Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
7 Corte de Heid Pazzlav
Notas iniciais
Palácio de Versalhes // F R A N C A
As notícias do congresso não foram bem aceitas pelo pai. Depois do rei esmurrar a mesa de café da manhã na terça-feira, pouco antes de Heid fazer seu show na TV junto de Flaus e o monarca, quase tudo já estava embalado na quarta. E iriam direto para a Ucranya, até o palácio que julgavam ser mais seguro que Versalhes. O príncipe não nutria afeto pelos incontáveis corredores que nunca chegara a percorrer ou das tantas janelas. Uma vez sua mãe disse que a parte cigana de sua família turca tinha sangue de vampiro nas veias e os monstros odiavam a luz do sol. Ele não odiava, apenas não queria dormir e acordar com ela bem em seu rosto. Mas ninguém culparia os arquitetos do maior palácio do mundo, nem o rei que o construira.
As grossas cortinas em seu quarto eram um pesadelo para os criados, que sempre as tiravam para lavar dia sim e dia não, e depois precisavam pendurar uma nova no lugar. Heid não se importava com isso, já que pagava os salários de todos, não havia do que se ressentir. A maioria dos criados preferiria continuar trocando suas cortinas a voltar para suas casas, onde estariam sozinhos e com fome. Os criados do palácio não eram casados, e assim que o faziam, perdiam sua posição para outro, para que ninguém se sentisse pressionado a trair o rei pela família ou sentisse saudade de casa. Heid nunca teve criados fixos e mal conhecia seus rostos, era um rodízio tão completo em todo o palácio que uma mesma empregada nunca voltava a dobrar os lençóis de sua cama num mesmo mês. E todos eram atarefados demais para parar e conversar com ele.
Se perguntava se em Mariyinsky seria diferente. Esperava que sim.
— Eu farei Raffel se arrepender de ter me obrigado a isso — o pai esbravejava com o criado que pacientemente amarrava sua gravata. — Farei!
— Raffel não o obrigou, foi uma decisão de todos os ministros. — tentava amenizar a raiva do imperador há quase duas horas, sentado em uma poltrona ao lado de seu closet, enquanto sua majestade era vestida com todas as pompas. — E é para nosso próprio bem.
— Tenho certeza que foi ele quem deu a ideia. Aquela raposa! Como o povo consegue reeleger ele todos os anos? Ele vai destruir essa família. Aposto que é simpatizante dos rebeldes!
— Raffel é meu tio e ele não fará nada com essa família. — obrigou-se a não parecer muito irônico e se levantou para olhar a própria roupa no espelho, ao lado do pai. — Você está assim por causa de mamãe.
— Hm.
A não resposta respondia a tudo.
Esperou que o criado terminasse com as abotoaduras de sua majestade e se inclinou sobre o pequeno móvel com toda a papelada que havia dividido com o pai desde que as dores de cabeça lhe abateram. Nunca imaginou o tamanho de trabalho que o imperador tinha de resolver, mesmo com todos os seus ministros. Estava mais propenso a ser um bom filho a partir de agora.
— Soube que conversou com Hallon. — o pai tinha os olhos curiosos, com bolsas de pele debaixo deles e um brilho azul metálico que lembrava a gelo maciço. — Eu tentei ir...
— Não precisa comparecer a todas as reuniões com o cardeal e a igreja. — Heid revirou os olhos sem perceber e o imperador fez uma reprovação silenciosa. Era uma mania que ele herdara da mãe e nunca fora bem vista na corte. — Desculpe.
— Tudo bem — o velho balançou a mão com cansaço — Foi por isso que me casei com ela.
— Ela fica ótima te tratando como um porco?
— Ela fica ótima sendo teimosa como uma mula. — o pai retrucou com a mesma língua afiada. Heid tinha certeza que o pior lado das duas famílias corria em suas veias.
Ofereceu o braço ao pai e ele segurou seu cotovelo de leve, dando passos curtos até a porta do quarto. Iriam direto para o salão de visitas, onde dentro de uma hora estariam recebendo as moças que competiriam por ele. Heid sentiu enjôo imaginando que aquilo realmente estava acontecendo. Casamento não deveria ser tão importante assim. Não com tantas coisas como impostos, crises bancárias e os desabrigados em Iberya. Nos últimos dois meses sua cabeça estava voltada apenas para as catástrofes na costa iberyana e, principalmente, em amenizar os estragos deixados pelo terremoto. Garotas era a última coisa em sua lista de afazeres.
