Notas iniciais
Boa leitura a todos.

Um Jogo de Peões e Rainhas

Chopin — Nocturne op.9 No.2

Estava irritada. Emburrada, ignorando completamente as criadas que arrumavam seu cabelo e sua maquiagem, Surya cruzava os braços e fazia um bico para si mesma, no reflexo do espelho. Do outro lado do quarto, cercada por suas criadas pessoais, Harumi parecia tão brava quanto ela, mas com os olhos incontrolavelmente se movendo de uma para a outra mulher e sussurros baixos de desabafos. Provavelmente falando mal dela para as criadas. Surya queria falar mal de Harumi para as suas criadas também, mas no momento nenhuma acusação lhe vinha à mente. Apenas estava irritada com ela.

Não lembrava muito bem como havia começado, provavelmente porque a cor dos vestidos coincidira, mesmo quando quiseram manter segredo uma da outra. O de Surya era azul como os céus estrelados e com uma echarpe transparente de lantejoulas prateadas que lembravam a estrelas. Fora uma escolha arriscada, levando em conta que não haveria mangas no vestido e seu corpo estaria bem marcado pelo tecido agarrado, mas fora o mais elegante e bonito das opções que tinha. Já o de Harumi… Com mangas bufantes de renda e lantejoulas prateadas, era um traje de contos de fadas, iguais aos que ela lia, com uma saia grande e azul da cor do mar profundo, ondulando sempre que ela caminhava. Surya sabia que Harumi invejara seu vestido, mas ela também havia cortejado o vestido da outra. Pareciam estar com os vestidos errados, mas ninguém iria admitir aquilo faltando poucas horas para o baile. E as criadas faziam o seu melhor para não irritar ainda mais as meninas.

O tom de azul era igual para ambos os tecidos, mas na mente de Surya o seu era como o céu noturno e o de Harumi como um mar profundo, então ainda saira ganhando, pois odiava o mar e tudo que se relacionasse a ele. Fora em uma viagem dessas que seu pai morrera e a mãe se transformou em uma figura triste e silenciosa. Melhor para Harumi.

Quando estava pronta, se levantou e foi rapidamente para a sala de chá, não aguentando ficar mais nem um segundo perto de Harumi.

Durante toda a tarde haviam jogado cartas, inúmeros jogos diferentes envolvendo o baralho, e não vencera nem uma única partida. Aquilo a deixou propícia a irritações, como aquela que teve ao voltarem ao quarto e encontrarem as duas peças quase idênticas. As criadas pareciam feliz por “combinarem” as peças, mas as duas selecionadas quase saltaram sobre as camas e fizeram um show para expressar o quanto aquilo as irritava.

Agora tudo o que Surya dizia era acatado com veemência.

Na sala, as outras selecionadas já prontas conversavam alegremente, ansiosas para descerem até o baile. Surya passou a reconhecer mais facilmente cada uma. Galaxia, com quem conversou muito durante a tarde, usava um vestido gracioso branco perolado e trazia colares e pulseiras de pérolas que combinavam com o modo angelical com que erguia o rosto. Após retornar de seu encontro com o príncipe, Galaxy contou a todas o quanto Heid era gentil e atencioso e seus priminhos muito brincalhões. Eles quase não prestaram atenção à tarefa principal, escolher um terno para o príncipe, mas ficaram brincando de pega-pega e esconde-esconde pelo quarto enorme de Heid. E sim, Galaxia havia entrado nos aposentos do príncipe. Aquele fato foi devorado por todas com um misto de inveja e admiração.

Surya, se não estivesse já brava, ficaria brava agora com Galaxia, por ter sido tão ousada. Mas talvez todos aqueles sentimentos fossem causados pela ansiedade de que logo o baile começaria e elas teriam de descer e dançar com o príncipe. Tudo o que ela conhecia sobre dança eram as coreografias tradicionais de Hindu, e a maioria não envolvia um parceiro, nem homens, nem saltos.

Ela não queria estar irritada.

