Notas iniciais
Boa leitura!

Manhã do Baile

Joanna | Heid | Belle

Seu celular tremia ao lado do travesseiro, com a foto de sua querida mãe brilhando na tela. Joana grunhiu para ela antes de atender. Estivera dormindo num sonho tão bom…

Agora nem lembrava mais o que fora.

— Sim, comandante Bragança.

— Esse é o seu melhor alô?

— Alô, mãe.

Do outro lado Catarina engoliu em seco.

— Hoje é o baile.

— Esse é o seu melhor tudo bom? — Joanna jogou as pernas para fora da cama e vestiu o roupão jogado sobre a poltrona, mudando o celular de orelha no processo. Com o grunhido de Catarina do outro lado, a filha pediu desculpas baixo. — Você vem para a festa?

— Alguém precisa cuidar de Versalhes enquanto estão todos fora. — Versalhes era como sua mãe chamava o Império sem parecer espalhafatoso. Desde o último encontro, Anna descobriu que sua mãe estava “muito feliz de vê-la ali naquelas circunstâncias”, o que era melhor do que a reação que esperara, muito melhor.

A comandante tinha muito a cuidar, ela era responsável por Franca, Germanya e Iberya, um território consideravelmente menor que de outros comandantes, mas cem vezes mais importante e perigoso. Não era apenas da segurança que ela cuidava. Negociava moedas, oficializava acordos, julgava o que era melhor para as três regiões. Sem contar que Franca era a capital do Império. Os rebeldes jamais poderiam ser vistos por lá. Joana entendia importância de tudo aquilo, embora não gostasse do modo que isso afetava os nervos de sua mãe. Ela estava orgulhosa por vê-la no palácio competindo por Heid, mas a alertou sobre sua reputação ainda volúvel e os problemas que a idade poderiam trazer em um relacionamento com um homem muito mais novo. Ela jamais imaginou que ouviria tais conselhos de sua mãe, mas fingiu estar atenta e curiosa sobre tudo, como um modo de pedir perdão pelo passado e por toda a dor de cabeça que já havia lhe dado. Não que isso fosse um arrependimento para Joanna.

Ouviu o resto dos lamentos sobre cuidar sozinha de tudo aquilo e ainda ter de se preocupar com seu bebê. Joanna parou de ouvir a partir daí. Deixou o telefone sobre cômoda e abriu o guarda-roupa para decidir o que usaria durante seu dia inteiro dentro da sala de chá.

Decidiu pela bermuda de ontem e uma camiseta de sua banda favorita.

Quando colocou o celular de novo na orelha, a mulher falava sobre exercícios matinais, barriga flácida e como sua aparência importava para o príncipe, que deveria já conhecer sua história depravada.

— Sim, sim, mãe, tudo bem. Olha, preciso desligar agora. Aham. Também amo você. Ok, tchau.

Jogou o aparelho sobre a cama e saiu do quarto.

Na sala de chá, algumas meninas já estavam conversando e ninguém pareceu compelido a lhe cumprimentar. Após a notória atenção que o príncipe e seus primos lhe davam, Joanna não esperou que as meninas fossem amá-la. Mas também não queria ficar ali, trancada até de noite. Tinha de bolar alguma coisa para levantar os ânimos das garotas e o seu próprio, se quisesse estar firme e forte para o baile de aniversário. Ao redor, a sala era grande, mas preenchida das mais inúteis coisas que uma sala de chá podia oferecer: móveis extensos com objetos inúteis. Ninguém lia os livros daquelas prateleiras enormes, estavam ocupando menos de metade dos sofás, o café da manhã fora servido em apenas uma das mesas e as outras carregavam bandejas com xícaras e vasos de flores recém-colhidas. Podiam empilhar tudo aquilo em um canto e jogar algo, como queimada ou baralho, do mesmo modo que jogara na noite anterior com seus amigos.

Amigos. Ver o sorriso tão grande de Savyna era de aquecer o coração, mas rever Azra… Meu Deus, há quanto tempo não via Az? Ele tinha músculos e perdera a gordura da infância da melhor forma possível. O exército, como sua mãe gostava de falar, era uma fábrica de homens do mais alto escalão. E que escalão. Quase se perdeu naquele abraço de reencontro, relembrando do passado, quando eram as crianças mais velhas responsáveis pelo bebê real e a trupe de filhos da nobreza.

Joanna se deitou na cama naquela noite lembrando daqueles dias dourados e sonhou com o episódio do estábulo, um pouco distorcido, pois dessa vez ninguém tinha parado os dois no ato. Ela bufou consigo mesma, querendo dar uns tapas em sua mente obscena e cheia de sonhos impróprios para a dama que ela havia (mesmo que contra a vontade) aprendido a ser.

