Sangue de Mármore - Fanfic Interativa

40 Coisas Que Valem Mais Que a Coroa


Notas iniciais
Boa leitura!

As casas em Brittanya não tinham porão tão espaçoso como aquele. À primeira vista, o Sexto Anel era uma câmara escavada na pedra do fundo do mar, em que a ilha inteira nascia. Lá, as paredes estavam úmidas e qualquer buraco teria causado a morte de centenas de criados que trabalhavam sem parar desde as cozinhas até o ambulatório. Quando elas chegaram à ala hospitalar, Sarah insistiu para que fossem embora, e ela deveria estar certa. O lábio cortado de Katherine não se comparava aos problemas dos outros ali.

— Minha criada pode arranjar a pomada — Kath concordou e as duas deram as costas ao corredor. Mas Sophie não achava um lábio cortado tão sem importância. Não quando sua melhor amiga estava enfrentando o período probatório de noivado. Se o seu noivo a visse naquelas condições, poderia alegar tantas coisas que nem mesmo os cofres da família Rothesay comprariam boas desculpas. E Sophie sabia o quanto o herdeiro dos Somerset adoraria arranjar um outro defeito em sua pretendente. O futuro de Kath dependia daquela pomada.

Sem dizer uma palavra, Sophie desviou da fila de pacientes do hospital e se espremeu entre a porta e uma mulher com um buraco horrível no ombro. Provavelmente causado por um disparo. Assim que se distanciou e olhou para a moça, ela lhe devolveu o olhar azedo e praguejou em bretão. O fato de ser uma conterrânea só a tornava mais assustadora. Sophie não chegara a ver os conflitos entre rebeldes e nobres porque estivera protegida em sua casa de campo, estudando franco e aprendendo a andar a cavalo, atividades que seu pai achava imprescindíveis para uma dama. Graças aos hábitos dele de se intrometer em sua criação, Sophie chegara ao refúgio com todos os membros no corpo e sem ter olhado para o rosto de nenhum rebelde imundo e raivoso. Katherine fora infeliz. Ela estava em Londres e precisou ver tudo.

Mas aquela mulher não faria em nada para melhorar seu dia, então a ignorou. A sala de atendimentos virara uma sala de descanso, com muitas camas brancas, umas do próprio hospital, outras improvisadas, pelos cantos. Graças ao Senhor, as enfermeiras fizeram a bondade de cobrir os moribundos com lençóis grossos. A única coisa que realmente incomodava ali era o cheiro. Cheiro de carne podre e de pus.

— Com licença, se não fosse um grande incômodo, desejo uma pomada para cortes superficiais na pele. — ela se inclinou sobre uma moça que trocava o soro de um paciente. Provavelmente alguém hindu.

— Estou ocupada — a enfermeira a respondeu e logo virou para atender ao leito de outro.

Bem, todos estavam. Se a enfermaria servia para todos do refúgio, então ninguém se importaria se ela pegasse a pomada por si mesma. Havia um armário aberto, seus suprimentos quase saqueados a cada momento que uma nova enfermeira pegava uma agulha ou bolsas de soro. Havia um estoque de pomadas, e pelo idioma comum Sophie podia ler seus nomes. As marcas não eram as mais confiáveis, mas se estavam no mesmo lugar em que o Imperador dormia, elas tinham que fazer milagre naquele momento.

Em Brittanya existia uma empresa, muito popular entre os nobres, cujos produtos surtiam efeito em apenas cinco horas. Espinhas, cicatrizes, sardas, queimaduras... Qualquer coisa desaparecia como se nunca tivesse existido. Sophie lamentava não ter se lembrado dessa trivialidade enquanto corria para o carro, para fugir da ilha.

Ela pegou a pomada e deu as costas para o armário. A sala toda em caos permitia que sua passagem fosse invisível. E quando precisou novamente se espremer na porta, empurrou um idoso que mal erguia os olhos do chão. Nas escadas, Katherine e Sarah debatiam arduamente quem iria voltar para buscar a amiga “estranha e inconsequente”. Assim que apareceu aos olhos delas, ambas se calaram e fizeram uma pose de “o que você acha que estava aprontando?”, muito comum às mulheres britânicas.

