Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
39 Coisas Que Valem Mais Que o Ouro
Notas iniciais
Eleonora nunca erguera os joelhos tão alto para subir uma escada. Quando chegou ao topo, já estava exausta, mas continuou correndo. Nem mesmo a parede falsa a pararia. Os guardas, se perceberam desespero, fingiram que não era com eles o problema, e mesmo que ela começasse a gritar “rebeldes, rebeldes!”, tinha certeza de que ninguém acreditaria. Estavam no lugar mais seguro do mundo, e aquela era a primeira noite. O que mais seria assustador além de Madame Veronica parada na frente da porta de seu quarto, com os braços cruzados e um olhar ameaçador por baixo dos óculos de leitura? Nora, parou de correr e calculou as rotas de fuga. Com a parede falsa fechada a suas costas, estava em um corredor sem saída presa com a governanta.
— Srta. Astried. — Madame Veronica tamborilou os dedos sobre o pulso, havia uma prancheta em suas mãos, para a qual ela olhava alguns segundos antes. — Estava fora dos quartos após o horário de recolher. Esta é a sua primeira infração desde que nos mudamos, hoje de manhã.
— Estava buscando um pouco de ar fresco — Eleonora tentou abordar aquilo com um sorriso inocente, mas os olhos cansados de Madame Veronica não se desviaram facilmente. — Perdoe-me, Madame Veronica.
— Todos os protocolos foram feitos para que a segurança seja garantida. Você está proibida de deixar o seu quarto enquanto a guarda real estiver nas amuradas. Qualquer movimentação suspeita dentro ou fora da fortaleza será considerada um perigo à segurança de todos. — Nora achava nunca ter visto a governanta tão cansada, mesmo que ela sempre estivesse indo e voltando da sala de chá, supervisionando tudo o que acontecia no palácio. As garotas viram Veronica por alguns minutos durante o jantar. Se era difícil organizar os seus pertences, onde morava em Egon, imagine organizar uma fortaleza de segurança máxima...
— Sim, não esquecerei mais disso — prometeu a selecionada, e assim que passou por Veronica, a governanta marcou um x em seu nome. Ela fizera a chamada de todas as selecionadas, incluindo aquelas que a procuraram durante a tarde para... pedirem a desistência da competição.
Era normal que, uma vez nessas situações, algumas se sentissem incapazes de lidar com os riscos da coroa, mas ela não havia sequer imaginado o tanto de meninas que desejavam voltar para suas casas. Agora ela se perguntava se fora uma péssima governante. Deveria saber de suas angústias, ao invés disso, tratou-as como se fossem princesas acostumadas à vida da família real. Fora arrogante, Veronica assumia isso. Precisaria se retratar com a Rainha antes que suas selecionadas fossem embora.
Veronica pousou a prancheta contra o peito e suspirou.
— Boa noite.
Desejava a todas, e recolheu-se para o seu quarto.
Assim que ouviu os passos da governanta se afastando no corredor, Eleonora relaxou os músculos e despiu o agasalho para vestir o pijama. Era uma malha que ela nunca vira antes, tão quente quanto fina, quase não a sentia sobre a pele. A germanyca deixou suas botas no pé da cama e pulou sobre o edredom. Envolvida pelas colchas e pelos travesseiros, enfim parou para pensar no que seria da sua existência depois daquela noite. Eleonora não se importava com casos de uma noite, ainda mais quando eram apenas uns beijinhos. Mas foi diferente, certo? Sua mente não pensava em Azra como uma pessoa que havia saciado o seu desejo por afeto, comum a todos os humanos, mas como uma pessoa que havia despertado ainda mais desejo. Era perigoso, ela sabia, mas apenas relembrar aquelas sensações... Seu coração não havia acelerado, seus pensamentos continuavam lineares e ela tinha total consciência de tudo o que acontecia nas escadas.
Atormentada pelos próprios pensamentos, Eleonora adormeceu e sonhou com escadas rodopiantes e feixes de luz lunar.
