Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
16 Companhia de Harumi
Notas iniciais
Companhia de Harumi
Azul, azul, azul…! Tudo era azul dentro do quarto. O jogo de cama, o tapete, parecia que até o vento que entrava pelas janelas abertas tinha um pózinho mágico azul esvoaçando pelas cortinas. Aquele cenário era perfeito para um videoclipe de uma música romântica entre um príncipe e uma princesa separados por uma torre. E a cama era tão grande que poderia rolar quantas vezes quisesse durante a noite e ainda sobraria espaço para chutar as cobertas para o lado ou arremessar o travesseiro para os pés do colchão. Deixou a mala de rodinhas encostada em uma das mobílias e correu com pulinhos até as cortinas que dividiam o quarto de estar e o quarto de dormir. As cortinas estavam quase fechadas, por isso quando passou por elas, seus braços se prenderam no tecido e elas oscilaram como asas em suas costas. Quase deu de cara com uma mesa de canto com abajur de porcelana branca e dourada, cheia de florzinhas delicadas. Aquelas tábuas de madeira deslizavam muito, tinha de tomar mais cuidado. E… jogou-se na cama, já escolhendo a do lado direito do espaço.
Foi engolida por cobertas e lençóis e almofadas, seus braços e pernas se contorcendo contra o cheiro adocicado de amaciante. Tudo limpo e lavado para que usasse com muita alegria. Todos estavam sendo tão atenciosos com elas que sentiu vontade de sair dali agora mesmo e cumprimentar a mão de cada criado que encontrasse pelo caminho. “Obrigada pelo trabalho! Obrigada pelo trabalho!” ela diria a eles e todos ficariam felizes.
— Isso é igual ao quarto de Jasmim! — sua companheira entrou, tão saltitante quanto ela.
A menina pulou na cama e ficou algum tempo se contorcendo de felicidade lá, até que perdesse a graça. Harumi ligou seu celular e colocou em uma música animada, ficando em pé na cama para performar uma apresentação especial de boas vindas a sua amiga. Não que elas fossem amigas, profundamente amigas, mas se iriam dividir aquele quarto, era melhor que se adorasse, certo?
— Essa é para você, Surya! — apontou para a hindu e ela bateu palmas em empolgação.
A música era em coreano, um gênero pop muito comum no Extremo Oriente. No entanto, o grupo que ela escolhera era tão famoso que Surya também o conhecia, em Hindu. Também sabia a coreografia e subiu na cama para dançar ao som de Harumi e seus agudos anasalados.
Ao término da performance, Surya estava descabelada e aplaudia como uma verdadeira fã, com gritos e um fanchant especial para Harumi do Oriente.
— Obrigada, obrigada — Harumi se curvou e se sentou com um pulinho no colchão. — Você gosta de Nation’s Boy?
— Sim! — Surya gemeu, ainda ofegante de ter dançado toda a parte do rap que era de matar qualquer um, cheio de krumping e b-boying (que ela não chegou a fazer, mas que sentiu muita vontade). — Eles são maravilhosos, principalmente o Yun.
— A voz do Seungchae é a coisa mais doce que eu já ouvi. — Harumi fechou os olhos, imaginando-o cantar para ela, a sós. Já havia escrito uma fanfic sobre SeungC e Yun namorando, talvez mostrasse para Surya depois. — Vou colocar no cd deles.
Surya assentiu e elas escutaram as faixas juntas, até que anoitecesse. Sua companheira de quarto gostava de Nation’s Boy, podia ter mais sorte que isso? A hindu contou sobre o que mais gostava, além de livros sobre príncipes e princesas, filmes de amores impossíveis e músicas pop-orientais. Elas gostavam de mais três grupos em comum, dois deles formados apenas por meninas. Sua playlist estava quase no fim quando combinaram de sair das camas confortáveis e foram para o piano, no qual Harumi se sentou e começou a tocar para mostrar a Surya que realmente conhecia músicas clássicas. A hindu estava fascinada.
— Quem te ensinou a tocar?
— Meu pai. — Harumi sorriu — Ele é músico.
— Que legal! — Surya se sentou ao seu lado — Pode me ensinar alguma coisa?
