Notas iniciais
Boa leitura! Akame, igual Joanna, é personagem de Pimenta.

Quarto de Akame

O Palácio Mariyinsky tinha dois jardins isolados no centro de seu pátio. Cada qual com uma cor, um branco e outro vermelho, como as cores do Império. As flores que ali nasciam representavam toda a diversidade do povo eurasiano, com tulipas de Franca, peônias de Hanya, flores de cerejeira do Extremo Oriente. Akame havia estudado cada nome científico e conhecia seus potenciais médicos e venenosos, raramente se plantavam flores perigosas no jardim da realeza, mas conseguia ver alguns ramos de crisântemos, tão comuns em todo o Império, e que tinham grande toxidade em seus miolos. Mas partindo da arborização incrível do palácio, toda a estrutura fora reformada para representar o império. Não o seu exterior, é claro. Ainda parecia um palácio ucraniano, do auge do barroco, mas fitinhas penduradas nas janelas tinham as cores dos países europeus e asiáticos. No pátio, quatorze postes para bandeiras estavam sendo implantados, as treze nações e o império. Akame achou muito apropriado aquelas mudanças que os criados faziam tão rapidamente, considerando o tempo em que todas as decisões foram tomadas.

Ela mesma não esperara por aquilo. E raramente era surpreendida.

O palácio era azul celeste e suas janelas, brancas. Entalhes em gesso enfeitavam cada batente e jardineira, espirais que imitavam o oceano e o vento, estrelas do mar e espuma. As fontes gêmeas jogavam água por estátuas idênticas de golfinhos e era possível ouvir o som do rio Dniepre, que serpenteava o palácio. Tudo muito bonito, pitoresco, mas bonito. Akame caminhou logo atrás da governanta Verônica. A mulher não conhecia o palácio, mas saia-se bem como a guia do grupo de selecionadas. Achou-a uma mulher muito forte, de fato. Akame entrou pela porta da frente, sem nem perceber a quebra imediata das cores e de todo o luxo. Realmente era um palácio barroco.

O chão, de madeira clara, refletia todas as luzes em candelabros, lustres e arandelas de ouro. No teto, pinturas religiosas católicas davam a impressão de uma profundidade que chegava aos céus, onde anjos de asas escuras rodeavam o trono do Altíssimo, apenas uma luz cegante branca. E cada janela que vira do lado de fora tinha sua própria moldura dourada, pintada idêntica a sua vizinha, com todo o requinte que o dinheiro podia comprar. Ao final do salão de entrada gigantesco, escadas gêmeas contornavam o local onde os tronos do imperador, da imperatriz e do príncipe eram colocados. As escadas largas eram de mármore branco, cobertas por tapetes vermelhos de veludo. Muitas antecâmaras cercavam o salão, incluindo atrás dos tronos, um espaço provavelmente reservado apenas para a família real em bailes.

Verônica, junto das selecionadas, absorveu a grandiosidade do palácio e continuou caminhando decididamente para as escadas a esquerda. O segundo andar era todo uma extensão do salão abaixo, com sacadas com vista para a pista de dança e as janelas, cadeiras e sofás sofisticados que combinavam com as cores das cortinas, o lugar perfeito para casais que quisessem privacidade para um drinque ou uma conversa mais séria. Não se demoraram ali, pois a antecâmara a frente guiava a três portas duplas de madeira negra como carvão, elas estavam abertas, mas a iluminação além delas era muito menor que aquela em que se encontravam no momento. Tiveram de piscar para se acostumar a nova escuridão, de onde apenas velas em arandelas no alto das paredes davam visão das novas portas e corredores que saíam para norte, leste e oeste.

Ao invés de seguir para um dos corredores, a governanta abriu umas das portas e entrou. A fila de garotas a acompanhou silenciosamente. Do lado de dentro, uma sala de chá mantinha toda a atmosfera de grandiosidade e luxo. Pilares verdes como a floresta ao redor do palácio sustentavam o teto adornado de toda a sorte de pinturas e esculturas serpenteantes e curvilíneas. O chão, com seus próprios desenhos de madeira, também refletia perfeitamente a luz do sol que entrava das janelas que cobriam toda a parede a norte. Uma adega logo ao lado delas tinha garrafas de vinho em suportes de madeira alaranjada perfeitamente encerada, como se tivessem acabado de ser retiradas da reserva especial de Mariyisnky.

