Notas iniciais
Boa leitura a todos!

Conselheiro do Aconselhador

Quando o primo entrou pela porta, sem antes bater e já a fechando de imediato, Azra soube que seria mais um caso de maturidade precoce a ser resolvido. Seu quarto, ao lado do de Savyna e com uma vista nada convidativa das mercearias ao redor do palácio — em sua maioria um amontoado de coisas velhas a serem vendidas aos fazendeiros locais -, era pequeno em comparação a todos os outros, poderia ser facilmente o quarto da tutora de uma das filhas do duque que morara ali antes, mas fora redecorado para que se sentisse em Mariyinsky, o palácio da parte rica da família. Heid se encostou na porta por alguns instantes e então olhou para ele, pedindo que em silêncio o ouvisse. Azra se levantou do canto em que agachado lia um livro — um achado entre as prateleiras da mobília, parecia ser um romance interessante e ele simplesmente se abaixou e começou a ler -, se sentou no sofá encostado ao pé da cama e convidou seu primo para vir até ali começar as lamentações.

Desde que começou a ser responsável por coisas mais sérias, Heid precisava de seu ombros para descarregar toda a pressão. Se alguma das selecionadas quisesse ser a rainha, primeiro deveria saber ser essa esposa que Azra vinha desempenhando ao longo dos anos, praticamente criando-o. Quando era algo mais sério, bebiam juntos e acabavam discutindo e socando um ao outro até caírem no chão, cansados e sem fôlego.

Mas não era desses momentos de puro desestresse que Heid procurava. Pelo modo que balançava as mãos em cima dos joelhos e como mantinha os olhos estreitos sobre a mesa de chá, aquele era um dos momentos em que precisava de um conselho sábio.

Um que muitas vezes Azra não se sentia à altura para dar.

— Aconteceu algo? — uma pergunta preliminar.

— Terminei as audiências com os ministros — uma resposta instigadora.

— Algum problema? — a pergunta bem encaixada.

— Tudo é um problema. — a resposta esperada.

Azra chamou um criado para servir-lhes suco e quando voltaram a estar a sós, se voltou para o primo com toda a atenção e continuou:

— O que houve?

— É a África. Cinquenta reis querem guerrear por meu império para sanar a vontade de sangue inextinguível que têm. — hipérbole, Azra pensou. Embora não fosse de todo um exagero de Heid.

— Navios marroquinos são vistos há dez anos nos portos de Italyca. Eles contrabandeiam álcool e toda a sorte de coisas ilícitas que no império são lícitas. — como a expressão no rosto de Heid não se alterou, Azra tentou uma outra abordagem — Por que são um problema agora?

— Os infiltrados no exército turko reportaram movimentação de três bombas para os países fronteiriços. Conversei com o embaixador africano e ele não negou a guerra que seus reis planejam.

— O que Comandante Rivero disse sobre isso?

— Ele acredita no que dizem — o príncipe esperou que servissem-lhe um copo de suco, bebeu um longo gole e então suspirou profundamente. — Logo estaremos em guerra declarada.

— Não há paz eterna — Azra murmurou uma história cigana de que se lembrou, sobre destino, sorte e azar, mas logo a esqueceu, pois seu primo não estava familiarizado com a cultura de sua família materna. — O que podemos fazer?

— Nada — o príncipe pressionou as têmporas por alguns instantes, e, embora parecesse ter finalizado seu desabafo, Azra esperou pacientemente até que se recompusesse para continuar. — Nada que seja digno ou seguro. Tenho medo de colocar essa pauta para meu pai e ele optar pela guerra, também não posso adiar para sempre minha decisão. Seu pai acha que devemos agir logo.

— Se ele acha isso, então devemos agir logo — o socorrista colocou sua mão no ombro do primo e o apertou com afeto — Quais são os passos viáveis?

Então Heid contou toda a conversa que tivera com os ministros tukos, os russos, os iberyanos e francos, contou o quão enfraquecidas estavam as forças militares da fronteira (embora Azra já soubesse disso), colocou em números a disputa comercial pelo mar e por fim falou das formas de evitar o confronto armado. Escutou a tudo em silêncio, até o final, sem dar sua opinião. Azra estava pesando todos os fatores daquela guerra, embora não pudesse revelar informações de seu batalhão, nem sobre os acordos do imperador, firmados em segredo de morte, para aquela guerra. Sentia-se mal pelo primo, por manter tantos segredos que custariam sua vida, se fossem revelados, mas que ele havia contado tão prontamente a Savyna, por carta.

