Notas iniciais
Boa leitura a todos!

Bebida e Embebida

A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.

Oscar Wilde

A ela não foi dada a primeira dança, nem a primeira valsa ou quadrilha. O príncipe guardava o melhor para antes de seu aniversário, a última garota antes do “Parabéns a você”. Em festas de aniversário, era quase como o primeiro pedaço do bolo. Heid vestia um terno azul escuro e deixara os cabelos comportados com bastante gel. Não era um homem arrebatador, ele não a fazia suspirar, caminhando em sua direção com um leve ar de nervosismo, entre as bochechas coradas e os olhos no chão. Talvez suasse por dentro colarinho, mas quando pegou sua mão, abriu um sorriso largo que deixou Mizandre muito satisfeita. Retribuiu o sorriso do modo mais sensual que conhecia de entreabrir os lábios.

No salão, poderiam ser as únicas pessoas no mundo. Ela não se importaria se todos os convidados evaporassem. Heid também não se importaria. Ele era um dançarino tão bom quanto Kateryna e foi fácil acompanhá-lo, mesmo com sua falta de prática. Mas o silêncio entre eles era insuportável demais para manter a valsa, de todo, agradável.

— Aconteceu alguma coisa, meu príncipe?

— Uma das selecionadas acabou de dizer palavras difíceis de engolir — ele sorriu, olhando dentro de seus olhos, numa profunda conexão que Mizandre achou ameaçadora demais. — E você, senhorita Marion?

— Chorei a noite toda em meu quarto, você quase não apareceu depois do episódio com os cavalos, pensei que estivesse me culpando — ela murmurou numa voz chorosa e com um biquinho de criança, que quase nunca falhava.

— Não, não! Você não é culpada de nada — ele abaixou-se, próximo de sua orelha. O corpo de Mizandre se arrepiou quando o príncipe disse, em franco — Não queria que se sentisse esquecida, estive ocupado com questões do Império, e estarei cheio de relatórios após as reuniões com os ministros… Todos querem acertar coisas com o Imperador, antes de retornar aos seus países, e eu me tornei passei a realizar as tarefas mais enfadonhas para meu pai, então… Estarei ainda mais ausente. Eu não queria — seu franco era doce, fazia juz à língua dos poetas, do amor. Mizandre adorava ouvi-lo falar sua língua materna. Nada parecido com aquele bruto idioma comum. — Não para você.

— O príncipe parece cansado — ela sorriu, afastando o rosto, pois os convidados já teriam reparado a proximidade àquela altura — Eu posso ajudar, se convier ao senhor. — e então girou no antebraço do príncipe, um passo que não estava no manual de Verônica, mas que ela achou muito necessário para o momento. Heid acompanhou. — Pode ser o nosso encontro.

— Pensei que preferisse um jantar, com vinho francês e algum disco do século XIX.

— Discos são do século XX, meu príncipe. — ela riu.

— Ah — Heid ruborizou de leve, mas continuou sorrindo com os olhos — História não é o meu forte.

— Heid, eu não me importo de onde será nosso encontro — Mizandre parou, a música também diminuía, já se encaminhando para o Parabéns, conforme o bolo de quatro andares e muito glassê entrava no salão, até o lugar em que eles se encontravam. O aniversariante. — Desde que seja com você, podemos beber o vinho enquanto fazemos os relatórios…

— É uma tarefa entediante — ele murmurou, roçando o ombro no seu, colocando-se ao seu lado para esperar que o bolo chegasse até ali.

— Nada é entediante com você, Heid.

Mizandre teria vomitado ao assistir aquela linha em uma série na TV, mas quando ergueu o rosto para olhar seu querido príncipe, ele sorria como uma criança feliz.



Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.
Oscar Wilde

Como dizia Wilde “Ser grande é ser incompreendido”, e por isso podia afirmar com toda a convicção que era o ser mais insignificante e rasteiro da face da Terra, pois compreendê-la não levaria mais que algumas horas ou uma lista de cem palavras (o que para a complexidade humana é miseravelmente pouco). Não se sentia, no entanto, medíocre, não, estava abaixo disso, ela era tão baixa quanto os porcos que comiam os restos dos fazendeiros ou as pulgas que se contentavam com alguns puxados de sangue, quando existia um cão inteiro sob seus pés. Era assim que os miseráveis viviam em Eurásia, felizes com a sua mesquinharia. A elegância não era para ela, nem toda a confusão do belo, seus olhos não conseguiam captar a poesia da forma como era necessária, sentia que um grande vazio separava sua mente apedeuta da compleição do sublime, que era um patamar elevado demais para sequer identificar, além do dourado, das curvas, das conchas incrustadas em cristais, da melodia que seria Beethoven ou Mozart.

Então, quando se sentava em frente a outro ser humano e ele se dispunha a ouvi-la, não havia saída: sempre acabava se tornando amiga daquele outro bêbado, tão miserável quanto ela.

— Você sabe fazer venenos e poções? Como uma feiticeira?

— Eu aprendi algumas coisas, mas não tinha idade suficiente para arriscar a responsabilidade pelas vidas que um remédio poderia ou não salvar — explicou, movendo as mãos e as costas, encostada no braço do sofá. — Minha mãe sempre foi muito meticulosa. Eu cuidava do caixa e do abastecimento de ingredientes. Sei reconhecer o que ela usava, mas usar… se eu tivesse um dos seus livros…

— O que aconteceu com os pertences de vocês?

— Tomados para o Estado, alguma coisa sobre estarem protegidos até eu completar a maioridade, mas, aqui estou eu, vivendo do que a vida traz. E que gentil ela tem sido comigo, ontem mesmo eu me enchi de barriga de porco — brindou-o com uma taça, antes de virá-la.

— Você tem um ótimo vocabulário para quem nunca foi à escola.

— Eu leio. Existem bibliotecas públicas, embora pouca gente saiba. Cheguei a morar nos fundos de uma, por algum tempo. As mulheres me levavam bolo e chá, eram uns amores. — sorriu, lembrando-se das velhas senhoras bibliotecárias que cuidaram de seu bem-estar quando tinha dezesseis para dezessete anos.

— Você parece ter muitos amigos.

— É normal, as pessoas que sempre perdem costumam se unir, nas camadas mais baixas. Quando fui classificada como uma Desabrigada, ganhei uma família. Desde então, nunca passei fome. Também nunca enchi a barriga, como encho agora, mas era ótimo. Conhecer gente.

— Sim, no Exército temos contato com todo o tipo de pessoas. Desde Desabrigados a Nobres de primeira linhagem. Alguns desabrigados se tornam capitães e adoram mandar nos nobres, mas com o tempo, essa linha vai se desfazendo, e você percebe que todos estão do mesmo lado. — ele também bebeu, embora ainda estivesse sóbrio. Ambos desistiram de dançar depois da primeira volta, que quase fez Eleonora vomitar nos calçados impecáveis do guarda.

— Qual sua classe?

— Eu sou um militar.

— Não, antes. Antes de se alistar.

— Eu… não sei — o homem de rosto mendicante e modos cuidadosos perdeu seu olhar nos convidados, passando de um lado para o outro dentro do salão.

— Não sabe?

— Quem você acha que eu sou, Eleonora? — seus olhos, ela podia ver por seus olhos que não era uma simples pergunta. Hesitou em dar a resposta errada.

— Um cidadão comum?

— Não! Quem eu sou não tem a ver com de onde eu vim ou onde estou.

Resposta errada. Silêncio se seguiu.

— Agora que acabou de dizer — ela se remexeu, incomodada — Ainda não sei o seu nome.

Após meia hora de conversa fiada, só então se deu conta.

— Como não sabe?

— Eu não sei — deu de ombros — Você chegou a me dizer?

Ele esperou, e então balançou negativamente a cabeça.

— Eu pensei que todos já soubessem quem eu sou.

— Não é muita prepotência para um simples socorrista do Exército?

Ele riu.

— Azra Czarevitch — uma mesura — Ao seu dispôr.