Os lustres de ouro tinham um metro de circunferência e sustentavam vinte lâmpadas brancas cada. Uma divisória de vidro desenhado separava o jogo de sofás idênticos, um voltado para as prateleiras cheias de livros de capa dura e grossos volumes, sobre tapetes de veludo vermelho. Do outro lado, os assentos se voltavam para a visão dos jardins traseiros do palácio, menores que os da frente, mas com uma piscina que cobria quase dez metros de comprimento e cinco de largura.

— Este é o salão das mulheres, vocês podem utilizá-lo quando não estiverem em aulas ou ocupadas. — Verônica passou por todo o salão rapidamente, seus saltos ecoavam no silêncio que a fascinação causava em todas. Ela parou do outro lado da sala e abriu uma porta quase escondida por uma estante com fotos de… pessoas nobres e mortas. — Adiante teremos os quartos, são proibidos para homens. Assim como esse salão.

Que reconfortante— alguém sussurrou entre elas. — Não temeremos nenhum príncipe invasor, então.

Akame revirou os olhos e acompanhou a governanta de perto. Não queria se envolver com aquele tipo de assunto. Ela duvidava de que aquela regra sobre homens pudesse impedir o príncipe de ir até os quartos, mas também duvidava de que sua alteza real arriscasse a honra que tinha para tal. Era mais fácil levar uma para seu quarto, ele poderia facilmente ordenar isso aos guardas. Todas deveriam estar cientes disso quando se inscreveram.

O príncipe podia ser qualquer tipo de homem.

O corredor depois da sala de chá era longo, levava para o leste e para o oeste, passando por trás da sala. Todas as portas ali já tinham nomes para identificar de quem pertenceriam. As meninas se dispersaram, procurando suas portas, mas Akame encontrou-se facilmente. Era em frente a sala de chá. Verônica disse que dividiriam os quartos, já que não eram suficientes para as trinta e uma selecionadas. Apenas uma menina ficaria com um quarto só seu, o que foi decidido em um sorteio aleatório. Akame olhou para a placa com seu nome escrito em idioma comum e em mandarim, e logo abaixo outro nome, apenas em idioma comum. Sirena di Duccio.

As duplas também foram escolhidas por sorteio.

Entrou primeiro, para ver como era por dentro. Estava curiosa sobre que tons os quartos teriam, que tipo de estampa ou estofados as camas e cadeiras apresentariam. De fato, tudo fora planejado perfeitamente. As paredes eram azuis, com os arabescos barrocos, mas com menos ouro e mais traços em branco que a sala de chá. os pilares de gesso tinham pinturas em amarelo-vivo, as divisórias eram de tecido grosso e cheio de texturas de flores de azul escuro. Quadros emoldurados com ouro enfeitavam perto das janelas, eram bustos de pessoas e lugares incríveis que Akame julgou pertencerem a Ucranya. Duas esculturas de gesso branco ladeavam o arco da entrada do quarto de dormir, onde as cortinas estavam fechadas e as duas camas de casal se separavam por quase três metros, completamente alheias uma a outra. Havia dois baús idênticos, espelhos e duas penteadeiras.

Do lado do quarto de estar, muitas cadeiras e mesas com estofados do mesmo azul royal davam indício de que poderiam convidar amigas para passar as tardes lendo, conversando, bordando ou que quisessem. Em frente às janelas, dois cavaletes de madeira alaranjada, com uma caixa de telas de diferentes tamanhos e estojos de tinta e pincéis que Akame nunca imaginou existirem. Parecia ser algo caro, simplesmente jogado ali.

Parou em frente ao piano, quase escondido entre os divãs e mesas de chá. Era um exemplar maravilhoso germânico, de madeira real escura e telhas branquíssimas. Caminhou lentamente até ele e tocou uma de suas notas. O som preencheu o quarto, longo, resistente. Estava afinado, era novo e pronto para ser usado por mãos habilidosas. Akame desejou saber tocar, mas sempre se centrou mais no que fosse útil para seu futuro. Hanya possuía pianistas talentosíssimas, no entanto.

