Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
34 Novos Ares
Notas iniciais
Para alguém que gostava de ter um tempo para si mesma, já começava a parecer que estava em casa, na cidade mais fria do planeta, escondida debaixo de três cobertores, enrolada em sua cama, assistindo a algum filme ou animação infantil, apenas para passar o tempo. Na maior parte, aquilo a mantinha feliz. Mas não era o mesmo. Assim como essa felicidade acabava com a ausência de seu pai e de qualquer pessoa para conversar, ali ela finalmente tivera tempo e pessoas para conviver e agora tudo estava quieto e frio. Kateryna não queria esse eterno silêncio cercando-a. Havia uma diferença grande entre procurar a solidão e ser atirado a ela. Após três dias, assim que alguém bateu à sua porta, ela apenas saltou da cama, ignorando o pijama amassado e os cabelos em desalinho, ansiosa por ver o rosto de outra pessoa.
É claro que passou por sua mente que poderia ser Azra, e que ele poderia estar ali para tentar enganá-la novamente, mas Kat não se importava com isso, desde que pudesse deixar o tédio de lado. Bem, para sua surpresa, eram três garotas com as quais falara algumas vezes, mas que não tinham motivo algum para virem visitá-la.
— Bom dia.
— Bom dia — a do centro sorriu afetuosamente feito uma mãe e Kateryna agradeceu a Deus por finalmente alguém ter vencido as lágrimas. Ela, é claro, estivera triste pela selecionada assassinada, mas não precisava de dias de tristeza inconsolável para continuar a vida. — Estamos fazendo uma sala de jogos na sala de chá, gostaria de se juntar?
Definitivamente sim e definitivamente não. Kateryna queria um pouco de diversão, mas jogos não eram apropriados para uma dama, principalmente os tipos de jogos que as selecionadas estavam jogando desde as últimas semanas: elas sempre se exaltavam e acabavam gritando umas com as outras (para depois começarem a rir descontroladamente). Kateryna assistira a isso ao lado de Madame Veronica e a governanta desaprovara profundamente. Havia algumas coisas que eram possíveis perceber apenas pelos modos com que uma pessoa vive com seu derredor: Veronica não gostava da maior parte das selecionadas. Ela tinha Sirena como sua preferida. Agora havia um espaço vago em suas preferências.
Poderia ser muito precipitado, mas Kateryna sabia que precisava ocupar esse espaço.
— Está bem, irei trocar minhas roupas. — Fez menção a fechar a porta, mas as três garotas continuaram paradas ali. — Algo errado?
— Sentimos muito por sua amiga — a menor delas, uma hindu, murmurou.
— Sabemos que você conversava bastante com Sirena… — outra, oriental, também mostrou suas condolências.
Kateryna não sabia que tipo de reação dar a elas. Meneou a cabeça e fechou a porta, enfim. Quando, na solidão de seu quarto, ela encostou a cabeça na porta e respirou fundo, algo incomodou seu coração. Havia conversado tanto com Sirena? Não saberia dizer. O que era muito? Sirena era, assim como ela mesma, fechada e educada demais para invadir o espaço privado das pessoas, por isso suas “conversas” não passavam de cortesias ensaiadas.
O que sabia sobre a italiana?
Que ela era uma das preferidas de Veronica? Que tinha uma família rica e influente, mas nenhum contato com a nobreza? Que não gostava de conversar sobre banalidades e era tão bem educada quanto a filha de um duque poderia ser? Sirena tocou seu peito, mas não conseguia sentir nada. Ela não sentia nenhuma dor pela perda de uma amiga, então significava que não eram amigas. Ou significava que ela tinha algum problema? Será que era isso que a impedia de se apaixonar pelo príncipe?
Kat nunca esperou amar ninguém, muito menos para se casar, o amor estava apenas na família. No entanto, se fizesse um esforço, tinha certeza de que acabaria amando seu esposo, sendo ele quem fosse. No final, quando seu pai escolhesse um noivo, ela tinha apenas a possibilidade de se satisfazer com ele. Kateryna não sabia o que era gostar de uma pessoa, ela nunca fora permitida a fazer sacrifícios para ter amigos. Os únicos amigos que tivera estavam tão longe e não falavam com ela há anos. E não por sua culpa, mas por culpa deles.
— Ela não era minha amiga.