Governanta Verônica esperava a porta, enquanto elas se enfileiravam para descer as escadas em direção ao baile. As antecâmaras no segundo andar estavam vazias, embora cadeiras e mesas com bebidas estivessem dispostas para serem ocupadas. Não havia flores, todos os vasos foram substituídos por velas e castiçais, as cortinas grossas estavam enroladas e as janelas exibiam toda a extensão dos jardins, floresta e casas próximas ao palácio. O ouro refletido deixava o ambiente dourado e encantador, aconchegante, de um modo que fez Surya acalmar sua fúria interior. Enquanto desciam juntas as escadas, o salão cheio de convidados parou por um minuto para vê-las. As pretendentes do príncipe. Os olhares que chegavam até elas eram perigosamente interessados, em Hindu aquele tipo de atenção era recusada para jovens da nobreza, que raramente mostravam seu rosto antes de estarem prometidas a alguém.

Sentia-se desnuda, analisada, como se voltasse a sua casa com Raj.

Afastou aqueles pensamentos perturbadores de sua mente e se focou no príncipe Heid, vestindo um terno de risca branco e gravata vermelha sangue. As cores do Império. Seu cabelo foi escovado para cima e fixado com gel, o preto refletia as luzes das lâmpadas no andar debaixo. A iluminação do segundo andar era muito mais agradável, na opinião de Surya, mas imagine acender um salão daquele tamanho apenas com velas… Seria insustentável. Uma pena. Heid cumprimentava as selecionadas com um beijo na mão e, quando passavam por ele, elas estavam livres para circular pelo baile, em busca de pares para dançar, comida ou conversas. Surya se aproximou dele e, com um sorriso pequeno, ofereceu sua mão. O príncipe a pegou como fazia com as outras e a beijou, soltando imediatamente.

Dispensada, Surya não sabia muito bem por onde começar. Queria ficar perto dele para caso fosse a primeira dança de vossa alteza, mas aparentemente o príncipe se deteve em uma das últimas a descer a escada, uma menina que ela não havia reconhecido. Talvez nem fosse uma selecionada.

Estava começando a ficar muito irritada com o modo que ele a ignorava.

Deu alguns passos em direção à multidão e logo recuou, defensiva. Muitos nobres com roupas elegantes e olhares curiosos, cartolas, sobrecasacas, charutos, sapatos de couro, babados, renda e seda. Leques abanavam os olhos invejosos e caluniadores das donzelas e condessas, Surya percebeu que também reparavam nela, não apenas nas outras selecionadas, as mais bonitas. Príncipe Heid se afastou, levando enfim a primeira selecionada para o centro do salão de dança. Ali, começariam a juntar os casais antes de a orquestra tocar a valsa. Ela mesma não esperava que alguém fosse convidá-la para uma dança, mas estava torcendo muito, pois queria ter a chance de ensaiar antes de Heid.

Quando estava quase se afastando para perto de uma das mesas de doces, um homem alto parou a sua frente e abriu um sorriso amigável. Ao subir os olhos para seu rosto, Surya tomou um susto ao notar que ele era hindu. Com um turbante que comprovava sua posição social e roupas estonteantes de seda dourada e texturizada com ouro, o nobre a cumprimentou em hindu e fez o que ainda ninguém havia feito, em sua cultura, até agora: mostrou algum respeito para com sua posição de donzela. com os dedos em frente aos olhos, ele se curvou e pediu permissão para vê-la.

— Tudo bem. — respondeu — Isso não importa aqui.

— Claro que importa — o nobre tirou os dedos, revelando olhos verdes como esmeraldas — somos hindu, a tradição sempre importa. Você deve ser Surya Deepika, filha de Radesh. Conheci vosso pai há muitos anos, imagino que não se lembre de mim. Visitei-os por uma semana, quando estava na cidade.

— Perdão, senhor.

— Duque de Banglaroth e ministro de Hindu, Amir di Bur Naan. — ele fez uma reverência — Ao seu dispôr. Tive muitos bons acordos com Radesh, em seu tempo. Não tem sido fácil com seu tio.