— Por que demorou tanto para nos seguir? — Sarah falou primeiro. Agora que as três voltavam para os andares acima do solo, o ar parecia ganhar um novo peso. O peso do silêncio e da pureza.

— Tome — Sophie respondeu entregando a pomada para Kath. A duquesa olhou a caixa com uma sobrancelha angularmente levantada.

— Essa marca não presta. — Katherine parecia prestes a jogar a caixa para o lado e fingir que ela nunca havia aparecido em suas mãos.

— É melhor do que nada.

— Nós já não temos nada. — Sarah as lembrou.

— Pare com esse melodrama campestre, estou farta de conviver com duas fazendeiras. — Katherine sempre as acusava de serem ‘do campo’ quando algo a incomodava. Sarah ficava muito ofendida em ser chamada de fazendeira, mas Sophie se acostumara a comentários piores.

Elas subiram as escadas e voltaram para o Segundo Anel.

Algumas moças subiam ainda para o Primeiro Anel, aproveitando a oportunidade do dia para um chá e, quem sabe, ver o príncipe. As três garotas também queriam participar do chá, não estavam no horário apropriado para isso, mas ninguém pensava em chá quando se podia conhecer o herdeiro do império. Sophie, no entanto, não reclamaria de um bom chá britânico.

Sophie lembrava-se da expressão da duquesa quando a criada trouxe as orientações sobre o que estavam permitidos a fazer e o que estavam proibidos até mesmo a pensar. Por algum motivo, ela tinha esperanças de conseguir um bom partido para a afilhada naquele meio-tempo. É claro que nobres como ela pensavam em cada acontecimento como uma oportunidade, ainda melhor que todos os nobres importantes estivessem sob o mesmo teto. Katherine ao menos tivera a chance de conhecer seu noivo durante anos nos bailes da sociedade em Londres, e eles até podiam dizer que eram primos de quarto grau. Sophie acreditava que suas oportunidades nunca passaram de jovens despretensiosos que viam em sua fisionomia uma “aventura diferente”. Certa vez, enquanto caminhava pelo salão da Casa Farrow, encontrou seu não-irmão por acaso, ambos indo pegar um copo de limonada. Arthur ergueu uma sobrancelha ao olhar para ela e bebeu o suco com o canto da boca, fazendo questão de deixar Sophie incomodada. Ele era terrível e seus modos não condiziam em nada com a mãe extremamente atenciosa e exigente que tivera.

— Você não deveria dançar com caras como Richard. — Arth olhava para as pessoas no salão sem se demorar sobre nenhuma.

— Por que não? Ele é rico.

— Ele não vai casar com você. — Arthur terminou a limonada em apenas um gole. — Olhe para a sua cara e para a cara das moças que ficaram noivas ano passado. Você não está na lista de pretendentes, Soph.

— Se eu fosse recusado por três damas nas últimas temporadas de Londres, eu me preocuparia primeiro com isso, e não com a afilhada da minha mãe.

— Estou agraciado por não ouvir a palavra “irmã” sair da sua boca. — Arthur sorriu com os dentes a mostra feito presas, ele achava que mulheres que o respondiam a altura eram mau partido. Bom para elas.

— Eu não me faria esse perjúrio.

Mas, é claro, Arthur estava certo. Moços como Richard não pensavam em moças bonitas muito além dos bailes e das salas escuras para onde poderiam seduzi-las. Sophie não era tão estúpida, claro, mas conhecia jovens que eram. A própria Sarah talvez fosse, e isso a preocupava. Que tipo de criação os pais dela pensavam em dar, sabendo desses perigos? Será que eles fechavam os olhos para a possibilidade ou apenas rezavam para que sua filha engravidasse de um duque ainda mais rico e mais influente que eles? Se a gravidez fosse a forma mais eficaz de amarrar algum pretendente, Sophie tinha certeza que a nobreza britânica já teria arranjado uma forma de tornar isso moral e elegante.

