Notas iniciais
Boa leitura a todos! Esse capítulo foi um compilado de muitos diálogos que aconteceram no decorrer do baile!

Palavras Trocadas

When You're Smiling — Louis Armstrong

Então aquilo era um baile.

Havia música, havia comida, havia pessoas diferentes e bem vestidas, havia toda a sorte de cheiros, cores, temperos, texturas, luzes, sons… Sabrina se sentia ser devorada por aquele salão, perdida andando de um lado para o outro, feliz de estar ali. Feliz de ter deixado sua ilha. Feliz de ter entrado na Seleção. Feliz por estar viva e vivendo tudo aquilo! Era um sonho de qualquer garota da Noruécia, um sonho que ela podia realizar! Mesmo que no final não fosse um “e viveram felizes para sempre”, ao menos ela estivera ali, com a chance de dançar com o príncipe e conversar com pessoas de todos os lugares do mundo. Maravilhoso!

Tirou fotos de tudo. Das celebridades da nobreza, de ministros populares, das mesas de comida, da decoração estonteante, do bolo de aniversário do príncipe… Quase tirou foto de Heid enquanto ele caminhava em sua direção, abrindo espaço na multidão. Só percebeu que o foco de sua caminhada era ela mesma quando ele parou a sua frente e sorriu, esticando a mão.

— Posso tomar-lhe uma dança, senhorita Torvald?

— Ora, por favor — ela sorriu e jogou seu celular na mão de sua colega de quarto, que estava estranhamente a seguindo de um lado para o outro. Alisha encarou o aparelho e praguejou em hindu, desejando um ótimo tropeço para a norueca.

A mão do príncipe encaixava perfeitamente na sua, e ele era tão cavalheiresco! O salão parecia ter parado para vê-los dançando, embora já fosse a vigésima segunda dança entre ele e alguma selecionada. Na verdade aquilo deixara de ser interessante depois da décima, mas Sabrina se sentia o centro do mundo, nos braços do príncipe. Ela até ousou se aproximar um pouco mais dele do que a governanta Verônica instruirá, mas tinha certeza que outras também fizeram aquilo. Com certeza Mizandre teria tentado se jogar e esfregar no príncipe, vulgarmente do jeito que era.

A mente de Heid estava em outro lugar.

Ela podia ver isso enquanto tentava buscar o olhar dele, perdido no chão. Era como se tentasse ignorá-la o tempo todo. Sabrina queria falar algo para ele, talvez encontrar algum gosto em comum ou ao menos garantir um encontro na próxima semana. Impossível. O príncipe fechava um portão gigantesco bem diante de seu nariz, intocável mesmo que estivessem segurando as mãos um do outro, inalcançável, mesmo a menos de trinta centímetros de distância. Sabrina não era uma perdedora passiva, mas não sabia como fazer aquilo sem parecer ofensiva.

— Galaxia nos contou hoje do seu encontro — falou, quase desinteressada, mas tão direta que deixou Heid abismado. O silêncio fora reconfortante em todas as outras vinte danças. Ele não queria conversar com ela. — Nós jogamos baralho, sabe? Na sala de chá.

— Todas?

— A maioria. Galaxia chegou após o almoço, claro, e Kateryna não saiu do quarto. Jenifer é uma ótima blefadora, ela ganhou quase todas as rodadas. — mas o rosto sem expressão do príncipe mostrava que ele não se lembrava quem era Jenifer, a outra garota da Noruécia. — E Claire é mesmo uma péssima apostadora. Ela perdeu quase todos os esmaltes que trouxe para Jen.

— Vocês podem pedir quantos esmaltes quiserem.

Sabrina queria bater em seu rosto. Seu lindo e idiota rosto.

O príncipe era um babaca.

— É mais divertido apostando. Claire é de Brittanya. Jenifer é da Noruécia. E eu também conversei com Tiana, de Arabyca. São todas muito gentis. Humildes e gentis. Tanto quanto Galaxia.

— Sim, eu lembro delas — Heid sorriu — Não entenda mal se comecei com Galaxia, eu deveria começar com alguém.

— Você começou com aquelas três. Foram mais do que encontros, não? — Sabrina ergueu a sobrancelha e, quando o príncipe franziu a fronte, ela sorriu. — Convidar para um jatinho ou parar cavalgar com seus primos. Você já sabe quem será, não? Seus pais já escolheram por você. Toda essa Seleção é apenas uma farsa para entreter o povo.

— Sua mente é afiada, mas errônea. Meus pais não me convenceram a nada e meu primeiro interesse sempre foi Galaxia. Ela é alegre. E vê o melhor nas pessoas — ele disse, como uma acusação velada. Sabrina quase sentiu vergonha de si mesma, mas não. Por quê? Era ele quem estava mentindo para todo mundo. — O que a faz pensar que sou esse tipo de homem?

— Eu vi você saindo do quarto de Joanna quando chegamos a Versalhes. Descobri que era quarto dela hoje. Era um dos primeiros no corredor, só precisei fazer perguntas inocentes e ela mesma disse.

— Joanna é minha amiga — o príncipe olhou ao redor, provavelmente incomodado com o fato de estarem mantendo uma conversa tão demorada. Era inapropriado, claro, mas Sabrina estava nem aí. Viera pela comida. — E quem é você para julgar minhas escolhas? Está tão possessa de inveja que…

— Ah, claro, você é irresistivelmente o sonho de consumo de todas as moças desse salão, sim, sim, príncipe Heid.

Sabrina estava perdendo o controle da própria língua.

Aquilo era horrível, horrível!

Mas era tão bom vê-lo ouvir as verdades que ninguém tinha coragem de lhe dizer…

— Essa Seleção é minha, se não está aqui porque me quer, então por quê veio?

Quão mesquinho e egocêntrico um príncipe podia ser sem parecer natural demais para seu sangue e nascimento? Sabrina nunca acreditou nisso de “nascer nobre”, tampouco perdoaria o filho do imperador por ser um machista arrogante. Céus, graças a Deus havia visto por baixo da máscara antes de se apaixonar por ele.