Bem depois de agradar a mãe e resolver as brigas internas dos cardeais da Igreja.
Ah, a Igreja tinha escolhido a pior semana para reivindicar aqueles jejuns e impostos atrasados de paróquias em Iberya. Os religiosos apreciam cegos ao fato de os fiéis estarem metade mortos, metade desabrigados demais para contribuir com a fé. Hallon ria dele sempre que podia, como se soubesse que um dia seria tão patético quanto seu pai era para lidar com os homens de batina vermelha.
— Está pensando nelas? — o homem mais velho ergueu uma sobrancelha, parecia realmente curioso, até emocionado. Não imaginou que o pai conseguiria se tornar um velho babão tão cedo. — Ou é nela?
— E quem seria ela? — devolveu o olhar curioso, embora estivesse misturado a sarcasmo e humor ácido. O imperador fez aquela expressão de quem sabia de tudo que acontecia em seu palácio e olhou penetrantemente em seus olhos. Ambos dividiam aquelas íris de tempestade. Pode-se dizer que era a única coisa que assegurava que era filho dele.
— “A coisa mais linda que eu já vi” — sua majestade imitou o que ele havia dito durante o sorteio, algo estúpido que não deveria se repetir. Pelo bem do respeito que ainda tinha dentro daquela família. A risada do pai foi o suficiente para fazê-lo enrubescer de vergonha. Não imaginou que todas as revistas no dia seguinte estariam perguntando como era a tal “coisa mais linda” que o príncipe havia sorteado. Só por causa disso ele decorara seu nome primeiro, Mizandre, de Franca.
— Ela é bonita mesmo, não se sinta gozado — o velho deu um tapa em seu braço — Mas beleza não é tudo. E eu digo isso por Olga.
— Se ela ouvir, você será um imperador morto.
— Ela sabe! — o pai deu de ombros, mas sorria — Eu sempre disse. Ao menos outras quinze eram mais bonitas que ela no começo, mas isso vai esfriando com o tempo. Quando se acostuma com o rosto dos outros.
— Isso é uma lição valiosa?
— Leve como quiser. — o imperador deu uma última olhada para o filho, que era alguns centímetros mais alto, por causa dos parentes ciganos de sua esposa. — Mas não conte o que eu disse a sua mãe. Ela não precisa ser lembrada disso.
— Como quiser — fez uma mesura desequilibrada e continuaram caminhando para o salão, com sorrisos irônicos entre as barbas.
Os primos ficaram esticados no sofá e nas poltronas do salão de visitas, debaixo de cobertas e entre canecas vazias de chocolate quente. Quando o viram chegar, chamaram-no, mas teve de recusar com a mão e eles resmungaram algo rude que o fez rir. Os garotos voltaram a assistir os desenhos animados na TV.
— O que os pirralhos de Raffel estão fazendo na minha casa? Eu já disse trezentas vezes que eu odeio essas crianças! — o imperador murmurou consigo mesmo, dando passos firmes em direção a rainha. Uma mulher escondida em sua poltrona preferida. — O que aqueles moleques fazem aqui. Eles já vieram semana passada.
— Eles gostam de Heid — a esposa respondeu, parecia benevolente esta manhã, provavelmente por causa das selecionadas que logo chegariam. — e eu gosto dos meus sobrinhos.
— Eles fedem a Raffel. — o imperador lançou um olhar atrevido para a TV e voltou a encarar sua senhora, que agora tentava decidir entre espancá-lo até o quarto ou rir. — Estou falando sério.
— Deixe de ser ranzinza apenas hoje. — a presença de Heid foi notada em seguida — Ah, essa gravata fica bem em você.
— Obrigado — ele se curvou e tomou um lugar no sofá ao lado da poltrona da mãe.
O imperador, embora contrariado, também se sentou no sofá e olhou para as revistas do dia. A maioria estampava o rosto abobalhado do príncipe ou a foto de inscrição da selecionada franca que estava erguendo muitas especulações, antes mesmo de chegar ao palácio. Isso o assustava, o quanto aquela imprensa podre conseguia cutucar até que saísse pus. Ele ergueu os olhos para o doce que era sua esposa. Ela, mesmo com a idade, ainda tinha os cabelos negros e grossos, os mesmos que o fizeram se apaixonar perdidamente na primeira vez em que ela lhe pediu para trançá-los. Há muitos, muitos anos. Naquela época, ele ainda achava que era o dono do mundo.