— Bem, o mais básico seria…
A porta se abriu com um estampido alto e ambas quase caíram para trás do banco do piano antes de verem quem havia entrado tão furiosamente no quarto que dividiam. Era Verônica. A governanta estava a ponto de cuspir fogo e olhava para elas com fome de carne de meninas magrinhas e barulhentas, do jeito que eram.
— Por que vocês estão aqui ainda? — ela indagou, a própria personificação do juízo final.
— Eu não sei — Harumi respondeu por elas, pois Surya estava a ponto de se urinar toda. Deveriam ter ido a algum outro lugar? Lá fora o céu estava estrelado e as lâmpadas do quarto eram tão brancas que causavam dor de cabeça.
— Eu disse a vocês para irem jantar às sete. — a governanta bateu impacientemente o dedo no relógio. Eram oito. — O imperador e a família real estão na sala de jantar, onde as duas deveriam estar também.
Meus deuses, Harumi ergueu Surya pelo braço e ambas saíram correndo do quarto, ao encalço de Verônica. Se o imperador pensasse que elas estavam fazendo pouco caso de sua companhia, seria uma desfeita muito desrespeitosa. Elas estariam encrencadas! Mas tinha certeza que a governanta não falara nada, pelo menos Harumi não tinha ouvido nada.
— Eu também não ouvi nada — Surya segredou, adivinhando o que a japonesa pensava.
Elas atravessaram a sala de chá, muito bem iluminada e com um aspecto muito mais elegante agora que as lâmpadas amareladas a iluminavam. As janelas estavam fechadas e insetos de verão se debatiam contra o vidro, tentando entrar. Verônica não disse nada, apenas continuou descendo as escadas até voltarem ao salão de entrada e então contornarem a base das escadas para entrar em uma câmara embaixo delas, na qual outras escadas guiavam para o subsolo, revelando um salão grande com uma mesa de jantar posta, pratos limpos e vinte e nove meninas mais a família real terminando seu jantar. Quando começaram a descer as escadas, as pessoas ergueram os olhos para observá-las. Harumi quase riu da bagunça que eram os cabelos negros de Surya, mas percebeu que, se a hindu estava desgrenhada, então ela mesma não estava muito melhor.
Elas ocuparam os dois últimos lugares vagos na mesa, longe da realeza. Enquanto os criados recolhiam os pratos para lavar, elas ainda devoravam a comida. Harumi, é claro, comeu apenas a salada e os pratos verdes que eram livres de componentes animais. No entanto, não foram as últimas a sair da mesa. As conversas estavam tão acaloradas que todos continuaram sentados. Algumas selecionadas permaneceram apenas para não desrespeitarem ao imperador, mas outras estavam realmente entregues a assuntos variados, entretendo-se umas com as outras.
Harumi lançou um olhar curioso por cima da mesa, até o príncipe. Conseguia ver seu cabelo escuro, mas apenas isso. Ele estava sentado ao lado de um dos primos mais novos e em frente a prima mais velha, conversando com um sorriso no rosto. O fato de não estar com uma selecionada a acalmou. Se ele começasse a se mostrar muito interessado em Mizandre, Joanna ou Kateryna, Harumi ficaria muito triste, pois nem mesmo tivera chance de conversar com ele.
— As selecionadas que quiserem voltar a seus quartos estão dispensadas — o imperador de levantou por fim e deixou a mesa, com sua esposa e os sobrinhos. Príncipe Heid segurou a mão de sua prima em seu braço e partiu logo atrás. Então se lembrou de algo, virou para a mesa na qual as garotas já começavam a se levantar, e disse:
— Quem não estiver cansada, pode nos acompanhar até a sala de fumo.
Harumi não sentia nem um pingo de cansaço.
Surya pensou o mesmo e logo estavam ambas praticamente saltitando nas costas do príncipe. A maioria das selecionadas acompanharam os dois membros da família real. As poucas que se sentiam verdadeiramente cansadas se recolheram sem dar boa-noite.
A sala de fumo não era propriamente para fumantes. Talvez fosse chamada assim porque um longo tempo atrás fora usada para o fumo de homens diplomatas importantes, mas agora era tão parecida com a sala de chá que Harumi ficou confusa geograficamente. Localização nunca fora seu forte. A sala de fumo, além da sala de jantar, ainda no subsolo, era menor que qualquer cômodo em que já haviam entrado. Era de um amarelo agradável, sem janelas, mas com uma boa iluminação de candelabros menos exuberantes que aqueles da copa. Como qualquer sala de chá, inúmeras cadeiras e sofás formavam círculos para conversas, uma estante de vidro exibia livros de história e geografia e um gabinete especial fora erguido próximo da lareira, para que o imperador trabalhasse confortavelmente até mesmo no inverno.