Realmente não os culparia se quisessem matá-lo nas próximas férias.

— Casamento arranjado? Este Império tem leis sobre isso. — disse, quando era sua vez.

— Eu sei, não posso vender nenhuma alma nesse solo, mesmo que quisesse. Mas posso pedir por voluntárias.

— Isso… — Azra o encarou, com tanta força que o obrigava a prestar atenção em cada palavra dita, pois não queria voltar a repetir aquilo depois que saísse dele — Você acha que haveria voluntária?

Heid engoliu em seco.

— Estou falando sério, Heid Pazzlav, eu deveria me amaldiçoar por pensar isso, mas pode ser uma chance. Pode ser um sacrifício necessário. — os olhos não se tornaram mais gentis, ao contrário, criaram uma tonalidade consumidora de musgo e carvão seco. — O embaixador citou nomes?

O príncipe balançou a cabeça negativamente.

— Nenhum possível interesse do Egito? Nenhuma mulher em específico? — seu temor era por Savyna, que poderia ser o membro mais próximo da realeza a ser solteira, jovem e bem nascida. Prima do futuro imperador e filha de um de seus ministros, era óbvio que pediriam por ela. Antes, Azra venderia seu próprio corpo a ver sua irmã se deitar com um homem contra sua vontade. — Talvez o rei aceite um escravo.

— Se o seu plano é se oferecer no lugar de qualquer pessoa, então desista. O Egito abandonou a escravidão há trinta anos. — Heid não podia acreditar que seu primo pudesse sequer imaginar realizar aquela tarefa, mas pessoas como Azra eram destinadas ao sofrimento, pois o suportavam e se afeiçoavam a ele a ponto de o desejarem. — Preciso dar uma resposta ao ministério turko ou ao embaixador, antes que uma bomba seja mandada para Italyca.

— Como humano, sou completamente contra esse acordo com o Egito, mas como seu primo, devo dizer a verdade: não é uma loucura, uma vez que haja uma união dessa magnitude entre nós e os reis africanos, é possível que pensem duas vezes antes de quererem invadir o Império.

— A imprensa falará sobre casamento sem amor e liberdade feminina — o príncipe relanceou os olhos nos jornais sobre a mesinha de centro, o local dos tão temidos jornais e revistas, que todo membro da família real sabia que deveria manter distância.

— Trinta e uma meninas vieram para esse palácio sem amar você, apenas com a promessa de que poderiam se tornar sua esposa. Todos nesse império adoraram a história, não podem argumentar contra esse arranjo se concordam em casar suas meninas com um desconhecido filho de um imperador. — Azra às vezes se detestava por ser tão irritantemente esperto, mesmo com o que não queria ser.

— O que devo fazer?

Ali estava a resposta que não queria dar. Azra esperava que, ao final de tudo aquilo, pudesse ver seu primo sentado no trono em um império de paz e prosperidade.

— Converse com Verônica, ela saberá o que fazer.

— Eu preciso que você me dê a sua opinião. Não irei julgá-lo. — Heid, seu tão amado primo, esperava suplicante que ele respondesse.

Azra não se achava alguém confiável. Podia ser mais velho, mas não era mais vivido. Seus conhecimentos se encerravam em filosofia cigana e socorrer feridos na guerra. Todo o resto, tudo o que realmente importava como decisões e política, era terreno de seu pai. Nunca duvidou que Raffel saberia exatamente como destruir e reerguer o mundo, se desejasse. Ele parecia o homem mais sagaz, mais inteligente e mais lógico que qualquer um já havia conhecido. Mas o príncipe não podia pedir orientação a seu tio que era ministro, ele tinha de recorrer a um conselho neutro, ímpar. Então Azra fechou os olhos e imaginou “O que meu pai diria?”.

