Notas iniciais
Boa leitura a todos! Surya pertence a CherryBomb, obrigada ♥

Festival das Luzes // H I N D U

há 12 anos

À noite, todos os festejos começaram. Barracas serviam caldos grossos e bebidas alcoólicas de graça, músicos preenchiam todas as ruas estreitas, meninos dançavam sobre os telhados e as mulheres se pintavam com vermelho na tez para celebrarem a época das vacas gordas. O festival começava cedo nas áreas mais pobres da cidade, mas só alcançava seu ápice ao entardecer, na praça do palácio do segundo-rei. Fitas douradas foram penduradas nas janelas em direção à praça e luzes refletiam em espelhos, cristais, toda a sorte de objetos e cores. Os cheiros também maravilhavam. Agridoces, amargos, profundos ou fluidos, a comida exalava junto do incenso queimado nos templos, diante das imagens festivas dos deuses.

E, em frente ao palácio, a praça se enchia de vida. Qualquer um poderia ver as cores perambulando como espíritos alados ou a música movendo a força vital de todos para o vento. E o vento... o melhor de tudo era o cheiro que caminhava ao vento. Sua janela ficava do outro lado da casa, mas como quase ninguém estava ali, ela podia livremente ir até o quarto dos adultos e observar o festival.

Apenas observar. A mansão de sua família estava agora no nome do tio e ele proibira de sequer descer as escadas sem sua permissão. Principalmente em festas ou festivais. Surya sabia que era apenas pelo seu próprio bem, mas ainda era triste. Na sacada, levantou-se ao som da melodia alegre, doce, encantadora. Ergueu os braços como um círculo ao seu redor e jogou as sapatilhas de seda para o lado. Um pé caiu sacada abaixo e enriqueceu por três meses a vida de um engraxate que descansava nos portões da mansão. Surya nunca notou o sumiço do par.

Deslizar o peito do pé no piso de mármore frio, sentindo o encontro de uma pedra e outra, as descargas de peso em seus ossos, um corpo tão leve e fácil de flutuar noite adentro.

O festival continuou, as luzes no céu noturno fazendo com que todos perdessem uma miúda garota dançando descalça a sacada da casa mais rica em frente à praça.

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Hoje

Há 4 semanas não via a mansão da família, a qual já estava redecorada para o fim da vida de devassidão e libertinagem de seu tio. Embora estivesse sob a guarda do homem, encarregado de casá-la, a partir dos 14 anos passou a ir visitar a mãe como uma desculpa de se distanciar dele, mas quando completou 18 e conquistou o direito de convocar o carro sozinha, praticamente morava com a mãe, em uma casa ricamente mobiliada do outro lado da cidade, na qual Maya Deepika fazia seu tratamento contra os traumas que impediram de continuar com a guarda da filha.

Quando o carro parou e ouviu os passos no cascalho, Surya desejou ter ficado com mamãe, passando horas sem fim em silêncio. A porta do veículo soltou um estalo surdo e se abriu. Não era ele, graças aos deuses, era apenas Samir. Samir!

— Senhorita! — a velha ama balbuciou surpresa com o ataque que Surya direcionara a seu pescoço, envolvendo-o com os braços finos.

A garota amava Samir como amava sua própria mãe, a velha a criara contra a voracidade e crueldade do tio, fora sua protetora e a tornara forte para suportar tudo com um sorriso vivaz. Assim que a viu, percebeu o quanto sentira ata del. Somente dela.

— Senti sua falta, Samiram. — Era como a chamava

— E eu da vossa risada, senhorita. A casa esteve muito silenciosa e sombria desde o noivado do senhor Raj.