A criada empurrou a porta com o joelho e fechou-a com o calcanhar, equilibrando uma bandeja nas mãos. Quando espiou o que havia ali em cima, Mizandre se horrorizou. Um prato de cereais, um morango cortado, uma caneca de leite morno e... só O seu café da manhã. Ergueu as pupilas para a mulher esperando ouvir sua risada, aquilo só podia ser uma piada. Mas a criada se inclinou educadamente e abriu o baú com suas roupas, procurando as roupas que Mizandre usaria nas aulas da manhã. Aulas sobre sobrevivência em atentados contra a Corte. Até onde ela iria com toda aquela ridícula encenação de perigo iminente e falta de controle do imperador? Eles deveriam estar desesperados. Mizandre podia sentir no ar, era o mesmo cheiro de nobres que íam empobrecendo, perdendo suas terras, sua fortuna, sua glória... Até que a única coisa nobre neles fosse o seu nome. Mizandre fora apaixonada por seu império, por Franca e por todos que havia conhecido. Mas ela não precisava que as coisas começassem a desmoronar para perceber que suas estruturas haviam apodrecido.
Era hora de tomar decisões inteligentes para garantir o futuro. Ela só precisava de poder e riqueza, uma coroa seria o lucro, um marido seria uma garantia. Mas nem tudo se resumia a casar-se com a pessoa de posses certas. Ela precisava garantir que seu marido soubesse administrar e prosperar as próprias posses. Ao invés de apenas ganhá-las dos pais. Mizandre não era uma garota burra atrás de grande fortuna do herdeiro mais tolo do império, se o príncipe se mostrasse um desses herdeiros que levariam a família à ruína, então era melhor ela procurar um novo pretendente. Alguém que pudesse tirar o trono de Heid.
Assim que a criada se retirou do quarto, deixando todas as suas roupas preparadas sobre a cama, Mizandre enfiou a mão por baixo do travesseiro e retirou de lá a carta que havia recebido na noite anterior, assim que chegou à fortaleza. Ela se vira presa no quarto por horas, e levou algum tempo para que se sentisse vencida a se jogar sobre a cama. Sua cabeça amassou o papel sob a fronha. Um selo oficial, caligrafia treinada, tinta tão preta que a lembrava do líquido caro dos artistas urbanos. O envelope tinha relevos delicados, a cor azul marinho e inscrições douradas do endereço de onde viera. No seu interior, um papel amarelado de textura grossa, novamente caligrafia treinada e caneta tinteiro com a tinta extremamente escura. A princípio, Mizandre não entendera nada o que estava acontecendo, o idioma escrito não era o comum. Depois, da metade para o fim da carta, estava escrito em franco o que provavelmente correspondia à mensagem de cima.
Dormir fora um desafio depois do que havia lido. Ela jamais sonharia com uma proposta como aquela, julgou que poderiam ter errado o quarto, mas no final tudo fora assinado e direcionado à Querida Ilustríssima Srta. Merveilleux.
A carta a instruíra a pensar bem antes de ir falar com o príncipe. Sugerira ligar para seus pais. A orar ao seu deus. Seguir o coração. Mizandre não precisava de nenhuma dessas coisas, apenas da voz em sua cabeça dizendo que havia mais lucro do que prejuízo. Mizandre não seria uma traidora, ela jamais faria as coisas às escondidas, se havia alguma forma de se sair bem, seria deixando todas as autoridades cientes de sua decisão, e principalmente a imprensa. O Império inteiro seria grato a ela.
Decidiu-se, enfim, levantando e indo para a penteadeira. Um pouco de maquiagem realçaria seu rosto recém-acordado, poderia prender também o cabelo em uma tiara trançada para sugerir inocência, e o vestido adequado era o branco, claro. Ela precisaria da permissão especial de Madame Veronica para ir até o príncipe, e duvidava conseguir alguma coisa como aquela logo pela manhã. Assim que deixou seu quarto, a franca ouviu os burburinhos das outras selecionadas vindo do corredor falso. Acionou o segredo na parede e se juntou a elas, caminhando lentamente para fora. O Primeiro Anel estava irreconhecível. Os móveis rústicos e meio abandonados foram substituídos por novos conjuntos das marcas famosas de designers italycos, a luz do sol refletia o piso esfregado e a luz voltava ainda mais branca, tornando abrir os olhos um exercício doloroso. Madame Veronica, sentada em uma poltrona de pernas finas, esperava.