Tinha que ser um orgulho para sua mãe, pelo menos uma vez na vida. E Catarina não havia enlouquecido quando soube de sua inscrição, isso por si só já era uma segunda chance de Deus.

— O que acham sobre um jogo de cartas? — sugeriu, aproximando-se das moças nos sofás. Elas ergueram os olhos e, com um tédio palpável, mastigaram a ideia. — Podemos fazer um círculo com os sofás e colocar as mesas no centro. Será uma roda gigante de baralho.

— Graças a Deus não teremos de olhar para as caras uma das outras — Mizandre caminhou até lá com saltos escandalosos, ela vestira-se com um macacão de seda desta vez, muito mais prático e confortável. As curvas de seu corpo estavam acentuadas e ela não passara maquiagem, o que deixava todos os seus traços naturais expostos para a luz da manhã. E ela era demoniacamente linda, mesmo assim. — Eu topo.

— Isso será interessante — outra garota, provavelmente do extremo oriente, também se juntou e começou a arrastar um sofá — Surya, vamos jogar.

— Sim — Surya sorriu, correndo para o outro lado do sofá e assim, levaram o móvel até o centro da sala de chá. Uma a uma, as meninas se levantavam para ajudar a arrastar as mesas e mudar os vasos de lugar. Em menos de cinco minutos tudo parecia preparado. Agora só faltava…

— Onde estão as cartas? — Mizandre ergueu uma sobrancelha, mas Joanna sorriu.

— Vou pedir a Savyna. — informou e começou a sair, mas notou que o ambiente se tornou repentinamente mais silencioso. Ela estava falando da prima do príncipe com intimidade demais, notou, e isso não era algo legal de fazer na frente das garotas que nunca tinham pisado em um palácio antes. Voltou-se para as selecionadas atiradas no sofá mais próximo, uma deitada nas pernas da outra. — Surya, quer vir comigo?

A hindu sorriu.

— É claro. Harumi, vamos!

A oriental também se levantou e foram as três. Talvez, se começasse a trazer as selecionadas para mais perto de Heid, ele pudesse desvendar quem era a pessoa certa para si. Harumi e Surya não pararam de falar um minuto sequer, nem quando entraram em um dos corredores adjacentes e bateu na porta ao lado da sala de chá. Demorou um pouco, mas o quarto se abriu, revelando Savyna com o cabelo desgrenhado e em uma camisola muito transparente. Quando viu quem batia, a cigana puxou o roupão para cima dos ombros e mordeu os lábios, como fazia quando estava irritada.

— Desculpe tirar você dos seus sonhos, Savie.

— Você não está nem aí pra isso — Savyna resmungou, olhando para as demais — Harumi, Surya, bom dia.

As selecionadas cumprimentaram alegremente.

— O que você quer?

— Você tem as cartas que jogamos ontem? — Joanna perguntou, e imediatamente percebeu que Harumi e Surya a encaravam, surpresas por ela ter jogado cartas com a prima do príncipe. Se soubesse que o próprio Heid estivera lá… Mas, de qualquer forma, não deveriam se preocupar com ela, nem com Heid. Tinha seis anos a mais que ele e uma história perturbadora demais para ser aceita como rainha. Tudo o que queria era ficar ao máximo ali, perto de Savie, Heid, sua mãe e… Az.

Savyna assentiu, mas parou antes de se voltar totalmente para dentro do quarto.

— Vão jogar?

Joanna assentiu.

Savyna pensou, minimamente, antes de fechar a porta dizendo:

— Esperem, eu só vou trocar de roupa.



Ainda muito cedo, ele acordou com o som das tosses de seu pai atravessando os quartos. Correu até a cama deles e ajudou sua mãe a tirar o rei de dentro dos cobertores, levá-lo até uma das janelas abertas para que respirasse ar fresco e, enfim, servir-lhe um copo d’água, quando os acessos de tosse se foram. O rosto do pai estava sanguíneo e sua mão tremia levemente. Após as crises, ele sentia tontura e enxaquecas, a ponto de dizer que sentia sua cabeça explodir. A rainha chamou um dos criados para servir o café da manhã e insistiu para que ele voltasse a dormir, mas Heid não conseguiria após outro ataque de pânico tê-lo tomado por mais de dez minutos.