Surya assentiu.

— Que assunto, não deve saber nada sobre os arranjos de Raj. — o duque Amir sorriu, indicando o centro do salão — Gostaria de uma valsa, senhorita Surya?

— Claro, senhor.

Amir sorriu novamente e tomou sua mão, conduzindo-a para o círculo de casais, em posição para a valsa. Ele sorria como um ministro deveria saber sorrir para conquistar o voto do povo, mas também havia uma esperteza nobre que o deixava muito próximo de Raj. Próximo demais. Ela não estava mais tão certa se queria dançar com ele.

— Estou com muita esperança em você, Surya. — Amir disse — Hindu poderia se revitalizar e enfim ver algum tempo de glória se fosse a próxima rainha. Farei tudo ao meu poder para isso.

A menina engoliu em seco, sem palavras.

Ter o apoio de Amir era tão importante quanto impressionar o príncipe naquele baile. Por algum motivo, ela se curvou e agradeceu ao modo humilde e religiosamente aceito em Hindu. O duque sorriu.

— Somos todos aliados quando se trata de nosso povo. Lembre-se disso, Surya.

E a valsa começou.



Elas desciam as escadas como anjos, sorridentes, esvoaçantes, em cores aleatórias que representavam exatamente aquilo que queriam aquela noite: chamar a atenção do príncipe. Escondido em seu lugar ainda dentro da câmara que dava lugar às portas dos quartos e salas do segundo andar do palácio, observou-as sem que fosse notado. Os violinos no andar debaixo diminuíam seus agudos para que não roubassem a admiração direcionada às garotas. Joanna, a última na fila, usava um dos mais modestos estilos, preto, cobrindo seus braços e pescoço. O cabelo fora ordenado em tranças e cachos no alto da cabeça e a maquiagem escondia seus olhos audaciosos e camuflavam completamente quem ela era. Muitos naquele salão conheciam a filha de Catarina Bragança, mas talvez não a reconhecessem como Joanna Aragão. Azra não a culpava por querer desaparecer em eventos como aquele.

Mas não deixava de se sentir minimamente traído por ela ter vergonha daquilo.

Não que fizesse diferença agora, quando tantos anos já haviam se passado. Voltou os olhos para a sala de chá das moças. A governanta Verônica orientou cada uma do alto das escadas e, quando a última desceu até a metade dos degraus, ela abriu um pouco a porta para deixar que a verdadeiramente última selecionada aparecesse. Ninguém avistaria aquela câmara de onde estavam, mas Azra avançou alguns passos para a frente delas, revelando enfim que estava ali. A surpresa de Verônica se desfez rapidamente, uma conversa silenciosa passou por seus olhos e ela deixou Kateryna passar por ambos, olhando para o andar debaixo com relutância.

Seu rosto, não tanto quanto antes, ainda estava inchado, mas a maquiagem cobrira os hematomas que agora eram visíveis apenas quando estava de perfil e uma das bochechas se sobressaía a outra. Os violinos e violoncelos retornaram ao volume comum.

— Eu estarei na sala de chá — a governanta se curvou e entrou pela porta, fechando-a lentamente. Azra queria empurrar Kateryna para dentro, para salvá-la de qualquer exposição desnecessária, mas entendia que aquilo seria mais crueldade do que caridade e apenas ofereceu seu braço à jovem.

Kateryna, com os olhos ainda no andar debaixo, segurou seu antebraço de leve. Ela fizera muito disso em outros bailes, em salões ainda maiores e mais estonteantes, como os de Versalhes. Mas em todos eles, sua aparência não fora uma preocupação, principalmente por estar preocupada com o que seu pai pensaria ao vê-la. E com certeza Mikael Petrov estaria no andar debaixo, conversando com outros ministros e nobres, aguardando quando sua filha triunfantemente desceria as escadas. Se já não estivesse incomodado com o fato de ela não ter ido junto das demais selecionadas. Kat de repente notou que seria impossível esconder dele o que havia acontecido. E papai nunca perdoaria o príncipe ou quem quer que fosse por ter estragado seu rosto.

