Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
25 Audiências Após o Baile de Aniversário de Príncipe Heid
Notas iniciais
Audiências Após o Baile de Aniversário de Príncipe Heid
Os ministros de Turka foram os primeiros a requisitarem uma audiência, naquela manhã. Eles queriam partir o mais rápido possível, seus problemas internos exigiam atenção redobrada desde que deixaram Istambul. Eram todos homens, o mais velho por volta dos setenta anos, o mais jovem era seu tio, Raffel. O príncipe caminhou com passos calmos e controlados até a cadeira da ponta da mesa, lugar em que o mediador da reunião sempre tomava, e que deveria ser de seu pai, se ainda conseguisse acordar àquela hora da manhã. Graças a Deus, para ajudá-lo, o Comandante Rivero estava ali, após a viagem desde Versalhes, abandonando suas obrigações de comandante para assumir as de conselheiro do príncipe regente. Agora que tinha idade para isso, Heid devia cuidar de todos os problemas que fossem demais para seu pai. Era uma obrigação, não podia simplesmente recusar.
Rivero, sentado à sua direita, rodava um punhal entre os dedos e estava ainda armado com um revólver no coldre do cinto e provavelmente mais uma adaga por dentro da meia. Apenas para garantir a segurança do príncipe e reafirmar que era um comandante, acima de tudo. Os cinco homens turkos se sentavam todos do lado direito, de acordo com a superstição de que o lado esquerdo dava azar. No centro da mesa, Heid se perguntava se teria na mão direita algum antídoto para salvá-lo da esquerda, ou se a esquerda estava ali para devorar as boas vontades de sua igual.
Eram sete, ao todo, sentados à mesa e em silêncio aguardando o começo da reunião. Que ele deveria anunciar. A voz raspou um pouco antes de sair de sua garganta, mas como precisava se mostrar capaz, cruzou os braços e pressionou o diafragma e encorpou ao máximo seu tom, assim não tremeria.
— Queriam falar sobre a guerra...
Raffel abriu um meio sorriso, embora todos os demais ministros de Turka aparentassem nojo de serem atendidos pelo filho do imperador, um garoto. Deveriam se sentir gratos, Heid pensou.
— O que você sabe sobre a guerra, garoto? Queremos falar com um rei de verdade. — era Brugest quem dizia, com um bigode grosso a lhe esconder as marcas e rugas da idade ao redor da boca, mas com profundas olheiras. Ele era um grande administrador, sabia-se, mas um tradicionalista retrógrado que acreditava que o problema do Império não estar indo bem era a falta de privilégios que Turka possuía.
— O rei está doente, terá de se contentar com o herdeiro, Sr. Brugest. — Heid o olhou de cima para baixo, como havia aprendido a fazer para demonstrar arrogância saudável. Estava no controle, ainda. — É só isso que os senhores têm a me dizer?
— Nosso príncipe tem razão, podemos resolver isso agora — Grethel implorou, olhando com subordinação a Brugest, que apenas trincou os dentes e assentiu. Grethel era um experiente na mesa dos ministros e tinha muito apreço em manter sua aparência, mesmo que significasse se mostrar submisso para os outros. Era uma tática, dentre várias, para sobreviver na Corte.
— Nossos infiltrados reportaram a movimentação de três bombas aéreas realocadas para a fronteira de Tunisya, Argelya e Marrocos. Todos os generais acreditam que nosso inimigo esteja se preparando para invadir o território a sul de Italyca. — Fergus finalmente se pronunciava, ele era o verdadeiro ministro da guerra, experiente em campo de batalha e herói com medalhas em seu peito. Era o único a quem Rivero dava ouvidos, naquele grupo, embora Brugest e Grethel não deixassem de ser entendidos da diplomacia.
— E por que atacariam? — Heid perguntou, algo que era sempre uma dúvida, em qualquer guerra, em qualquer forma de perder vidas inocentes.
— Geograficamente, meu príncipe, não há barreiras que separem Afrika do Império. Os reis estarão ávidos por camuflar sua ambição em desculpas de hegemonia racial. — Raffel, seu tio, foi quem o respondeu. Quando citou a hegemonia dos povos, Brugest bufou na cadeira e começou a resmungar sobre ser uma idiotice.
— Pelo que eu saiba, as minas de ouro e materiais preciosos estão secas na Eurásia, há décadas, mas Afrika ainda tem valiosas fontes naturais inexploradas. Não sei como arriscar um território tão rico desses traria alguma vantagem aos reis. — o príncipe olhou para o mapa do globo preso na parede atrás das cabeças de seus ministros. Era um mundo muito pequeno agora que apenas quatro governos o dominavam. A Eurásia, gigantesca, devorou quase toda a sua extensão.