O príncipe estendeu o braço para as cadeiras e elas se sentaram, próximas daquelas com quem tinham mais afinidade. Harumi e Surya sentaram-se juntas, é claro. O príncipe puxou uma cadeira para sua prima e por fim se sentou ao lado dela, olhando gentilmente para as selecionadas e, por fim, soltando a gravata do colarinho. Era verdade que ele se vestira muito bem apenas para um jantar. Seriam todos os jantares da família real daquele jeito? Ou era um evento especial, apenas para saudá-las no novo palácio? Não importava agora, era a primeira vez que podiam ficar tão perto de Heid. E estavam nervosas, era possível sentir no ar.
— Eu sinto que devo um pedido de desculpas a vocês, por tê-las feito esperar todo esse tempo antes de recebê-las adequadamente — ele falou — Meu sincero pedido de perdão, senhoritas.
Elas o encararam, um pouco confusas, mas disseram que estava tudo bem e que entendiam. O príncipe sorriu.
— Seria injusto conversar com cada uma de vocês agora, quando algumas não estão aqui e já é tão tarde. Mas quero que se sintam à vontade para se aventurar no palácio e para me chamar, se quiserem falar algo. Estarei disposto.
Aquilo era muito gentil de sua parte.
— Vocês sabem que meu aniversário será em breve, daqui dois dias, e que muitos da imprensa e do conselho de ministros virão. Espero que isso não as pertube. — ele murmurou — O baile também será uma forma de nos conhecermos, planejo dançar uma vez com cada uma de vocês. Pedi a Verônica que desse algumas lições de dança básicas amanhã de manhã, mas terão a tarde para fazer o que quiserem.
— Isso não é um diálogo se apenas você falar, primo — a menina ao seu lado revirou os olhos castanho-esverdeados e sorriu para elas — Eu sou Savyna, prima de Heid. Estarei com vocês para deixá-las mais à vontade sobre o palácio e principalmente para ajudar meu primo em sua aventura romântica. Como vêem, ele é um palerma.
— Savie! — Heid resmungou, mas ela mostrou-lhe a língua.
Harumi riu, involuntariamente. Apenas ela riu. Aquilo deixou-a tão constrangida que mordeu os lábios para extravasar.
— Qual o seu nome, oriental? — a prima do príncipe olhava para ela.
— Harumi.
— É um prazer conhecê-la, Harumi. — Savyna mudou os olhos para Surya.
— Eu sou Surya.
— Prazer, Surya. — a garota era muito melhor que o príncipe para aquilo e acabou cumprimentando todas as selecionadas e, por incrível que pareça, decorou todos nomes. A prima do príncipe conversava com elas sobre as comidas que seriam servidas, sobre os novos vestidos e até algumas histórias engraçadas da infância do príncipe. Harumi estava apaixonada por aquela nova amiga, tanto que se esqueceu do tempo e do espaço, estava bocejando e se arriando em um sofá, na mesma sala em que o imperador e sua esposa assistiam a uma novela na TV. Os deuses nunca adivinhariam que aquilo um dia poderia acontecer em sua vida, mas olhou para aquela sala e para o fogo crepitante da lareira. Poderia chamar aquilo de lar. Sem as trinta meninas, enroscada nos braços do príncipe, fofocando com Savyna… era um sonho. Queria escrever aquilo como uma fanfic.
— Acho melhor todos irmos dormir, se alguém quiser tem uma aula de dança decente amanhã. — Savyna descruzou as pernas e se levantou. O príncipe estava entediado num canto, completamente ignorado pelas garotas que concorriam por sua mão. Harumi achou aquilo engraçado.
Ela e Surya subiram juntas para seu quarto, arrumaram a bagunça de cobertas e almofadas que haviam feito e trocaram os vestidos da viagem por pijamas. Quando já estavam de rosto lavado e dentes escovados, elas deram boa noite e dormiram. Bom, pelo menos Surya dormiu.
Harumi sentia que estava em um paraíso e tinha medo que, se adormecesse, poderia acordar em uma realidade muito mais palpável que aquela.
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