— Eleonora Astried, mas isso você já sabia. — com uma piscadela, Eleonora procurou por outra taça na mesa ao lado do sofá, mas todos os copos estavam vazios. — Talvez eu tenha bebido demais.

— Com toda certeza — ele sorriu — Mais do que qualquer moleque do exército.

— Você não bebe, Azra?

— Intolerância, minha resistência a álcool é muito baixa — desculpou-se, como se fosse preciso — Tem certeza que… que não é cigana?

— Por que me pergunta pela segunda vez? — Eleonora sorriu, gostando do modo como ele falava com ela, quase como um amigo, próximo o bastante para dar outro passo e agarrá-lo para si. Seria algo que ela teria feito em um pub, mas o salão de baile de Mariyinsky parecia inapropriado para isso. — Não, minha mãe não é cigana, nem feiticeira, nem uma druída.

— Ah, druidas são legais — Azra bufou, mas foi algo tão natural e fofo que a fez rir. Talvez estivesse mais bêbada do que o costume. Sentia seu corpo se soltando no ar, tão leve que poderia dançar sobre todas as mesas sem sentir o peso da gravidade, ah, sim. — É tão fácil falar com você, Nora. Parece que somos amigos há anos.

— É o álcool, aposto que tinha alguma coisa no suco de limão. Talvez eu mesma tenha derrubado um copo de vodka em alguma das jarras…

— Você é igual a elas… — ele riu — Minha irmã e Joanna, vocês são iguais. Deve ser por isso que é tão fácil.

— Eu não sou uma pessoa emocional o suficiente para me sentir tocada por essa melancolia sóbria, mas obrigada. — Eleonora deitou a cabeça sobre seu ombro. Ah, sim, ela se aconchegou no estranho que havia acabado de conhecer, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Sim, sem um pingo de dúvida, estava bêbada além do permitido. — Eu acho que amo você, Azra.

— Sim, sim — ele riu, mas não se moveu, o que foi muito gentil da sua parte, levando em conta que uma garota bêbada estava praticamente babando em sua camisa enquanto caía num sono profundo. — Nunca lamente que um poeta seja um bêbado, lamente que nem todos os bêbados sejam poetas.

Ela sorriu, agraciada por seu amigo socorrista que citava Wilde enquanto a embalava como uma criança dormindo no meio do filme.

— Meu Deus, como você é lindo.

— Eu tenho certeza que amanhã você vai adorar lembrar disso, Nora — Azra ergueu-a, para levá-la para o quarto. Seria atravessar o salão inteiro, subir uns trinta degraus e passar pela sala de chá até sua cama, local restrito a partir da sala de chá. Não tinha certeza se Verônica conseguia lidar com um bêbado tão bem quanto ele. No exército, qualquer dia de folga era sinônimo de cuidar de seus amigos, para que não morressem asfixiados em uma poça do próprio vômito.

— Não sei direito o que é aurora boreal, mas acho que deve ser algo lindo que se formava enquanto você era feito.

— Eleonora, me ajude a te ajudar, vamos para a sala de chá.

Ela sorriu e enrolou o dedo em sua gravata.

— Não sei direito o que é isso que eu sinto por você. Mas como é maravilhoso fumar você, cheirar você, tomar você, injetar você. — sem pedido de licença, ela afundou o rosto em seu colarinho e cheirou bem fundo a colônia que havia passado. — Calar a boca. Me pergunta uma daquelas coisas para eu dar uma daquelas respostas que você morre de rir.

Azra riu. Agora tudo fez sentido: ela estava recitando Calar a Boca, de Tati Bernardi. Era uma das crônicas preferidas de Savyna, mas só até a parte do cala boca.

— Sei que é por pouco tempo. Somos plantas diferentes. Pássaros diferentes. — Eleonora sabia o que estava dizendo. Era exatamente isso que queria estar dizendo. — Outro dia me peguei pensando um absurdo que me fez feliz. — É triste, mas me fez feliz. — Pensei se é isso que você faz, de ficar horas comigo depois de ter ficado horas comigo. Se isso é algum tipo de caridade sua. Porque, veja bem. Somos plantas e pássaros diferentes. Eu sou a bonitinha que lê uns livros e vê uns filmes. Você é essa força absoluta e avassaladora que jamais precisará abrir a boca para impor sua vitória.

