Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
12 Sentimentos de Savyna
Notas iniciais
Sentimentos de Savyna
O doce som dos passos na plataforma do pequeno jatinho particular preenchiam meus ouvidos cansados de tanto silêncio. Fingi uma pose relaxada e encarei a porta, estalando o chiclete antes que alguém entrasse. Era um vício que saciava a ansiedade, mas me fazia parecer uma criança. Mamãe sempre me roubava todos os doces que eu conseguia comprar escondida, mas ela não estava aqui, estava? Quando ordenei aos mordomos que me trouxesse uma caixa de qualquer bala que conseguissem encontrar, em poucos minutos já degustava o açúcar em meu sangue, a deixar-me cada vez mais animada.
Sinceramente, eu queria ver Heid mais do que queria ver meus irmãos. A desculpa de cuidar de Wladimir e Igor caíram bem para mamãe, mas tudo fazia parte de um plano para encurralar meu primo naquele jato. Os pirralhos estariam ali também, mas pelo menos eu poderia lhes dar um pouco daqueles doces e eles calariam a boca. O comissário de bordo entrou e me cumprimentou com uma mesura educada, dando a volta na mesa para entrar na cabine do piloto. Estava demorando.
Olhei impacientemente para o celular e digitei uma mensagem a uma das garotas que se diziam minhas amigas mas que tinham mais interesse em roubar um lugar perto da família real do que exatamente ouvir minhas queixas sobre a pressão e a distância que ser filha de meu pai me exigiam. Eu não sou tola, apenas preciso realmente de alguém para me ouvir, mesmo que seja alguém falso e que não se importa nem um pouco comigo. Às vezes elas dão bons conselhos. Mas isso não acabava com a ansiedade crescente em meu peito. Já fazia meses desde a última vez que eu e meu primo nos encontramos. Não era um tempo muito grande, eu sei, mas simplesmente não dá para ficar longe de Heid.
— Prima — ele disse, ao entrar no jato e me ver jogada confortavelmente sobre um dos sofás. Ergui o queixo friamente e franzi as sobrancelhas, encenando que não o estava esperando ali há eras. — Não sabia que dividiria o jato conosco.
— Eu pensei que iria com Wladimir e Igor — peguei uma bala de dentro da caixa na mesa e a coloquei na boca fazendo pouco caso de sua presença. Heid se sentou ao meu lado e riu, tomando também uma bala para si. — Onde estão meus irmãos? — a felicidade quase me tomou, os pirralhos iriam viajar com o tio e a tia! Mas então eu escutei os gritos de protesto e o som do videogame barulhento de Igor. E eles entraram, cada um pegando uma poltrona oposta, emburrados. Deveriam ter brigado. — Ah, falando no diabo…
— Eu não sabia que estaria aqui, agora acho que ficará apertado. — meu primo olhou ao redor, analisando os lugares disponíveis. Contando que eu ocupava dois lugares ao mesmo tempo, talvez estivesse sugerindo que a imperatriz também viajaria conosco. Eu estava animada em rever titia também, ela sempre me dava alguns doces secretamente.
— Teremos mais acompanhantes? — indaguei, lançando um olhar divertido em sua direção, mas Heid apenas assentiu solenemente, como ele fazia para parecer um príncipe, e apertou os joelhos, como fazia quando estava apreensivo. — Quem?
— Eu convidei algumas das garotas. — ele respondeu, enfim. Tão baixo que precisei me inclinar.
Ah, as garotas. Aquelas selecionadas cheias de esperanças e sonhos de roubar Heid de mim, é claro. Eu não imaginei que ele levaria aquilo tão a sério, mas parecia sinceramente com medo do que aconteceria naquela viagem. Teríamos ao menos três horas para conversar juntos e… ele esperava sentir. Aquela coisa que seus pais também sentiram, a empatia, a vontade de continuar conversando apenas com uma pessoa. Eu sabia daquilo pois meu primo já me contara milhares de vezes o próprio desejo de fazer tudo certo, tudo igual seus pais. Se havia convidado alguém para acompanhá-lo, então significava que realmente achava possível se apaixonar por alguma das meninas do grupo.
Isso também significava que meus dias como prima superprotetora e ciumenta estavam contados.
— Você não vai pular no pescoço de nenhuma delas, vai? — seus olhos brincavam comigo, mas ainda parecia pálido. Trêmulo.
— Está brincando? Se eu matar a minha futura cunhada, eu me sentiria péssima. E os bebês para eu brincar?
— Você odeia crianças, Savie. — ele me conhecia melhor que ninguém.
— Sim, mas ainda posso apertar as bochechas deles, assim como fazia com você.
— Joanna também veio.