— Estão todas acordadas? — ela perguntou quase sem erguer os olhos da prancheta que sempre carregava para todos os lados.
— A maioria, Madame Veronica — Galaxia respondeu, ela normalmente respondia às perguntas da governanta, já que ninguém mais o queria fazer.
— Mizandre e Akame, vão acordar as outras. Encontrem-nos no Quarto Anel.
Mizandre quase deixou escapar um “Eu?!” mas meneou junto da chinesa com quem dividia a tarefa enfadonha. Akame não demonstrava qualquer sinal de descontentamento. A governanta e as selecionadas deixaram o Primeiro Anel, descendo silenciosamente pelas escadas espirais. As aulas seriam no andar dos soldados, que infortúnio. Imagine se elas fossem colocadas para aprender a lutar com outros soldados...! Apenas lembrar do cheiro horrível de suor e terra que os guardas de Mariyinsky tinham deixou-a ainda mais enojada. Antes que desistisse de toda a manhã e fosse de uma vez falar com o príncipe, Mizandre fez sua mente e voltou para o corredor dos quartos, batendo de porta em porta para acordar as dorminhocas.
Por sua contagem, parecia que mais quartos estavam vazios desde a última noite. Ela não fazia ideia de quem eram as selecionadas, mas podia dizer que alguém havia entrado no quarto ao lado do seu. E feito sons horríveis em um violão. Agora estavam todos vazios, exceto um. A garota se recusava a sair da cama. Mizandre colocou um pé em frente a porta e ficou encarando as tentativas vãs de Akame acordar aquela coisa no meio dos lençóis.
— O que você está pensando? — Akame resmungou — Molhar-te-ei de água fria, já!
— Então faz aí — a outra selecionada retrucou, não com toda a elegância da fala treinada da chinesa. Mizandre não havia percebido que Akame era, na verdade, uma das moças mais bem-educadas da Seleção. Ela nunca errava as palavras e tinha uma postura impecável. Mamãe teria gostado de colocar um de seus modelitos nos ombros dela para ver como uma “verdadeira modelo” faria justiça a suas peças. Bem, sua mãe não havia telefonado, as mídias diziam que Sra. Merveilleux se orgulhava da filha e que tinha grande expectativa de que se tornasse a próxima sogra real. Mizandre não se ocuparia em esperar por cartas, também, provavelmente ninguém da sua família sabia que elas existiam.
— Lady Merveilleux, ajude-me com esta paspalha. — Akame lançou-lhe um olhar ameaçador. Ninguém obrigava Mizandre a fazer nada, por isso deu de ombros.
— Deixe-a aí. Dizemos à Veronica que tentamos. — Mizandre fez menção de sair do quarto, mas Akame a chamou com um assobio ríspido. Aquela foi a coisa mais grosseira que alguém já fizera para Mizandre. — Eu não sou um cavalo! — bufou — Virem-se sozinhas.
E realmente deixou o quarto.
Akame apoiou ambas as mãos no colchão e se apunhalou no abdômem mentalmente. Ela às vezes esquecia que não estava mais em Hanya e que as pessoas naquela parte do mundo tinham costumes completamente diferentes. Respirou fundo, antes de voltar à tarefa em que tinha responsabilidade. A selecionada não queria sair da cama, e já fora avisada sobre esse tipo de comportamento. Akame foi até o banheiro e pegou um jarro de flores da janela. Colocou os ramos delicadamente sobre a pia e encheu o jarro com mais água. Depois voltou para o quarto e jogou a água sobre a garota.
