Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
27 O Vilarejo
Notas iniciais
O Vilarejo
Usava calças de corrida e uma camiseta surrada quando Verônica disse que iriam sair para a cidade, com os três primos do príncipe. Para sua própria surpresa, Belle saltou da poltrona e começou a esticar os braços, preparada para fazer uma maratona se fosse preciso, apenas para compensar o tempo perdido dentro daquela sala. Francamente, era para isso que viera até ali? Ficar dias sem fazer nada, esperando que o príncipe se lembrasse de seu nome? Não parecia provável que fosse continuar assim.
Foi a primeira a sair da sala, mas não era a única animada com aquele passeio surpresa. Azra Czarevitch e seus irmãos menores as acompanhariam até o vilarejo, onde poderiam comprar “coisas” que quisessem Para isso, Verônica deu cem euros a cada uma. Era mais do que esperava que poderia ganhar ficando no palácio, todas as meninas caminhavam quase flutuando pelo jardim do palácio, e então pela estrada em direção às mercearias esparramadas. Conforme andavam, as casas iam crescendo e de repente estavam no meio de uma movimentada avenida, com lojas e boutiques. Nada realmente a interessaria ali, mas começou a correr a frente, apostando corrida com sua sombra. Mal teve tempo de olhar para a placa quando passou por uma academia.
E voltou com pulinhos para trás, como se estivesse correndo para a frente. E lá estava, a academia. Pessoas corriam em esteiras, socavam espumas e escalavam a parede. Os músculos de Belle reclamaram, implorando para que ela fosse até lá gastar seu dinheiro com aquilo. Olhou para trás, na avenida as selecionadas se dispensavam em grupos, entrando nas lojas que mais as interessavam. Voltou a olhar para o vidro da academia. Quando seria apenas um dia lá?
— Você vai entrar aí? — olhou por cima do ombro para quem havia perguntado. Era outra selecionada, uma que fazia exercícios tanto quando Belle e que parecia compreender a necessidade por aquilo. — Porque não sei se tenho coragem de entrar sozinha.
— Vou — Belle respondeu e a oriental assentiu.
— Então vamos juntas.
E elas entraram juntas.
Estava muito agradecida por aquele passeio, tanto que disse isso ao menos uma centena de vezes ao primo do príncipe, até ele apenas sorrir com cansaço e Surya compreender que o havia irritado. Então ela enroscou seu braço no de Harumi e foram juntas para uma loja de chapéus. Assim que entraram, a campainha soou e uma mulher muito bem vestida apareceu detrás do balcão para recebê-las.
— Bom dia, senhoritas, como posso ajudá-las?
Surya olhou os chapéus e se perguntou quantos precisaria experimentar até decidir qual iria levar. Harumi, que não estava acostumada àquele ambiente, se sentiu hesitante, mas assim que sua amiga passou a experimentar os chapéus em sua cabeça, ela mesma pegou um que havia encantado seus olhos e o ousou, definitivamente ficava muito bom. Surya poderia demorar mais uma hora tentando se decidir, mas Harumi já sabia com qual ficaria. Ela se sentou em um banco de espera e sorriu, assistindo a dona da loja e a amiga a correrem de uma caixa para a outra.
Alisha beijou a nota de cem euros e a guardou muito bem no bolso. Aquilo era mais do que qualquer um em sua cidade conseguiria em um ano de trabalho honesto. Estava ali fora para fazer compras, mas se encostou em uma sombra e ficou atirando pedras aos pombos, como se fossem pedaços de pão. Aquele dinheiro lhe fora dado, ninguém poderia reclamar se não o gastasse.
Caminhava tranquilamente por uma das calçadas, a sombrinha em uma das mãos e o olhar interessado na vitrine da loja de echarpes. Os tecidos pareciam de segunda categoria, mas tinham desenhos muito bonitos. Anastasiya se inclinou para analisar a costura, quando alguém esbarrou em sua saia e quase a fez perder o equilíbrio. Quase, pois ele teve a capacidade de segurá-la antes que caísse de cara no vidro. A sombrinha quase furou um dos olhos do cavalheiro e ele pediu desculpas com um sorriso divertido, mas Ana o censurou com tanta frieza que até mesmo o sorriso se desfez e ele pediu desculpas novamente, antes de arrumar o chapéu em sua cabeça e se misturar ao resto das pessoas. A russa respirou fundo e esqueceu as echarpes. Aquele passeio era um fiasco.