— Você sabe decor? — ele riu, empurrando as pessoas para não se baterem em Eleonora, que agora caminhava desajeitada, com um braço ao redor de sua cintura. — Savyna adora essa crônica, você deveria recitar a ela.

— Você sabe que deixa apenas duas escolhas pras pessoas: te idolatrar ou sair correndo. E como eu não sou mulher de correr da dor, deixo ela entrar aos pouquinhos, esbugalhar meus sentidos, enfraquecer meu orgulho.

Chegaram ao primeiro degrau da escada. Azra içou o braço ao seu redor, antes de começar a subida. Eleonora sentia-se flutuar, ele sentia que carregava uma bola de canhão com apenas uma das mãos.

— Quando vejo, estou calada novamente, ouvindo o que você não diz e vendo o que você não faz. Apenas curtindo a limitação profunda e gigantesca da sua beleza esmagadora.

— Faz o silêncio pra ganhar de vez. De mim e do mundo. — ele completou, um pouco ansioso por chegar ao fim daquela confissão de amor não muito convencional. Não sabia se deveria rejeitar ou aplaudir a proclamadora. Não sabia nem se aquilo era uma confissão ou não.

— Não existe não morrer um pouco quando você chega. E de vez em quando tudo o que a gente quer é mesmo dar um tempo da vida. — ela suspirou — Eu quero morrer, Aslam.

— Morrer?

— Dar um tempo na vida, use o eufemismo que quiser.

— Mas por que você quer morrer?

— Arlan, Arlan… morrer de amor, com você. — ela saltou o último degrau e se desvencilhou de seu braço, tomada pelo equilíbrio súbito que às vezes os bêbados têm, quando estão profundamente emocionados.

— Eu não sou assim, fácil — abriu a porta da sala de chá, chamando a governanta Verônica com um aceno de mão. Ela se levantou de seu divã e colocou o livro que lia em uma das mesas. Viria logo.

— Os que prestam nunca são. — ela o abraçou — Vou sentir saudade. Nunca mais quero ver a sua cara. Boa noite, Jasan.

— Boa noite, Nora — ele a deixou com Verônica, que aceitou humildemente o fardo de carregar a selecionada até seu quarto. Quando Eleonora saiu dos braços de Azra e se viu nos braços de Verônica, ela sorriu e enroscou o dedo na lapela de flor de sua camisa.

— Senhora Verônica, você é tão linda…

Verônica revirou os olhos e tapou a boca da selecionada por alguns instantes.

— Eu deveria me ajoelhar e agradecer a Deus o quão gentil e bondoso Ele o fez, Azra. Muito obrigada por tê-la trazido sã e salva.

— Faz bem descontrair o estresse na bebida, Ronie, não a culpe. — ele sorriu — Eu deixei que ela bebesse.

— Não juro não castigá-la, de alguma forma, mas serei compreensiva — a governanta olhou para o baile e suspirou, tão cansada que ele oscilou em lhe oferecer uma massagem nos ombros — Ainda é meia-noite e cinco meninas já voltaram para o quarto. E se elas saírem da festa antes do dia amanhecer? O que direi à Rainha?

— Que as selecionadas não gostam de música cigana, comida apimentada ou ficar horas da madrugada dançando com pessoas que elas não conhecem — sorriu — Eu não gosto de bailes, também. Estou aqui por Heid.

— Espero que dê tudo certo nessa Seleção. — ela olhou para ele, agora mais profissional e madura, mostrando a governanta experiente que era. — Nosso Império depende desse casamento.

— Não se preocupe, Ronie — fez uma mesura e começou a descer as escadas — Nosso Heid não irá decepcionar.



Ele precisava de ar.