— A única coisa que pode unir inimigos jurados — seu tio bateu o anel sobre a mesa — é um inimigo em comum. Nenhum dos reinos de Afrika está em paz com seus vizinhos e, se não arranjarem o modo de continuarem pacíficos em suas próprias fronteiras, haverá guerra. De novo.
— Que se matem — Brugest deu de ombros — Mandem os deserdados de volta, esse é o único motivo para continuarem a justificar suas guerras. Hegemonia? O Império tem quase todas as raças do mundo, eles se importam com os seus negros que vivem bem aqui? — o ministro riu de sarcasmo — Já demos nosso aval a todos os negros que quiserem voltar para lá. Os que ficaram são eurasianos, deveriam ensiná-los uma lição e mandar todos os soldados escuros para a próxima batalha e destruir toda essa falácia.
— Seu plano é plausível, Brug, mas um tanto inconsciente. O número de soldados negros no Exército é baixo e não podemos confiar em uma vitória para a próxima batalha — Fergus abriu um mapa que segurava desde o começo da reunião. Ele parecia decidido a fazê-los ouvir. — A atual região de nossos acampamentos está recuada a cem quilômetros do mar e essas são as últimas coordenadas de nossos infiltrados — ele apontou as manchas amarelas nas praias de Italyca, por toda a borda. Não temos armas ou munição, nossa ração está controlada desde janeiro deste ano e os recrutas não conseguem ganhar massa com a mesma facilidade que antes. Não temos a vantagem.
— Estamos no nosso território — Grethel sorriu, compassivo — É claro que temos vantagem.
— Não somos nós que escolhemos o campo de batalha, Senhor Grethel, e esse é um fator fundamental para nosso exército. Se os reis souberem de nossas condições precárias, atacarão sem pestanejar.
— Precisamos dos bancos. — Raffel olhava para o sobrinho por cima de todo o diálogo, ele e Heid se encaravam, como se fosse a única tradução que o príncipe tivesse para entender completamente tudo o que os ministros diziam. Heid nunca decidiu algo em relação a guerra, mas parecia provável que sua decisão tombaria milhares de vidas, independente de qual fosse. E Rivero, seu comandante, também sabia disso, e olhava para o mapa com repugnância. — Para financiar essa guerra. Se nos mostrarmos fracos na primeira batalha, seremos esmigalhados em dias.
— E se convocarmos uma reunião de paz? — sugeriu, mas logo os ministros, incluindo Raffel abriram um sorriso cínico e balançaram a cabeça negativamente. Rivero também parou de brincar com seu punhal. Havia dito algo errado, o príncipe notou.
— Quer paz com cinquenta reis, meu príncipe? Agradar a todos para que não entrem no seu território, quando a vantagem é clara? Chamá-los só lhes dará chance de ver com os próprios olhos o quão frágil estamos. — Grethel sorriu para ele, um pouco mais gentil — É hora de tomar uma decisão de verdade.
— Eu não posso — o príncipe o interrompeu, tão abrupto que todos na sala o olharam, surpresos com a imediata posição. — Preciso falar com o Imperador, antes.
— É claro, Vossa Alteza, muito sábio — Grethel se acomodou de volta na cadeira, mas a tensão continuou sobre Brugest e Fergus, que estavam descontentes com a demora para resolver aquele assunto. — Voltaremos aqui à tarde?
— Após o almoço já terei a sua resposta. — Heid confirmou e se levantou, o que obrigava todos a se levantarem também. Seu tio o observava, ligeiramente orgulhoso com o modo que havia lidado com aquela responsabilidade. — Agora preciso receber os ministros de Franca.
— Mas é claro, Vossa Alteza — Grethel se curvou e levou o grupo de ministros para fora, um após a mesura do outro.
Comandante Rivero girava de novo o seu punhal.
Quando a sala estava, enfim, vazia, o príncipe se sentou em sua cadeira principal e suspirou, cansado já daquilo que o dia lhe agradava. Para seu consolo, teria a companhia de Mizandre, depois, durante os relatórios. Mas ainda era odioso receber homens como aqueles por horas. Praticamente todos os territórios pediram por uma audiência.
Talvez precisasse se casar com uma comandante, e não uma rainha.