— Pela comida, é claro — sorriu e soltou-se de suas mãos, sem qualquer delicadeza — A maioria das pessoas nas fronteiras desse império passam fome, pois saiba. Eu sempre quis deitar em um travesseiro de verdade, sem percevejos no colchão ou com uma latrina decente. É sufocante crescer no interior, sabe? Tem aqueles que conseguem se adaptar, mas não é tão fácil quanto imagina. Lavar, cozinhar, passar, carregar bebês na barriga e depois nos braços… Todas essas coisas são obrigações que mulheres como eu nasceram para realizar. Meu esposo provavelmente passará a maior parte de seu dia plantando, colhendo, trabalhando na propriedade alugada de algum nobre mesquinho como você e morrerá de cansaço antes dos sessenta. Eu terei oito ou nove crianças, os mais velhos passarão a cuidar dos mais novos, mas eu sempre serei aquela que lava, cozinha, passa, carrega os netos enquanto minhas filhas lavam, cozinham e passam para as mulheres dos donos das terras e será assim até que eu morra e elas ocupem meu lugar na família. E suas filhas. E as filhas de suas filhas. E você não pode fazer nada além de ficar aqui nesse palácio, cercado de tudo o que nós nunca conseguiremos comprar, pois sempre estaremos em dívida com o arrendatário.

— Não pode descontar seu descontentamento em mim.

— Claro, você é um merda como todos os outros. — Sabrina queria cuspir em seu rosto, mas não estava em Vengsøy para que aquele ato fosse natural, então apenas o empurrou e se livrou daquela atenção desnecessária.

Deixar o príncipe no meio da dança poderia significar alguma falta de educação muito grave, mas ela estava pouco se lixando para o que o resto daqueles nobres pensariam. Continuou caminhando decididamente até uma das antecâmaras ao redor do salão principal. Estava com alguns convidados conversando calmamente, mas eles se foram quando a viram entrar tão nervosa e vermelha. Sabrina parou apenas em frente à mesa para servir vinho e levou o copo consigo para fora do palácio, até o jardim. Lá o vento frio levava casais a caminharem entre as flores e amigos a apostarem quem atirava pedras mais longe. Continuou caminhando, sem destino definido, e deu a volta no palácio. A piscina estava com seu nível normal de água, escura e rasa. Sentou-se em um dos bancos e começou a beber o vinho.

Fora uma tola imbecil ao dizer todas aquelas coisas para o príncipe. Agora nunca mais ele a veria, provavelmente estaria fora da Seleção no dia seguinte, seria mandada de volta à ilha vegetativa da Noruécia, onde morreria tendo a vida que ela havia descrito tão minimamente. Sempre soube que seu fim traria algum tipo de suicídio, mas não esperava ser burra o suficiente para desperdiçar sua melhor oportunidade. Acreditava que Heid merecia ouvir tudo aquilo, mas não da forma em que foi dito. Ela quase jogou a culpa de toda aquela pobreza e precariedade nas mãos do príncipe, sendo que o verdadeiro culpado era seu pai. Ou talvez fossem os ministros da Noruécia que nunca conseguiram voz ativa dentro dos congressos. Não iria se perdoar tão cedo. Talvez nunca.

Mas não conseguiria voltar lá e pedir perdão.

Assim como não poderia voltar para Vengsøy esperando encontrar sua casa com as portas abertas para recebê-la. No momento em que subiu naquele avião, todos os laços que tinha com o pai foram cortados. Ele nunca voltaria a olhar em seu rosto por tê-lo desobedecido e deixado a ilha. Mas fora um impulso. Tudo aquilo, toda essa loucura de Seleção, apenas uma loucura desmedida e tão imbecil quanto ela mesma era.

— Continua se colocando em situações perigosas, ma’am?

Sabrina limpou uma lágrima que escorria pela bochecha e olhou para cima.

Ele usava o mesmo uniforme da guarda real, mas o cabelo estava preso em tranças diferentes, mais curtas e perfeitamente presas por gel. O guarda Henry se sentou ao seu lado no banco e deixou de lado a alabarda que carregava, por um instante. Estavam afastados o suficiente das luzes do palácio para que nenhum outro oficial fosse incomodá-lo.

— Por que está aqui?

— Segurança redobrada para a festinha do príncipe, é claro. Todos os guardas de Versalhes vieram dessa vez — ele abriu os braços no encosto do banco, parecia relaxado, mesmo no meio de suas obrigações. Se ao menos ela pudesse encontrar um lugar na Noruécia para levar uma vida assim, descontraída mesmo em meio às obrigações… — Você fica muito bem nesse vestido.

— Eu acabei de dizer ao príncipe que ele era um merda — confessou, a taça de vinho entre as duas mãos balançava para frente e para trás. Henry abriu um sorriso largo e olhou para o céu antes de soltar uma risada grave.

— Reconheço pessoas boas quando as vejo, não estou errado sobre você, milady. Não se preocupe sobre ser presa, ser honesta não dá cadeia, mas pode tirá-la dessa competição.

— Que se dane a competição.

— Que se dane a competição — ele entoou e ergueu um copo invisível, brindando-o em seus dedos. Sabrina ergueu os olhos, não sabia se estava vivendo aquele momento por sorte, destino ou meramente acaso, mas queria continuar no palácio para ver Henry. Não havia homens na Noruécia como ele.

É bizarro como uma pessoa que acabou de conhecer parece entendê-la mais do que aqueles com quem conviveu por toda a vida.

Henry sentia o mesmo, embora não tão inocente quanto a menina. Ela tinha uma pele bem branca, era verdade, não o tipo de pele que ele gostava, mas por algum motivo esse detalhe não o incomodou agora. O que mais fascinava eram os cabelos vermelhos como fogo, intensamente vermelhos, quase labaredas de verdade. Era uma tonalidade rara até mesmo para os ruivos. Será que sua família tinha toda herdado esse traço? Henry começou a imaginar vários parentes de Sabrina, brancos e ruivos. Por algum motivo, lembrou-se de maçãs do amor. Palitos de madeira fincados em maçãs cobertas de caramelo. Olhou para ela. Ela era uma maçãzinha do amor.