Ela estava quase dando meia-volta para retornar ao palácio, quando trombou de imediato com a porta que se abriu de uma loja estranha, com brinquedos expostos, mas sem um nome. A pessoa que quase chocou a porta em sua cara carregava duas caixas altas e, penosamente, gemia para sustentá-las. Ana viu o desastre acontecer e ergueu os braços para segurar a caixa menor antes que ela deslizasse pelas outras, em direção ao chão
— Jesus Cristo! — o cavalheiro murmurou e então voltou a cabeça para o outro lado e a viu. — Obrigado, madame. Muito obrigado.
Anastasiya colocou a caixa de volta nos braços do homem e olhou apenas uma vez para as inscrições, em russo. Telescópio. Ele havia comprado um telescópio em uma loja de brinquedos. Piscou, atônita.
— Isso é um telescópio? — seu russo chamou a atenção do cavalheiro, que não escondeu sua expressão assustada antes de pigarrear, visivelmente afastando o nervosismo de ter sido questionado.
— Sim, madame, um telescópio.
— Para o seu filho? — uma criança que se interessava nas estrelas parecia ser uma criança de futuro promissor.
— Ah, não, madame, não tenho filhos. Eu… — ele parou e então falou de novo — O meu antigo quebrou e isso é tudo que consigo adquirir nesse fim de mundo.
— Você vê as estrelas? — elas quase abriu um sorriso, pois nunca havia conhecido alguém que gostasse das estrelas assim como ela.
— A-ah — ele enrubesceu. Sim, estava corando! — Não as estrelas, madame, os planetas.
— Oh, sim, entendo — planetas não eram tão incríveis quanto bolas de gases quentes, mas bastava para cair em alta conta no seu conceito. — Bem, não saia de uma loja sem olhar para fora, antes.
Continuou caminhando, com a sombrinha no ombro, quando ouviu…
— E-espere!
Anastasiya olhou por cima do ombro para o cavalheiro, ele parecia ainda mais corado e ainda mais indeciso quanto ao que falar.
— Posso saber o vosso nome?
— Anastasiya.
— Madame Anastasiya — ele puxou o chapéu com dificuldade, mas parecia determinado a ser educado. — Sou Patrick Rondrov, de Orthy Parke.
É claro que ela sabia que Orthy Parke era um dos condados próximos de Mariyisnky, Deus a salvasse, ele era o Conde Rondrov. Um dos homens mais ricos e mais reclusos de toda a aristocracia russa. Não havia uma família nobre que não falasse o quão o estranho o solteiro conde era, como se fosse um vampiro preso em sua própria mansão. Orthy Parke.
— Milorde — Anastasiya se dobrou, imediatamente. O homem quase derrubou as caixas novamente, balbuciando que ela não precisava fazer nada daquilo, mas Ana nunca falharia com a decência. Quem ela era para não reconhecer um conde?
— M-madame, não é preciso…
— Eu sou Anastasiya Volkova, filha de Lorde Volkov. Estou honrada em conhecê-lo, milorde.
E realmente estava.
— Lorde… — ele estreitou os olhos — Volkov, preso?
— Os erros de meus pais foram reparados no momento em que deixaram de ter a sua liberdade. Não são os meus erros — ela ergueu a cabeça, enfim.
— Então… Lady Anastasiya…
— Não, não, milorde, não me chame assim! Sou a filha de um traidor, não mereço nenhum título, por favor, não perca seu tempo olhando para mim. — ela se curvou novamente — Foi um prazer enorme conhecê-lo, Lorde Rondrov, espero que em circunstância mais agradáveis possamos nos ver novamente.
Quando for a rainha, talvez.
E agora, quando deu as costas e continuou caminhando, o conde não voltou a chamá-la.
Andava ao lado de Azra, ignorando o fato dele diminuir seus passos para ficar por perto. Era muito atencioso que ele se preocupasse com seu bem estar, mas Kateryna não queria que rumores começassem a aparecer entre as selecionadas. O primo do príncipe era o pior dos partidos para se ver envolvida, mesmo que em uma amizade. Ele, no entanto, parecia cego e surdo aos olhares das demais garotas. Quando soube que iriam sair, Kat colocou seu chapéu mais largo passou uma echarpe ao redor da cabeça, escondendo a parte de seu rosto ainda coberta de hematomas. Estava quase recuperada.