Disso tinha certeza. Kateryna poderia não saber exatamente o que era amar alguém, mas sabia que não gostara de Sirena nem por um segundo. Sua indiferença correspondeu à da italiana, assim como acontece com a maioria dos nobres quando se encontram. Poderiam ter convivido por anos e não saberiam mais do que as coisas básicas e supérfluas uma da outra. As pessoas não precisavam ser tão complexas, mas a complexidade as mantinha mais unidas. Talvez fosse por isso que amasse tanto a seu pai e quisesse tanto deixá-lo feliz. Infelizmente, ela mesma não acreditava que era complexa o suficiente para alguém amá-la. Sabia que seu pai só o fazia por obrigação, e passionalidade não era um requisito para a ascensão social.
No fundo de seu coração, Kateryna sentiu que queria ver alguém. Alguém com quem tivera conversas verdadeiras, alguém que ela não conseguia entender ainda agora. Alguém complexo demais para ser ignorado.
Abriu o seu guarda-roupas e vestiu calças de algodão cinza, uma blusa sem mangas de seda lilás e pequenos desenhos de flores outonais. Não estaria apresentável para Vossa Alteza, mas talvez fosse o suficiente para um amigo de verdade. Saiu com suas pantufas, pois não notara que as calçava. Quando passou pela sala de chá, viu os sofás virados para um círculo no centro do cômodo, assim como as três selecionadas de mais cedo e Joanna, colocando sobre a mesa de centro vários tabuleiros e caixas de cartas. Joanna acenou quando a viu e Kat retribuiu, percebendo o quão profundo aquele gesto lhe soava. Em Moscou, não havia muitas pessoas para quem pudesse acenar ao passar pela sala de estar.
— Joanna, abra a maldição dessa porta — alguém gritou do lado de fora. Assim que Joanna abriu a porta, a prima do príncipe entrou com mais caixas e caixas de jogos, ela derrubou tudo sobre o sofá mais próximo e soltou um suspiro profundo — Que droga, deveríamos deixar tudo isso por aqui mesmo. Bom dia meninas.
— Bom dia, Savyna — as demais sorriram.
Ótimo. Kateryna aguardou em um canto, afastada o suficiente para que não atrapalhasse as meninas. Savyna sentou-se em um dos sofás, ela parecia ter carregado dezenas de caixas de jogos, embora não tivesse feito mais do que alguns minutos de esforço. De todo modo, Kateryna se aproximou da garota o suficiente para abaixar-se até a altura de seu ouvido e dizer, sussurrando:
— Onde está o seu irmão?
Savyna virou o rosto com as sobrancelhas erguidas, talvez pelo susto que Kateryna lhe tenha dado, talvez por não esperar por aquilo, mas havia momentos em que a decência e boa educação não precisavam ter lugar, principalmente com pessoas como Savyna. A prima do príncipe deu de ombros, como se dissesse “eu não sei”, mas havia uma pergunta por trás de seus modos. Ela precisava saber porquê Kateryna queria falar com seu irmão, e isso envolvia o príncipe, a decência e a boa educação. Kat abriu um sorriso frio.
— Ele me foi um amigo mais precioso do que os que tive por muito tempo. Seria muito bom conversar com alguém sobre os últimos eventos.
— Não sei se seria apropriado. — Savyna voltou a olhar para as garotas, ignorando-a.
— Entendo.
Kateryna, que não sabia se podia sair da sala de chá e perambular por aí procurando Azra, sentou-se no sofá oposto ao de Savyna e esperou que os jogos começassem.
Cerca de quinze selecionadas se juntaram na sala. Tudo começou silencioso, mas após algumas rodadas e a ajuda de Joanna e Savyna, as meninas já gritavam e riam como antigamente, entretidas e submersas naquilo. Kateryna recusou as apostas e continuou assistindo tudo de seu canto no sofá.
Às vezes ela desejava não ser ela mesma.
Savyna lançou, então, outro olhar avaliativo sobre aquela russa. Primeiro recusando todas as formas de Azra flertar, depois indo procurá-lo quando ele a ignorava. Savyna detestava garotas como ela. Ela já vira algumas outras com as mesmas atitudes esnobes. Sentiam falta da atenção de Azra e então iam correndo implorar a ele. Além disso, ela era pretendente de Heid, a última coisa que o primo precisava era outra traição em seu círculo de confiança. De todos os modos possíveis, Savyna tentara tirá-lo de seu quarto, mas aparentemente ele havia se apaixonado pela selecionada minutos antes dela ser morta. A Seleção demoraria ainda mais se ele entrasse em luto. Por isso, de todos os modos possíveis, era preciso fazê-lo esquecer. Quanto mais pretendentes, mais chances de dar certo. Savyna não notou que encarava a menina russa há tanto tempo, sem se desviar, e agora ela também devolvia o olhar com certo ultraje.
— Vamos apostar o dobro — pediu Akame, que havia ganhado a rodada.