— E o que vai fazer depois que sair da Seleção?

— Voltar para casa. Ou para a ilha. — deu de ombros, de repente assumindo uma posição defensiva. Henry conhecia aquele jeito de crianças que não querem contar o que andaram aprontando ao invés de lavar a louça, mas apenas resmungou uma provocação, que funcionou muito bem — Meu pai me excomungou de casa, talvez da família. Ele não queria que eu saísse de lá, e estava certo. Eu fui arrogante e egoísta, gulosa e cheia de sonhos grandes demais para mim mesma. O que foi?

— Ah, nada — ele sorriu olhando para o céu — Você não quer voltar para lá?

— Não. — foi uma resposta rápida, muito decidida. — Meu lugar não é lá, nem aqui. Acho que vou mora na capital da Noruécia, ou em alguma cidade grande. Arranjarei um trabalho e começarei a mandar na minha vida, dessa vez da forma certa.

— Ou você poderia vir para Paris e tentar a Universidade — com cuidado, ele se aproximou, escorregando pelo banco. Logo algum guarda notaria que o jardim estava sem supervisão e viria ali para mandá-lo voltar ao trabalho, mas não perderia a oportunidade agora. Agora garota era uma peça rara, podia dizer apenas de vista.

— Ah, certo, e morar na sua casa ou em uma pensão cheia de meninos que vão me trata superbem porque são todos almas boas no mundo machista. Não, obrigada, riscos demais.

— Alguém já te machucou? — Henry a encarava, sério, mas Sabrina riu.

— Como… um homem? Não. E é exatamente por isso que eu não confio em nenhum que não tenha um histórico de bondade extrema na minha memória, e pelo que eu me lembro, nós nos vimos apenas duas vezes.

— Para mim foram grandes duas vezes — ele se inclinou, mas Sabrina colocou a mão em frente a seu rosto e o empurrou para longe. — Você é difícil.

— Eu não gosto de ter casos corriqueiros com pessoas aleatórias.

— Eu sei, você veio do interior — a garota fez uma careta de irritação — Desculpe, desculpe, milady, eu quis dizer que você teve uma criação tradicional. Eu não espero que queira um caso de uma noite comigo. Estou sinceramente jogando meus encantos com alguma esperança de ser aquela.

— Aquela?

— A minha ma’am — Henry sorriu e puxou sua mão, depositando ali um beijo — Você tem fogo nas veias e da língua, Sabrina. Até o seu cabelo arde.

— Boa piada, como se nunca tivessem dito isso — ela revirou os olhos, mas estava maravilhada pelas primeiras frases que ele disse. Fogo nas veias? Era muito melhor que ter fogo na cabeça, como diziam para ela, ou ser “esquentadinha”.

— O seu humilde guarda Henry precisa se despedir agora, mas ele estará pensando na senhorita quando retornar a Versalhes. E, se a senhorita também pensar nele, venha até Paris, na Universidade de Notre Dame, Dormitório 206.

— Eu não vou a lugar nenhum.

Mas ele já havia dado as costas e voltava para o palácio, de onde o baile nem sentira a sua falta.



Kateryna usou aqueles dez minutos de valsa para estabilizar os seus sentidos e controlar a mente. Era impossível, claro, domar qualquer sentimento, mas ela poderia se enganar para não sentir tanto, como aprendera a fazer com alguns anos de prática. Estava orgulhosa de quem se tornou, mesmo com aquelas recentes recaídas, notou que qualquer outra mulher teria desistido de se manter forte ou simplesmente não aguentaria tudo aquilo.

Esquecer as memórias quando vinham sufocá-la era um de seus talentos treinados. Não com o auxílio de mentores, mas sozinha, em seu quarto. Kateryna perdeu-se no compasso do um, dois, três, quatro, deixando que a naturalidade daqueles passos a reduzissem até a inércia.

Tudo o que sobrava eram pensamentos frios, pensamentos russos: Ouvir a todos e a tudo dentro do palácio, ajudar seu pai a reconquistar o ministério russo, não aceitar acidentes com acontecimentos, mas como possíveis ataques de seus inimigos dentro da Corte. Uma guerra, era nisso em que estava se metendo,uma invisível e silenciosa.

Mas o rapaz a sua frente era inocente de tudo, então não resmungou consigo mesma como queria fazer. Se Raffel estava secretamente apoiando seu pai, tanto que nem mesmo seu filho sabia dos planos, então era melhor mantê-lo ignorante. "Isso pode causar a sua morte".

Embora estivesse feliz, Kateryna sentiu o peso da confiança de seu pai sobrepujada pelo fato dele estar disposto a arriscar sua vida ali. Não era traição, era um gosto mais amargo que metalico. Insignificância, sim, essa deveria ser a palavra.

— Minha mãe está muito surpresa e feliz. — Azra murmurou, olhando para a mulher sentada no sofá, observando a ambos com um sorriso gentil. — Ela diz que você é como uma filha para ela.

— Por quê?

— Nós, ciganos, passamos elos por gerações. O afeto que ela sentia por sua mãe foi transferido a você. — com o olhar desconfiado de Kat, Azra riu. — Mama gostava desse temperamento de gato de vocês, russos.

— Temperamento de gato? — Kateryna quase riu, mas se manteve seria. Não queria cativar o homem errado naquela competição. Problemas demais viriam.

— Ariscos, desconfiados, cheios de arrogância e que saltam fora no menor susto.

— Minha mãe era assim?

— Ela era igual a você. É isso que Mama me conta.