Seu não-irmão, e graças a Deus todos aqueles amigos frívolos que ele tinha, não estavam no Primeiro Anel. Após aplicar uma camada de pomada sobre a cicatriz (e de jurar a Kath que não havia marcas), elas se juntaram ao salão do Primeiro Anel para o chá. Havia tantas mulheres com tantos rostos diferentes que demorou um pouco para encontrarem a “ala britânica”, onde as damas brancas como leite e avolumadas por camadas incontáveis de seda e renda se sentavam. Algumas damas eram mais elegantes que as outras, algumas sorriam para cumprimentar as conhecidas, outras ignoravam qualquer possível rival naquele campo de batalha matrimonial. E, claro, as mães casamenteiras sentavam-se nos sofás mais despojados, todas muito imersas em discutir qual o melhor partido de toda a fortaleza e quem teria mais chances de domá-lo.

Certa vez, Sophie pegou a madrasta conversando com uma amiga de longa data na sala de visitas da Casa Lancaster. Ambas falavam de homens, obviamente. Mas não a conversa normal de mulheres casadas, havia uma diferença gritante daquela vez: falavam de homens solteiros. Soph não notara o quanto sua madrasta estava envolvida com a sociedade até aquele momento. Lady Angelica conhecia muitas duquesas e condessas, fora amiga de quase todas durante a juventude, e adorava saber sobre as filhas. Desde o dia em que se tornou legalmente a protetora de Sophie, Lady Angelica tomara medidas desesperadas para corrigir a menina da forma que podia. Mas nunca obteve sucesso. Sophie acreditava que havia vencido, que a madrasta nunca mais se meteria em sua vida, e tudo o que uma garota de dezesseis anos acha que conquistou.

Mas Lady Angelica estava convencida de outra coisa.

— Acredito que será um sucesso, todos irão comentar. — Lady Angelica falava em seu tom animado — Posso providenciar uma nota no jornal.

— Alarde demais não causa uma boa impressão, Angie. Faça como a minha Beatrix e deixe que as coisas sigam o fluxo. Bea só teve uma temporada.

— Bea era uma pérola. — concordou Lady Angelica, que adorava paparicar as amigas. — Mas Sophie é tão tímida... alguém precisa falar em seu lugar.

— Eu posso falar sobre ela no baile dos Farrow. Conheço a mãe de alguns bons pretendentes. Conhece os Condes de Stewart?

— A família nova? — Lady Angelica torceu o nariz. Sophie conhecia os novos Stewarts, uma família escocesa que tinha dois patriarcas vivos, oito filhos e três filhas. As idades na família variavam dos noventa anos aos seis meses. Isso fora uma novidade impressionante em Londres desde o nascimento das quadrigêmeas dos Farrow. Todos se referiam aos Stewarts como “Os Numerosos e Caóticos”, mas todos os Stewarts que Soph conhecera eram gentis e muito conectados com a família. Quase como seu pai era com ela. — Não estou desesperada, Mary, a Angie consegue um bom pretendente britânico sem precisar se misturar com aqueles fazendeiros.

— Você é uma garota do campo, não se esqueça disso, Angie — a duquesa sorriu complacente para a amiga. Sophie achava todo o diálogo um monte de besteiras.

— Sim, mas existe diferenças entre o campo de Lancaster e o campo selvagem da Escócia. Até mesmo o nome é apropriado. Escócia, escória.

A duquesa deu uma risada obscena e ambas as senhoras fingiram que nunca haviam dito aquilo.

Sophie podia entender os Stewarts, porque ela própria já fora uma forasteira certa vez. Até que os britânicos se acostumassem com seu rosto, ela ouvira vários apelidos, alguns ditos em sua presença, outros apenas escritos no jornal.