— Se não quiser, não descemos. — Azra disse, baixo para que ela ouvisse e digerisse a sugestão. As antecâmaras ao redor do segundo andar, com sofás, mesas de vinho e suco, decoração romântica e iluminação baixa a assustaram. Esconder-se ali era a última de suas opções, durante todo o dia em que estivera pensando no baile. As antecâmaras de palácios eram lugares de depravação e pecado, ela conhecia o tipo de jovens que fugiam nos salões para ficarem ali, confortavelmente escondidos nas sombras que a luz das velas proporcionava. Não era a primeira vez que recebia um convite como aquele.

— Por que está fazendo isso? — ergueu o rosto para vê-lo, mas a expressão do primo do príncipe não era de gozação ou flerte, graças a Deus.

— Sinto-me responsável por cuidar de — Azra notou como ela erguia as sobrancelhas e abria a boca, inconformada. — Heid me pediu.

Era uma mentira, Heid nem viera falar com ele sobre o acidente naquele dia, mas coube perfeitamente, pois Kateryna assentiu e concordou em se sentar em dos sofás, olhando o baile. Os primeiros casais já se juntavam para dançar. Durante a tarde, quando procurou Verônica, a governanta explicou como a situação de Kateryna estava e, em suas palavras, como “isso nunca deveria ter acontecido”, pois de todas que tinham de dançar com Heid, a única que entendia a verdadeira alma de uma valsa era a filha de Mikael. Verônica o aconselhou a não tocar no assunto sobre o cavalo, e principalmente a não contar que ele fora sacrificado, pois damas como ela não tinham o mesmo temperamento que os homens como ele. Azra se sentiu ofendido, afinal fora contra o abate, mas apenas concordou.

Agora, em silêncio ao seu lado, ele se perguntava se tinha as disposições necessárias para entretê-la durante toda a noite. Se tudo continuasse como estava, Kateryna logo voltaria a seu quarto para ouvir a música em frustração. Azra nunca dançou com ela em um baile, mas já a vira fazê-lo com outros, e parecia algo de que realmente gostava. E ali havia espaço.

— Você me daria a honra de uma dança, senhorita?

Kateryna desviou a atenção do salão, a cor de seus olhos apagada pela luz amarelada dos candelabros. Em uma posição comum, uma dama nunca deveria recusar o primeiro parceiro de dança, pois isso seria uma arrogância desmedida que afastaria todos os outros, mas a quem mais ela daria a mão para uma valsa? Azra duvidava que Heid fosse deixar seu próprio baile para satisfazer as expectativas de uma das trinta e uma selecionadas de que dispunha. Não estava magoado por isso, no entanto, afinal era seu aniversário.

— Não me sinto bem — foi a resposta, antes de voltar a encarar o andar debaixo. Azra se voltou para lá também, desistindo de pressionar. — O príncipe está bem?

— Claro, por que não estaria?

Kateryna mordeu o lábio inferior e soltou um suspiro baixo, tão invisível que ele nem notaria se não estivesse bem ao seu lado no sofá.

— Não quero que o culpem pelo que houve. Foi uma acidente.

— Sim — umedeceu os lábios — Ele ficou transtornado no começo, mas as responsabilidades o chamaram. Precisa continuar sendo o príncipe herdeiro.

— Deve ser horrível — Kateryna ergueu o olhar soturno e seus olhos se encontraram vagamente, antes dela os mover para seu cabelo. Azra perguntou-se se havia algo de errado nele. — Ser filha de um ministro já é horrível, imagine ser filho do rei.

— Nem todos os pais ministros são iguais. — ele sorriu.

Ah, Kateryna se esqueceu, Azra era filho mais velho de Raffel Czarevitch, ele sabia como era ser filho de um ministro. Novamente a pergunta em que havia balançado todo o dia retornou: como não o conhecia se ela estava sempre presente em festas e eventos no palácio real? O rosto de Azra era idêntico a Raffel, apenas uma versão mais jovem e menos severa, mas tinha os mesmos cachos e o maxilar Então… como nunca percebeu que eram seu filho? Será que Azra nunca fora a um dos bailes da família real? Improvável, mas de que outra forma teria passado despercebido?