Ser igual sua mãe era... bom. Será que não era apenas parecida com ela fisicamente, mas subjetivamente também? Em personalidade e filosofia? Aquilo a deixaria tão feliz…

A valsa terminou com ambos silenciosos e contentes com a dança. Retornaram para o sofá antes do começo da quadrilha. No salão, risos e conversa alta. Ali, luzes amareladas é o calor da mão de Azra levando-a até sua mãe. Kateryna nunca permitia que os moços a tocassem mais que o necessário, mas o primo do Príncipe parecia menos moço para ela, não que deixasse de ser homem, apenas não parecia uma ameaça. Talvez fosse o começo de uma amizade. Pensou em seus amigos de Petersburgo e em com o seu pai os detestava. O filho de Raffel seria um bom acréscimo ou um mau, na visão de Mikael Petrov? Ficou na dúvida.

Vyena esperava-os voltarem para lá com certa empolgação, pela primeira vez foi apresentada à filha de sua amiga Helena, nem mesmo o maquiavélico Mikael poderia impedi-la de encher a garota de beijos! Bom, talvez apenas abraços, já que o rosto dela estava ainda machucado. Pobre, menina, pobrezinha! Nenhum mal merecia a linda e educada filha de Helena, tão à altura dela sociedade asquerosa superficial...! Uma florzinha. E estava se tornando amiga de Azra, seu filho. Vyena sonhou com o dia em que Azra dançasse com Kateryna, embora não fosse em um palácio, mas uma fogueira cigana, e não valsa, mas a dança dos corações, os movimentos vorazes e espirituais de almas apaixonadas. Ah, sim, rezava à Deus que juntasse os dois, sob sua bênção.

Mas destino e espírito são duas coisas difíceis de se unirem.

— Você está melhor agora, Kateryna? — Vyena perguntou.

— Sim, Lady Czarevitch.

— Lady — repetiu, e achou graça daquele tratamento tão formal. Pouca gente se dignava a chamá-la de lady, mesmo sendo esposa de um ministro. Assim como Helena, sua filha não fazia distinção de pessoas. — Meu nome é Vyena, pode me chamar assim. Não sou tão velha, aliás.

E Kateryna podia ver. Mesmo ao lado de seu filho de vinte e cinco anos, Senhora Vyena parecia jovem como uma mulher não casada, bonita, sem dúvida alguma, uma das belezas mais distintas que já havia presenciado. Não se surpreendia por Raffel querê-la escondida, já que a cúpula de ministros era um lugar de traições e devassidão. Seu pai sempre detestou aquelas reuniões.

— Vocês estão… juntos? — Vyena piscou, um sorriso atrevido despontando dos lábios.

— Juntos? — repetiu Kateryna, sem entender a princípio.

— Claro, tão junto quanto eu poderia estar de uma das pretendentes de Heid. — Azra ironizou, mas retribuiu o sorriso para a mãe, que entendeu perfeitamente que ele não “repudiava” a ideia de estar junto de Kateryna. Sim, graças a Deus.

— Seu primo tem mais trinta para escolher, umazinha não faz diferença — Vyena sorriu para Kat e então tomou suas mãos com afeto — Estive tão ansiosa por te conhecer, enfim. Seu pai, aquele ogro, me mandava ir pastar sempre que eu tentava me aproximar de você. Mas aqui estamos, sãs e salvas por Azra.

— Já entendi — o rapaz revirou os olhos — Vou vigiar as escadas.

— Não! — Kateryna quase agarrou sua manga enquanto ele se virava, mas controlou o gesto apenas inclinando o corpo — Meu pai acabou de sair daqui. Ele não vai retornar.

— Ah — Vyena assentiu e demorou alguns segundos para ela concluir algo que deveria ser óbvio, àquela altura — Foi ele quem te fez chorar? Oh, eu não permitirei! Ele te machucou? Esse é o tipo de pai que Mikael Petrov é? Eu jamais poderia suportar a ideia de que você terá de voltar para a casa com aquele monstro, nunca.

— Meu pai nunca me violentou e ele raramente me machuca. Apenas com palavras, mas é o jeito dele expressar a profunda tristeza pela morte de minha mãe. Eu estava chorando porque me lembrei dela.

— Oh, sim, querida… Uma tragédia — Vyena colocou uma mão sobre seu ombro e a puxou para um abraço, que demorou mais do que Kateryna estava acostumada. — Eu conheci sua mãe, Helena, era uma mulher de ouro. Convicta em todas as suas opiniões, teimosa como um touro, e forte. Muito forte. Já sua saúde… Não era muito boa, mas o que se poderia fazer? Lena nasceu enfermiça.

— Há quantos anos conhecia minha mãe?

— Ora, desde sempre — Vyena enrolou um dedo em uma madeixa de cabelo louro de Kateryna e então ergueu o rosto para seu filho, que ouvia tudo, sem pronunciar as perguntas que lhe surgiam — Eu precisei mentir sobre algumas coisas, Dunah. Você poderia revelar coisas demais aos seus amigos e seria muito ruim. Mas a filha de Mikael merece a verdade. — ela voltou a olhar para Kat, com carinho. — Nós fomos criadas juntas, em um acampamento cigano na Russya. Ela era uma moça de muito espírito e não se importou em dizer adeus para entrar na Universidade, assim que fez dezoito. Seu corpo… não acompanhava o ritmo de sua mente.

— Você me disse que se conheceram há vinte e cinco anos atrás.

— E de fato, nos reencontramos nesse período. Eu já era casada com Beal e Helena se casou com um estudante de mestrado em ciências políticas, um homem muito ambicioso e cheio de paixão pelo povo russo. Seu pai. — Vyena esticou a madeixa de cabelo — Você tem os mesmos cabelos e olhos dele, o modo como olham para algo que querem entender ou como se portam diante de desconhecidos. Nunca consegui ver Helena em você, além desse fogo interior.

— Você me disse que elas eram iguais. — Azra cruzou os braços. — Sua compulsão por mentiras é uma cara de pau, mãe. Você poderia pelo menos tentar não se contradizer na minha frente.