Pisquei. Pisquei muitas vezes, recuando apenas para me lembrar de qual Joanna meu primo falava. Havia alguma Joanna em nossa infância, algum nome parecido… e ela não estava mais por perto. Lembrei.
— A Joanna?
— Sim, a Joanna. Sua primeira namorada, ou o que você quiser chamar como a Joanna.
Quase lhe dei uma bofetada na bochecha. Como meu próprio primo podia chegar a jogar o meu primeiro amor na minha cara e ainda fazer troça? Mal tive tempo de assimilar quando ela entrou no jato, tão linda quanto sempre e ainda mais gostosa do que quando foi expulsa do palácio. Por minha causa. Encarei-a, sem saber exatamente como reagir. E ela… ela nem me olhou. Ela simplesmente se sentou do meu lado e ignorou completamente que eu existia. Que qualquer outro ser existia naquele lugar, além de suas unhas roídas ou seus cabelos presos em uma trança sobre o ombro. Meu coração traidor ainda falhava perto dela.
— Joanna, Mizandre e Kateryna — Heid as apresentou a mim — Essa é minha prima Savyna e meus primos Wladimir e Igor. Podem se sentar.
Finalmente Joanna ergueu os olhos de si mesma e me olhou. Bem a um palmo de distância. De repente todas as broncas que minha mãe me deu sobre meu peso socaram a boca de meu estômago e eu me condenei por ter comido aquelas nove balas há alguns minutos atrás. Mas Anna sorriu.
— Savyna, como você cresceu! — ela beijou minha bochecha e tocou meus cabelos com um dedo longo e marcado por cicatrizes. — Se tornou uma moça tão linda.
— Obrigada, Anna — encenei uma garota confiante e sorridente, mas por dentro eu estava agonizando e Heid podia ver isso, pois ele ria em silêncio. Eu o mataria quando nos despedíssemos.
As outras duas selecionadas eram… no mínimo aquilo que eu esperava que seriam. À primeira vista, eu sabia que nenhuma delas serviria para meu primo. Nossas famílias eram agitadas demais para pessoas tão distantes e frias. A garota Mizandre me cumprimentou com um aceno de seus dedos perfeitos e unhas decoradas, mas Kateryna apenas fez uma mesura respeitosa e continuou em silêncio encostada no sofá, como se quisesse sumir dentro do próprio vestido. E que vestido era aquele…
— Sua mãe, com o péssimo gosto para moda que ela tem, é quem está decidindo o figurino das selecionadas? — acusei-o com um olhar atravessado sobre a mesa. Joanna riu, mas as outras duas apenas me encararam com assombração. Talvez não estivessem esperando que eu falasse com Heid daquela forma. Mas, como eu disse, famílias diferentes.
— Mama odeia moda. — Heid se defendeu — Ela queria mostrar que era uma boa sogra.
— Ela quer mostrar que não quer nenhuma nora, isso sim — balancei os cachos ao lado da cabeça e me inclinei sobre a mesa, colocando ali toda a aristocracia que eu com certeza não tinha nascido com. Diferentemente de meu pai, que sabia sobre diplomacia e discursos, eu puxara a minha mãe, que sabia convencer com gritos. — A partir de hoje, eu assumirei o guarda-roupa da Seleção, obrigada, é uma honra.
Heid riu e Joanna me cutucou com o cotovelo, mas as duas selecionadas ainda estavam quietas. Aquilo começava a me incomodar.
— Vocês estão animadas em ir para Ucranya? Soube que eles fazem cachorro assado lá.
Uma cara de espanto, uma cara de nojo. A primeira era de Kateryna, a segunda de Mizandre. Decidi que optaria pela assustada.
— Mas também soube que existem bibliotecas milenares debaixo das ruínas de um antigo castelo, próximo do palácio em que ficaremos hospedados. Aposto que meu primo permitirá que investiguemos o caso.
Os olhos de Kateryna brilhavam, mas ela não disse nada.
— Se forem mesmo milenares, então as traças já terão comido tudo, Savie. — Joanna retrucou, pegando uma bala na mesa.
— Não estrague a diversão da aventura, Anna. Todos sabem que a melhor parte de caçar coisas antigas é a caça em si.
— Ela continua enlouquecida. — Joanna murmurou para Heid e ele concordou com um meneio.
Kateryna não desviou os olhos de mim e quando achei que ela fosse falar algo maldoso ou fazer uma piada pesada, ela sorriu e assentiu.
— Vamos investigar, sim.