— O acordo é crível, ambos os lados podem sair ganhando, tanto o Império quanto o Egito, nossos povos se coincidem em cultura em vários aspectos e até mesmo nas características físicas. Eu diria que é bom demais para recusar, bom demais para aceitar. — e com a cara de desentendido de seu primo, Azra explicou — Você deve arranjar um acordo com esse rei Ramsés que pareça beneficiar mais a ele do que a você, mesmo que não seja verdade e mesmo que seja verdade, somente assim saberemos que Ramsés acredita em nós, pois sua sede de ambição estará saciada quando ele ver que saiu na frente de seus inimigos do continente e seu inimigo do outro continente. Se ele achar que está se sobressaindo a todos…

— … Então não terá motivos para questionar ou nos trair. — Heid piscou, atônito — Isso é… Brilhante, Azra. Você é um gênio.

“Meu pai é um gênio, eu só tento copiar” ele pensou, em segredo, mas ficou feliz com o elogio. Seu primo bebeu o resto do uísque e se levantou, esticando os braços com um sorriso triunfante, como se já tivesse ganho a guerra. Azra achou graça, mas reis morriam por coisas mais inocentes que aquele tipo de confiança.

— Você deve conversar com o embaixador e mandar uma carta ao pai da noiva de Ramsés, contando seus planos e como deseja o melhor para o futuro esposo de sua filha. Quando Ramsés for se aconselhar, teremos o sogro ao nosso favor. E também precisa conversar a sós com as selecionadas que possivelmente se aliarão a esse plano. Tente manter isso em segredo, exclua aquelas que não se encaixam no perfil e não as deixe saber. Quando uma delas se for para se casar, não deixe vir a público até o casamento e depois conte à imprensa que o príncipe o visitou em seu aniversário e que se encantou com a moça e pediu para cortejá-la. Permissão, essa, que você deu pois a menina também gostou muito de Ramsés. Em poucas cartas trocadas, eles estavam perdidamente apaixonados. A voluntária precisa ser uma ótima atriz e levar o segredo para a cova.

— Só consigo pensar em uma pessoa assim. — Heid franziu as sobrancelhas.

Mas Azra não queria falar o nome de ninguém, nem mesmo aquelas que ele excluiria da lista, como Joanna (por motivos afetivos), Kateryna (por motivos de sua mãe, que o mataria se mandasse a filha de sua melhor amiga para se casar contra a vontade) e Mizandre, que poderia colocar tudo a perder com sua personalidade excêntrica. A lista de voluntárias não existia, ele não sabia mais nomes daquelas garotas, no máximo se lembrava de seus rostos. Mas havia quem conhecesse-as o suficiente para dar sugestões. Savyna.

— Vá ao quarto de Savyna e converse com ela sobre isso, tente convencê-la de que é uma chance de salvar o Império, talvez ela…

— Não precisa de ladainha nenhuma — a irmã entrou no quarto, estivera escutando pela porta o tempo todo. Não era de se surpreender, ela dormia no quarto ao lado e deveria ter escutado quando Heid entrou, desesperado. — Eu acho isso tudo uma idiotice, senão um machismo sem medida. Eu sempre fui contra essa Seleção, mas pelo menos sei que o Heid é um homem direito, mas esse Ramsés… — ela balançou os cachos e cruzou os braços roliços debaixo dos seios fartos, uma pose bem Savyna. — Não vou ajudar em nada e você não deveria fazer isso.

— Mesmo se houver uma guerra?

— Não vai haver uma guerra porque haverá um outro acordo, algo que não envolva destruir a vida de uma mulher só porque ela tem uma buceta e pode ser fodida.

— Savyna, olhe a boca… — Azra tentou, mas o olhar cortante que recebeu o fez desistir de corrigi-la. Não era hora para palavras polidas.

— Você sabe o quanto alguém pode ser destruído só por isso? Só por ser vendido como uma prostituta pra um rei estrangeiro, que não fala a sua língua e não conhece a sua cultura? Só isso? Ela vai te odiar e vai fazer de tudo para convencer Ramsés de te trair. Além de contar à imprensa o quanto seu futuro imperador não se importa com o bem-estar ou os direitos de sua cidadã.

— Uma voluntária, assim como as trinta e uma são voluntárias por mim — Heid fraquejou, a voz estava entrecortada e mais fina. Azra teria sentido vergonha por ele, se não sentisse vergonha por si mesmo. Estavam levando uma bronca de sua irmã de dezesseis anos que aparentemente tinha mais juízo que os dois juntos.