Ela sabia das chances de conseguir um bom pretendente ali, mas também conhecia a situação em que estava. Vida ou morte. As três amigas se sentaram junto das moças solteiras, unindo-se à conversa que já acontecia.

— Não faz sentido, ela nunca vai ganhar.

— Ninguém pode escolher as coisas do coração, Stella.

— Eu atiraria no coração do homem que se apaixonar por uma moça com aquela aparência.

— Vocês são tão maldosas.

— Diga-me que ela tem um rosto belo! Diga!

— Eu não quis dizer...

— Não sejam tolas, o príncipe tem de agradar o povo também. A imperatriz também não é bonita, mas o povo gosta dela.

— Que horror casar-se com alguém para agradar outras pessoas que não se importam com quem eu vou acordar de manhã.

— Eles dormem em camas separadas.

O trio se entreolhou, parecia que as discussões estavam acaloradas hoje. Algo que Sophie aprendera com seu pai fora não se meter nas discussões de britânicos. Você sempre vai sair pisoteado e sem moral na sociedade. Katherine adorava fofocas como aquelas, e se juntou facilmente ao debate. Durante todo o mês, Londres inteira só falava sobre a Seleção e sobre as selecionadas britânicas. Infelizmente, as meninas eram todas da região industrial e acabaram indo embora cedo. Sem suas mais próximas concorrentes na liderança, os nobres britânicos tiveram a liberdade de escolher suas favoritas, e isso significava, brigar por suas favoritas. Assim como eles vibravam por futebol e golfe, conversar sobre a vida dos outros era um dos aspectos da rotina britânica. E isso Sophie aprendeu também com seu pai. Nunca se meta na rotina de fofocas de alguém.

Um pouco abandonada por sua própria vontade, Sophie resolveu apreciar o ambiente com olhos mais atentos. Apenas damas, ladies e criadas. Nenhum homem. Era comum que os cavalheiros não apreciassem a hora do chá. No canto da sala, talvez tão escondidas por todo os barulho das italianas e das francas, um grupo mais diversificado de moças conversavam lentamente. Demorou algum tempo para que Sophie compreendesse porquê as achava familiares. Eram as selecionadas que vira nas capas das revistas e na cobertura da televisão durante o primeiro dia em Versalhes. Era de se esperar que elas estivessem mais animadas, sorrindo para todos os lados. Elas... não eram o melhor que se podia chamar de pretendentes do príncipe. E o número também parecia irreal. Menos da metade de meninas desde o começo do mês.

— Ah! Mizandre! — um grito alto de histeria cortou todas as demais conversas. Uma moça do círculo franco agitava os braços no ar como um frango e gritava o nome da selecionada — Mizandre, me voilà! Rappelez-vous votre ami Anne’Licci!

Mizandre Merveilleux, filha de uma estilista e de um CEO multiempresário de Franca, cruzou o espaço entre as poltronas com um balanço equilibrado sobre os sapatos cravejados de pedras brilhantes e abriu os braços na representação mais bem-feita de Nossa Senhora.

— Comment pourrais-je oublier votre beauté? — dois beijos em cada bochecha e elas começaram a conversar animadamente em franco. Sophie adorava ouvir outros idiomas na boca de seus nativos, e o franco era uma língua especialmente bonita. Ela fingiu estar entretida com suas amigas ainda no debate de quem era a melhor selecionada, mas com os ouvidos prestava atenção à conversa das duas garotas histéricas.

Mizandre achava que nada poderia piorar, e então apareciam cem nobres em um lugar que deveria ser de paz e tranquilidade. Ela teria ficado em seu quarto de bom grado, se isso não a impedisse de ir falar com o príncipe em algum momento. Poucas coisas eram capazes de sufocar a vontade de Mizandre por atenção e multidões, e isso era... atenção e multidões.

Verdade seja proclamada, Mizandre não sabia quem era aquela tal Anne’Licci, e mesmo que soubesse, havia se esquecido e não desejava lembrar. Mas as imagens precisavam ser mantidas. As francas eram nobres com grande influência no meio político porque diziam tudo o que as pessoas queriam e não queriam ouvir. Assim como agora, quase berravam a altura das italianas.