Seu tio enfim arranjara uma égua procriadora com um dote gordo para se casar. Fora assim que ele explicou a situação em uma carta para a mãe de Surya. Maya ouviu enquanto a lia e pela primeira vez em dois dias soltou um fio de sua voz para o mundo: *pobre moça...* A moça também era gorda, o que o irritou muito. Todos na mansão sabiam que na verdade Raj era louco por Maya, mas Surya duvidava que fosse amor o que sentia por sua mãe. O tio chegou a cogitar a mão de sua mãe assim que ficou viúva, mas o diagnóstico de incapacidade psicológica lhe proibiu de decidir por si mesma o matrimônio e entregou de bandeja a mansão, a fortuna e a guarda da única filha que tivera com seu irmão mais velho para ele. O tio tivera de criá-la vendo o rosto da mulher que mais queria misturado ao do homem que sempre invejara estampados em Surya. E tinha certeza de que era isso que o fazia trata-la com tanto ódio, frio e seco. Era provável que a odiasse. Mas Surya também o odiava. Tanto que poderia empurrá-lo da sacada de seu próprio quarto, como sonhou uma vez.

Balançou os pensamentos ruins da cabeça, teria de encarar Raj de uma forma ou de outra, mas mais tarde. Agora estava revendo Samir.

A velha ama a levou mansão adentro, tagarelando sobre os preparativos para o festival das luzes que começaria naquela segunda-feira. Por certo tempo, o festival era a semana mais feliz de sua vida, mas, com o passar dos anos, Surya começou a se sentir triste por ver todas aquelas cores, sons e cheiros e não poder ir até lá. Seu tio nunca permitiu. Ele não dava explicações, apenas a proibia de fazer tudo o que queria.

— Mas até a sexta-feira você já não estará conosco. -Samir sorriu de lado para a menina que entrelaçava o braço ao seu. Sentia-se novamente feliz e completa por ver sua quase filha saudável e linda naquele vestido de seda cor-de-rosa. — Estará no palácio do príncipe, conquistando seu coração com o sorriso mais encantador do mundo.

— Pare com isso, Samiram! Eu nunca seria selecionada — dentre tantas meninas em Hindu, por que ela? Mas não podia esconder o sorriso, pois realmente queria isso.

A mulher apenas continuou acariciando seu braço, até alcançarem o quarto de Surya, onde uma banheira com água quente já a esperava, junto de duas criadas e um vestido de chiffon azul escuro, ondulando de tão leve e solto. Como um céu crepuscular.

Fez um pequeno show após se despir, enfiando uma perna na água e gritando que a água estava tão quente que pegaria fogo. O absurdo fez as três mulheres rirem e seus pulinhos em círculo para apagar as chamas imaginárias as levaram às gargalhadas. Surya também ria, pois adorava fazer os outros rirem, quando a porta do quarto se abriu num estalo e todas as risadas morreram para um silêncio invernal. Nenhuma porta ficava trancada, por ordens dele.

O vento passageiro do corredor entrou no quarto e roçou sua pele nua, causando-lhe arrepios. Mergulhou na banheira tão rápido que a água transbordou e molhou os pés das criadas e de ama Samir.

Com os olhos vazios de qualquer emoção, o rosto ima máscara de arrogância. Seu tio parou a meio metro da banheira e lançou um olhar enjoado para Surya.

— Pensei que viria me cumprimentar antes de se enfiar no quarto. É o mínimo que se pede da família.

A voz rouca era respeitada por todos e as mulheres abaixaram suas cabeças com a reprimenda, constrangidas e culpadas por ajudarem Surya naquilo. Não que fosse um pecado.

Ele se aproximou mais da borda da banheira e a respiração da menina se descompassou ainda mais, com o coração quase lhe escapando do peito. Sentia-se novamente uma criança, quando não se importava que um homem a visse nua. Mas não tinha mais essa inocência ou o corpo para isso. A altura talvez enganasse.

Abaixou os olhos e viu os sapatos de couro chapinhando na água do banho.

— Estou esperando.

Cruel. Aquele homem asqueroso era cruel. Estava imponente, os ombros estreitos se erguendo com alegria sádica. Trêmula, Surya se levantou das águas perfumadas, revelando sua nudez contra o vento e os olhos famintos de Raj. Deixando-o ver. Ele se abaixou o suficiente para que beijasse-o no rosto, e assim ela fez. Queria cuspir em seu ouvido, gritar que era um pervertido sem tamanho, mas se encolheu quando cheirou o hálito de fumo e álcool em Raj e voltou para a água assim que ele se afastou, já dando as costas para todas.