Sua voz era suave, cheia de toda a paciência do mundo. E seu sorriso sincero, humilde, parecia mel pingando em uma xícara de chá quente. Desviei os olhos dela, antes que aquilo se tornasse pior, mas ainda conseguia vê-la, aqueles segundos em silêncio, os olhos verdes fixos em mim e o sorriso tão doce e genuíno…! Eu não conseguia encontrar a maldade do mundo naquela imagem. Não! Nenhuma maldade! Nem mesmo um pingo de arrogância ou vontade própria. Ela parecia amarrada ao papel que lhe designaram, humilde e alegremente seguindo-o. Minha alma se entristeceu.
Joanna conhecia minha tendência a olhar mais para mulheres que para homens e também notou aquele pulso acelerado que roçou seu braço. Eu suava, quase, um pouco alarmada com o encanto em que às vezes caía quando me apaixonava de leve por alguém. Eram sempre pessoas melancólicas, é claro, nenhuma depois de Joanna foi alegre ou vivaz. Todas pareciam conter um pingo de amargura e arrependimento em suas vidas curtas. Heid limpou minha bochecha com o dedo e me deu um olhar severo. Significava que não era para ter esperanças, nem mesmo alimentar aquele sentimento mal-nascido.
Assentiu e voltei a colocar outra bala na boca.
— Aposto que estão fofocando agora mesmo sobre o que fazemos aqui com o príncipe — a outra loira finalmente abriu a boca. E o que saiu de lá fedia antes mesmo de chegar aos meus ouvidos. — Eu conheço esse tipo de coisa, elas irão nos odiar para sempre.
— Inveja é uma coisa horrível, de fato — Joanna murmurou. — Você acha que elas já não falam sobre nós?
— Elas falam? — Mizandre piscou seus longos cílios dourados.
— Ouvi duas garotas comentarem que acham seu jeito de andar parecido com uma ema. — os lábios de Joanna não formaram um sorriso debochado, mas eu conseguia ver por dentro de sua alma aquela fagulha de diversão sádica. Sempre ácida.
— Isso porque elas não sabem usar saltos. Eu aposto que nunca conseguiriam passar mais de quatro horas sob um tamanho quinze. — e a franca lançou um olhar desafiador a todos nós, querendo que concordássemos. Éramos um velório e Joanna assentiu.
— Eu mesma nunca me acostumei. Sou alta, então não sinto falta, mas as meninas eram mesmo baixinhas.
— Viu só! Que horror, duas nanicas falando de saltos. Eu ouvi uma menina dizer que acha que você é lésbica e que está aqui para ter um harém só seu — Mizandre expressou um horror que não existia em suas palavras frias — Eu tentei falar a elas para não serem maldosas, afinal essas coisas são muito pessoais e…
— Eu sou. Uma parte de mim é — Joanna sorriu — mas ainda estou aqui pelo príncipe.
Ah, uma flecha no meu coração! Tão impiedosa!
Heid parecia querer fugir e se esconder. Meu primo não sabia reagir a duas fêmeas lutando por seu coração. Ou por sua coroa. Ou seja lá o que Joanna havia expressado naquela frase. Kateryna encarava a tela do videogame de Igor, fingindo ignorar aquela conversa. Eu sorri. Ela era tão fofa!
— Bem, eu disse a elas que era maldoso. — Mizandre suspirou.
— Obrigada, Mizandre, você é um amor.
— Imagine, eu odeio ver pessoas sendo más com quem não pode se defender. — e então ela sorriu para Heid. Ah, estava bancando a “rica ajudadora dos pobres”. Que clássico.
— Da próxima vez, irei arrebentar a boca de quem falar mal de você, querida. — Joanna piscou e Mizandre riu, fraco, afastando-se ligeiramente de minha amiga.
Eu queria beijar Joanna por ser o melhor ser humano da face do império. Depois de mim, é claro.
Meu primo escolheu uma música em sua playlist. Era uma banda popular, com músicas pop melodramáticas e uma vocalista horrível. Ele sempre colocava a mesma música, sempre. Eu já estava enjoada daquela cantora com voz rachada, mas Heid dizia ser uma de suas canções favoritas, então nunca pedi para ele tirar.
— Nossa, Heid, tira dessa merda — Wladimir tirou seus fones e encarou nosso primo — Que droga, é sempre a mesma.
— Sua boca é muito suja, senhor — Heid o censurou com os olhos, mais constrangido pelas companhias que pelo que meu irmão dissera. Eu fiz um gesto por cima da cabeça de Heid, um positivo para Wlad. O pirralho arregalou um sorriso banguela e mostrou o dedo do meio para Heid. — Wladimir Czarevich! Eu irei contar tudo para sua mãe!
Meu Deus, o que que eu fiz incentivando meu irmão mais novo a ser um porco? Segurei o braço de Heid antes que ele se levantasse e meu primo me encarou friamente. Tinha que mostrar o “herdeiro” que ele era para suas selecionadas. Ah, tão patético, meu Deus!