— Você está no exército?

— Socorrista — contou, puxando a gola de sua camisa para mostrar a tatuagem que todos os militares usavam quando eram oficializados em um cargo fixo. O desenho era o de uma serpente subindo por uma torre, com um código em números logo abaixo. — Socorrista 1.537.039, se assim preferir.

— É verdade que perdem seu nome quando se juntam ao exército?

— Como o imperador e a imperatriz? Não. Nós apenas os chamamos de comandantes, quando são muito superiores, mas continuam existindo como pessoas. Eu me chamo Azra Dunah Czarevitch.

— Você me disse ontem — Kat mudou o olhar para seu queixo, curiosa com o quanto não entendia sobre as burocracias do Estado. Se quisesse se sair melhor naquela competição, era melhor que soubesse das coisas quando fosse questionada. E se ia passar a noite ali em cima com o filho de Raffel… — Kateryna Petrov.

— É um prazer conhecê-la de novo, Kateryna. — ele abaixou a cabeça e sorriu com a mesura — Espero que os conflitos entre nossos pais não tenham lhe passado uma impressão errada sobre mim e minha família.

Kateryna abriu a boca, mas não soube o que responder. Ela não conhecia a família de Raffel, vagamente lembrava que ele era irmão da rainha, mas o ministro sempre pareceu tão afastado e humilde, como se nunca estivesse a vontade nos jantares. Sua família fora uma incógnita, por todo esse tempo ela nunca imaginou que ele seria casado, ou que tivesse quatro filhos. Se o que a família real queria era esconder o lado cigano, então conseguiram. E… o que a machucou mais: ela não conhecia os conflitos entre seu pai e Raffel. Não sabia que eles discordavam. Não sabia que eram inimigos.

— Não, não — murmurou, baixo, para camuflar a mentira — Nunca.

— Que bom — Azra sorriu de lado — Minha mãe sempre a adorou, mesmo que nunca tenha conhecido você de fato. Ela diz que há muito de Helena contigo. Isso lhe traz boas lembranças.

Kateryna o encarou. Sem elegância, nem tato, nem educação, nem qualquer coisa que ela havia aprendido a ter quando conversava com alguém. Apenas encarou, com uma força e frieza que teriam decepado o elo entre a alma e o corpo de Azra, se ele não tivesse uma forte vontade de espírito em permanecer naquele mundo. Os violinos encerraram a música da valsa e começaram uma quadrilha.

— Eu não deveria mencionar sua mãe, eu lamento pelo que houve.

Kateryna queria arrancar dele tudo o que estava dizendo. Tudo.

Por anos ela nunca ouviu nada sobre sua mãe, e agora… ele estava falando que se pareciam, que a esposa de Raffel fora amiga dela. Que a conhecera.

— O que você sabe sobre ela? — perguntou, seu tom elevado revelava o desespero preso naquele rosto embasbacado — O que sabe? Diga!

Azra abriu os lábios, mas não soltou um som.

A menina o segurou pelos ombros e balançou-o, quase se atirando para sua traqueia para arrancar dali o que tinha para falar. Qualquer coisa, notou. Qualquer coisa.

— E-eu não sei — foi o que conseguiu balbuciar, antes de se livrar de suas mãos — Minha mãe apenas me contou algumas histórias.

— Por favor, me conte — os olhos de Kat se encheram de lágrimas, mas ela as afastou com todas as forças que tinha — Por que elas se conhecem?

Azra compreendeu, então, o que estava perturbando tanto Kateryna Petrov. Ela não sabia nada sobre sua mãe. Porque o pai nunca havia contado.

— Elas eram amigas, enquanto nossos pais trabalhavam juntos em uma linha de trem que ligasse Turka a Russya, até Moscou. Se conheceram em um jantar e logo se tornaram amigas, inseparáveis, minha mãe diz. — Azra piscou — Ela está aqui.