Ela se levantou num salto, feito gato. Os olhos seriam capazes de atravessá-la como espadas, mas Akame teria sido mais rápida, pois já havia lhe dado as costas para sair dali.
— Dez minutos, Madame Veronica está esperando no Quarto Anel. Já.
Harumi piscou os olhos muitas vezes antes de entender as explicações do oficial a instruí-las. Enfileiradas e sobre seus sapatos, as selecionadas o encaravam, algumas entediadas até a morte, outras desnorteadas como ela, e alguns poucas tão empolgadas que poderiam dançar um minuano. Surya, então, quase dançava com os pequenos saltinhos no lugar. Madame Veronica anotava tudo que o oficial dizia, desde as maneiras mais fáceis de morrer em um combate desarmado até como fazer um homem com o dobro do seu peso parar de respirar em poucos segundos. Harumi ouvia aquilo e se perguntava se seria capaz de colocar em prática qualquer uma daquelas coisas.
Ela procurou a própria animação que normalmente tinha para fazer qualquer coisa, mas não encontrou um pingo sequer. Estava seca, porque não conseguia parar de pensar que aquilo seria usado contra pessoas. Pessoas que queriam matar todos naquele lugar. Apenas a ideia já lhe dava arrepios. Harumi conhecia muitas pessoas ali e não podia ignorar a sensação de perigo iminente. Suas amigas Surya e Galaxia estavam nessa lista de alvos, mas nenhuma das duas merecia aquilo. Eram tão gentis, bondosas e legais... outras selecionadas também eram. Joanna era legal. E Kateryna também fora legal nos últimos tempos. Madame Veronica era uma das mulheres que Harumi mais admirava. E sem contar o príncipe, seus primos, o rei e a rainha...! Ninguém ali tinha de ser alvo de rebeldes. Na TV todos os dias novas notícias sobre os protestos a deixavam mais inconformada. Harumi participara de muitos protestos quando frequentava a universidade, mas nenhum deles havia pisoteado moradores, quebrado vitrines de lojas, roubado mercadorias e ateado fogo a carros. Ela se lembrava dos protestos como movimentos de libertação e união entre os protestantes.
Aquilo que exibiam nas telas não eram protestos, eram rebeliões. A princípio ela não fora tão contra os rebeldes, conseguia entender os seus motivos, as suas filosofias, e as causas pelo que lutavam. Mas a cada dia ela perdia esse otimismo e passava a concordar com os guardas e os outros membros da Corte: os rebeldes eram baderneiros que só conseguiam ver a violência como forma de mudança. Harumi se perguntava como estavam as coisas para seus pais no Leste Asiático. Normalmente nada atingia intensamente as comunidades asiáticas quando tinha relação ao exterior. Mas quem poderia dizer?
— Caminhadas noturnas são proibidas, ninguém sairá dos quartos depois das nove horas. Os jantares serão feitos em cômodos separados entre as selecionadas do oriente e as selecionadas do ocidente. Todas as vezes que saírem do corredor, estejam acompanhadas de Madame Veronica ou de algum guarda. Não será permitida visitas ao Segundo Andar. Recusem qualquer pedido de fotos. Não confiem nos nobres, não passem informações pessoais a ninguém, não saiam com guardas que não estejam uniformizados ou que pareçam suspeitos. E, principalmente, e espero que isso seja lembrado pelo bem de todas, se virem algum hindu caminhando no Primeiro Anel, informem a um oficial imediatamente.
A lista de coisas que precisavam saber apenas aumentava. Harumi não tinha certeza se no fim do dia ela teria direito de alguma coisa. Madame Veronica anotava as orientações em sua caderneta, hora ou outra olhando para as selecionadas e distribuindo pedidos silenciosos para que prestassem atenção. Harumi notou que Surya estava mais quieta agora, após o primeiro momento de animação, a hindu havia se entediado. E provavelmente era difícil para ela ouvir alguém sendo tão maldoso quanto a seu povo. Os rebeldes vinham de todos os cantos do Império, mas dizia-se que o centro de comando estava em Hindu.
