Notas iniciais
Boa leitura a todos! Esse capítulo foi terminado no celular, então é provável que tenha erros de digitação. Me perdoem, arrumarei no domingo!

Lembranças de Belle

Todas as vezes em que eu fechava os meus olhos, eles apareciam. Se eu deitasse a cabeça para dormir, lá estariam eles para me assombrar. Os gritos, as luzes e a escuridão. Não havia um momento de paz desde aquela época, nenhum sossego para a mente, apenas a sede de justiça e o luto por aqueles que morreram honrando seu império. Eu nunca esqueceria seus rostos ou seus nomes. Os guardaria em minhas orações até o fim dos tempos. Alguém sempre recordaria seu sacrifício, sempre. Fora isso que eu jurei quando voltei viva para casa, quando nossos inimigos me causaram uma dor maior que a morte: me incapacitaram.

Agora, todas as vezes em que fechava os olhos, eu os via. E os esmagava como insetos.

Estava começando a ficar chato permanecer dentro daquele vestido apertado, sentada em vôos que duravam horas e conversando com meninas tão fúteis que não entenderiam o significado de honra, lealdade e justiça. Elas fofocavam sobre qualquer coisa que visse, estavam animadas com o fato de estarem somente perto do príncipe, sem qualquer perspectiva de que fariam caso vencessem a Seleção. Ao contrário delas, eu tinha um propósito e o oferecia ao príncipe para que julgasse se era válido ou não. Pelo bem do Império, eu poderia me tornar sua esposa. Mas apenas se isso me desse voz. A voz daqueles que não a tinham, do outro lado dos limites, onde as guerras eram constantes e onde os inimigos não tinham honra.

Após carregar as malas para a caminhonete de carga, entramos no carro luxuoso que nos aguardava e percorremos mais ou menos dois quilômetros até Mariyinsky. O caminho era todo asfaltado e havia cercas ao redor da estrada para impedir que animais selvagens a invadissem. Era um ótimo lugar para corridas, com muito ar fresco e sombra. Decidi que usaria aquele local para meus exercícios matinais, quando me instalasse no palácio.

Não havia conversado com nenhuma menina durante o vôo. Minha vontade era me aproximar da filha de Catarina Bragança, a maior comandante mulher na história do império. Sentia que nos entenderiamos, que poderiamos concordar em muito sobre as questões militares e políticas da Eurásia. Talvez eu até conhecesse pessoalmente a própria Bragança. Seria uma honra inigualável para uma mera cadete.

O palácio de Mariyinsky era menor que Versalhes. E isso foi tudo o que chamou a atenção, pois havia toda uma série de detalhes que, sinceramente, não faziam diferença nenhuma. Se o teto suportava a chuva e as paredes o vento, então qualquer coisa servia. Ficar impressionada com tudo o que me era oferecido parecia uma desfeita com meus companheiros de guerra, que dormiam ao relento.

Peguei minha mala de cima da carroceria da caminhonete e parti em direção ao palácio. Era mais uma mansão que palácio, pequeno o suficiente para não me perder de Verônica enquanto ela conduzia a todas para dentro dos quartos. Eu poderia dormir dentro dos estábulos se fosse preciso, mas aceitei a chave do terceiro quarto do corredor, quando me entregaram. Entrei e tranquei a porta por dentro, para não ser surpreendida por nenhuma criada dessa vez.

Deixei minha mala do exército sobre uma cômoda baixa e me sentei na cama, tirando as botas de caminhada que eu insistira em usar por baixo do vestido e depois a perna robótica, que sempre irritava a pele do toco entre meu joelho a canela. Tirei um hidratante de dentro da mala e esfreguei na área irritada. Ninguém até o momento havia notado, ou comentado, sobre minha perna, então deduzi que isso não era necessário para fazer filhos, do jeito que eles queriam.

Haviam questões mais importantes que minha aparência, como as fronteiras ameaçadas com a África e as alianças perigosas de Illéa e o sul americano. Sem contar aqueles grupos de baderneiros que exigiam a atenção da polícia local. Como um soldado, vi a face mais violenta de se ter um território com proporções extracontinentais, os rebeldes nem eram o maior problema da Eurásia, eram só pessoas sem expectativa e sem fé no império, preferiam piorar a sociedade, ao invés de fazê-la melhorar. Em nada tinham acrescentado até agora.

Apertei meus ombros, no ponto tenso em que havia recostado a maior parte da viagem. Fora um longo caminho até ali. Um caminho de sofrimento e perdas, mas nada em vão. Tudo direcionava para um futuro a ser escrito com vitória.

Eu sentia isso.

Podia não ser eu a escolhida do príncipe, mas se ao menos o fizesse considerar todos os pontos que o governo ignorava sobre o exército e as decisões diplomáticas, teria valido a pena todas as mortes que tive de ver e causar. Era nisso que eu acreditava. O que ainda me movia.

Prometi que deixaria meu nome na história do império. Podia não ser nos livros ou nos documentos, mas na memória daqueles que me conheceram e ouviram o que eu tinha a dizer.

Eu precisava fazer algo, agora.

Tempo demais parada.

Troquei o vestido por uma roupa confortável de treino e alonguei meu corpo, aquecendo todas as articulações e juntas. A perna do toco conseguia se levantar até meu peito e eu a exercitava também, para os músculos da coxa e a força no joelho. Não cheguei a recolocar a prótese, pois não iria correr do lado de fora, mas coloquei uma meia grossa na parte sensível da perna, para não piorar a irritação, e passei a flexionar todos os tendões que conhecia. Ergui os braços e curvei as costas, agachei com a perna boa e saltei, sem perder o equilíbrio. Flexões, socos, abdominais. Todas as formas de me manter em movimento.

Ao final, estava exausta, minha blusa empapada de suor e o cabelo grudando ao lado de meu rosto. Senti a satisfação do dever cumprido e alcancei o banheiro, para por fim me lavar. Era um luxo que poucos soldados tinham nas linhas de frente, normalmente ficava-se com o suor no corpo durante dias. Água era um luxo. Mas ali, girei a torneira e a água simplesmente caiu de uma mangueira ao lado da banheira, água fria e perfeita para o que eu precisava agora.

Não pude afastar a sensação de traição, sabendo que meus companheiros continuavam tremendo de frio e cobertos de excrementos ao longo de toda a fronteira do império. Anônimos, calados. Heróis sem prestígio. Eu mudaria aquilo. O exército era a base de todo o império e se continuassem tratando nossa situação com descaso, tudo ruiria em breve.

Notas finais
Estou achando cada vez mais difícil introduzir essas meninas. Se Galaxia era boazinha demais, Belle é... completamente um soldado! Fico até preocupada com os sentimentos que ela pode não ter. Beijos da Lady. Esse é o último por hoje.