— Não é tempo de recuar agora, garoto. O Império esteve em paz por tempo demais. Nos últimos trinta anos enfraquecemos porque não lutamos pelo que é nosso. — Rivero mostrou o cabo de seu punhal para ele e depois o rodou entre os dedos, habilmente. — Esse império nasceu para ser o maior do mundo, trazer a paz e prosperidade para todos os povos. Não somos uma aristocracia, nem somos um projeto falho de presidencialismo. — o comandante sorriu, quase como se ensinasse a Heid como deveria gerir seu império. — Temos um líder forte, um conselho que ouve a voz do povo, um povo diversificado que se respeita por suas diferenças. Evoluímos humanamente. Agora precisamos levar essa verdade para o resto do mundo.
— Você sugere uma guerra de expansão.
— Uma guerra de conquista, uma conquista para a humanidade. — Rivero se levantou — Mas continue com seu jogo, se quiser ouvir todos os outros. Nenhum assunto será mais importante que esse.
— Ouvirei a todos, é o meu dever.
— Por graça de Deus, eu nasci para ser um comandante e não um príncipe — seu conselheiro fez uma mesura — Estarei em meus aposentos, caso precisar. Você consegue lidar com isso sozinho.
Logo a sala se encheria com mais cinco ministros francos, os quais deveriam reclamar sobre sua estadia em Mariyinsky, alegando que Versalhes estava muito bem protegido. Depois deles, seriam os itálicos, com sua conversa fiada sobre autonomia para os bancos e automanutenção da economia. A Russya queria falar sobre a exploração da madeira no novo mercado asiático e os Han sobre os juros continentais que eram obrigados a pagar, já que parte do território russo era europeu. O Extremo Oriente reivindicada participação do Ministério do Turismo, embora fossem 75% da folha salarial do Ministério da Arte e da Cultura. Iberya e Brittanya queriam mais soldados do Exército para conter os rebeldes é a indenização para Desabrigados que estivessem empregados. Como sempre, a Germanya veio parabenizá-lo, e só. Arabyca divulgou seus números de recrutamento militar feminino dos últimos anos e requeriu uma companhia publicitária maior para incentivar mais garotas a se alistarem. Heid almoçou ali e mal notou quando Grethel apareceu para saber o julgamento do imperador sobre seu tema específico, mas ele não havia saído da sala para isso. Chamou um criado para mandar um bilhete ao pai, mas o ministro russo o encarou com descrença (e um pouco de impaciência) e disse que poderiam enviar a resposta por correio que provavelmente chegaria mais rápido na Russya. O embaixador africano era o último. Illea ainda não havia escolhido seu próximo representante.
O embaixador Amir Mahan Mala’o raramente usava roupas eurasianas, mas assumira um terno preto elegante para seu baile de aniversário, e ainda o usava. Mas sobre a cabeça, o estranho chapéu marroquino escondia sua calvície. Era com um aos homens de respeito de Marrocos raspagem a cabeça, o mesmo era feito com crianças bem nascidas. O embaixador o cumprimentou educadamente e esperou a permissão para se sentar.
— Se importaria de beber comigo, Mestre Mala’o?, estou cansado da cadeira.
— Seria uma honra, Príncipe Pazzlav.
Heid o levou até as poltronas em frente a lareira e serviu dois copos com uísque, o mínimo apenas para descontrair. O embaixador aceitou e bebeu em um gole, mas o príncipe colocou o seu copo sobre a mesa de apoio e uniu as mãos em frente ao rosto, pressionando as têmporas para aliviar a dor de cabeça. Havia pensado demais nas últimas horas, sem descanso. Queria dormir.
— Se vossa alteza estiver muito cansado, podemos ter essa conversa amanhã. — Amir sugeriu, notando como Heid estava pálido e letárgico.
— Conversar com você é minha prioridade hoje. — Heid deixou o cansaço de lado e assumiu o profissionalismo de um homem de negócios, apenas deixando a postura mais relaxada na poltrona. — Eu preciso conversar sobre Afrika…
— Eu só respondo pelo meu reino, Príncipe Heid.
— Eu sei, Mestre Mala’o, mas você é nossa única ponte entre o Império e os reis.
— Em que posso ser útil?
Heid precisava de muitas coisas. Que Amir convencesse os ministros turnos e itálicos de que os reis africanos não queriam invadi-los, que ele impedisse os reis de se unirem contra Eurásia, que abrisse a conversa diplomática com os outros reinos, além de Marrocos, fizesse os reinos aceitarem uma aliança de comércio aberto entre os serviços do Império e a matéria-prima das minas e florestas da Afrika. Se apenas uma dessas coisas fosse resolvida…
Mas, como sempre, nada acontecia a seu favor.
