariam. Apenas alguém tão excluído ou odiado quanto ela restaria para ser sua dupla. E era Kateryna.

A russa segurou seu cotovelo levemente, quase como se não quisesse tocar em sua pele, e apenas encostou os dedos em sua mão. Quando a valsa começou e Verônica entoou os compassos de quatro tempos, ela fez os movimentos tão naturalmente que Mizandre realmente sentiu que estava sendo guiada por Kateryna. Para sua surpresa, sua dupla já sabia valsar e estava naquela aula mais para não desrespeitar as ordens do príncipe que para aprender alguma coisa. Ela não reclamou quando os pés de Mizandre se atrapalharam com a pausa repentina, nem ergueu os olhos quando pediu desculpas. Desculpas sinceras, pois Mizandre sabia que ela era odiada pelas outras meninas.

Elas passaram a aula toda em silêncio, o treino apenas para Mizandre, um entretenimento para Kateryna e os elogios frequentes de Verônica para ambas. A governanta, ao contrário do que parecia, elogiava muito aquelas que conseguissem passar um período inteiro sem cometer um erro. E Mizandre conseguiu se adequar tão rápido ao tempo das músicas que, após uma hora, estava rodopiando com Kateryna da mesma forma que a russa fazia, suave e graciosa.

Obviamente isso enchia Verônica de orgulho e enchia também de inveja as outras selecionadas, que olhavam para elas com caras feias. Kateryna, de olhos tão baixos, nem percebia, mas Mizandre não deixou passar uma menção de repúdio sequer. Quando fosse rainha, iria tirar um dia de pronunciamentos no Jornal Nacional para pregar quão detestável era uma jovem invejar outra apenas por ser melhor que ela mesma.

Sempre que se sentia inferior a alguém, Mizz se esforçava até superar a pessoa. Foi desse jeito que conseguiu a perfeição. Os fracos só se queixavam e torciam pelo azar dos outros. Patéticos.

A aula terminou pouco antes do almoço. Estavam suadas e com os pés doendo de tantos círculos, mas Verônica disse que não havia tempo para trocar de roupas ou banhos, que deveriam descer imediatamente até o salão de jantar para cear com o imperador. E Mizandre sorriu sem esconder a felicidade que a percorria enquanto seguia a governanta e deixava para trás as selecionadas que cruamente haviam se vestido para a aula. Elas deveriam saber que aquele era o palácio e que precisavam estar sempre prontas para ver um membro da família real.

Bem, a família real inteira estava lá.

Apenas alguns fios escapavam de sua coroa de tranças, os pés adormeceram de dor dentro dos saltos, mas não exprimiu nenhuma emoção enquanto escolhia a cadeira mais próxima do príncipe possível. Kateryna, que estava perto, sentou-se ao seu lado. E as outras, tão miseráveis, tentaram ocupar todos os lugares mais distantes da realeza possível. Que divertido, não? Ontem mesmo estavam loucas para ficar ali perto de Heid.

Mizandre pousou o queixo sobre a mão, descansando em felicidade resplandecente, quando ouviu uma voz familiar soltando uma risada. Lançou os olhos para lá, onde Joanna estava sentada entre o príncipe e sua prima. Ergueu uma sobrancelha para ela, mas a iberyana não a percebeu. Se fosse um pouco menos confiante, podia estar sentindo ciúme, mas apenas um cego sentiria ciúme de Joanna.

Acenou para ela que, com um garfo na mão e a boca cheia, apenas lhe ergueu as grossa sobrancelhas. A franca volte-se para o seu próprio prato, seu estômago doía de fome depois que ela se lembrou que não havia comido sequer cereal no café da manhã. As bandejas prateadas a frente estavam cheias de macarrão, com molhos variados para serem despejados sobre a massa e outros acompanhamentos. No final da mesa, um gênero diferente de macarrão e no começo, um terceiro. Mizandre gostava de molho vermelho, então serviu-se com ele e acrescentou pouco mais, já que não era tão familiarizada aos temperos da cozinha real. Para beber, optou pelo suco de uva natural.

Uma delícia, a partir da primeira garfada já sabia que se deleitaria até o final. Pôde escolher o tipo de queijo que queria sobre tudo aquilo e também qual das sobremesas de verão comeria. Cinco sabores diferentes de sorvete passavam em carrinhos com mordomos servindo-lhes. Quis o de morango, para que pensassem que tinha um paladar delicado.