— O quê?

— Minha mãe — ele se levantou, tão pronto que a ideia surgiu — Eu posso chamá-la.

Kateryna juntou as mãos sobre o colo, seu rosto era uma máscara de dor e memórias fragmentadas sobre a primeira infância.

— Por favor…

E Azra foi, descendo as escadas sem mesmo respirar.

A sós, Kateryna tentou remontar tudo o que sabia sobre sua mãe. Lembrava-se de histórias antes de dormir e de ter aprendido a dançar pisando em seus pés, enquanto ela a rodava de um lado para o outro. Fora uma mãe amorosa, sempre lá para a envolver em um abraço, dando lições que Kat guardou consigo, no fundo de sua moral. Mas… era impossível evocar o rosto dela. Sua voz. Qualquer trejeito ou mania, sua mãe simplesmente evaporara da memória, restando acontecimentos bobos e detalhes banais. Kat esperava ansiosamente para quando Azra reaparecesse, mas ele demorou. Se sua mãe fora amiga de uma das esposas dos ministros, então poderia ter sido amiga de outras. E ninguém nunca viera falar sobre isso com ela. Por quê?

Porque seu pai odiava que falassem de Helena.

Os motivos nunca importaram, desde que sabia que a mãe morrera doente quando ela tinha seis anos, mas o impulso de todos aqueles fatos que o homem lhe escondera por meio segundo agora faziam florescer dúvidas e hesitações que ela nunca levara em conta. Doente, sim, uma doença que não possuía cura. Mas qual? Por que quando ela tinha seis anos? Por que não tentar ter outro filho, quando era isso que seu pai mais queria? E por que ninguém falava dela, nunca, mesmo sabendo que era uma pessoa alegre e cheia de amigos? Quem foram os amigos de sua mãe? Será que Mikael havia silenciado cada um?

As conspirações roubaram sua atenção das escadas no momento em que alguém terminou de subi-las, correndo em sua direção com um desespero evidente. Os passos, fracos, mas decididos, chegaram até ela enquanto ainda tentava reorganizar todos os seus sentimentos, mas ela não se surpreendeu pelo colete vermelho vinho ou a gravata borboleta e a flor gladiolus pendendo do bolso, três pétalas em cada cor: vermelho, amarelo e rosa. As roupas de ministro sempre cabiam bem em Mikael Petrov, que mesmo com a idade continuava a ter um físico jovem, esguio e magro, alto como qualquer russo da aristocracia, com falhos cabelos louros e olhos verdes translúcidos com os dela. As rugas ao redor dos olhos de seu pai pareciam mais profundas que da última vez em que o vira, mas não expressou surpresa, saudade ou amor. Mikael a olhava, de cima para baixo, avaliando.

— Minha filha — ele disse, como costumava chamá-la. Kateryna poderia culpar seu pai por não ter nenhuma lembrança marcante da mãe ou por ser afastada de todos os possíveis amigos que não estivessem em sua estima, mas ao menos era respeitada. Ele nunca ergueu a voz para ela ou lhe castigou fisicamente. Kat era grata por isso, pois apenas essa verdade sustentava em sua consciência que o pai a amava e que toda a frieza ao redor de seus modos eram pura e simplesmente tristeza pela morte da esposa. — Soube que se acidentou.

— Uma coisa terrível, mas já estou muito melhor. — ela se levantou para deixá-lo ver o rosto inchado. A maquiagem escondera os tons arroxeados, mas o verde ainda pulava aqui e ali, manchas feias e contrastantes ao tom de seus olhos. Mikael observou e nada disse. — Estava passeando com o príncipe a cavalo e o pobre animal se assustou com um animal selvagem. Fui salva por Azra Czaveritch, filho de Raffel e primo do príncipe.

— Raffel — repetiu o homem e assentiu — O filho de Raffel estava lá? Que inoportuno para o príncipe que sua pretendente seja salva por outro homem. Isso não será bem visto em Petersburgo, com certeza. — e então Mikael segurou seu rosto, com uma dureza áspera que a teria feito se encolher e gritar, se não fosse seu pai quem o fazia — Você continua linda, Kateryna, lembre-se que é linda.