— Você faz julgamento tão alto de si mesmo… — Savyna revirou os olhos e caminhou até o primo, colocando o dedo acusadoramente em seu peito — Ninguém — ela pausou e cutucou com força — Está. Aqui — mais dois cutucões — Por. Você. — ela pontuava cada palavra sem desviar os olhos do rosto pálido de Heid. — Entenda isso, elas não te amam e não te veneram como uma deus. Provavelmente nenhuma irá se apaixonar por você, mesmo que você venha a se apaixonar por elas. A escolha de vir para cá foi pela coroa e pelo trono de Imperatriz. Você acha mesmo que elas têm a esperança de encontrar o amor com o príncipe, se tinham bem mais oportunidades em suas próprias cidades? O seu problema, primo — e então sua expressão se tornou mais suave, como se a bronca já fosse o suficiente para ele sofrer muito e merecer seu perdão e sua pena. — É que você é inocente demais e fantasia demais a realidade.

— M-mas… — não houve ‘mas’, Heid não conseguiu terminar, nem sequer formular nada.

— E o seu problema — ela se voltou para ele, para Azra, que até agora ouvia de cabeça baixa e com muito constrangimento. — É que você o incentiva. Nenhum dos seus argumentos lógicos vale a pena para destruir a vida de ninguém. Hitler fez isso, e Henrique VII. E muitos outros tiranos. Todos tinham uma justificativa, e no final foram lembrados como somente isso: tiranos.

O silêncio que se seguiu tornou-os crianças de novo, mas Savyna não era o bebê que ele cuidara com tanto amor e tanta atenção, como sua linda e delicada pequena irmãzinha. Não, ela era a irmã mais velha, balançando o dedo e dizendo que ele estava sendo manhoso e bobo e que por isso ficaria de castigo.

— Eu entendo que pensem assim, porque vocês são homens e não entendem isso, mas…

— Você tem razão, Savyna — Heid cerrou os punhos, estava chorando de verdade, mas tentava se controlar com todas as forças. As veias saltavam em suas têmporas. Muita força. — Eu sou um idiota. Eu não sou bom o bastante para ser o imperador. Ninguém deveria colocar esse maldito dever em mim.

E então seu primo desabou, chorando e desistente, sustentado apenas pelo abraço de Savyna, que o consolava baixinho. Azra, que passou os últimos anos no Exército, não conseguia imaginar o quanto Heid havia sofrido com toda aquela pressão para se tornar o herdeiro, nem toda a força que a irmã havia criado dentro de si para ser o único porto seguro que ele tinha. Havia falhado com os dois, fracassara com ambos. Ele cuidou de sua vida e não pensou o quanto precisavam dele ali. Negligenciava seus deveres de família, mais importantes que quaisquer outros, mais importantes que aquele Império ou si mesmo. Abraçou os dois, envolvendo sua irmã, que nunca podia mostrar suas inseguranças, ou então Heid não teria um pilar em que se agarrar, e o príncipe, cuja coroa era tão pesada quanto o céu era para Atlas. Ainda podia se redimir. Ainda podia mudar algo, corrigir um de seus pecados.

Savyna começou a chorar.

No fim, ele próprio estava chorando, também.

E ficaram ali, um enxugando as lágrimas do outro, abraçados e firmes, desgarrados e caídos. Sendo fortes um para o outro, sendo fracos para si mesmos.



Contra seus instintos, não contou nada a ninguém e ficou esperando pacientemente pela noite. Aquele era o seu encontro com o príncipe e faria valer a pena. Mas por que ele estava demorando tanto a vir chamá-la? Contou as horas até às nove e nenhum sinal. Quando desceram para o jantar, seus olhos procuravam pelo príncipe, mas Heid não estava à mesa. Comeu, mas quase não prestou atenção no que havia no prato. Se tivesse amigas ali, lhe perguntariam o que havia com ela, mas não tinha amigas, então foi deixada quieta. Na hora de voltar para os quartos, tentou se demorar ao máximo na sala de jantar, olhando para os lados e para cada espaço escuro que pudesse esconder o príncipe lhe fazendo sinal para se aproximar, mas ele realmente não estava ali.

Mizandre voltou para a sala de chá, voltou para seu quarto e colocou a camisola. Já onze horas, era improvável que fosse convidada a fazer os relatórios agora. Sua criada perguntou se precisava de mais alguma coisa, mas dispensou-a com um aceno e se cobriu.

Ele esqueceu.