— Aquelas que tiverem parentes entre os nobres têm permissão para uma visita de uma hora diariamente, mas as refeições serão feitas sempre no Primeiro Anel, em separado.
Surya não sabia o que fazia com os seus pés. Talvez ela não tivesse entendido totalmente o que aquela aula significava. Agora tudo estava claro. Uma fortaleza, milhares de guardas, soldados e militares, os nobres, as rugas nos olhos da governanta Veronica...! Tantas coisas acontecendo de repente, e um dia antes ela estivera sentada em frente à TV assistindo a um episódio de uma novela franca junto de Galaxia e Harumi! Aquela manhã ela tentara ser positiva, ignorando o medo do desconhecido, mas agora tudo estava finalmente se tornando realidade.
— Todos os dias haverão horários em que a livre circulação será permitida. São — ele limpou a garganta — A hora do chá, no final da tarde. Aula de violino e viola de arco, após o almoço. Jogos de tabuleiro e a hora do fumo para os cavalheiros, após o jantar. Todos esses eventos serão realizados no Primeiro Anel, então não haverá necessidade de que as senhoritas pensem em descer as escadas — os olhos do militar eram como os de um falcão mongol.
Surya tinha a sensação de que os guardas não gostavam especialmente dela, desde que chegara à fortaleza, era como se eles demorassem mais para se certificar de que ela era apenas mais uma selecionada andando na fila. Madame Veronica as alertara sobre um esconderijo rebelde na floresta de Mariyinsky e disse que havia infiltrados na guarda, por isso todos os guardas suspeitos foram afastados ou mantidos em Versalhes. Mas ela começava a achar que, na verdade, eles tinham tirado todos os hindus que não estivessem estritamente relacionados ao Império de dentro da Corte. Ela viu os nobres hindus chegando em caravanas com servos e flautistas, mas não chegou a encontrar outro rosto parecido com o seu nas próximas horas, nem os guardas a quem já estava familiarizada, todos pareciam novos. Novos guardas, nova fortaleza, novas camas. As camas dali não eram macias como as de Mariyinsky.
— Nós começaremos agora um treinamento de evacuação. — o oficial deixou seu lugar na frente de todas e as guiou para fora da sala. Madame Veronica caminhava ao seu lado. Surya não queria mais estar naquela aula, foram as horas mais entediantes que já havia enfrentado até aquela competição. O oficial parou-as nas escadas. — Imaginem que há sirenes ecoando e soldados gritando para que corram para o abrigo. — ele apontou uma parede — Haverá guardas com armas em cada um desses pontos, prontos para atirar em suspeitos. Agora sigam-me.
Desceram mais escadas, até alcançar o nível térreo da fortaleza. Madame Veronica as orientava a permanecerem em movimento, sem empurrar umas às outras, de preferência com os braços cruzados em frente ao corpo. Saíram para a luz do dia. As ondas do mar estavam a apenas alguns metros, o solo de pedras cinzentas machucava as sapatilhas finas de Surya, e agora um vento audacioso soprava suas roupas até alcançar os ossos. Muito, muito frio. O oficial continuou caminhando, ele ia em direção a terceira ilha do arquipélago, a menor, que possuía apenas uma pequena elevação sobre seu solo. De noite, a ilha provavelmente era submergida. Madame Veronica notou que o oficial começara a correr, e incitou todas a fazerem o mesmo.
Aquele treinamento parecia real, esquecendo o fato de que não havia sirenes ou soldados gritando. Quando todas chegaram à ilha, as barras de seus vestidos estavam ensopadas por causa do vento e das ondas. Surya tinha a impressão de ter perdido uma sapatilha, embora seus pés estivessem tão duros que seria impossível ter certeza. As selecionadas tremiam e se abraçavam. A mão de Harumi tocou seu ombro e ambas lentamente se encostaram uma a outra.