Sempre que a situação de seu pai piorava, ele via o mundo ruindo aos seus pés, quanto mais o rei tossisse, sem ar nos pulmões e com o sangue lhe subindo a fronte, mais tinha certeza de que não estava pronto para assumir as responsabilidades que a coroa trariam. Não queria nem por um segundo pensar em seu próprio pai morto, mas era um fato que, agora ou dali vinte anos, se tornaria realidade. Era teria de assumir aquele posto. Desde que nasceu, sempre soubera disso, mas queria esconder de si mesmo a verdade. Agora, ajoelhado ao lado das pernas fracas dele e segurando o copo vazio, Heid se deixou ser consumido pelo medo do futuro, até que a mãe pousasse a mão sobre seu ombro e o trouxesse de volta à vida.

— Filho — a rainha sussurrou, ainda eram apenas três dentro do quarto, mas logo mais criados viriam e o médico pessoal do imperador. — Ainda não amanheceu.

Ele se levantou, beijou-lhe a testa e voltou para o quarto. Em sua cama, ouviu as pessoas do outro lado da parede, fazendo o que precisavam fazer para colocar o rei de volta a sua cama e acalmar sua pressão, dar-lhe os remédios para enxaqueca e embebedá-lo para que dormisse como uma pedra até o meio-dia. Sua mãe, tão silenciosa quanto sempre, desaparecia nos sons dos funcionários. Só deixou de se preocupar com o outro lado quando tudo se aquietou e, enfim, estavam todos de volta a suas camas.

Não dormiu.

Após quase uma hora encarando o dossel da cama e ouvindo os ruídos do guardas em todos os corredores do palácio Mariyinsky, o príncipe concluiu que não conseguiria dormir. Havia apenas uma coisa importante o suficiente para fazê-lo sair dos cobertores e era a caixa que mantinha sobre sua escrivaninha, fechada com um cadeado a senha. Pegou-a e retornou para seus travesseiros, digitando os números do aniversário de seu primeiro pônei de estimação em Versalhes. Fichas das selecionadas, cartas de Savyna e Azra, uma música que ele havia escrito há alguns anos e uma pedra.

Suas coisas preciosas.

Havia anotações em caneta verde ao lado das fotos das selecionadas, coisas como “Bonita”, “Linda” e “Não consigo me sentir atraído”. As fichas acima de 22 anos também estavam com círculos curiosos em cima da idade, como se fosse um tema delicado para se tratar. O limite da idade era 24, mas Heid não conseguia se imaginar casado com uma mulher quatro anos mais velha. Não quanto ele estava fazendo apenas dezoito.

As três fichas com mais anotações eram as de Kateryna, Sirena e Mizandre. Joanna fora deixada por baixo de todas as outras 30, pois não precisava analisar nenhuma daquelas informações sobre ela, a conhecia o suficiente e não estava interessado em flertar com a primeira namorada de Azra, que literalmente trocou suas fraldas. Ele não havia falado com Sirena di Duccio, mas seus pais recomendaram que o fizesse, já que ela era filha de um comerciante ascendente em Veneza e, provavelmente, isso traria a burguesia italyana a seu favor. As três escolhas principais eram todas sugestões da rainha: uma filha da nobreza, uma filha da burguesia e uma filha do parlamento. Os três pilares do Império.

O tempo que passou com Kateryna provou que ela não era a menina que chamava sua atenção. Bonita, do mesmo jeito que Mizandre, loira e de olhos claros, mas havia uma frieza em seus modos que o afastava sem nem mesmo mencionar uma palavra. Mizandre fora extrovertida e engraçada durante a viagem, mas Savie não gostava dela e a intuição da prima nunca errava. Mas… ele não conhecia Sirena ainda.

Pegou a ficha, lendo as anotações.

Sirena Patrizia di Duccio Sirena significa sereia, a que veio do mar. Perguntarei se ela gosta de navegar ou se já foi à praia.

19 anos Dezesseis meses mais velha.

Italyca As melhores pizzarias e os melhores vinhos.

Interesse em ler, desenhar e moda (estudos políticos e sociais) Colocar material de arte em seu quarto, mandar revistas de moda italyana semanalmente, acrescentar uma estante de livros de ciências políticas, teoria política e história política.

A foto Ela é bonita, o modo como olha para a câmera parece que exige respeito. Ela deve ser uma pessoa elegante e bem educada, sua família quer subir para a nobreza, então devem estar se esforçando para parecerem ao máximo com os nobres. Gosto da cor do cabelo. Olhos lindos. Não parece ser muito aberta.