Os primos do príncipe vieram até a porta da sala de chá e imploraram a Verônica que deixasse Galaxia sair para brincar com eles. Fazia sol e o clima estava perfeito para jogos ao ar livre. Os meninos queriam brincar de bola com ela e, embora não fosse muito atlética, Galaxia também queria sair um pouco daquela sala, após passar um dia inteiro trancada ali, após o baile do príncipe. Trocou de roupas e colocou uma calça justa e uma camiseta simples, roupas de sua mala e não do guarda-roupa do palácio. Se tudo corresse como da última vez, teria uma tarde agitada, então colocou uns sanduíches de ovo dentro de um guardanapo e levou-os para renovar as energias enquanto estivesse lá.

As crianças, como é próprio das crianças, conversavam animadas na escadas e pareciam implicar um com o outro. Wladimir, mais velho, carregava seu inseparável videogame nas mãos, mas ergueu os olhos quando ela apareceu a porta e sorriu, cumprimentando Galaxia com um “Bom dia, senhorita-milady” que parecia tão treinado que ela quase lhe deu um dos sanduíches e respondeu “bom garoto”. Essas deveriam ser o tipo de boas maneiras que as crianças aprendiam com tutores.

Segurou a mão de Igor e deixou que Wladimir caminhasse a frente, levando-os para o salão principal e depois para uma das portas atrás da câmara especial da família real durante bailes. Quando o palácio não estava cheio de pessoas e música, aquele espaço era apenas uma sala, com poltronas e sofás, uma televisão (coisa que seria muito útil se os canais falassem em idioma comum e não russo) e até uma estante com jogos como xadrez e damas. As crianças entraram por uma porta a direita, adjacente, e acenderam a luz sem se preocupar, como se aquele fosse o lugarzinho deles.

Galaxia colocou a cabeça para dentro e espiou.

Havia duas camas-sofás azuis, opostas, e os lençóis estavam bagunçados. Muitos baús abertos exibiam brinquedos e havia muito mais no carpete. Na parede, um alvo vermelho e branco fora acertado com dardos prateados, mas nenhum chegara perto do centro, e uma televisão estava ligada no canal infantil. Ela tomou um fôlego e entrou.

— Nós estávamos montando isso aqui — Wladimir empurrou uma caixa para seus braços e ela leu as inscrições russas “1000” e percebeu que, pela ilustração, deveria ser um quebra-cabeça. E era mesmo, pois quando Wladimir tirou um lenço de nariz do chão (aparentemente apenas derrubado ali, mas não), revelou o começo de uma construção que irmão e irmão tentaram organizar. — Mas é muito difícil.

— Querem ajuda? — Galaxia ofereceu e Wlad assentiu, mas Igor se sentou em seu colo assim que ela colocou a bunda no chão e ficou ali, aninhado a seu colo.

Galaxia amava crianças, sim, e nunca se irritava com elas. Havia uma inocência e um esforço que nenhum adulto colocava em sua vida, deveria ser a vitalidade de uma existência ainda muito nova, um ímpeto de força e energia que se consumia com os anos. Não queria admitir isso, mas ela mesma se sentia muito adulta para o seu gosto.

O maior problema naquele quebra-cabeça eram as cores muito parecidas. A figura era um castelo aleatório, todo feito de pedras cinzas e com muitas flores. Na fotografia, as flores eram representadas como borrões, o que piorava as escolhas. Nunca bolou nenhuma estratégia para aquele tipo de situação, então apenas foi pela tentativa e erro, o que os pequenos já vinham fazendo há tempos. Quando Igor bocejou e coçou os olhinhos, havia montado apenas mais quinze ou dezessete peças à figura original.

Tédio pairava sobre o trio.

— Isso é muito chato. — murmurou Wladimir.

— O que devemos fazer, então? — Galaxia ergueu sua cabeça e ele abriu um sorriso, satisfeito por ter a escolha. Crianças deveriam decidir por si mesmas o que as agradava, por isso Galaxia nunca forçava uma brincadeira ou atividade, apenas acompanhava os menores em suas próprias aventuras, como uma companheira e não como a dona-da-verdade, como certos professores faziam.

Wladimir escolheu pique-esconde, e o irmão mais novo saltou animado ao ouvir isso. As pernas de Galaxia já latejavam, mas sorriu e seguiu os dois meninos para o salão principal, seria ali o local em que o contador começaria a procurar. Apenas o interior do palácio era permitido, apenas o andar debaixo. Ela, como era alta demais, se ofereceu para contar, pois procurar um esconderijo naquele salão aberto custaria algum tempo e ela só tinha alguns segundos. Quando virou para a parede e começou, ouviu os pés apressados dos dois e risadinhas abafadas.