O mordomo que servia o sabor morango deu a volta na mesa e lhe entregou um potinho, suas mãos tremiam. Mizandre ergueu os olhos para ele e viu um rosto franzino, pálido, olhando-a com tanto medo e timidez que quase recuou ao encontrarem o olhar. Estava acostumada com homens desconfortáveis com sua beleza, mas aquela reação fora muito diferente. Como se ele tivesse medo de que ela saltasse em sua garganta e rasgasse sua jugular com os dentes. Feito uma leoa. Mizandre piscou consigo mesma, tentando decidir se aquilo era bom ou ruim para o modo como construía sua reputação.

Verônica as buscou e levou de volta à sala de chá, quando todas haviam acabado a refeição. Aparentemente, o príncipe passaria o resto do dia com seus primos, visitando os pontos turísticos ao redor do palácio de Mariyisnky enquanto elas teriam permissão para fazerem o que bem entendessem, desde que não ultrapassasse os limites da propriedade. Os limites, Verônica lembrou, incluíam o aeroporto e as estradas que estavam sem supervisão de guardas permanentemente, então seria muito arriscado ir até lá. Mizandre não entendeu por quê alguém iria querer caminhar sozinha até o aeroporto, mas ouviu silenciosamente os conselhos e, quando a governanda as deixou, voltou para seu quarto a fim de tomar banho e vestir roupas adequadas.

Mesmo os seus pés treinados estavam reclamando dentro dos saltos.

Com o quarto vazio e nenhum sinal da criada, preparou tudo sozinha, perfumou-se e passou óleo nas curvas acentuadas de seu corpo, para evitar futuras estrias ou celulites. Tomou seus comprimidos de emagrecimento pós-refeição e navegou algum tempo nas redes sociais, buscando tendências ou acontecimentos marcantes no mundo da moda.

Como esperado, a última coleção de sua mãe fora um fenômeno em toda a indústria da moda, as lojas estavam enlouquecidamente encomendando peças exclusivas e as clientes pessoais de Axelle Merveilleux assinavam cheques milionários para comprarem as modelos originais dos desfiles em Paris e Lyon. Recentemente, sua mãe firmara um contrato com uma grife de luxo em Hanya e olheiros em Germanya estavam atentos à tendência que Axelle lançava ao mercado. Uma coisa que sua mãe sempre lhe disse era que “os verdadeiros donos da moda não seguem tendências, eles as criam” e Mizandre realmente tinha aquilo para si mesma. Uma rainha deveria se inventar, ela não podia esperar repetir o que as demais fizeram, pois nunca seria uma verdadeira rainha assim. Então imaginou de quantas formas diferentes ela era mais especial que as garotas com que competia.

Ela era inegavelmente mais bonita que todas. Seus traços naturais, seu corpo esguio, não magro demais, nem musculoso demais, o tom branco de sua pele que evidenciava uma rotina desacostumada ao trabalho braçal, algo digno para a nobreza, e até o tom castanho natural de seus cabelos eram mais diferentes, com uma coloração muito bonita, acobreada. Decidiu que mostraria o quão bela podia ser, independente de qual cor usasse nas roupas ou nos cabelos. Deixaria as madeixas crescerem e as cortaria na cor natural. Adeus loiro. Estava decidido.

No que mais poderia se destacar? A maioria das meninas usava calças trazidas de casa e roupas comuns. Ela tinha a coleção de sua mãe dentro da mala, mas duvidava que aquilo fosse causar uma boa impressão na imperatriz, que tinha um gosto tão… peculiar. Então lembrou-se de pedir à criada que trouxesse vestidos parecidos com os modelos da mãe do príncipe, assim poderia agradá-la e quem sabe também a Heid.

O que mais a faria amável?

Duas batidas na porta, rápidas. Ela se levantou automaticamente e esqueceu de imediato no que pensava. Olhou de esguelha sua figura no reflexo do espelho: cabelo penteado e solto, ainda úmido, um vestido de Axelle Merveilleux na cor branca e azul-piscina. Aceitável. Não era a sua forma mais esbelta, mas estava estonteante. Abriu a porta sem grandes perspectivas e levou um susto, pois parada a sua frente estava a prima do príncipe.

Seu cérebro entendeu num instante apenas: aquela área era proibida aos homens, então o príncipe enviou sua prima para vir chamá-la para um encontro. A história de sair com os primos era tudo uma farsa.

— Olá, Mizandre — Savina disse, com um sorriso em seus lábios grossos. — Você gostaria de andar a cavalo conosco?

Por tudo o que é mais sagrado, Mizandre não queria subir nas costas de um cavalo.

Nunca.

— Eu? — retribuiu o sorriso — Nossa, seria um prazer!

Notas finais
Consegui aos poucos escrever esse capítulo! Estou quase morrendo parar entregar todos os trabalhos que eu procrastinei no último final de semana XD mas valeu a pena! Beijos da Lady!