Encarou um pouco mais a foto, tentando encontrar algo a mais ali. Além da relação de seu nome com o mar ou seu interesse em política, Heid não saberia como chamá-la para conversar. Mas era mais fácil que Kateryna. A ficha da russa fora a mais vazia e pobre de todas, com interesses mundanamente femininos, características da beleza padrão, especialidades que qualquer mulher nobre teria e a pior frase que ele já lera na vida “preparada desde pequena”.

Preparada, como se o pai a treinara para ser a esposa do príncipe desde que descobrira o sexo do bebê. Ninguém duvidaria que era exatamente isso que Mikael Petrov pensou. Todos conheciam sua frustração por não ter um filho homem para suceder sua linhagem.

Mas uma filha rainha poderia compensar.

Não parecia mais tão provável, Heid riu consigo mesmo, pois tornou sua filha tão antipática e distante que nem mesmo Azra, o cara mais “irresistível” que ele respeitava, poderia seduzí-la. Não, depois do que aconteceu, estava fora de cogitação.

Mas havia uma ficha que tinha de ao menos ver antes de fechar a caixa e tentar voltar a dormir: Galaxia Omaya. A grega que viera de uma ilha comum de Italyca, vivia em um vilarejo pequeno e rural, ajudando os pais que eram professores da escola para filhos de fazendeiros. Uma escola que vinha ganhando muitos prêmios desde que os Omaya assumiram as aulas. Isso estava escrito em sua ficha, como uma carta de recomendação, ou puro orgulho familiar. Ele gostou de ler a letra caprichada da mãe de Galaxia dizendo que ela fazia uma torta de maçã maravilhosa e que tinha muito jeito com crianças. Bom, veriam aquilo mais tarde.

Ele não chamava a atenção por sua aparência, nem pelas origens de sua família, mas fora a única menina que se voluntariou para cuidar de Kateryna, ao invés de ir ao jantar com a família real. Isso demonstrava que tinha um coração puro, gentil e bondoso. Heid nunca pensara nessas características como necessárias para o poder e administração de um Império, mas a Imperatriz era uma imagem respeitada por todos, sua mãe inspirou a emancipação das mulheres menos favorecidas, as que não se consideravam europeias ou asiáticas. Negras, mestiças, celtas, indígenas, ciganas… nos anos após assumir a coroa, muitas cartas chegaram agradeceram sua mãe por ter conseguido aquela conquista. Ele deveria escolher uma esposa que também recebesse cartas de seus súditos, agradecendo o simples fato de ter se casado com ele. Alguém que pudesse inspirar bondade e caridade.

Mas ele conseguiria se apaixonar por alguém assim?

Não mentiu quando disse que Mizandre fazia seu tipo. Ele não aprovava apenas a beleza doentia dela, ou o modo como se vestia, ou a fortuna de sua família e a reputação na nobreza. Ela era... audaciosa. Tinha fogo queimando por trás dos olhos, podia sentir isso quando se encaravam. E não fora uma vez. Seus olhos pareciam se cruzar com mais frequência, cada vez mais ardente. Podia ser loucura, mas Heid queria aquele perigo, aquela audácia. Ela parecia Joanna, mas mais feminina, mais nova, mais sincera. Alguém que poderia lhe dizer o que pensava sem medo, como Savyna. E despertava seu lado inseguro, com certeza.

Droga, não tinha que pensar em Mizandre, tinha que se focar em Galaxia e em como passaria a manhã com ela. Não tinha chance de conseguir convencer Savyna ou Azra a “escolherem um terno” junto deles, então estariam sozinhos no que dizia respeito a outros jovens. Mas Galaxia gostava de crianças… e Wladimir e Igor eram crianças bem… amáveis. Seus primos fariam seu papel de não deixá-lo sozinho em um momento constrangedor.

Até agora, não havia conseguido passar muito tempo com as selecionadas sem alguém estar por perto para ajudá-lo. Isso não era covardia. Heid tinha certeza que desistiria em menos de cinco minutos se precisasse ficar sozinho com qualquer uma delas.

Ele não queria aquilo — a Seleção.



Belle colocou os fones de ouvido e ligou seu celular em uma música eletrônica boa para fazer exercícios. Podia estar proibida de ir até o aeroporto ou correr na estrada, mas não pararia de condicionar seu corpo. A perna mecânica estava menos incômoda depois que reclamara com sua criada que sentia os comichões no toco — a mulher trouxe um pedaço de silicone e colocou entre a perna e a prótese, como um encaixe. Estava tudo mais macio agora.

