Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
13 Boa Vontade de Galaxia
Notas iniciais
Boa Vontade de Galaxia
Então era verdade que aviões voavam por cima das nuvens e que as pessoas pareciam formigas lá embaixo. Galaxia imaginou a camada de ozônio transformada em uma lupa gigante, queimando vivas as formigas ali embaixo. Aquilo foi tão cruel que tirou os olhos da janela e voltou-se para os bancos da cabine. As conversas maldosas sobre as três selecionadas que saíram do grupo cessaram, talvez o assunto não fosse mais tão apimentado quanto algumas horas antes. Ela achava isso bom, pois não gostava de ouvir aquele tipo de comentário sobre coisas que ninguém tinha certeza. E mesmo que fosse verdade, ninguém sabia o que o príncipe tinha feito dentro do quarto, qual das selecionadas era a dona do quarto e, ainda assim, se eles haviam se beijado ou feito alguma coisa assim, então também haveria um motivo. Sempre havia um motivo.
— Seu cabelo está solto — informou à selecionada ao seu lado. Era uma menina pequena, com traços hindu. Ela ergueu seus olhos de um livro que lia muito concentrada e tocou os cabelos castanhos, procurando onde estava solto — Tudo bem, eu prendo para você.
Galaxia puxou a madeixa que caía do coque trançado da menina e colocou-a de modo a esconder sua existência, entre os demais fios. Era uma boa forma de camuflar uma parte que não ficara presa de um penteado. Ela sabia disso porque sempre arrumara os cabelos das meninas em sua vila, antes do festival da colheita. A hindu, imóvel, olhava para Galaxia através do espelho do encosto a frente, observando a concentração da grega apenas em… prender seu cabelo solto.
— Pronto — Galaxia sorriu — Eu me chamo Galaxia Omaya, sou de Italyca, na Grécia. Tenho dezoito anos.
— Surya — elas se cumprimentaram com um aperto de mãos e então sorriram uma para a outra. — Obrigada por prender meu cabelo.
— Tudo bem — Galaxia balançou os ombros — Que livro você está lendo?
— Aladin — Surya ofereceu o livro. Estava escrito em idioma comum. — Conta a história de um ladrão que se disfarçou de príncipe para chegar até o palácio e matar o sultão, mas ele acabou se apaixonando pela filha do homem que mais odiava.
— Por que Aladin odiava o sultão?
— As pessoas estavam famintas e os nobres não faziam nada para ajudar, então Aladin ficou irado e jurou acabar com o governo do sultão cruel.
— O sultão era mesmo cruel? — os olhos negros de Galaxia avaliavam Surya, sem qualquer julgamento ou inquisição, apenas curiosidade genuína. Mas a hindu se sentiu pressionada.
— Ele não se importava com seu povo, então acho que sim.
— Você é nobre, Surya?
Surya fechou o livro e mordeu os lábios. Aquela menina ao seu lado era muito maldosa e inteligente.
— Sim.
— E você faria algo para ajudar quem precisa? — Galaxia virou a cabeça de lado, como um pássaro ouvindo um som estranho.
— Claro, eu sempre tentei. — Surya se defendeu, mas ainda sentia que estava sendo pressionada, questionada.
— É uma pena que não existam pessoas como você entre a nobreza, então. — Galaxia sorriu — Minha mãe é professora de filosofia, nós sempre gostamos de analisar livros. Aladin parece ser um livro de bastante conflito interno, além de uma crítica da sociedade atual.
— Sim — Surya nunca havia pensado no romance daquela forma. Tudo o que sempre vira fora o amor desenfreado de dois jovens dispostos a fugir de tudo para continuarem juntos. — Você é inteligente, Galaxia.
— Eu aprendi com a minha mãe — a grega deu de ombros, dispensando o elogio. — Sua mãe era nobre, também?
— Sim, mas ela está doente.
— Oh, que pena… sabem qual é a doença dela?
— Depressão, anemia… também dizem que ela está desenvolvendo alzheimer. Ela ficou triste após a morte de meu pai. Eles se amavam muito.
— Oh, Surya — Galaxia sentiu seu peito se apertar. A história de Surya era tão comovente, tão triste! Completamente diferente daquela que ela própria tinha vivido em seu vilarejo na Grécia. — Eu lamento por seu pai.
Galaxia passou um braço ao redor da menina e a abraçou confortavelmente, de maneira maternal e honestamente preocupada. Ela nunca conseguia não se comover com a história de alguém, não sentir aquilo que a pessoa sentia. Filmes e livros tristes sempre a faziam chorar, e era ainda pior quando sabia que fora real. A história da família de Surya era real. Queria dar sua família para ela, dois pais que se amavam, irmãos brincalhões, uma amiga confiável, um vilarejo aconchegante para chamar de lar… Mas tudo que podia oferecer era seu abraço.
— Eu espero que ela melhore logo. — murmurou sobre a cabeça da pequena e ela assentiu de leve. Alguns segundos depois, Galaxia notou que sua pele estava úmida e que eram as lágrimas de Surya que rolavam para dentro de seu decote. Apertou-a ainda mais, abafando com um sussurro os fôlegos entrecortados da menina. Ela deveria estar sofrendo tanto, tanto… Como conseguia suportar tanta dor sozinha? Ela precisava chorar, precisava se libertar daquilo.
Quando tudo se normalizou, Surya se afastou limpando as lágrimas secas e sorriu de lado. Um sorriso triste, agradecido.
— Obrigada, Galaxia.
Galaxia assentiu e continuaram silenciosamente aproveitando a viagem.