— Eu e minha mãe adoramos a sua sessão de fotos da coleção de inverno, eu especialmente comprei todas as cores do cardigã!

— Até o laranja? — Mizandre riu de leve, como se laranja fosse uma cor engraçada.

— Sim, acredita?! Quem usa laranja nesses dias?! — Anne’Licci exclamou uma gargalhada esquizofrênica, levando mais algumas galinhas a cacarejarem juntas.

— Antoniette, você sabia que eu e Mizandre fomos madrinhas de casamento da modelo Paola Pavarotti? — o rosto de surpresa de Antoniette deixou Anne’Licci salivando de felicidade — Nós jogamos as pétalas de rosas para que Paola andasse numa passarela, nós fomos na frente dela!

— Que maravilhoso, na mesma passarela que uma modelo!

— Duas modelos! — Anne’Licci apontou Mizandre e a outra garota cobriu a boca com ainda mais descrença.

— Isso é o dobro maravilhoso!

— Não é?!

A mãe de Anne’Licci segurou sua mão com um movimento suave, era quase como se requisitasse a atenção de Mizandre. As adolescentes que conversavam se calaram, ambas pareciam muito inconformadas com o fato de perderem a atenção da selecionada.

— Como vai a sua mãe, menina? — a nobre perguntou, nada surpreendente quando tentavam se meter em sua vida com perguntas estranhas.

— Imagino que esteja terminando a sua exposição em Veneza agora.

— Eu ouvi dizer que sim. — a lady meneou — Você conhece a Grã-Duquesa Viúva? — com um movimento de cintura, ela abriu espaço para que Mizandre visse uma outra senhora sentada na poltrona ao lado. — Ela é a nossa mais especial integrante hoje.

Mais especial? Mais especial que uma selecionada do príncipe herdeiro? Mizandre fez uma mesura cortês para a Grã-Duquesa, perguntando-se porque não haviam dito de onde ela era Grã-Duquesa. Talvez isso não fosse especial, afinal quantas Grã-Duquesas existiam em todo o Império? Seja como fosse, a mulher deveria ser a mais antiga de todo o grupo, seu rosto lutava contra as rugas, embora fosse bonito e bem tratado. Seus cabelos tingidos de vermelho sangue não conseguiam esconder totalmente as raízes brancas e seus olhos, do azul mais claro que Mizandre já vira, caíam sobre as bochechas como se ela soubesse com todas a textura e flexibilidade da palavra o que era chorar.

— Encantada em conhecê-la, Grã-Duquesa. — Mizandre se curvou novamente ao reconhecer que talvez estivesse na frente de alguém muito importante.

— A Grã-Duquesa é a sua fã número um na Seleção, Mizandre! — a mãe de Anne’Licci cortou-as — Ela veio todo o caminho de Paris até aqui falando sobre você.

— Sinto-me honrada. — o sorriso de Mizandre não tocou nem um pouco a expressão fria da Grã-Duquesa. A velha bem podia ser surda.

— Você queria dizer algo à Mizandre, não queria, mamãe?

Oh, Mizandre olhou de lady até Grã-Duquesa e reconheceu as semelhanças. Estava sentada com uma família inteira de matracas francas. E a matriarca ostentava-se sobre suas crias, respeitosamente. Agora começava a compreender.

— Ela não gosta de lugares muito cheios... É a idade, é claro, nós costumávamos ir a muitos bailes. — a lady desculpou-se após o silêncio constrangedor.

— Eu entendo — Mizandre sorriu de lado. — Lady...

— Lady Voux.

— Lady Voux... foi um prazer conhecer a sua família e conversar com a sua adorável filha, mas agora devo voltar para junto das minhas concorrentes.

— Não há por quê, elas estão todas entediadas! — Anne’Licci tentou puxar a mão de Mizandre mais uma vez.