— Obrigada, papai.

— Farei o possível para alertar à essa corte que nenhum dano à minha filha serão tolerados novamente. Se um ataque voltar a se repetir, você estará fora. Ouviu, Kateryna? Conte-me tudo.

— Ataque? — Kat piscou, atônita, mas o pai a cortou com um olhar estreito que significava “eu sei o que é isso, menina, e você é inocente demais para entender”, mas, como que por obra de uma força interior maligna, ela abriu a boca novamente — Não fui atacada, papai, foi um acidente.

— Eu irei dizer apenas uma vez, e espero que entenda que isso pode causar a sua morte — Mikael tomou suas mãos e ambos se sentaram no sofá. A conversa de súbito deixara a frieza dura e se tornara macia e suave, quase fraternal. — Nada tem sido mais fácil depois que você entrou para a Seleção. Há dois anos tento conciliar o ministério russo, mas estão todos contra nós. Raffel me enviou uma carta há poucos meses atrás, dizendo que seria inteligente colocar você dentro do palácio, antes que se feche para todos, inclusive os ministros.

— Espere, você e Raffel estão juntos? Pensei que estivessem em conflito — murmurou, baixo, pois aquela conversa poderia levantar suspeitas ainda maiores e quem sabe a traição de seu pai dentro do próprio palácio do imperador. Kateryna sentia medo, mas estava emocionada por ser envolvida, pela primeira vez, em alguma coisa além de jantares e festas. — Não importa, pai, estou ouvindo.

— É exatamente isso que deve fazer. Ouça tudo. O que os ministros dentro do palácio fazem, o que o príncipe e o rei fazem. Não deixe passar nem mesmo a rainha. Eu preciso de você mais do que nunca.

Kateryna queria chorar, mas assentiu, deixando seu rosto tão inexpressivo quanto era preciso no momento. Seu pai contava com ela para aquilo, era a sua missão. Com um assombro, ela percebeu que havia esquecido completamente sobre sua mãe.

— Pai, há algo que preciso perguntar ao senhor, antes que vá.

Mikael já se levantava, mas parou e olhou para ela, pacientemente.

Ela abriu os lábios para exprimir as palavras, as dúvidas, até mesmo as queixas subentendidas sobre qualquer coisa que a mulher que um dia estivera na vida de ambos poderia ter sido. Mas… seu velho pai tinha uma tristeza profunda corrompendo os olhos claros, tão límpidos que pareciam sempre chorosos. Sua barba, sempre aparada, estava por fazer e quase se enrolava no bigode, alguns fios brancos despontando entre os loiro-palha. Não o via como um homem alto, magro e juvenil. Para ela, seu pai era uma figura melancólica, curvada sempre que ninguém o via e com uma frieza controlada por anos de trabalho dentro do ministério russo, perdido em artimanhas e complôs que arriscavam sua vida, sua carreira e sua família.

Havia uma verdade que Kateryna não era capaz de enunciar, uma que ela afastava da mente sempre que vinha perturbá-la. Era aquele tipo de consciência coletiva a qual as pessoas não fazem ideia de que existe, mas sabem que não poderiam conviver sabendo de sua existência, por isso a ignoram. Os Petrov tinham aquilo consigo e talvez fosse o motivo pelo qual ainda continuavam unidos.

— Nada — ela abaixou os olhos — Não é nada. Senti sua falta.

— E eu a sua, pequena — Mikael se abaixou e beijou a fronte da filha, antes de arrumar a flor em seu bolso e começar a dar passos decididos para a escada, descendo-a sem olhar para o lado. Quando ele finalmente desapareceu de vista, Kateryna encarou as próprias mãos, trêmulas.

A verdadeira que viera como uma chuva repentina de verão era ácida e corroía seus limites, sua tolerância e todos os elos entre o ego e o superego que agora se misturavam em meio às lágrimas. Kat mordeu os lábios para que não tremessem, mas o soluço a forçou a abrir de novo e então outro, e outro, até estar mordendo uma almofada para não fazer barulho.