Virou-se para as janelas e observou sua companheira de quarto agachada ao lado dos estojos de tintas, segurando as telas em seu colo. Analisando. Akame julgou que a menina, tão delicada e de bons modos, deveria ter sido criada por bons tutores, sabendo as artes como uma dama. Não a invejava nem um pouco, na verdade estava feliz por ser diferente da maioria das garotas. Continuou caminhando pelo quarto, ele era grande e poderia ser dividido por mais duas selecionadas, se quisessem mesmo. Estava quase voltando para as camas, quando notou o conjunto na parede, sob uma lareira. As lâminas refletiam seu rosto admirado, os cabos eram adornados com toda a sorte de animais e folhas. As espadas sorriam para ela, cheias de glória, exigindo que apenas o maior dos guerreiros as empunhasse.

Uma claymore, grossa e longa, para ser usada com ambas as mãos. Podia arrancar a cabeça de um homem com apenas um golpe, exigia força e equilíbrio de quem a manuseasse. Uma cimitarra leve, de cabo fino e lâmina curta, sua curva era ótima para golpes ágeis e cortantes. Uma rapiera, fina como apenas os melhores ferreiros poderiam fazer, no século XVI, uma arma perfurante para assassinos e ladrões. E, por fim, como última peça da coleção de parede, uma ninjato, deitada. Seu único fio tão mortal brilhava e o cabo humilde em couro preto destoava de todas as outras. Akame aprendera a esgrimar com uma katana, mas também era muito habilidosa com ninjatos. Queria segurá-la, saber seu equilíbrio, qual o balanço no braço e se poderia mesmo cortar um pedaço de madeira como se fosse um machado, mas não podia tocar em uma relíquia como aquela. As inscrições ao lado de cada espada dizia que a ninjato ali fora usada por um ninja de verdade. E passa de geração a geração para outros ninjas. Mordeu os lábios. Aquele quarto era perfeito.

— Devemos estabelecer as regras do quarto — Sirena se aproximou, havia uma mancha de tinta verde em seu queixo, mas Akame fingiu não ver.

— Você tem razão — Akame assentiu e se sentaram em duas cadeiras próximas. Havia um jarro de porcelana com flores amarelas e perfumadas na mesa a frente.

— Gostaria de deixar as cortinas abertas sempre — a italyana era bem direta e aquilo agradou a Akame. Nunca gastava tempo com coisas fúteis e realmente não queria dividir o quarto com uma menina fútil. — Também usarei tinta, então o haverá cheiro.

— Ficarei a maior parte do dia do lado de fora do quarto, sinta-se à vontade. — meneou — Eu durmo com o abajur aceso.

— Desde que não sejam as luzes do quarto, posso aceitar.

— Obrigada — Akame pensou, tinha de decidir as coisas importantes. — Também demoro quinze minutos para meditar antes de dormir, a luz ficará acesa até depois da hora de dormir, suponho.

— Tudo bem, mas apenas quinze minutos — Sirena não parecia disposta a ser flexível quanto aquilo, então aceitou a condição.

— Tem outro problema — disse, lentamente. Tinha de abordar aquele assunto com cuidado, ou ela iria se irritar com tantos pedidos. — Tenho problemas de insônia.

— Já pensou em tomar remédios?

— Eu tomo, mas é um pouco mais que isso. Também sou sonâmbula.

Sirena piscou os olhos e a encarou, em silêncio. Sua coluna ereta com perfeição não chegou se mover e mesmo a respiração não oscilou. Seja o que for que ela estava pensando, não parecia ser irritação.

— Você se amarra na cama?

Akame riu.

— Não, eu normalmente apenas fecho as portas e janelas. — notou que a garota estava confusa — Meu quarto em casa era pequeno, então não havia problemas. Eu sugiro que peçamos para colocarem uma divisória de meia-parede entre o seu e o meu lado do quarto. Apenas por precaução.