— Vinte e oito… vinte e nove… trinta! Prontos ou não, lá vou eu! — gritou para que ouvissem e se virou de imediato, pois conhecia o truque de ficar esperando atrás do contador para falar “salvo” bem alto antes que tivesse tempo de qualquer coisa. Mas nenhum deles estava ali. Na verdade, realmente havia alguém esperando atrás dela, mas não era nem de longe uma criança.

— Senhorita…

— Eu estava brincando com os meninos. Estou — falou rapidamente, sentindo um constrangimento subir até seu rosto. Havia gritado alto demais? Havia contado que nem uma louca de cara na parede? O que ele iria pensar?

— Meus irmãos? — ele ergueu a sobrancelha e então abriu um sorriso caloroso, que significava que não a achava uma louca. Dos males, o pior, imaginou. — Mas eu me referia ao seu nome…

— Oh, sim — segurou barra da camiseta (como se fosse a saia de um vestido) e se abaixou com uma mesura educada — Galaxia Omaya, milorde.

— Ah, sim — ele lembrava de uma Galaxia (nome interessante) que Savyna dissera ser muito fofa. — Perdão não me apresentar apropriadamente…

— Tudo bem — Galaxia deu de ombros, e então notou que era um gesto muito descontraído para usar perto de um membro da família real, dentro do palácio real. Mas ela não estava brincando de pique-esconde no Salão de Bailes há segundos atrás?! Que figura inapropriada ela criara para si mesma!

Antes que pudesse se envergonhar mais ainda, Wladimir apareceu correndo e se jogou nas pernas do irmão mais velho, visivelmente não com afeto. Azra tocou a cabeça do irmão, mas ele o afastou e então socou seu joelho com raiva. Raiva! O pirralho achava que era quem?

— Você ‘tá atrapalhando — Wlad disse.

— Eu?! — Azra cruzou os braços, satisfeito em se reduzir ao nível do irmão de dez anos, se fosse preciso. — Não acha que é você quem está atrapalhando a manhã de Srta. Omaya? Arrastando ela para cá a essa hora e obrigando-a a brincar com vocês, seus dois fedorentos?

Nesse instante, Igor puxou a cortina na qual se escondia e fez uma careta emburrada, recebendo as palavras do mais velho com a mesma irritação de Wladimir.

— A-ah, tudo bem, eu gosto de… — mas Azra lhe lançou um olhar tão intimidante que ela se calou na hora.

— Eu odeio você! — Wladimir gritou e saiu correndo para a sala dos brinquedos. Igor o seguiu como um cachorrinho, sem nem mesmo olhar para trás. Ao barulho da porta de fechando, Azra bufou e revirou os olhos.

Galaxia queria sumir dali o mais rápido possível, nunca gostava de ficar perto de brigas de família, ainda mais envolvendo crianças ou irmãos.

— Na verdade, eu gosto de brincar com eles — disse, educadamente.

— Esse não é o problema — Azra abriu os olhos e sorriu, repentinamente gentil — Wladimir tem se tornado cada vez mais rebelde e Igor não sabe ainda diferenciar qual dos irmãos deve ser seu exemplo. Evidentemente sou eu.

Galaxia continuou quieta e seu silêncio incomodou o Sr. Czarevitch.

— Você não acha?

— Bem, eles são muito novos… — falou com cuidado para não pisar em nenhum calo. — E o senhor não está sendo justo.

Azra ergueu a sobrancelha, mas pesou o argumento dela.

— Posso não ser o pai deles, mas tenho todo o direito de corrigi-los.

— Do jeito que fez, não me parece que Wladimir mudará suas ações.

— Ah, não? — agora fora pego de surpresa, ele, o irmão mais velho de Savyna e Heid. — Por que acha isso?

— Senhor Czarevitch…

— Chame-me de Azra.

— Senhor Azra — ela se corrigiu, mas Azra achou uma graça como continuava a parecer toda formal — uma criança precisa sentir que você a entende, mas que ainda é superior a ela para ouvi-lo com atenção. Apenas o respeito mútuo pode gerar uma boa relação entre um adulto e uma criança.