— Mas, Azra, elas são iguais. Não fisicamente, pois com certeza os genes de Mikael venceram essa luta, mas foi Helena quem a criou, quem a ensinou a ser a mulher que é hoje. Graças a Deus não foi seu pai.

Mas Kateryna tinha certeza de que tudo o que ela era hoje correspondia aos desejos de seu pai.

— Eu tinha pouco mais de seis anos quando ela morreu.

— Meu filho só está vivo hoje por causa de Helena, e eu jamais poderei me justificar diante dela, ou agradecê-la. — a mãe de Azra olhou para ele e ele assentiu. Azra se sentou no chão à frente delas e cruzou as pernas, como se sentasse em frente a uma fogueira cigana para ouvir uma história cigana.

— O jantar em que nossas mães se reencontraram, sobre o trem que ligasse Turka e Russya, foi atacado por inimigos do ministério russo. Eles entraram armados, e renderam a todos. Minha mãe estava grávida de mim e Helena se colocou na frente de sua barriga, para protegê-la.

— Mikael encontrou uma arma escondida e atirou no homem que estava nos ameaçado, logo em seguida os seguranças apareceram e guardas da cidade também vieram nos socorrer, mas foram os Petrov que me deram a chance de ter meu filho e a minha vida — Vyena acariciou os cabelos de Azra, que ronronou como um gato ao toque na mãe. — Nada é mais precioso que o primeiro filho de uma mulher. Dunah.

— Por que o chama de Dunah? — Kateryna queria esquecer aquela história, antes que voltasse a pensar em sua mãe e o quão pouco sabia dela.

— É o nome de meu filho. O nome de seu nascimento, aquele que Deus quis dar a ele. É uma tradição cigana, só nomeamos um bebê após três semanas de seu nascimento, mas o nome espiritual é escolhido assim que nasce, pois precisa ser reconhecido diante de Deus. Dunah é um nome abençoado e o meu filho cresceu forte graças a ele.

— Azra Dunah — Kateryna olhou para Azra, mas não conseguia imaginá-lo carregando aquele segundo nome. — Obrigada por me contar sobre minha mãe.

— Você é da família, Kateryna — Senhora Vyena beijou sua testa e então a soltou — Estão cantando parabéns! Precisamos descer, Dunah!

— Sim — Azra se levantou junto da mãe, mas não saiu correndo escadas abaixo, antes se voltou para ela de novo e esticou a mão — Vamos, Kateryna.

Kat ia segurar sua mão e descer com eles para cantar parabéns ao príncipe, iria mesmo. Mas…

— Tudo bem, vou ficar aqui.

— Mas é o parabéns…

— Tudo bem, Azra. É melhor eu voltar para o quarto, os remédios estão me deixando sonolenta.

— Então eu… — ele olhou para sua mãe, no meio das escadas, e o som dos aplausos para seu primo. Fique. Fique. Kateryna implorava através de seus olhos, os únicos que não mentiam em todo o seu rosto. Fique, por favor. — … vou vê-la amanhã?

— Amanhã?

— No desjejum, cedo.

— Claro.

— Sim — Azra sorriu de leve e se afastou — Boa noite, Kat.

E foi.

Kateryna se levantou e entrou na sala de chá, lugar proibido para homens.

— Boa noite — sussurrou em resposta para ele, mesmo que não a pudesse ouvir. Queria dizer o quão grata estava por tudo o que ele vinha fazendo, toda a atenção que lhe dava, mesmo não tendo obrigação alguma de garantir seu bem-estar.

— Ah, já? — a governanta abaixou o livro de poesia que lia diante da lareira. — Boa noite, querida.



Ele queria ficar. Queria mesmo, ter sido forte para continuar lá em cima e ignorar os laços afetivos que o obrigavam a ser mais um dos que cantavam parabéns para o príncipe. A comemoração cigana era muito diferente daquela e ele sempre se sentiu um tolo por cantar aquelas linhas toscas para Heid, mas eles pertenciam à mesma família, enquanto Kateryna era apenas uma garota que ele conheceu há dois dias. Estar se apaixonando por ela não era mais importante que sair nas fotos atrás do bolo, ao lado do primo. No futuro, isso teria importado.

Chegou lá já no final das palmas, a tempo apenas para abraçá-lo. Heid ria, explodindo o champanhe, cortando o bolo de quatro andares e distribuindo abraços para todos os seus nobres, ministros e selecionadas. Um garoto feliz e mimado, completando dezoito verões. Azra e Savyna podiam se orgulhar do bom trabalho que, até agora, tinham feito. E Azra podia se orgulhar do trabalho que fizera com a irmã. Ela estava linda, estonteante, escondida em silêncio no meio da multidão. Azra percebeu, como sempre, os rapazes que lançavam olhares tortos em sua direção, mas ele sempre conseguia espantá-los apenas por se aproximar dela, e foi isso que fez.

— Oi.

— Oi.

Um silêncio calmo caiu sobre eles.

— Como foi com a estátua e mamãe? Ela chegou a demonstrar alguma reação por causa da mãe?

— Ela não é uma estátua, Savie, e você gosta dela.

— Como uma estátua, ela é muito fofa — Savyna piscou — Você também gosta dela. Mais do que pela história entre as nossas famílias. Não porque a mãe dela “te salvou”. Você nunca foi de passar os elos para os descendentes.

— Eu sou grato aos Petrov.

— Deveria. — Savyna tomou uma taça de champanhe que era servido por um garçom — Mas não são esses sentimentos que você tem por ela. Você sempre quis o que era meu.

— Não sabia que a Petrov era sua namorada.

— Não estou falando dela, estou falando dos meus sentimentos.

— Ah — Azra mordeu os lábios, encabulado com o lugar em que aquele assunto estava chegando. — Se for por causa de Joanna, Savyna, eu amo muito mais você do que ela.