Só poderia ser a atmosfera abafada do salão de baile cheio de trezentos convidados, mas temia que na verdade fosse o que Sabrina Torvald lhe disse mais cedo. Ela o chamou de covarde, em palavras menos rebuscadas. Tinha total consciência de sua covardia, mas não precisava que alguém lhe dissesse isso. Estava tentando melhorar da forma que podia. Mesmo assim, mesmo sabendo que ela fora cruel e injusta, Heid se sentiu devastado com o fato. Tanto que decidiu fugir de sua própria festa de aniversário, escondendo-se debaixo de uma das janelas, sentado onde a luz iluminasse sua vista, mas não denunciasse sua posição. Seus convidados aproveitavam do bom e do melhor que a festa de um príncipe poderia oferecer, ele sempre achou incômodo como as pessoas que vinham prestigiá-lo sempre pareciam aproveitar mais daquilo do que ele, mas nunca pediu para que não realizassem os bailes. Era um dos raros eventos em que podia encher o palácio de pessoas de todos os lados do país, sem necessariamente precisar conversar com todas.

Então alguém pulou a janela em que ele estava escondido e caiu em cima de seu braço. Era Harumi Saito, do Extremo Oriente. Ela fora uma das fichas que havia separado sobre sua cabeceira, naquela tarde, disposto a dar mais atenção a ela depois do discurso de Savyna sobre boas meninas e más meninas dentro da Seleção. Embora Mizandre se encontrasse na lista das más meninas, ele não pôde evitar conversar com ela com mais interesse. Mas, bem, olhe onde seus pensamentos o levavam enquanto andava lado a lado de outra garota.

Talvez seu coração já a tivesse escolhido.

— Você pode me emprestar seus ouvidos por alguns instantes? — perguntou, sentando-se a beira da piscina. Harumi se sentou ao seu lado, com as pernas debaixo do corpo, ao modo oriental, e assentiu graciosamente. — O mundo está ruindo sob meus pés. Meu pai está colocando cada vez mais trabalho nas minhas mãos, minha mãe quer que eu me encontre com todas as selecionadas imediatamente, minhas selecionadas me desprezam e o único consolo que tenho é uma carta de paz que Illéa me mandou no começo do mês, pouco antes de Afrika declarar guerra imediata caso avancemos em seu mar. E nós precisamos do mar para o comércio.

— Eu não entendo disso.

— Tudo bem — o príncipe olhou para as águas paradas, deveria estar gelado ali. Para comprovar, colocou sua mão e viu-a desaparecer no negrume. Ela retornou encharcada e trêmula. — Eu sinto que não sou bom o suficiente para tudo isso. Nem para escolher uma esposa.

— Amor é só uma das opções, Vossa Alteza — Harumi tentou ser racional, embora seu próprio coração dissesse que aquilo seria loucura: um casamento sem amor. — Eu não sei por quê a Seleção está sendo feita assim, mas se for preciso sanar algum problema emergencial, seria melhor fazê-lo agora.

— Eu não posso me casar com o melhor partido, eu preciso encontrar a pessoa certa. — Heid, um garoto de dezoito anos, olhava suplicante para a Lua e Harumi se sentiu séculos mais velha que ele.

— Qual a chance de a pessoa certa, no mundo todo, ser uma de nós?

— Isso é para me desanimar mais?

Harumi pousou a mão sobre o joelho do príncipe e olhou para seus olhos, tentando consolá-lo da forma que podia, sem ser compassiva demais.

— Isso é para ajudá-lo a tomar a decisão certa.

Heid assentiu, mas continuou inseguro sobre aquilo. Se fosse preciso decidir por alguém que ajudasse a melhorar a situação política do momento, teria de ser para conquistar algum aliado dentro do povo. Seu povo perdia a confiança no império a cada dia que se passava. O índice de desigualdade apenas crescia e o de pessoas na linha da pobreza, também. E para acrescentar, era um Império grande demais para ser controlado por um poder central e único. Seus inimigos poderiam facilmente se unir para atacar de diversos lados e quebrá-los em pedaços, tão divididos internamente que seria impossível para o Imperador comandar a todos. Diversos planos foram traçados para que saíssem da crise, nenhum até agora fora viável, além da Seleção.

