Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
6 Pesadelos de Alisha Mahara
Notas iniciais
Surate, Hindu // HÁ SEIS ANOS
Olhava para a janela embaçada, com o punho erguido para limpá-la, mas hesitante, pois temia o que veria do lado de fora. A camisa de botão puída, que um dia vestira um homem, estava pendendo de seus ombros magros e os lábios rachados ainda tinham gosto de sangue porque os modera aguardando notícias deles. As notícias chegaram e agora ela estava em frente à janela, com medo. No sótão daquele prédio, entre as caixas esquecidas e as fogueiras improvisadas, Alisha era a única alma viva, depois das borboletas e das ratazanas. Os demais não estavam mais ali.
Ninguém.
— Você sabe o que verá — a velha mãe de Jope Sem-Dedo resmungou, dando sinal de vida. Uma vida tão fina que nem poderia ser contada. Bem, ela não estava completamente só. Os doentes e velhos ficaram ali, assim como as crianças e as mulheres. Sós. Alisha olhou por cima do ombro para a velha e não soube o que dizer, o que fazer. Sabia o que veria, mas precisava ver? Precisava?
— Venha para o fogo, Alisha — chamou outra mulher, talvez viúva, talvez logo viúva. Ninguém sabia quando começariam a decapitá-los. Os homens lá embaixo, no pátio da praça pública.
Alisha ignorou, pois seu corpo a ignorava. Voltou os olhos para o vidro sujo e com a manga da camisa, limpou-o. Seus olhos se acostumaram à claridade do inverno no lado de fora e então um grupo de cem pessoas reunidas diante de uma plataforma de madeira improvisada, com um banco, um cesto trançado, uma espada e o soldado que a usaria. Em fila, os quinze homens estavam vendados, mas ela saberia identificá-los apenas pela cor da camiseta com que saíram na noite passada. Ela não imaginou que seria a última vez que abraçaria o pai, mas não era a última vez que o via. Agora era a última vez que o via.
Era o terceiro.
O soldado esperou a ordem, o prefeito a deu. Eles tinham de se ajoelhar diante do banco, as mãos já presas atrás das costas e os joelhos pressionados pelos pés dos outros guardas. Então aquele que manejaria a sentença se aproximava pelo lado esquerdo e erguia ambos os braços. Alisha sentia a multidão prendendo sua respiração, ansiosos pelo que vinha a seguir.
Chad morreu em um só golpe, sua cabeça caiu dentro do cesto trançado.
Mordeu os nós dos dedos, reprimindo um grito doloroso. Sabia que o matariam, mas ver era diferente. Era real. Era bem ali, debaixo dela. Empurraram Otelo, ele pisava no sangue de Chad enquanto o corpo de seu primo era arrastado para o final da plataforma. O ajoelharam e ergueram novamente os braços. A espada estava já lambuzada de vermelho. Otelo não teve o mesmo fim fácil, a lâmina não perfurou seu pescoço até o fim e os membros soltaram espamos contorcidos nas cordas e nos guardas enquanto agonizava, até que o carrasco abaixasse novamente a espada e separasse a cabeça do corpo.
Dessa vez, não gritou. Alisha encarou-os levanto o corpo como se fosse um saco de trigo qualquer, até o lado de Chad. Agora era a vez do pai.
Ele lutou às cegas, suas mãos eram punhos cerrados atrás das costas. Não se entregaria fácil, ele nunca se entregaria fácil. Alisha sabia que não faria isso. Por todos.
— Mataram Chad e Otelo. — informou para a velha, que assentiu lentamente. Eram seus sobrinhos. — Agora estão com Yamir.
Com o seu pai. Todos sabiam que ele era seu pai, embora ninguém o dissesse em voz alta. Em segredo, era seu pai. Sangue do seu sangue, carne de sua carne. O dono daquela camisa de botão que agora a vestia. Ele, que poderia tê-la abandonado no deserto para morrer na areia, mas aceitou o fardo.
Que era bom e amava a tudo, só existia ódio em seu coração para uma coisa, apenas uma coisa: a merda daqueles guardas. Aquele prefeito. Aquele rei nos pronunciamentos de rádio, aquela fome e miséria que abatia seu povo. Porque estavam do lado errado do oceano.
Ele se ajoelhou, tentando fugir para os lados, rolar e pular, se impulsionar para fora da plataforma. Mas os guardas socaram seu rosto três vezes, deixando-o tão desorientado que mal conseguiu erguer a cabeça. Pendia para o ombro. Eles usariam a espada com o sangue de dois homens já manchando seu fio. Alisha implorou para qualquer espírito que o corte fosse limpo, rápido, indolor. A cabeça de seu pai foi colocada sobre o banco e pouco antes da espada decepá-la, ele ergueu o semblante para a multidão que o encarava e… Alisha jurou que o viu sorrir. Amaldiçoando-os. Desprezando-os. Cuspindo neles.