Não era uma doença, nunca foi, nunca. Ela sabia que a mãe sempre se mostrou saudável e ativa, ela se lembrava dos últimos dias em que estiveram juntas e não havia nenhum sinal de fraqueza ou desânimo. Assassinada. Sua mãe fora assassinada e era isso que assustava o pai sempre que vinha a esse território hostil, cheio de conspiradores e traidores. Morta, com um tiro na cabeça. O som, Kateryna lembrava do som. O disparo que a acordou naquela noite, depois de ter sua história de dormir e beijar a testa do pai, que lia o jornal diante da lareira, uma das primeiras noites em que Mikael voltava para sua casa.

Ela morreu no quarto ao lado, enquanto pai e filha estavam confortavelmente em paz, a metros de distância. Como o assassino entrou? Como foi pego? O que aconteceu com ele? Kateryna tinha certeza que em poucas horas seu pai deu fim à vida do homem, mas o estrago já fora feito. Ela ficou no escuro, ao lado de uma empregada, até que fosse autorizada a sair do quarto. E foi assim. Nunca mais viu a mãe.

— Kateryna — Azra a chamou, estava a sua frente, com uma mão em seu ombro e a outra segurando a almofada, tirando-a do rosto manchado pelas lágrimas e pela maquiagem borrada. — Aconteceu alguma coisa?

— Deixe, Az — uma mulher, até então inexistente, falou com doçura ao lado do rapaz. Ela provavelmente era sua mãe, e tinha o mesmo modo atencioso de falar e olhar para as pessoas que fez Kat querer seu cuidado.

Eles se sentaram ao seu redor e a confortaram com um abraço, limpando seu pranto. Kat parou de chorar e se recompôs, decidida a retornar aos controles de Kateryna Petrov, inabalável. Azra ainda segurava sua mão, e ela só notou quando tentou limpar o rosto por si mesma. O calor de tê-lo segurando-a se dissipou assim que se soltaram e aquilo foi desconcertante, uma solidão entre seus dedos, uma que não havia como espantar apenas voltando a segurar suas próprias mãos. Uma memória brotou em sua mente: ela passeando com mamãe de mãos dadas em um parque de São Petesburgo, após a missa.

— Você quer voltar ao seu quarto? — a mulher sugeriu, maternalmente colocando uma mão sobre seu joelho. Kat a encarou, mas recusou logo em seguida, pois voltar para o quarto era a escolha de um peão fraco. Naquele jogo, ela queria se tornar a rainha e por isso tinha de ser a mais resistente.

— Podemos ter essa conversa depois, quando se sentir melhor — Azra sorriu, mas não era de sua compaixão que Kateryna precisava agora, ela não precisava de ninguém sentindo pena dela. Não, ela estava melhor agora. Muito melhor.

— Eu já estou me sentindo bem — murmurou e, para provar isso, se colocou de pé, esticando a mão na direção de Azra, o que ele aceitou como um convite, e a segurou. — Aceito aquela dança.

E com isso, eles se afastaram da mãe de Azra e começaram a valsar.

E Kateryna sentiu cada músculo de seu corpo se esticar e quebrar enquanto tentava sair da cama

Notas finais
Olá, mi amores Espero que tenham gostado desse capítulo! Estou menos ocupada, mas ainda ocupada, então não esperem capítulos rápidos até dia 17/12, quando oficialmente estarei sem NADA para fazer. Ainda assim, obrigada pela paciência e por estarem comigo até agora! Kateryna tem alguns problemas familiares que dificilmente serão resolvidos, mas creio que a personalidade dela foi mais desenvolvida e até justificada neste capítulo. Assim como a de Surya, no começo, nossa hindu não é só uma florzinha perfeitinha, ela também se irrita muito fácil! Agora, irei voltar para a leitura maçante de um livro para seminário que terei de apresentar na quarta! Desejem-me sorte! Beijos da Lady!