— O que está olhando? — ela abaixou a revista que lia. Era sobre jogos de futebol. Se soubessem da paixão secreta da rainha, logo teriam um novo esporte imperial.
— A coisa mais linda que eu já vi — ele sorriu.
Heid queria se encolher contra as almofadas, mas se esforçou para fingir que não havia notado a tentativa de provocá-lo. Sua mãe, ao contrário, fez uma careta tão feia que obrigou o esposo a pedir desculpas.
O príncipe já conhecia a história por trás da paixão irrefreável de seus pais. Sua mãe era uma selecionada turca, uma das poucas garotas que vieram de posições mais baixas. Ela mal conseguia ler quando chegou ao palácio. Não era bonita, nem elegante, nem aquilo que chamavam de “femme fatale”. Tudo nela inspirava simplicidade, e fora por isso que o pai a escolheu como confidente. Sempre que saia com uma de suas pretendentes, ele logo em seguida ía c contar como havia sido, e ela ouvia e respondia com palavras inteligentes, humor ácido e a perspicácia de uma víbora, sempre garantindo que ele não voltaria a sair com a mesma menina.
No final, havia somente ela e outras concorrentes muito mais fracas (de acordo com seus pais). Não sabia exatamente o que fizera com que eles se escolhessem, mutuamente, talvez fosse a amizade que se fortaleceu, ou talvez o pai sempre tivesse olhado para a mãe, mas sem perceber.
Mas esse tipo de coisa era para momentos de paz, como há vinte anos atrás. Nada como agora.
Não podia se dar ao luxo de tantos encontros.
— As selecionadas desembarcaram no aeroporto. Estarão no palácio em uma hora. — informou um dos mordomos.
Os três membros da realeza se moveram, irrequietos.
— Você já tem alguém em mente? — a mãe quebrou o silêncio, de repente. Com o pior assunto que poderia arranjar.
— Iberya, Noruécia… — murmurou — onde os rebeldes estão atacando.
— Eles já nos atacaram em todo o império. Estão se comunicando e recrutando por rádios, em todos os cantos desses dois continentes. — a mulher olhou para eles, seus olhos ciganos tão espertos pareciam brilhar em uma luz avermelhada somente deles. — Mas eu diria para ficar de olho em Iberya, mesmo. Eles precisam de algum alento.
— Sim. — era a única coisa que podia falar.
Seus pais passaram a falar sobre assuntos menos constrangedores e urgentes, e isso deu a Heid tempo suficiente para analisar o tipo de matéria que haviam escrito sobre ele nos últimos dois dias. Tudo sobre seu potencial casamento, uma revista prometia responder se você era a esposa ideal para o príncipe por meio de um quiz, e outro ainda indicava as melhores cores para combinar com as últimas 30 roupas que havia usado no Jornal Nacional. Estava enjoado de ver seu rosto.
Ser o príncipe não era ser o sonho ideal de todas as meninas do império. Ele ainda dependia da genética de seus pais para isso. O lado russo do pai era fraco em estatura e cor, a maioria dos parentes tinham cabelos da cor de cobre, um loiro amarronzado que era no mínimo uma indecisão de cor. Já os olhos, que ele herdou, normalmente saíam castanhos, mas por algum motivo do destino, ele e o imperador dividiam aquela estranha cor tempestuosa. Já a parte italiana e cigana da mãe…
Ela tinha espírito, mesmo que isso não significasse beleza. Seu rosto era rechonchudo e o nariz grande, mas tinha uma garganta de cantora de ópera e seus longos, grossos e negros cabelos volumosos foram para ele, graças a Deus. Tinha uma boa combinação, teoricamente. O que estragava tudo era aquela pele rosada como a de um bebê e a barba que crescia esverdeada. Não tinha coisa pior na vida de um homem que não ter uma barba preta perfeita.
Bem. Não era o sonho das meninas, mas era o príncipe, o que ainda o colocava como o mais alto pretendente da lista de pelo menos um bilhão, de acordo com o número de inscrições que receberam.
Lembrou das palavras do pai, enquanto observava o casal beliscando-se e provocando um ao outro. Beleza não era tudo, precisava pesar o povo e não seu coração.
Heid Pazzlav
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