— Eu estou fora — Joanna jogou as cartas sobre a mesa.
— Eu irei jogar desta vez — Savie pediu por mais cartas.
Não importava o quanto reprovasse aquela menina, ela já não fazia mais parte das desilusões de seu irmão.
Kateryna se levantou na quarta rodada de apostas. As meninas que jogavam estavam muito concentradas, e, aquelas que ficavam de lado, conversavam, tornando-a invisível quando deixou a sala para o corredor do palácio. Estava tudo silencioso, presumivelmente. Dois guardas supervisionavam as escadas. Eles ergueram os olhos para ela uma vez e então voltaram a olhar o primeiro andar. Havia uma sala no final do corredor, em direção aos quartos de Savyna e seu irmão que era destinada às selecionadas, uma sala que significava mas liberdade. Ela tinha esperança de que a segunda sala de chá fosse o paradeiro de Azra, senão teria de arriscar tudo e bater em sua porta. Completamente fora das imaginações de Kateryna.
Ela entrou na segunda sala, menor que a sala das selecionadas, confortavelmente iluminada por duas janelas altas. Cortinas oscilando com o vento, poltronas aquecidas pelo Sol. Seria um lugar de paz e tranquilidade. Kateryna teria amado chamar aquele palácio de lar. Além de estarem na Russya, ela podia sentir o verão de Moscou naquela manhã. Era engraçado como uma manhã fria, porém ensolarada, a fazia lembrar do verão. Uma vez visitara a Iberya e vira as peninsulares. A pele das pessoas parecia dez tons mais escura, mesmo entre os nobres. Kateryna gostava do verão, dele mais quente que o da Russya. Imaginava como seria o verão pleno em Versalhes. Se um dia se casasse com o príncipe, deveria aprender o clima de sua casa.
— Bom dia, milady.
Talvez ela tenha virado rápido demais para as janelas, quase a um passo de abandonar a sala vazia.
— Bom dia. — Kat respondeu, um pouco sem jeito, já tentando formular um bom motivo para estar ali. Não havia chegado a montar um plano bem arranjado, de algum modo ela teria de explicar a Azra por quê o procurava, mas no momento em que decidira procurá-lo, não parecera um problema grande. — Eu…
— Está encantadora com… as pantufas. — Azra abriu um sorriso de lado — Espero não tê-la assustado.
— Não — Kateryna poderia pensar em coisas melhores para dizer, coisas mais sarcásticas e inteligentes, mas a única coisa que desejava era se sentar em uma das poltronas e ficar em silêncio. Em silêncio com Azra.
— Você estava procurando algo? — “sim, você”, era uma resposta sincera, mas nem um pouco convencional. Azra esperou, e conforme Kateryna tentava inventar uma boa desculpa para ter fugido da sala de chá, suas bochechas esquentavam mais e mais.
— Eu queria silêncio — era verdade, de qualquer forma.
— Imagino, então, que eu esteja atrapalhando — Az sorriu e fez uma mesura — Bom encontrá-la, milady.
— Não, espere! Eu quero conversar, também. — Kateryna quase gritou, ignorando todas as células de seu corpo que diziam que isso era a mais pura falta de cordialidade. Seu pai a teria deserdado. — Se não for um incômodo ao senhor.
— Jamais, Kat — Azra sorriu e circundou a poltrona oposta a ela, sentando-se com decência. Ela já vira muitos cavalheiros agindo com cortesia e educação perto de uma dama, antes, mesmo para ela. Mas nunca se sentia tão respeitada quanto com Azra. Talvez porque suas maneiras não eram construídas, forjadas ou ensaiadas, mas dignamente honestas. Kateryna sentia-se verdadeiramente querida por Azra, e ninguém poderia comprar esse tipo de tratamento, nem mesmo os maiores políticos conseguiam cativar daquela forma.
— Eu senti sua falta — Kateryna decidiu abordar a sinceridade como uma arma, talvez assim ela se sentisse mais corajosa e menos manipulada pelos anos que passara entre os donos da sociedade. — Não gosto de ficar sozinha.
— Imaginava que você se saísse bem sozinha.
— Sim… mas não é o mesmo que gostar — ela juntou as mãos nos joelhos mecanicamente, como era a pose graciosa e delicada que ela havia aprendido a fazer, mas assim que notou, encolheu os ombros e afastou os braços até os lados da poltrona, negligenciando a sua própria natureza. Era um ato rebelde de grande ousadia. — Como foram seus dias desde o terrível evento?
