Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
5 Voo de Mizandre Merveilleux
Notas iniciais
Aeroporto de Paris // F R A N C A
A mulher que olhava para ela do outro lado da janela era incrivelmente linda. Mizandre mordeu os lábios enquanto a admirava, preenchida por toda a exuberância do rosto arredondado, os olhos azuis como o oceano e a tez branca como a neve. Seus olhos procuravam por algo além daquela beleza e só pararam quando viu as nuvens, o azul infinito do céu e, enfim, estavam voando.
O reflexo na janela do avião lhe sorriu com prazer e ela abandonou a si mesma por um instante, voltando a atenção para o resto da tripulação. Embora morasse em uma cidade próxima a Paris, precisou esperar quase quatro horas até que todas as demais selecionadas chegassem ao aeroporto. Elas realmente se achavam incríveis para fazerem-na esperar tanto tempo? Quase roeu as unhas, mas se controlou para não destruir o trabalho de arte que o Ateliê Sondriè fizera em suas mãos, cabelos e maquiagem antes de abandonar sua cidade natal e ir para a capital.
Não se sentia deslocada em Paris, na verdade estava lá com tanta frequência que quase morava nos apartamentos mais altos e caros, com vista para Versalhes. Bem, ela nunca conseguiu avistar o palácio, talvez porque as nuvens alcançava o topo dos andares, mas ao menos os gerentes garantiam que em dias de sol todos poderiam ver a casa do rei.
Dias de sol em Paris. Ela quase riu.
Sentara ao lado das selecionadas francas, mas não trocou uma palavra com elas. O voo deveria ser silencioso para poupar sua energia pelo príncipe, abrir demais a boca arruinaria a base da maquiagem, então ficou o mais imóvel possível. Os ruídos começaram muito baixos, como ratinhos, e logo cresceram para ratazanas. As meninas falavam o idioma comum ao seu redor e Miz sentiu seus ouvidos sangrarem com a fonética torta e grosseira. Graças à Virgem foi criada com a língua dos poetas, o franco, e era muito feliz assim.
— Bom dia – a menina a sua frente sorriu, em francês. Havia um leve sotaque sobre o dialeto. Sua língua se prendia aos lábios e aos dentes, uma gaiola, a língua francesa era como uma prisão.
— Bom dia – retrucou em um franco magnífico, elevando as vogais como a aristocracia fazia. Estava muito na moda. Deveriam saber de onde ela era, onde havia nascido.
Ao seu lado, vislumbrou a garota se encolher e se voltou para ela. Estava com a mão sobre a boca e sufocava uma risada.
— O que foi? – Mizandre ergueu uma sobrancelha. Estava estragando sua maquiagem por aquele tipo de diálogo, até onde se rebaixaria?
— Não precisa falar desse jeito aqui, todas nós sabemos que o franco nobre é ridículo. – sua fala soava como o franco, mas algo mais pobre, mais humilde. Mizandre abriu um sorriso e a moça notou que a havia ofendido. – Embora seja franco, de qualquer forma...
— Ridícula é essa base cheia de rachaduras no seu rosto, burrinha.
— O que você disse? – as outras se entreolhavam, talvez tentando adivinhar que tipo de franco ou francês era aquele, mas Mizandre sorria prazerosamente, aproveitando a ignorância daquelas... Coisas.
— Não se importe com isso – agitou uma mão macia no ar e voltou a olhar o céu. A olhar a si mesma na janela. – é apenas um ridículo latim.
E ninguém tentou perturbá-la novamente.
—
Estavam todos sentados ao redor da grande televisão de cinema, que ocupava quase toda a parede, ao lado das duas gigantescas janelas do último andar do maior apartamento de Maselha. A cidade da vida praiana, cercada pelo mar e pelos iates de luxo. A família Merveilleux estava toda reunida ali. Bem, não todos. Papa fora para uma entrevista com um dos executivos da grande empresa de maquiagem LaMoon, em Lyon. Mama também voltaria apenas a tarde de seus desfiles em Nice e Montpillier, o que significava que os únicos realmente ali eram ela, Mizandre, e seu irmão, junto da noiva e da entediante irmã de sua noiva.
Se a Virgem Mãe quisesse, a sogra de Louis estaria presa no congestionamento da Avenida Principal. E que os céus derrubassem sua chuva sobre sua Mercedes vermelha, amém.
— Está ansiosa, Mizzy? – perguntou a noiva de Louis, comumente chamada de Feryne, mas para Mizandre era apenas a noiva do irmão. E, por favor, o que é essa droga de “Mizzy”?
— Por que estaria ansiosa? – retrucou, sem erguer os olhos de suas unhas recém-pintadas de rosa choque. Sua mala já estava pronta atrás da porta do quarto e encomendara quinze vestidos novos da última coleção de sua mãe, apenas para estar bem vestida para o palácio.