— Tem certeza que não quer pedir para ficar com o quarto individual? — Sirena parecia comovida por sua situação, o que tocou Akame profundamente. Era ótimo conviver com pessoas de boa índole.

— Duvido que Verônica concorde com isso. Mas posso tentar. — assentiu — Obrigada pela ideia, senhorita di Duccio.

— Disponha — a italyana se levantou — Essas são todas as regras?

— Imagino que sim.

Elas se entreolharam alguns instantes em silêncio.

— Será bom dividir o quarto com você, Akame.

— Igualmente, Sirena. — sorriu gentilmente.

Notas finais
Para quem pediu descrição do palácio, aí está. Não sou muito boa em descrever arabescos e ornamentos, mas tentei! As fotos de Mariyisnky real estão aqui: http://visittoukraine.com/uploads/images/sights/mariinsky_palace.jpg https://discover-ukraine.info/uploads/i/i/4f21a0ef078d57.41419825.165.jpg (Fundos) http://turj.ru/images/5/5/3/f/814/1f8892b135.jpg A entrada: https://i.pinimg.com/originals/61/23/9d/61239d770f16d29b28753e28b2172848.jpg As escadas: https://ichef.bbci.co.uk/images/ic/976x549_b/p024npr6.jpg Uma pintura do salão de chá: http://www.stepinit.com/wp-content/uploads/2013/06/Classic-Ornate-Opulent-Russian-Palace-Design-Luxury-Chandelier.jpg Uma pintura dos quartos de hóspede: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/56/Hau_Edward_Petrovich_-_Blue_Drawing-Room_in_the_Mariinsky_Palace.jpeg Quarto real individual: https://richedwardsimagery.files.wordpress.com/2016/07/the-rooms-in-the-palace-were-preserved-after-the-russian-revolution-in-1917-the-palace-was-opened-to-the-public-in-1925-as-a-museum-to-show-the-excesses-of-the-nobles-under-the-tsarist.jpg?w=584 https://toursinstpetersburg.com/u/2016/10/yusupov-palace-5.jpg Segundo salão de festas: https://i.pinimg.com/originals/25/17/fa/2517fa8ab286d90fb92b53668ebe443c.jpg Teatro Mariyinsky, construído ao lado do palácio: https://www.georgianjournal.ge/images/georgianews/2016/January/Discovery/the%20mariinsky%20theatre%20russia.jpg Pintura do salão do rei, usado para reuniões e confraternizações com seus ministros: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/46/Repin_state_council.jpg Sala de estudos, anexas aos quartos principais: http://2.bp.blogspot.com/-A4P9OjWsjlU/T9YgtaKpo5I/AAAAAAAAEiw/xbs1jgkGEtE/s1600/Edward+Petrovich+Hau+-+Boudoir+of+Grand+Duchess+Maria+Alexandrovna+in+the+Winter+Palace.jpg Aposentos reais, usados pelo príncipe: https://3.bp.blogspot.com/-XyWQl7BiwMs/T9YguvC1ObI/AAAAAAAAEjA/VP8CTaDZfbg/s1600/Edward+Petrovich+Hau+-+Fourth+Spare+Half-Bedroom+in+the+Winter+Palace.jpg Detalhe das esculturas de ninfas gregas, na entrada do palácio: https://thumbs.dreamstime.com/t/mariinsky-palace-kiev-ukraine-may-fragment-facade-artifact-late-th-century-98393323.jpg —-------------------------------------------------------------------------------------- Esse capítulo precisou de bastante estudo, tanto para citar nomes quanto para descrever o palácio o mais real possível. Claro que grande parte das informações vieram da planta original do palácio, que hoje já foi reconstruído duas vezes. Espero que tenha servido de algo! Curiosas para saber quem será a colega de quarto de sua(s) personagem(ns)? A princípio, pensei que Sirena e Akame não fossem combinar nem um pouco, por terem interesses tão diferentes, mas na verdade elas ficam bem juntas! Como a maioria disse que preferia em terceira pessoa, vou continuar os capítulos assim, a menos que seja essencial que a narrativa foque mais no personagem que no ambiente. Obrigada pelas dicas e ajuda, beijos da Lady!