— Deixa disso, primo. Ele é só uma criança.
— E falando tudo isso!
— Na sua idade você falava o mesmo e sua mãe nunca te censurou.
— Meu pai fazia isso por ela.
— Não somos da família real, somos ciganos. — eu o lembrei. Czarevich, não Pazzlav. — E eu digo que meu irmão pode ter a boca suja que ele quiser.
A imperatriz nunca disse a Heid para não falar palavras sujas porque era da cultura dela que as pessoas as falassem. Meu primo fez uma careta, mas continuou sentado. O ambiente, enfim, estava frio e silencioso. Joanna se remexeu desconfortavelmente ao meu lado e seus olhos disseram que nós havíamos brigado na frente das outras selecionadas. Aquilo não faria bem à imagem de meu primo. O infeliz príncipe.
— Mas irei contar a mamãe sobre essa desventura. — concordei — Se é isso que quer, primo.
Heid me encarou. Ele sabia que eu estava demonstrando submissão apenas para que as garotas achassem que ele tinha algum poder sobre mim. Mesmo sendo mais nova que meu primo, nada me impedia de simplesmente não concordar com o que ele dizia. Joanna se encostou no sofá e eu soube que fizera bem.
— Você é próxima da família real? — Mizandre perguntou a Anna. Parecia que a franca estava, enfim, gostando de nossa amiga de infância. Talvez o diálogo de antes a tivesse convencido da boa vontade de Joanna. Que bobinha.
— Fui criada no palácio. Meus pais são dois comandantes das forças imperiais. — explicou ela — Não tive tios para me criar em Iberya, então fiquei por lá. Vi esses dois nascerem e engatinharem — ela nos apontou.
— Você continuou morando no palácio?
Joanna negou. Eu não queria que ela falasse sobre aquilo, não perto de mim. Anna não sabia que eu era a culpada por todo o sofrimento e humilhação que ela havia passado antes de ser mandada embora pela própria mãe para a Iberya, para ser criada como uma dama exemplar. Aquela história era um segredo que eu deveria guardar dentro de mim, pelo bem de nossa amizade e dos sentimentos que eu ainda nutria por ela. Pelos sentimentos que ela poderia nutrir por mim. Sou tão egoísta, tão malditamente egoísta!
— Fui mandada embora — ela olhou para mim e meu coração parou — Você tem algum pirulito nesses doces, Savyna? — neguei com a cabeça e ela deu de ombros — Minha mãe queria que eu aprendesse a ser uma dama iberyana, então me mandou para um convento. Ou o que mais se aproxima disso nos nossos dias.
— Entendo — Mizandre murmurou — Eu fui criada sozinha com meu irmão, nossos pais sempre estiveram longe, então Louis praticamente cuidava de mim. Quando tive idade, minha mãe passou a me levar consigo em seus desfiles de moda e eu aprendi a me comportar. Sozinha.
— Deve ser difícil aprender tudo sozinha — Joanna fingiu fascinação e Mizandre sorriu com arrogância. Era incrível o modo como Joanna conseguia cativar qualquer um, qualquer um mesmo. Sem precisar mentir sobre quem ela era. Eu a invejava.
— … então sua mãe é uma estilista em Franca? — Joanna nunca se interessara por moda, mas mesmo assim parecia absorver os detalhes da vida de Mizandre com empolgação.
— A melhor. E sua mãe? Ela deve ser muito forte para ser uma comandante mulher.
— Ela precisa mais do cérebro que dos músculos para o que faz, mas sim, ela é bem treinada — Joanna sorriu — Mas fale mais de você.
Mizandre falou, falou e falou. Por horas. O vôo inteiro. Kateryna trocou algumas palavras comigo, quando eu lhe dizia algo que poderia interessar. Até o momento, eu sabia que a russa gostava de livros, aventuras, doces (embora as balas na mesa não fossem suas preferidas), sorvete mesmo no inverno, animações japonesas (eu quase pedi para casar com ela quando descobri) e que detestava bebidas ou vícios.
Heid não se interessou por nenhum dos dois núcleos de diálogo, nem mesmo quando eu e Joanna cruzávamos nossas conversas uma com a outra, mas ele continuava atento. Analisando, escutando, sentindo. Ele queria saber sem precisar se envolver. Aquilo nunca dava certo, eu queria dizer a ele, mas meu primo sempre fora medroso. Cheio de inseguranças tolas e infundadas.
Enquanto ele tentava se decidir sobre quem deveria se aproximar, eu apenas sentia que, a cada minuto, me sentia mais e mais culpada por estar adorando passar o tempo a conhecer Kat.

Savyna
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