— Todas as garotas em Marselha estarão participando do sorteio. – Feryne ignorou o tom ríspido de sua cunhada e apenas deslizou carinhosamente o dedo indicador pela barba de seu noivo. – Está confiante?
— Eles nunca fariam um sorteio – Mizandre olhou para a insígnia da Eurásia brilhando na tela da TV, antes de Flaus surgir com o príncipe e o rei logo atrás, sentados em tronos equivalentes. Seu coração deu um pulo ao ver o rosto de seu futuro marido. – Seria idiotice.
— Veja, está começando! – Feryne soltou, irritantemente óbvia.
Não entendia por que seu irmão estava tão certo de se casar com ela, mesmo sendo a filha do dono da maior empresa de perfumaria de Franca. Ela era burra demais, entediante demais. E ficava passando a mão na barba dele, algo que Louis realmente detestava.
Mas ele tolerava, pela empresa, pela família. Mizandre sorriu consigo mesma. Ela suportaria qualquer coisa para ser a rainha.
Flaus introduziu-os ao programa, que aconteceria sem enrolações, já que a única pauta do dia era o sorteio. Todos na Eurásia estavam assistindo, mais de um bilhão de meninas torciam as mãos para ver seu rosto na tela, indicando que haviam sido escolhidas. Mizandre não duvidava de que era a mais adequada de Franca para o papel, mas se fosse preciso uma disputa antes, também não duvidava que não perderia para nenhuma outra garota de qualquer parte do império. Elas simplesmente não entenderiam o que uma rainha precisava.
— Começaremos por ordem alfabética – Flaus mostrou as urnas de vidro, em que os nomes estavam embaralhados. Feryne voltou o rosto para Mizandre, seus olhos diziam “eu avisei que seria um sorteio”, mas nada daquela pompa enganaria Mizandre. Todos os nomes dentro daquelas urnas seriam de apenas uma menina, previamente selecionada. Ela sabia disso. Quando o príncipe caminhou até a primeira urna, implorou para que fosse logo em direção a Franca, de onde tiraria ao menos três nomes diferentes.
Louis se mexeu de leve, aliviando o peso do corpo da noiva de seu braço e perna, mas a moça não percebeu o desconforto do noivo e continuou aninhada a seu peito.
— A primeira selecionada de Arabyca é...
Mizandre bufou e começou a brincar com a almofada de veludo. Os rostos das garotas eram todos horríveis, no mínimo. Eram tão fora do “bonito” que nem se importou em decorar seus nomes. Uma das selecionadas de Arabyca tinha a pele tão escura que quase parecia africana. Um vislumbre para sua tez pálida e graciosa e Mizandre soube que seria a mais bela de todas no palácio. O Extremo Oriente também não tinha nada a oferecer, as meninas de lá eram tão iguais que o príncipe nem saberia se estava saindo com a mesma pela segunda vez. O pensamento a fez rir de leve.
— Agora, iremos para Franca. Franca é o país que abriga a família real há décadas e grande parte dos seus nobres permaneceram em Paris e Marselha, as duas cidades principais – Flaus sorria para a tela, sorria para Mizandre, a próxima rainha da Eurásia. Mordeu seus lábios, aguardando que o príncipe alcançasse seu nome dentro daquela urna. – Para as selecionadas de Franca, há uma vantagem, já que a família real fala fluentemente francês.
— Ah, é claro que falam. – murmurou baixinho, mas Louis voltou os olhos para ela com curiosidade e algo próximo de nojo.
Príncipe Heid colocou sua mão dentro da urna e os pelos castanhos de seu braço roçavam os demais papeis. Quando tirou o envelope de dentro do círculo, Mizandre jurou que viu por dentro do papel o final “...dre” e soltou um gritinho de êxtase.
— De Franca, nossa primeira selecionada é... – Flaus olhou para o príncipe, aguardando.
E Heid disse, com sua voz tão rara, que Mizandre ouvira apenas uma vez, na sexta-feira passada. A voz que passaria a ouvir todos os dias quando estivesse casada.
— Ela é... – os olhos do príncipe se detiveram sobre a foto, eles analisavam o rosto de quem ele havia sorteado. Mizandre franziu o cenho, seu sangue congelou imediatamente. E se aquilo fosse realmente um sorteio... então ela poderia não estar dentro... – Ela é... – Heid sorriu, suas bochechas coradas. Coradas. Mizandre agarrou a almofada com a ponta dos dedos. Não, por favor, não! – A coisa mais linda que já vi.
Flaus gargalhou, junto de toda a plateia ao redor.
— Por favor, acabe com o suspense, Príncipe Heid!
O príncipe sorriu de lado e virou o papel para as câmeras.
Mizandre quase enfartou.
— Mizandre Merveilleux de Marion.
—
Não sabia porque continuavam com aquela história de competição depois do que Príncipe Heid havia dito no dia anterior. Ela era a coisa mais linda que ele já tinha visto. Ninguém poderia vencê-la.
Ninguém.
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