— Quando for a hora, esta porta estará aberta e as levará até o bunker. Quem não chegar aqui em três minutos a partir do momento das sirenes ficará preso do lado de fora. — as selecionadas arregalaram os olhos.
— Nós podemos ver como é o bunker? — Madame Veronica sugeriu.
— Eu nunca mostraria a senha a nenhuma das selecionadas — o oficial para ofendido, e a governanta meneou com um leve rubor de envergonhamento.
— Vamos voltar para a fortaleza e repassar todas as regras.
Surya agradeceu Madame Veronica por tirá-las daquele vento monstruoso. A fortaleza de repente parecia um lar aconchegante. Até que precisassem subir todas aquelas escadas mais uma vez. Suas panturrilhas ardiam. Quem é que teria construído aquele lugar no meio do nada? Será que fazia parte de alguma construção do Velho Mundo ou de algo feito pelo Império? Surya não sabia diferenciar. No Primeiro Anel, a governanta as juntou nos sofás e poltronas para começar a recitar tudo o que o oficial havia dito. Sua caderneta de anotações fora preenchida de notas.
— O horário de dormir deve ser respeitado. — ela caminhava de um lado para o outro, falando. — Ninguém deve deixar o corredor sem um acompanhante oficial.
Harumi cutucou seu joelho.
— O que acha de tudo isso? — sua amiga perguntou fingindo que não estavam distraídas, mantendo os olhos em Veronica.
— Assustador.
— Eu sei. Parece que somos o próprio inimigo — ambas concordaram em silêncio — Agora que temos quartos separados, estou me sentindo ainda mais sozinha. Eu quero voltar a dividir os quartos.
— Eu também. — Surya falava a verdade, as noites em Mariyinsky eram muito mais divertidas.
Madame Veronica falava sobre as restrições de vestimentas que teriam a partir dali, quando de repente ficou muda e olhou para as escadas. Todos os olhos das treze selecionadas também se voltaram para quem subia os degraus, um por um, pesarosamente. Ao fim, a mulher respirava com dificuldade, exausta. Não era uma das criadas a que estavam acostumadas, mas também não se vestia como uma lady. Surya piscou os olhos, reconhecendo os braços gordos e as sobrancelhas franzidas.
— Samir? — a hindu se levantou.
Samiram ergueu o rosto e limpou a gota de suor que queria escorrer por sua testa. Sem pensar duas vezes, Surya correu para abraçar a ama que não via há quase duas vidas. Os braços de Samir eram confortáveis como os de uma mãe. A ama balbuciava em hindu o quanto havia sentido a sua falta.
— Você está bem, na’Surya, está?
— Estou, Samir! — Surya não conseguia tirar sua cabeça do peito da ama, queria ficar ali por horas. — Senti tanto a sua falta! E Jasin?
— Com os outros criados — a ama explicou. Ela e Jasin sempre cuidavam de Surya quando a menina estava na casa do tio. — Eu vim rápido, não me demoro aqui.
— O que há? — Surya notou uma leve preocupação nos olhos de sua ama. Ela olhava por cima dos ombros da garota, para a governanta e o grupo de selecionadas que ainda as observavam em silêncio.
— O que há em você! — Samir de repente reparou no estado da menina — Parece que atravessou uma tempestade. O cabelo! E o vestido! Está tão gelada!
— Não há nada, não há nada — Surya precisava garantir.
— Bem... não devo demorar nem um pingo mais, pois preciso voltar para o quarto dos criados. Ao entardecer, Lady Maya estará na sala de chá, esperando.
— Sim, sim, vou vê-la — prometeu com seu sorriso ensolarado que fazia o pobre coração maternal de Samiram derreter.
Elas se abraçaram mais uma vez e, quando a ama enfim desceu os dez primeiros degraus, Surya voltou para junto dos sofás. Madame Veronica repassava as regras como antes, agora em um tom mais baixo. Harumi segurou seu braço assim que se sentou ao seu lado.
— Quem era ela?
Surya sorriu.
— A minha segunda mãe.
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