Passou na frente de todas as lojas e, quando não entrou em nenhuma, Azra fingiu que estava olhando para uma floricultura e ignorou seu olhar censurador. Quando voltou a caminhar, retornando pela avenida, ele não demorou mais que um minuto para esquecer as flores e continuar a segui-la. Ah, francamente, o que era aquilo? Bufou tão alto que ele ergueu uma sobrancelha.
— Está cansada, Kat?
— Não, não estou — respondeu sem olhar para ele, movendo os lábios ao mínimo, Deus, ele não se importava com as fofocas? Estavam em público, as pessoas daquela cidade estavam todas vendo o primo do príncipe no encalço de uma das suas selecionadas. — E é Kateryna.
— Kat parece muito mais fácil de falar — Azra sorriu, ela podia jurar que ele sorriu, pois o modo como a respiração saiu por sua boca denotava isso. Mas ela não virou a cabeça. Não, nem um centímetro. — Está com fome?
Kateryna parou, no meio da calçada. Ele também parou, dois passos atrás dela.
— Pode, por favor, parar de me seguir? — a voz saiu estremecida, mas os dentes estavam trincados com força.
— Por quê?
Azra não sabia porquê ela não iria querer a sua companhia, afinal ele era muito divertido e atencioso, e havia prometido que cuidaria da filha de Helena de perto.
— Ora… — Kateryna conteve sua irritação e se deu ao trabalho de explicar — As pessoas vão começar a falar se você ficar tão perto de mim.
— Eu pareço interessado em você? — aquela pergunta boa e infantil que a fazia querer dar uns bons tapas em seu nariz! Ora, ela não suportou e virou nos tornozelos, encarando-o como se pudesse metralhá-lo com os olhos.
— Pouco importa para os fofoqueiros o que você realmente está ou não.
— Bom, eu posso estar, então não faz mal parecer que estou — ele deu de ombros, o que a irritou mais ainda, como se fosse possível.
— Ora, seu… garoto.
— Hoje já fui comparado a uma criança de dez anos, não vejo como isso possa me ferir agora. Deve ser verdade se duas damas sensatas me dizem isso — ele sorriu, visivelmente galanteando e Kateryna teve de se conter para não acertar sua bolsa no rosto do primo do príncipe. Isso teria sido divertido, se ela não fosse eliminada logo em seguida. Maldito Azra Czarevitch. — Eu deveria dizer, Kat… você está muito bonita com esse echarpe.
— Morra.
Ela deu as costas e continuou caminhando. E Azra continuou logo atrás.
Aquele pirralho irritante e fedorento havia ganho a maldição daquela briga. Ela jurou que não voltaria a falar com ele durante todo o dia.
Mas precisou gritar que não precisava de ajuda com o sorvete minutos depois.
Pensou duas vezes antes de sair da sala de chá, mas não chegou a ver ele nas escadas e nem na cidade. Estava tão atrás no grupo que conseguiu facilmente se perder no caminho. Graças a Deus, pois Eleonora simplesmente não aguentaria olhar para o rosto dele depois do que havia feito. Ela praticamente abriu seu decote na frente do primo do príncipe e dançou em uma mesa na sala de chá. Meu Deus, onde estava com a cabeça? Havia roubado um beijo de Verônica! Verônica! Eleonora estava convencida de que a governanta era uma boa pessoa por não mandarem açoitá-la. Céus, onde colocou a cabeça para ficar bêbada em um baile no palácio real? Que castigo era aquele, que pecado havia cometido de tão grave?
Ela se escondeu dentro de uma lanchonete e pediu apenas um sanduíche.
— Meu Deus, como você é lindo.
Os pelos de seu corpo se eriçaram e Eleonora pulou no banco, quase derrubando a xícara de café de um senhor que nada tinha a ver com a cena. Ela se virou e viu Joanna com as mãos na cintura e um sorriso muito traiçoeiro no rosto.
— Prazer, Eleonora, sou sua nova amiga.
— Olá — respondeu, ainda transtornada com aquela frase, o começo da crônica que havia citado inteira para o primo do príncipe (cujo nome ela nem se lembrava, Jesus!).
— Sabe, Azra me contou sobre o baile. — de novo Nora saltou no banco — Eu confesso que dei muitas gargalhadas, mas fiquei comovida. Temos algo em comum.
— Ah, é mesmo?
— Sim — Joanna fez sinal para a garçonete e pediu por um uma vitamina batida enquanto dizia — Nós duas sabemos reconhecer bons machos.
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