E a Seleção só aconteceu porque seus inimigos não aceitaram dar suas princesas em casamento. Havia apenas dois motivos para não o fazerem: ou preferiam casá-las a nobres de seus próprios países e aliados, ou preferiam vê-lo se afogar, enquanto destruíam suas fronteiras, sem remorsos. As princesas, a quem foi apresentado, não o viam como mais um peão dentro do Império, riam dele, faziam piada sobre sua imaturidade. E ele sabia que tinham razão, pois realmente era uma criança naquele jogo.

— Eu só quero te ajudar, príncipe Heid. — a voz de sua selecionada cortou a linha de seus pensamentos. Ela estava bonita com o cabelo curto preso em uma trança que terminava em uma presilha dourada, e seu vestido de princesa de conto de fadas a deixava ainda mais encantadora. Sentada sobre as pernas, com as mãos apoiadas no chão e o vento da noite balançando fios soltos de sua franja… era linda.

Heid a beijou.

Não foi como o planejado, para quando encontrasse a sua selecionada escolhida, mas aconteceu. Mais cedo do que ele esperava. Não se importou com o impulso que teve, nem com as consequências, afinal ela era sua selecionada e estava ali para se apaixonar por ele. Então não recusaria, certo? Quando se distanciou, notou que Harumi o encarava, de olhos bem abertos, pálida. Talvez… estivesse errado.

Talvez fosse um erro.

— Perdão — sussurrou, não suportando olhar para ela, olhou para a piscina e o reflexo do céu estrelado ali.

Um turbilhão de sensações tomara Harumi antes que ela pudesse entender ao certo. Mesmo sendo uma mulher formada, com diploma e experiência de vida, ela não estava esperando por aquilo e nem saberia como reagir. Em um instante, a boca do príncipe estava na sua, e no outro não estava mais, tão rápido que ela mal registrou. Aquele era o primeiro beijo de Heid, sem dúvida. Ela se sentia numa fanfic, lendo de fora o quanto a personagem principal estava estática e pálida, quase morta e mesmo assim sentindo mil borboletas em seu estômago.

— Esse é o seu primeiro beijo? — abriu um sorriso tímido, olhando para ele, de perfil. As bochechas de Heid coraram levemente.

— Sim. — e ele olhou para ela. Não diretamente ela, mas para sua boca. — Eu não sei o que eu fiz.

— Não se preocupe — sorriu ainda mais — É só um beijo.

Só. Pronunciar a palavra “beijo” fez aquele ato, tão rápido e tosco, parecer grandioso. Imediatamente seu rosto ficou quente de vergonha e ela não conseguiu continuar sorrindo para o príncipe, assim como ele também não conseguia olhar para ela. Alguns minutos se passaram, enquanto ambos permaneciam em silêncio, até que o fato fosse digerido como um passado recente, na memória.

— Não precisa pedir desculpas por isso — Harumi quebrou o silêncio, encolhendo os ombros e sorrindo de leve — Eu gostei.

Heid se iluminou, sorrindo em resposta.

E por quase uma hora inteira, ao lado de Harumi, ele não pensou em Mizandre.

Ela era linda

Notas finais
Então, meus amores, vocês gostaram? Alguém esperava por esse final Heidharu? Espero que não, porque eu queria que fosse surpresa, hahaha. Estou ficando um pouco cansada de narrar o baile, embora tenham personagens que ainda não apareceram nele (como a Belle, Akame, Joanna, Anastasiya e Galaxia), mas não é necessário que elas apareçam. Francamente, tentei escrever sobre a Joanna nesse capítulo e não consegui mentalizar um bom lugar ou cena pra ela nesse baile... o mesmo para as outras citadas. A escolha é de vocês: ( ) Próximo capítulo no baile ( ) Próximo capítulo no dia seguinte Os três primeiros comentários decidem, pra eu já ir escrevendo (sei que nem todos podem ler e comentar imediatamente que posto). Obrigada por mais esse capítulo, lindas! Beijos da Lady