Não havia nada mais triste no mundo que uma jovem com a família dilacerada. Não conseguia nem mesmo imaginar o que faria se seus pais… partissem. Ou se qualquer coisa de mal acontecesse com seus irmãos e seus amigos. Galaxia não tinha essa força para se manter firme, ela estaria quebrada eternamente, estilhaçada.
Ah, sentia saudade deles. De seu vilarejo inteiro. Até mesmo das músicas que martelavam em seu ouvido em todo domingo, na capela. Queria estar lá para beijar a testa de papai, abraçar a cintura de mamãe e brincar com os gêmeos no tapete. Sua família ficara para trás, para que ela seguisse um futuro brilhante e, talvez, divertido.
Mas tudo o que queria era voltar para eles. Voltar para o lar.
Acordou com o leve toque de Surya em seu ombro. O avião estava em terra firme, as selecionadas se levantavam de seus lugares e do lado de fora da janela podia ver a fila de criados esperando que saíssem para lhes conduzir até os carros. Estava na Russya, na região da Ucranya. Haviam voado todo o trajeto de Versalhes até Mariyinsky em segurança. Agradeceu a Deus por isso e se levantou, acompanhando Surya até a fila de meninas paradas diante de Verônica. Havia outro avião parado ao lado daqueles em que elas haviam voado, era menor, menos chamativo. E quando a porta se abriu, o príncipe saiu de lá com uma garota desconhecida, duas crianças vidradas em videogames e as três selecionadas que haviam sido chamadas antes da decolagem.
Contrariando as suspeitas, as três meninas pareciam muito bem, saudáveis e nem um pouco eliminadas. Galaxia imaginou que aquilo acabaria com as suspeitas maldosas sobre elas. O príncipe se despediu de todas e continuou caminhando até o carro da família real, com a menina estranha e as duas crianças. Galaxia notou que eles tinham os mesmos cabelos escuros e as sobrancelhas arqueadas. Talvez fossem parentes.
Então Galaxia notou a floresta ao seu redor. O ar puro era fresco e cheirava a pinheiros. Por todos os lados do aeroporto árvores cresciam, trepadeiras escalavam as grades de segurança e havia pássaros sobrevoando os céus azuis, sem qualquer nuvem. Não estava quente como em Franca, nem extremamente frio como imaginara que a Russya seria. Aquela parte era mais próxima de Italyca, ela se lembrou, então o clima deveria ser parecido. Tanto verde, tanta liberdade. Galaxia quase se sentia em casa, entre a natureza. Mas aquele era um tipo diferente de verde, era mais robusto, com árvores mais altas, mais encorpadas, pinheiros com espinhos e pinhas. Era uma floresta que ficaria branca durante o inverno e verde-pinho durante o verão. Ela sempre quis ver além dos campos de fazendas e dos arbustos que cresciam na terra arenosa da Grécia. Agora estava vendo terra negra, escura como carvão. As raízes das árvores deveriam alcançar mais de vinte metros no subsolo! E quão centenárias deveriam ser?
Em um compartimento traseiro do avião, os criados tiravam as malas das selecionadas. Algumas bagagens eram grandes, cheias até quase explodirem, outras eram simples bolsas que traziam somente o necessário. Galaxia se lembrou que havia colocado quase todos os seus vestidos e roupas de mergulho dentro de sua mala e se arrependeu, pois deveria estar muito pesado para aqueles homens carregarem nas costas. Moveu-se sem perceber, se afastando do grupo e da governanta. Aproximou-se dos homens e pegou uma das malas no chão com um braço e a que um deles segurava, com o outro braço. Sorriu e começou a levá-las para dentro de uma caminhonete estacionada perto dos carros das selecionadas. Era lá que as malas estavam sendo colocadas.
— Senhorita — o motorista da caminhonete a olhou de cima a baixo — Não precisa fazer isso.
— Uma mão a mais nunca é demais — ela murmurou, colocando cuidadosamente as bagagens lado a lado e já voltando para buscar mais.
Enquanto pegava mais, outro homem se aproximou.
— Esse trabalho é nosso, senhorita — o homem, tão velho e de cabelos brancos, arquejou com uma fileira de malas cor-de-rosa combinadas em seus braços franzinos.
— Eu quero ajudar — respondeu-lhe.
Voltou correndo para a caminhonete e de novo para as malas.
Dessa vez, alguém segurou seu braço, se permitir que ela pegasse qualquer coisa.
— Estou falando sério, senhorita, esse trabalho é nosso — o velho, que parecia ser o líder do grupo de criados, lançou-lhe um olhar severo. — Seremos punidos se não cumprirmos nossas obrigações.
Galaxia abriu a boca para argumentar que ela queria ajudar de livre e espontânea vontade, mas alguém fez melhor que aquilo. A selecionada se abaixo e pegou duas malas, colocando-as sobre o ombro.
— Estamos todas livres para ajudar — ela disse e caminhou em direção a caminhonete. Galaxia a reconheceu como uma das meninas que fora chamada para viajar com o príncipe. Desvencilhou-se do velho e tomou uma mala também, correndo para acompanhar a menina que gentilmente viera ajudar.
Outras selecionadas começaram a vir carregar as malas, uma por uma. Surya estava entre elas.
— Muito obrigada — Galaxia sorriu — Algumas pessoas não sabem receber ajuda.
A garota alta deu-lhe um olhar avaliador, com uma sobrancelha erguida.
— Às vezes as pessoas simplesmente não querem ser ajudadas.
Galaxia discordava daquilo, mas assentiu, para não contradizer o que a menina gentil estava defendendo. Se ela pensava aquilo, deveria haver uma boa explicação.
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