Cerrou os punhos e se obrigou a ver quando arrastavam o corpo de Yamir até o lado de Chad e Otelo, já levando Salon para o abate. O cesto trançado, com três cabeças dentro, foi levando pelo carrasco até a frente da multidão, ele ergueu e jogou as cabeças no chão enlameado, tão perto das pessoas que o sangue manchou os primeiros das filas. Um segundo de silêncio imóvel e crianças vagabundas apareceram para jogar futebol com os mortos.
Alisha se obrigou a ver. Todos os quinze, mortos. Ela os conhecia desde bebê, eram sua família, depois de papai. Depois do sangue, aquele era seu povo. Quando a multidão se dissipou e os corpos foram levados para o deserto, para serem jogados na areia rasa, ela se voltou para aqueles que sobravam: os velhos, os doentes, as crianças e as mulheres. Encontrou um espaço entre a parede e uma das caixas vazias, tomou um cobertor fedendo a mofo e se enroscou.
Aquelas pessoas morreriam de fome em poucos dias. Talvez convencesse as mulheres mais corajosas a irem até o mercado mendigar moedas, mas seria arriscado demais. Todos na cidade sabiam de quem elas eram viúvas, quem eram seus pais, seus maridos, seus filhos. Elas eram culpadas, da mesma forma. Alisha agradeceu ao pai por nunca tê-la chamado de filha em frente aos outros, assim ninguém saberia que ela era herdeira do legado de Yamir, o líder dos vagabundos pedintes, ladrões safados e leprosos amaldiçoados de Surate, a cidade imigrante.
Na manhã seguinte, sairia para roubar pão e colher uvas nas parreiras que circundavam a cidade. Na manhã seguinte, ela seria a protetora de seu povo.
Mas hoje, seria apenas a órfã Alisha. Segurou os soluços com a testa nos joelhos e molhou-se nas próprias lágrimas, lambendo-as quando escorriam. Depois, se vingaria depois.
—
Voo para Versalhes, Franca // HOJE
Aceitou o bolinho de queijo, o chá com hortelã, o pão quentinho com geléia de… alguma coisa muito boa e um pedaço grande de petit gateau. Teria aceitado mais, se a aeromoça continuasse passando por seu corredor. Estava morrendo de fome, não mentiria. Ao seu lado, a única outra garota hindu lia um livro em idioma comum, provavelmente para treinar sua conversação com o príncipe. Alisha a invejava, pois adoraria saber ler, quanto mais falar o idioma comum.
— Esse livro é sobre o quê? — perguntou, com uma sobrancelha erguida.
A companheira de poltrona pareceu surpresa com sua iniciativa, mas aceitou a conversa com um sorriso tímido. Que fofa.
— É sobre um príncipe que conquista o coração de uma princesa, mas ele não era príncipe de verdade e ela não sabia disso.
— O que ele era?
— Um ladrão. Queria acabar com a injustiça do sultão — a menina mostrou uma figura, da transformação do príncipe de ladrão para nobre. Ele parecia ser hindu, por incrível que pareça. Alisha sempre imaginou príncipes brancos. — Mas ele se apaixonou pela filha de seu maior inimigo e desistiu de matar seu pai. Quando ele decidiu que iria perdoar tudo o que o sultão fizera, descobriram sua mentira e o conselheiro do sultão o aconselhou a sentenciá-lo à morte.
— Parece que você já leu esse livro — Alisha piscou um olho e a menina riu fraco, abraçando a capa dura com os dois braços.
— Um milhão de vezes. É o meu preferido. — um silêncio abateu-as, mas não foi sufocante. — Sou Surya.
— Alisha — assentiu a cabeça de leve.
— Você está ansiosa para chegar ao palácio, Alisha? — Surya perguntou com um sorriso gentil. Ela parecia ser imaculada, uma alma bondosa, embora se vestisse de chiffon de seda amarela e prendesse os cabelos em uma rede de prata e pedras de esmeralda.
Aquela menina era filha daqueles que causaram a morte de seu pai, filha da riqueza de soberbos, da dor dos mais fracos. Sua dor. Ela nem imaginaria quantos bebês nasciam mortos nas vielas de sua cidade, nem quantos leprosos se isolavam no deserto para proteger aos demais. Ela provavelmente não tinha culpa do que era, de onde havia nascido. Mas nem por isso merecia seu perdão. Nenhum deles.
— Estou. — respondeu-a com um sorriso divertido — Mal vejo a hora para chegar ao palácio.
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