Começou a dar voltas pelo palácio. Teria de dar pelo menos cem para compensar os quilômetros que deixaria de correr, mas pelo menos era fácil contar cada turno, sempre que passava pela frente das grandes portas de madeira. Do outro lado do pátio, alguns guardas também se aqueciam na pequena academia próxima ao estábulo. Eles a observaram enquanto se aquecia, agora estavam duelando com espadas, ainda observando com o canto dos olhos enquanto ela dava as voltas. Belle não queria se sentir intimidada, mas aqueles eram homens treinados para defender a família real. Era um espécime totalmente diferente de condicionamento, ao qual ela tinha muita curiosidade. Espadas e armas era muito mais eficientes que corpo-a-corpo, mas os suprimentos de armas e balas era escasso para a quantidade de soldados nas linhas da frente, de modo que poucos eram escalados para aquele tipo de aprendizado. Ela, infelizmente, sabia apenas o básico de revólveres, seus punhos falavam bem mais.

Talvez, se ao final das cento e trinta voltas que ela se submeteu a cumprir não estivesse morta de cansaço, pediria para treinar com eles. Esperava que não a proibissem disso também. Não sabia até onde uma selecionada podia ir dentro das atividades de tempo livre. Para Belle, nada era mais importante que seus exercícios matinais e as massagens na perna amputada antes de dormir. Se tivesse esses dois momentos, poderia passar bem. Não do jeito que queria, mas bem. Esperava, sinceramente, que não estivesse ali apenas perdendo tempo. Seria difícil fazer o príncipe se encantar com suas pobres habilidades de dança, ela nunca precisou fazer esse tipo de coisa até o dia anterior. Talvez fosse inteligente que as meninas passassem o dia treinando. Podia sugerir quando voltasse para a sala de chá. Precisaria de um banho para tirar o suor do corpo, mas estava disposta a se entregar aos saltos altos, se isso fosse fazer algum bem em relação ao príncipe.

Ou então sua intuição estava certa e tudo aquilo não tinha sentido nenhum, pois nunca seria feminina e adorável o suficiente para competir por um príncipe. Belle parou de correr na trigésima nona volta. Limpou o suor do rosto e olhou para as janelas no alto do palácio. Daquele lado deveria ser a sala de chá, onde algumas selecionadas já estariam acordadas. Alisha, sem dúvida, que não conseguia dormir.

Belle agachou-se e se levantou de novo.

Ainda precisava correr 91 vezes.

Contornou o palácio, passando novamente pela porta da frente, que deveria marcar a 40ª volta, mas estagnou antes de passar por ela. Obstáculo à vista. Tirou os fones para ouvir o som dos motores que não havia percebido. Uma fila de dez carros pretos, iguais aos que usaram para vir do aeroporto até ali, estavam agora estacionados pelo jardim, em fila, esperando para deixar seus ocupantes nas escadas de Mariyinsky. As pessoas que desciam deles eram nobres, sem sombra de dúvidas. Convidados para o aniversário do príncipe, bem vestidos e bem alimentados. Braços finos, flácidos. Mulheres com colares que poderiam ser usados em levantamento de peso e homens com bigodes ensebados com desenhos típicos da moda franca. Moradores de Versalhes, com toda a pompa e arrogância. Ninguém a percebeu dando a volta para continuar sua corrida.

Quando passou por ali de novo, sentiu ainda mais repulsa.

Na 42ª volta, passou na frente das escadas, ignorando os olhares curiosos deles.

Na 45ª, grunhiu de volta para um barão de cartola e charuto que pediu para não “jogar suor em sua graciosa esposa”.

Quando completou cinquenta voltas, Belle queria que todos fossem embora logo e que não houvesse nenhum baile. Os carros não paravam de chegar, quando um saía, outro novo parava no lugar, com mais nobres, políticos, pessoas ricas e influentes. Os pilares do Império, importantes o suficiente para estarem lá, alegremente hospedados no palácio do príncipe, enquanto muitos morriam para mantê-los naquele conforto.

Cerrou os punhos e deixou a música no volume máximo.

— Cadete Netov, você dará mais trinta voltas pela negligência. — comandou a si mesma, imitando a voz de General Foller, o responsável por seu batalhão. — Sim, senhor! — ela respondeu, como fazia no exército, e sorriu.

Se a olhavam como uma louca, deveria dar motivo para isso.

O príncipe queria dançar com uma dama especificamente loira

Notas finais
Ninguém percebeu quando a Savie falou "cavalo sacrificado" no último capítulo? Pois é, RIP cavalo da Kateryna, um bom alasão assustadiço. O próximo capítulo será direto do baile, mas falarei sobre o encontro de Galaxia, não se preocupem. Beijos da Lady