— Anne tem razão, você ficará mais a vontade conosco. Somos da sua pátria, não é mesmo? — Lady Voux quase tomou a outra mão da selecionada. Mizandre sentia-se presa.

— Ora, devemos pedir mais bolinhos, esses já estão frios!

— Chame a criada, Antoniette! — Antoniette se levantou rapidamente para obedecer a ordem.

Por todos os lados, mãe e filha íam dizendo o quanto precisavam de Mizandre ali, o quanto ela precisava ficar ali, e então continuaram falando sobre as coisas que adoravam em Franca e como as pessoas dos outros lugares eram tão frias e entediantes. Mizandre temia que se as contradissesse, elas a levariam pelo mau lado, e pensariam que ela não gostava de Franca. Os francos deveriam amar sua pátria, acima de todo o Império, para que pudessem se chamar francos. Mizandre pensava assim quando chegara em Versalhes para a Seleção. Após um mês convivendo com tantas meninas de todos os lugares do Império, ela parara de pensar em Franca e começara a pensar nos outros países, curiosa sobre cada um. Sobre suas riquezas e suas formas de ascender. Era interessantíssimo como se podia ter um título totalmente diferente em Hindu e no Oriente. Em Arabyka os nobres chamavam-se de príncipes! Franca ainda era um país maravilhoso, mas agora era apenas mais um.

E ela precisava se acostumar a pensar nisso sempre, se quisesse suceder na vida.

Anastasiya deslizava o dedo sobre a costura de seu casaco, os olhos perdidos em algum lugar do Primeiro Anel. Sua mente, sempre tranquila, estava agora agitada. Em certos momentos, ela passava a admirar as nobres russas que elegantemente demoravam-se a acabar uma xícara de chá. A selecionada com quem representava a Russya fora tragada para perto das ladies, tão requintada e lenta quanto as outras. Embora não pertencesse à nobreza, Kateryna Petrov era muito bem aceita por eles. Provavelmente por influência de Mikael Petrov e suas jogadas políticas. Anatasiya suspirou, os olhos de repente cheios de lágrimas.

Todos os nobres do Império estavam protegidos naquela fortaleza. Se seus pais não fossem criminosos, eles estariam ali. Se seus pais não fossem traidores, seus avós também estariam ali. Se Klaus não fosse filho de traidores e não precisasse se alistar ao exército, poderia estar tomando chá com ele neste momento. Sua família tinha o direito de estar ali, mas o perdeu quando tentava acabar com direitos como aquele. Anastasiya não queria pensar em quem estava certo ou não, em seu coração cabia apenas a raiva pelo que ela não tinha culpa. Tudo poderia ser diferente.

Seus planos estavam frustrados. A Seleção não fazia sentido. A vida que seu irmão escolhera tinha mais razão que a dela, e Anastasiya sentia-se inútil para seus avós e para si mesma. Ela tinha colocado tudo a perder em uma competição que não fazia sentido. Se fosse rainha, tinha certeza que arranjaria todas as formas diplomáticas possíveis para evitar o conflito. E se nada adiantasse, viajaria para as linhas de frente para dar discursos motivacionais aos soldados. Ela sabia que tentaria fazer a coisa certa sempre, e que abrir mão da própria identidade não era tão importante assim, não a ponto de fazê-la desistir do sonho de seus pais. Um Império sadio, sem injustiças.

Mas nunca seria rainha. O príncipe precisava se casar o mais rápido possível, e ele obviamente procuraria entre suas favoritas, entre as mais amadas pelo povo, entre aquelas que não apresentassem um risco. Antes, Anastasiya teria lutado pela vitória. Teria arranjado um bom plano. No entanto... haviam coisas mais importantes que a coroa. Coisas mais importantes que ela mesma. Seus avós, seu irmão, até mesmo seus pais. Se ela se casasse com o príncipe e se tornasse a rainha, em um momento como aquele, não era óbvio que a verdade sobre sua história ressurgiria? Todos sofreriam se soubessem que os pais da rainha eram nobres traidores. Não apenas o povo a detestaria, mas também a nobreza, os ministros, o exército, as almas dos mortos inocentes e por fim aqueles que não mereciam o seu perdão. Dos bons aos maus corações, o Império inteiro não a aprovava.