— Certifique-se de estar pronta para o jantar. – avisou e fechou a porta ao sair.

O banho prosseguiu silencioso. Surya fugia todas as vezes em que sentia que seria sufocada, em que quebraria de tanto chorar de raiva. Quando menina, não percebia os olhares que o homem lhe dava ao sair dos banhos. Ele inspecionava seu corpo em busca de “doenças ou ferimentos que alguma criada pudesse tentar infringir contra ela”, mas era tudo uma mentira para que pudesse tocar em seu corpo. Para que pudesse ser um monstro asqueroso.

Deixou-o de permitir suas mãos quando notou que estavam ficando maldosas. Ela se lembrava de quando, aos quatorze anos, ele pressionou-se contra suas costas e beliscou o mamilo direito. Um monstro. Foi exatamente nessa época que abandonou a casa e passou a cuidar da mãe doente.

Um dia o chutaria entre as pernas e o veria pedir desculpas.

Mas, até lá, Raj ainda era o dono da propriedade e da fortuna e ela ainda estava sob seus cuidados. O tio não procuraria um noivo para ela tão cedo, não agora que se casaria e passaria a ser mais infeliz ainda. Sua mãe tivera sorte por Radesh ser o filho mais velho.

Deixou que as criadas penteassem seus longos cabelos castanhos, desfazendo todos os nós e secando-o com toalhas macias. Pelo espelho, Surya avaliou a grossura de seus lábios e os pelos de sua sobrancelha. O tipo de beleza reverenciada em Hindu não era a mesma que adoravam em Franca ou na maior parte dos países ocidentais. Era improvável que o príncipe se apaixonasse por qualquer hindu que fosse para seu palácio. Sua pele era de um azeite escuro, como a de todos ao seu redor, mas via como eram brancas as pessoas que apareciam na TV, perto da família real. As mulheres pintavam os cabelos de vermelho e amarelo, embora isso fosse malvisto naquela parte do mundo. Suas madeixas virgens se desdobravam em cachos pequenos e ondulantes até o final das costas, aparados recentemente para que não se partissem.

A cor nas unhas refletia a suas emoções. Verde musgo.

— Você é a jovem mais linda que já vi – Samir murmurou com as mãos em seu ombro, olhando-a através do espelho. Surya agradeceu ao elogio com um sorriso sereno, um que ela dava sem perceber e que preenchia todo o quarto de calor. – E seus lábios são uma tentação irrefreável a qualquer homem.

— Samiram! – murmurou, não gostava de ter aquele tipo de conversa com a ama, sentia-se uma criança perto dela e se envergonhava com aquilo. Imaginar que algum homem olharia para seus lábios e desejaria beijá-la... encolheu-se.

— Ora, é a verdade, minha senhorita. – Jasin, a criada mais nova, tomou uma mecha de seu cabelo nas mãos e a levou até o rosto – E tão perfumada que poderia ser a própria rosa que dá a essência para esses frascos – afastou os vidros de perfume como se fossem desnecessários.

— E os vossos olhos – Quiera, a terceira mulher no quarto, se ajoelhou sob as pernas de Surya, tocando o vestido suave sobre seu corpo. – são mistérios que qualquer um desejaria desvendar.

Surya não entendia porque estavam dizendo aquelas coisas a ela, principalmente quando havia acabado de pensar o contrário. Mas Quiera tomou suas mãos e o trio a beijou na testa, uma de cada vez, como a benção das três deusas virgens.

— Nós a ajudaremos a escapar daqui. Com ou sem príncipe. – Samiram a envolveu em um abraço maternal e Surya não conseguiu conter as lágrimas.

Notas finais
Mais uma menina apresentada, o que acharam de Surya? Eu particularmente adoraria guardá-la num potinho longe de toda a maldade do mundo... Ansiosas para o próximo? Uma dica: a próxima menina é o completo oposto de Sirena e Surya! Obrigada por lerem mais esse capítulo. Beijos da Kyung