— E eu não fui respeitoso?

— O senhor parecia estar se abaixando a idade de Wladimir para falar com ele, não soou muito superior, apenas desafiador. Isso o fará querer te desafiar ainda mais.

— Ele acertou um soco no meu joelho! — contrabateu Azra, um pouco exasperado demais. Tanto que o silêncio constrangedor de Galaxia o fez perceber que realmente aquilo fora infantil. Meu Deus, ele já tinha quase vinte e cinco anos e o temperamento de Wladimir, de dez! — Certo.

Galaxia sabia que “Certo” era o máximo que homens como Sr. Czarevitch podiam dizer para “você tem razão”.

— Medirei minhas ações no futuro.

Ela assentiu.

— Pois bem, a senhorita realmente estava brincando com eles porque queria?

— Eles me convidaram e eu aceitei — respondeu, pois era a verdade.

— Isso… — Azra não sabia o que dizer, “isso é muito legal” ou “isso é estranho” foram as primeiras frases que apareceram em sua mente, mas uma dama como Srta. Omaya não iria gostar de nenhuma delas — ... isso é muito doce de sua parte.

— Apenas gosto de crianças — Galaxia deu de ombros e se repreendeu de novo por aquela mania horrível. Tinha de parar com esses vícios comportamentais se quisesse ser apropriada para a Corte. E realmente queria continuar ali. — E ficar naquela sala o dia inteiro é tão entediante…

Escapou. O pensamento apenas escapou de sua boca e ela se incriminou colocando ambas as mãos sobre os lábios, os olhos muito arregalados, de horror, de medo, de indignação consigo mesma. O que havia acabado de dizer a ele? Podia dizer algo assim? Não estava visivelmente reclamando de como o príncipe as tratava? Devia ter enlouquecido, se descuidado, estava arruinada, o primo do príncipe diria isso a ele, com certeza, o quão inconformada Galaxia Omaya era, mesmo cercada de luxos em um palácio belíssimo. No qual não posso passear à vontade sem receber uma reprimenda da governanta.

— Você acha isso? — Azra erguia a sobrancelha, daquele modo que Galaxia percebeu ser sua mania especial, assim como para ela dar de ombros era tão natural.

— Eu não deveria…

— Só você acha isso ou todas? — ele parecia curioso — Não há livros ou televisão na sala?

— Há, mas… — então Galaxia suspirou — É como se fôssemos pássaros presos com um balanço e água filtrada, numa gaiola dourada e cheia de cristais. É lindo, tem comida de graça e algo para fazer. Mas ainda é uma gaiola.

— Eu imaginei que fosse — foi a vez dele suspirar — Eu disse a Savyna que as levasse para fazer coisas.

— O senhor…

— … mas claro que ela acha que vai atrapalhar Heid em chamar alguém para um encontro, seria inconveniente demais o príncipe não achar suas pretendentes à disposição — as palavras saíram como tiros e ela notou que aquele tipo de argumento o irritava muito. — Por que não disseram nada?

— Dizer?!

— Sim, por que não reclamaram com Verônica ou Savyna?

— S-Senhor… — “quem somos nós para reclamar de algo”.

Azra ficou muito irritado com aquilo, pois não sabia que as meninas foram trancadas na sala de chá, sem poder sair ou fazer o que quisessem. Havia um jardim, uma piscina, salas de jogos e várias lojas para explorar do lado de fora, ele mesmo queria dar uma volta pois já se sentia enclausurado dentro de Mariyinsky…

— Bem, se meus irmãos podem convidar a senhorita para brincar, então eu posso convidá-las para passear no vilarejo.

Galaxia ficou muito agradecida, mas não percebeu que Sr. Czarevitch se referia a “todas” mesmo, até que ele subisse as escadas e batesse a porta da sala de chá para falar com a governanta. Em dez minutos, estavam todas saindo do palácio, com sorrisos muito mais largos do que quando desceram as escadas para o baile.

Azra ficou chocado em ser comparado a uma criança de dez anos

Notas finais
Então, tudo bom? Faz umas semanas desde a última postagem, hein? Dei um tempo para esperar as festividades passarem, mas como agora já passou (amém), vou voltar a ativa! O capítulo ia ser focado mais nas meninas, mas ficou grande e resolvi postar como uma "primeira parte" antes de continuar. Espero que tenham gostado! Beijos da Lady!