— Monótonos de um jeito agitado. Não havia nada que fazer além de patrulhar o palácio, visitar o novo lugar para onde querem nos levar e tentar tirar Heid do quarto. — Az suspirou — Eu faria o que fosse preciso por ele, mas a burocracia me cansa. Eu nunca me adaptaria a essa vida.
— Algumas pessoas não nascem para governar.
Azra ergueu uma sobrancelha, curioso sobre o significado por trás daquelas palavras, em que tipo de classificação elas estavam. Estaria Kateryna dizendo que cada homem nasce com um propósito na vida ou que ele não era competente o suficiente? Ela estaria com razão em ambos, era de se notar. Azra decidiu deixar isso de lado. Era a primeira vez que sua garota vinha lhe procurar, e ainda dizia que havia sentido sua falta. Por mais educada e dura que Kat parecesse, ela tentava fortemente vencer todas aquelas barreiras sociais estipuladas por seu pai, e ele a admirava por isso. Nunca a tinha visto ser tão sincera, ou expressar seus pensamentos com tanta eloquência. A Kateryna Petrov que ele conhecia, das longas noites de baile e dos banquetes em homenagem a Russya, era uma menina quieta, desconectada do mundo e a mais verossímil obra da perfeição romantista. Que garota de ouro, para qualquer pai da nobreza. E que tristeza, vê-la murcha, sem cor nas bochechas e sem força de vontade para nada. Savyna não gostava de mulheres como Kat, ela as chamava de vergonha do sexo, pois aceitavam o destino que seus pais lhes davam. Para Savye, era fácil lutar contra o que a sociedade queria: ela era uma cigana, e ciganos tinham essa má fama de rebeldes, o que também os faziam perdoáveis.
Mas Kat não seria perdoada facilmente se errasse.
— Você gostaria de caminhar lá fora? — Azra sugeriu, notando o silêncio que se formava enquanto ele admirava as mudanças em Kat.
— Estamos autorizados a isso?
— Eu estou, sou um dos guardas de Vossa Majestade, não se esqueça. — um sorriso a tranquilizou.
— Se for assim, quem melhor para me levar em um passeio?
Azra estremeceu, notando que ela estava flertando com ele. Ou era muito próximo disso. Quando Kateryna já tinha sido tão clara com suas frases de cortesia? Ele, que no fundo já havia admitido a si mesmo que Kat era uma das melhores pretendentes a Rainha que Heid possuía, começou a sentir-se querido. Se Kat quisesse, eles poderiam namorar por alguns meses, trocar acordos com o seu pai, garantir que ela teria uma boa posição na sociedade, como prima por casamento do Rei. Nenhuma coroa para lhe pesar a cabeça, mais prestígio do que qualquer outro casamento lhe traria. A não ser, é claro, por ele ser um cigano. E russos não gostavam tanto de ciganos quanto os francos.
Ele tomou-a pelo braço e ambos caminharam pelas escadas, informando aos guardas que sairiam para uma caminhada. Os homens pediram que fossem breves e ele o prometeu. O jardim do palácio estava apinhado de vigilantes, nem uma alma mal-intencionada passaria por eles. E, mesmo assim, ela ainda tinha um revólver guardado em sua bota, preso a panturrilha. Colocaria sua vida para proteger Kat.
No entanto, duvidava que outro ataque fosse feito. Os rebeldes eram inteligentes e não se deixarem ser pegos facilmente. De todo modo, havia alguma coisa suspeita entre os navios que começavam a aportar sem mercadorias em Italyca e a falta de notícias da Brittanya…
— Está pensando em algo? — Kateryna perfurou seus pensamentos sobre política e geografia, recuperando-o para um jardim de flores que murchavam e folhas que caíam, dando espaço para o inverno. Ele a agradeceu do fundo do coração.
— Burocracias.
— Sou tão entediante assim, senhor? — ela disse, seriamente.
Azra arregalou os olhos, balbuciando que “não, nunca, e-eu…”, mas Kat caiu em uma gargalhada sonora que assustou os pássaros e até mesmo os guardas. Seus olhos fechados tremiam pelas pálpebras e ela até mesmo soluçou, tentando retomar o fôlego.
— É fácil constrangê-lo.
— Ora, ora… ela tinha garras esse tempo todo.
— Não é fácil me fazer mostrá-las. Normalmente apenas as minhas presas já são suficiente para afastar os indesejados.
— Então eu sou indesejado? — ele tentou, mas Kateryna meneou com toda a dignidade do mundo transbordando de sua postura impecável. E então exclamou outra gargalhada.
Ele tentou fazê-la rir durante semanas, mas no fim, quem a fazia rir era ela mesma. E de um modo tão único que ele mesmo sorria, maravilhado.
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