— Você sabia que eu a idolatrava. — Savyna cerrou os punhos, mas não alterou a voz. Ainda não estava bêbada, evidentemente. — Sabia que ela era meu primeiro amor.

— Você era nova demais, por favor. E nós… nós sempre estávamos juntos. Não teve como evitar, nossa puberdade chegou e você ainda era uma criança. — ele piscou — Mas não me importo de dividir uma mulher com você, da próxima vez.

— Você é um porco. — Savie grunhiu, mas no final da frase já estava rindo. — Joanna adoraria isso, tenho certeza. Os dois Czarevitch em sua cama.

— Suspeito que ela prefira ser a professora, com Heid.

— Imagine nosso primo com qualquer mulher desse salão. Seria uma vergonha para nós dois. Nós o criamos em tudo que podíamos, menos no mais importante.

— Se ele não fosse um príncipe, eu teria levado alguma dama elegante para visitá-lo. Mas titia cortaria minha cabeça se soubesse.

— E eu pisaria no seu cadáver — Savyna socou seu ombro — Você fede a prostitutas.

— Eu sou um amante! Estou apaixonado pela mulher.

— Seria poético, se essa “mulher” não fossem todas as mulheres do mundo.

— Eu nunca paguei para que dormissem comigo.

— Você não precisa — a irmã ergueu o queixo e empinou os peitos — é só chegar com essa cara de cãozinho dócil e contar alguma coisa sobre a romântica vida dos ciganos e pronto, elas estão na sua rede.

— Você está menosprezando as mulheres, e você é uma delas.

— Sou tola como todas. Amando pessoas impossíveis, por motivos bobos.

Azra a envolveu, afetuosamente.

— No exército, senti sua falta, mais do que das outras vezes.

— O que isso significa?

— Enfim, nossas idades não significam mais grande coisa e podemos conversar como adultos. Você é minha alma metade, Savie.

— Você divide tanto sua alma com o mundo que suspeito que essa metade seja menor que o resto que sobrou pra você. — ela bateu em seu peito, mas retribuiu ao abraço — Eu não sou mais uma criança.

— Eu a amo, irmã.

— Eu também te amo, seu porco.



Sentia-se esplêndida em seu vestido dos sonhos, rodando pelo salão. Após sua dança com o príncipe, ela aproveitou para comer e beber um pouquinho de álcool, mas só um pouquinho mesmo. Viu Surya no salão, comendo também, mas não teve coragem de se aproximar dela. Iriam voltar à paz em algum momento, mas não agora. Harumi permaneceu perto de Galaxia e Eleonora, mas logo perdeu a simpatia pelo assunto de ambas sobre a situação dos pequenos postos de saúde de regiões interioranas e rurais. Na verdade, aquele debate nunca chegara a sua mente, até agora. Sem perceber, Harumi se afastou das demais garotas, caminhando até uma das antecâmaras do salão de baixo, em apenas uma mulher, provavelmente uma viúva, estava sentada, bebendo champanhe recém-servido. Os garçons tinham um bom trabalho servindo a todos.

Ela aproveitou e se sentou no sofá oposto ao da mulher, olhando para a janela que dava vista ao jardim. Alguns casais caminhavam juntos, outros apenas conversavam sobre política e havia ainda mulheres sozinhas que, descalças, aproveitavam a sensação da grama sob seus pés. Harumi queria fazer aquilo também, mas quando o baile acabasse. Quando tudo passasse, talvez no dia seguinte, sem ter trezentas pessoas ao seu redor, rindo e trazendo assuntos que ela nunca parara para imaginar antes. O fato do mundo ser enorme ainda a assustava. Ela sabia a dimensão do Império: dois continentes, mesmo assim era muita coisa. Como conhecer uma ovelha, mas nunca ter visto seu rebanho. Você imagina a dimensão da ovelha, o quão diferente sua lã deve ser de outra ovelha, mas nunca saberá o quanto ovelhas são diferentes e iguais até que veja todas.

A viúva notou que a menina oriental estava quieta demais. Uma jovem de sua idade deveria ser um pouco mais… empolgada. Pelo menos no baile de aniversário do príncipe. Se suas suspeitas estivessem certas, então aquela era uma das selecionadas do príncipe Heid, uma que viera de Hanya ou do Extremo Oriente, nunca sabia como diferenciá-los corretamente.

Levantou-se, colocando de lado a taça de champanhe.

— Minha garota, o que a atormenta tanto? — ela se sentou ao lado da oriental, mas a menina apenas lhe deu um sorriso triste e continuou quieta. — Não é possível ter tantos fantasmas quanto eu. Diga-me, o que a deixa tão triste?

— A minha cabeça — Harumi respondeu-lhe — quando não pensa em algo que deveria ter pensado, eu me pergunto o que houve de errado para eu nunca ter notado isso ou aquilo. Afinal, eu defendo os animais de abate, mas não defendo os seres humanos que vivem lá, com eles. Quando o sustento com eles.

A viúva ergueu uma sobrancelha.

— Se as pessoas do campo continuarem como estão, então os animais também continuarão, e todos na cidade vão comer carne e matar animais, e se não o fizerem, matarão pessoas, que estão no campo, vivendo disso.

A mulher encarou-a, esperando por mais alguma explicação. Qualquer coisa.

— Por que as pessoas continuam no campo se a cidade é muito melhor? Se eles saírem de lá, então os animais estarão livres e todos poderemos comer apenas o que vem da terra, que não é sensível e consciente, como nós.

— Você está me enrolando — levantou-se, erguendo as saias para se mover. — Quando se tenta ser gentil com essa geração, é isso que se ganha! — resmungou e se foi, salão adentro.

Harumi a observou se ir e voltou a olhar para o jardim. Era certo que Galaxia poderia falar melhor sobre aquele estilo de vida, já que ela viveu assim por muito tempo. E talvez Sabrina, se algum dia conseguissem conversar corretamente, sem começar a achá-la uma pessoa mesquinha. O som dos violinos começaram a incomodar seus ouvidos. Era uma melodia estridente que zombava atrás de uma gaita e uma sanfona, provavelmente música cigana, para homenagear a imperatriz, mas que fazia seus tímpanos se exprimirem para dentro do crânio. Não suportou mais uma nota sequer e pulou a janela para o jardim, era um parapeito baixo.