Anastasiya se levantou, farta da própria voz em seus pensamentos. Às vezes pensava demais, refletia demais, racionalizava demais. Isso não impedia seus sentimentos de virem à superfície e deixarem-na incapaz de continuar uma simples tarefa de ignorar o mundo. Até um certo tempo, ela juraria odiar seu irmão. Diria que não se importava com ele. Que Klaus morto renderia mais ao Império do que vivo. Todas essas coisas pareceriam verdades, sentimentos lógicos e especiais: odiar era entender. Ela entendia as coisas, por isso as odiava. Mas quanto mais perdia o controle sobre aquilo que podia ou não resolver, Anastasiya notava que era o completo oposto. Ela amava a ordem, amava a certeza do coração. Poucas coisas podiam ser mais certeiras do que valores criados na infância, seu doce favorito ou o amor parental.

E tudo o que ela fizera até o momento fora procurar pelas melhores maneiras de tornar as pessoas que amava felizes. Sendo deixando-as orgulhosas, sendo deixando-as em seu devido lugar. Quando seu irmão quisesse retomar o contato, ele mandaria uma carta, e Anastasiya tinha certeza de que a responderia com rapidez e piadas sarcásticas para divertí-lo. E se seus avós queriam um casamento nobre, ela se casaria com um nobre. A corrida pelas próprias conquistas era um campo minado. Ana não queria mais olhar para o próprio coração.

Ela parecia até uma pessoa decente. Até uma pessoa boa.

Anastasiya passou pelas meninas da Seleção e mirou um vaso de flores perto das escadas. Guardas protegiam o parapeito, impedindo qualquer visita indesejada. Ou qualquer escapada furtiva. Ela não se importava com o isolamento ali em cima. Nunca ficara tanto tempo olhando as nuvens, e agora que o céu escurecia, podia admirar também as estrelas. Anastasiya conhecia as constelações e sabia algumas informações aleatórias sobre astros e planetas. Eram coisas que lera num livro infantil de astronomia de Klaus. Sem perceber, aproximou os dedos do peito, sentindo a falta de sua família atingindo-a desesperadamente. Ela não via o irmão há anos. Por que sentir sua falta agora?

Os olhos não queriam secar. Mais algum pensamento melancólico e Anastasiya seria obrigada a jogar-se do parapeito ou então quebrar em lágrimas na frente de todos. O vaso de flores a sua frente tinha apenas alguns ramos sem pétalas de alguma planta que estava sofrendo muito naquele clima hostil do norte. Folhas queimadas, murchas. Correu os dedos pelo vaso e espetou-o entre os vincos do vidro.

Chega.

Não havia casamento, não havia rancor. Tudo o que importava era tornar as coisas melhores, para si mesma e para todos os Volkov que ainda tinham esperança. Seus pais cometeram um erro, a razão lhes teria dito que ambição demais causaria a ruína, se não fossem tolos convencidos de sua esperteza. Ela não cometeria o mesmo erro. Não podia. Não tinha essa opção. Quem seus avós teriam se ela fosse presa? Anastasiya não havia perdoado o Império, ainda. Ela não se importava se o herdeiro fosse morto. Se o trono fosse roubado por outra pessoa. Francamente, desde que cada Volkov estivesse protegido, ela não se importaria se o céu caísse na terra e consumisse tudo.

Algumas coisas valem mais do que a justiça.

Algumas coisas valem mais do que a vingança.

Poucas coisas valem mais que Anastasiya Volkov.

Nada vale mais que sua família.

Notas finais
Espero que tenham gostado! No próximo capítulo terá um desenvolvimento melhor de Anastasiya, cenas de Mizandre decidindo seu futuro, Surya com a mãe e... o príncipe! Obrigada pelo apoio! Beijos da Mell