Alguém gritou e ramos de um arbusto se partiram com o peso de seus saltos e a armação de seu vestido. Harumi sentiu que havia um braço por baixo de sua canela e alguém respirava ofegante sobre o tule de sua saia. Puxou o tecido e encontrou o rosto do príncipe, dolorosamente contorcido.

Se ergueu num pulo só, ajudando-o a se sentar.

— Vossa Alteza, não era minha intenção cair em você.

— Com certeza não era — Heid anuiu, mas sorria, de uma maneira brincalhona. — Fugindo também?

— Essa música é horrível.

— A música? — Heid ergueu uma sobrancelha — Eu gosto da música. É cigana, sabia? Minha mãe deve estar dançando no salão, agora. Ela só dança se tiver uma gaita. — e então ele sorriu — Por que não gosta da música?

— Eu apenas não gosto, não quero ofendê-lo. — era melhor manter a boca fechada, antes que o príncipe achasse que não valesse perder tempo com ela.

— Pouca gente me diz que não gosta de algo cigano, mas na verdade… eu não gosto. Não gosto da maioria das coisas, como viver em acampamentos primitivos ou dançar como se fosse um animal ao redor de uma fogueira. Não é o meu estilo de vida. Mas… obrigado por dizer que não gostou, Harumi, eu me sinto um pouco menos ruim agora.

— Você se lembra do meu nome — ela sorriu, sinceramente surpresa. Como ele poderia, com trinta e uma outras meninas?

— Você sabe o meu, como não saberia o seu? — Heid tirou algo do bolso. Era um pedaço de chocolate. — Trufa?

— Tem leite?

— Suspeito que sim.

— Passo. Não como nada de origem animal.

— Minha mãe a detestará, então.

— E eu retribuo — Harumi sorriu, e o príncipe sorriu mais ainda.

Um milagre. Aquele era um milagre.

— Você está cursando música, não?

— Errado. É pedagogia, meu pai é músico.

— Ah, eu sei que lembrava do seu sobrenome com relação à música… — ele se levantou, batendo a calça antes de chamá-la — Você vem?

— Para onde?

Por que perguntar, sua burra? É o príncipe, é claro que você irá.

— Vamos fugir desse lugar.

Harumi, é claro, pesou o quanto o príncipe considerava “fugir” como um ato definitivo e sem volta, mas, claro, concluiu que ele só tinha dezoito anos e que o seu fugir se tratava de entrar mais adentro do jardim e se perder nas sombras, onde a luz das lâmpadas não alcançavam. Mesmo assim, não seria arriscado?

Arriscado para quem? Ele era o príncipe, um homem honrado e educado, responsável e respeitoso. Não havia motivos para temê-lo.

Levantou, também batendo as mãos em sua saia, e então começaram a caminhar lado a lado, em direção aos fundos do palácio.



Podiam todos queimar no inferno, ela não iria continuar naquele salão nem um segundo a mais. Dane-se o príncipe, dane-se dançar com ele, dane-se qualquer um. Não tinha ouvidos para aquilo, nem paciência para colocar seu plano em ação no meio do aniversário dele. Voltou para a sala de chá e terminou de beber sua taça de vinho lá. Ficaria um pouco mais feliz quando fizesse efeito, até lá poderia terminar de se explicar com Verônica porquê voltava mais cedo, sendo que o baile mal havia começado. Por quê?

— Aquilo é uma merda.

Aquilo é um baile real, em honra ao décimo oitavo aniversário de sua alteza real, príncipe Heid Czarevitch Pazzlav. Se for rainha, terá de comparecer a todos.

— Eu não serei rainha — Alisha deu de ombros e colocou os pés sobre a mesa, massageando o calo pressionado pelos saltos que foi obrigada a usar.

— Ora, que falta de autoconfiança — a governanta sorriu — Todas têm chances iguais, mesmo você não gostando de bailes, pode conquistar o príncipe mesmo assim. E sei que faria uma exceção para ele.

— Todos fazem uma exceção para ele — resmungou e passou a falar em hindu — aquele mimado nunca assumiu uma responsabilidade na vida, dá para ver no modo como olha assustado para qualquer pessoa ao redor, assim que alguma coisa ruim acontece ou precisa se arriscar. Aposto que a culpa do acidente da russa é dele, e ele colocou isso no cavalo. Matar um animal tão nobre… era ele quem deveria ser sacrificado, ele e toda a sua laia.

— Eu não entendi uma palavra dessas sua língua bárbara, mas vou considerar uma ofensa e pedirei que, se não for voltar ao baile, se retire para seu quarto.

E Alisha voltou para o quarto, sem problema algum.



— Então mulheres não devem ganhar o mesmo salário que os homens porque ficam grávidas, mas precisam fazer o mesmo esforço que os homens para conseguir no final do mês cumprir as metas do seu chefe?

— É uma indenização, o chefe sempre estará perdendo se contratar uma mulher, em um mês ela pode pedir licença e ele terá prejuízo. — o ministro retrucou.

— Uma indenização, sim… Vejamos, então, senhor — ela descruzou os braços de sobre o peito e gesticulou no ar enquanto falava — Se o decréscimo for de cem euros, e isso é uma quantia baixa — o ministro assentiu — então a cada um mês que se passar, um empregado do sexo masculino ganhará cem euros a mais que uma empregada do sexo feminino. Em seis meses, ele terá juntado seiscentos euros a mais que ela. Julgando que o salário mínimo é de seiscentos e vinte e quatro euros, em um ano ele terá dois salários mínimos a mais que ela. E o décimo terceiro. E o seguro de vida, seguro desemprego, vale transporte e comida… enquanto a sua empregada mulher não poderá ter tudo isso, pois a qualquer momento pode ficar histérica com a menstruação e se acidentar sozinha, ou engravidar e precisar sair de férias prazerosamente gastando seu lucro em alguma ilha da Grécia, à lá Mamma Mia.

— Dois salários mínimos é muito pouco, as despesas com uma empregada grávida são no mínimo de quatro salários mínimos no ano.

— Você é tolo ou apenas se faz de cego? — a garota riu para a plateia ao redor deles — Cem euros é uma quantia ínfima perto da diferença real dos salários. O New Times Journal publicou mês passado uma média salarial entre professores e cozinheiros de diversas escolas de Paris e todas as professoras recebiam em média duzentos e vinte euros a menos que os homens, isso dá quatro salários mínimos ao ano.

— Paga a indenização — o ministro sorriu, como se tivesse ganhado o debate.

— Os cozinheiros tinham uma diferença de quatrocentos e cinquenta euros. As mulheres recebiam um salário mínimo, enquanto os homens tinham mais de um salário mínimo e meio. A diferença só aumenta conforme a categoria. Para caminhoneiros, pode ser de até mil euros ao mês.

— Isso é loucura, você está mentindo sobre os números.

— Está no jornal!

— Você lê jornais de rebeldes, senhorita.

— Admita que a diferença é absurda e seu argumento, insuficiente.

— ...Louca — ele resmungou e deu-lhe as costas.

As pessoas paradas ao redor de ambos começaram a se movimentar, entediadas com o fim da discussão. Talvez, se ele estivesse mais bêbado, poderia ter acabado com um velho espumando de raiva na própria poça de vômito. Era algo que normalmente acontecia quando ia à algum pub com operários ranzinzas.

Um ministro, com ideias tão retrógradas, tinha sido eleito pelo povo.

Que povo?

Sempre se aborrecia com essas coisas, coisas bobas demais, mas que tinham tanto significado. Bebeu mais um pouco, antes de achar que estava passando do limite. Queria estar usando calças, para assim se movimentar com mais facilidade naquele salão apertado, mas as amarras de uma mulher sempre são aquilo que ela mesma considera como apropriado, e não viu outra coisa que fosse melhor para o baile que aquele vestido vermelho de corpete baixo e mangas finas. Mostrava mais de seu corpo do que teria sido apropriado, no começo do século XX, e ainda inapropriado no começo do século… bem, naquele tempo conturbado em que a data do nascimento de Jesus não era assim tão importante.

Também passou o velho e bom vermelho biscate nos lábios, apenas para se sentir mais familiarizada com a imagem no espelho, limpa e sem nenhuma maquiagem, sem os brincos de argola ou as pulseiras barulhentas que adorava usar com a jaqueta de couro do século XXI, herança de família, ou um boné para cobrir os cabelos pretos rentes ao pescoço.

Aquela era alguma filhinha da mamãe, não ela.

Mas ainda assim, não pertencia àquele mundo, então se confortava.

Estava caçando mais uma taça de uísque ou, se Deus a abençoasse, gim, para se sentir um pouco 1984, para variar — quando o viu. Antes a piada sobre Deus e gim fora apenas isso, uma piada, mas: Deus! Aquele homem! Ela sentiu os pelos de seu antebraço se eriçarem só de vê-lo, pegando um dos copos com suco de limão e gelo. Alto, moreno, forte. Fazia o seu tipo em todos os sentidos, e isso era mais um sinal de demência que sinos badalando em Hairspray. Por que ela só gostava de homens que fossem masculinos, em todo os sentidos, por incrível que pareça, eles eram peculiarmente mais atraentes que os moços comuns. E, sempre, era mais idiotas que os outros. Convencidos de sua masculinidade que pingava da barba até o tamanho do seu…

Ah, devia ser isso que a deixava tendenciosamente voltada para eles, aquela fantasia boba de que tamanho era documento.

Esqueceu o cavalheiro que roubou seu ar por alguns instantes e entornou uma taça de uísque, na falta de gim.

Com tanta variedade de bebidas alcóolicas caras sendo servidas no baile, ele estava tomando suco de limão? Isso não era um sinal? Virou a cabeça na direção em que ele se fora, mas não o encontrou, deveria já ter se perdido na multidão. Francamente, que história era aquela de amor à primeira bebida, senhorita? Como andam o foguinho ai embaixo? Sua dona não te tocou recentemente?

Se aquieta.

Era bem a sua cara mesmo, acabar de destruir moralmente um macho, para cair de amores físicos por outro.

— Você é a última selecionada com quem o príncipe dançará hoje — alguém falou a suas costas e ela se voltou para o guarda, sorrindo alegre. Bêbada. — Estou certo?

— Eu não sei.

— Você é… Eleonora Astried, de Germanya?

Então ela notou: era ele, o moço de minutos antes. Seu rosto não era… tão masculino quanto supôs. Havia até uma fragilidade ali, como uma profunda tristeza. Uma memória devastadora.

— Pode apostar que é ela. — respondeu, sorrindo por baixo do copo de água que, pelo amor dos céus, precisava beber imediatamente. Ele era tão, desgraçadamente, bonito, como La Vie en Rose à la Louis Armstrong.

— Eu peço perdão, em nome do príncipe, ele não se sentia bem e por isso me enviou para dançar a sua valsa.

— Ah — foi tudo o que conseguiu soltar, analisando o enviado do príncipe. Santo seja Heid Pazzlav. — Você serve.

Ela olhou para o guarda e o reconheceu

Notas finais
Espero que tenham gostado, ficou bem longo! Alguma coisa chamou a atenção de vocês nesse capítulo? Bom, muitos leitores ficaram se perguntando sobre a Galaxia, no capítulo passado, então vou explicar: acho que não me fiz clara, nas notas do capítulo sobre falar dela depois. Significa que falarei do encontro depois do baile. XD Obrigada pela leitura e pelos comentários, desde já! Beijos da Lady