— Não faço a menor ideia. Qual a influência que o senhor tem, Mestre Mala’o, junto aos reis?
O africano coçou a barba, gesto que normalmente indicava que um homem estava pensando, e deixou Heid ainda mais ansioso por sua resposta, pois de alguma forma aquele embaixador o levava a sério. Diferentemente de todos os seus ministros, até agora.
— Além de reportar a movimentação de vossa Corte, Sua Alteza, meus reis não se importam muito comigo. — e então abriu um sorriso — Reporto as reuniões que meu príncipe tem, quais os eventos em que o Imperador comparece, e mais um apinhado de coisas banais que por algum motivo alimentam a curiosidade dos reis.
— Perdão se apareci suspeito ao senhor, Mestre Mala’o. Muitos dos meus ministros não são tão honestos. — o príncipe bebeu, enfim, o seu uísque. Desceu como sempre descia: acostumado ao ardume, grato à letargia dos sentidos logo em seguida.
— Não me pareceu, príncipe Heid — e com um gesto bastante íntimo, Amir se recostou na poltrona e olhou para a lareira, apagada. Não estava frio ali dentro o suficiente para que mandassem os criados acenderem o fogo, mas Heid sempre preferia ver uma lareira acesa. Quando havia apenas lenha, parecia como um buraco que devoraria a sala. Quando criança, chegou a se esconder dentro de uma, para brincar com seus primos de pique-esconde. Quebrou o tornozelo quando caiu da chaminé. — Se meu príncipe me permite falar…
— Fale, mestre — Heid o observou com atenção, pois queria uma resposta.
— Não há nada que possa fazer para evitar a guerra, mas há algo que pode fazer pela guerra. Para encurtá-la, do modo que puder.
— Estou ouvindo.
Amir sabia o terreno em que pisava, se sugerisse rendição, iriam executá-lo como um espião da corte dos reis (algo que, de alguma forma, ele era sem dúvidas), mas se sugerisse lutar com todas as forças, também levantaria suspeitas. A guerra não é absoluta, todos os lados sempre perdem um pouco de tudo, e ganham menos ainda.
— Há um rei que pode ouvi-lo e defendê-lo diante dos outros reis. Ele é Ramsés XXII, rei do Egito e do Alto Nilo. É jovem, igual o senhor, e mais sensato que os demais. Ramsés está noivo da filha de Oteo de Marrocos, eles se casarão na próxima Lua Cheia. Se esse rei o defender, Oteo também o defenderá, e assim serão dois reis contra os outros.
— Ainda são vários reis para me atacarem — Heid o lembrou.
— Marrocos e Egito são duas regiões estratégicas. Polos ricos, reinos que prosperam há séculos sem cessar. Todos os reis pensarão duas vezes antes de invadir o território de Ramsés, ou de desafiar seu sogro.
— E como sugere que eu convença esse Ramsés a ser meu aliado?
— Prometa-o uma de suas selecionadas.
— Como? — Heid o encarou.
— Reis podem ter quantas esposas desejarem, no Egito. Sei que pode parecer cruel pensar em uma de suas selecionadas como descartável, mas ela estaria salvando milhares de vidas. Converse com elas, encontre uma voluntária — o embaixador rodou o anel em seu dedo, esperando que o príncipe se pronunciasse. Mas a mente de Heid estava congelada.
— Elas são minhas. — Amir não o olhava, mas Heid o encarou mesmo assim, com raiva — Elas são minhas pretendentes.
— O senhor não pode se casar com todas as trinta e uma.
Ele queria esganar Amir Mala’o, matá-lo com a almofada em que se encostava agora, até ele revirar os olhos e morrer sufocado. Mas não podia cometer assassinatos por algo que alguém lhe dizia, mesmo que fosse um pecado imensurável. Vender uma de suas cidadãs, livres e com direitos, para outro reino, bárbaro e cruel? Era como se pedissem que mandassem Savyna no lugar. Aquilo o fez arrepiar de pavor. A opção que o embaixador lhe dera era a mais aceitável, notou, pois nenhuma outra dama solteira de sua Corte seria “substituível”. Não Savyna, nem nenhuma comandante, nem ministra, nem ninguém. As selecionadas eram as que mais perto chegavam do prestígio e da insignificância dentro da Corte.
Tinha de pensar. Precisava de outra voz para lhe dizer o que fazer.
— Obrigado por sua opinião, Mestre Mala’o, levarei em consideração.
— Meu príncipe — o embaixador se levantou — Creio que devo deixá-lo com seus pensamentos, agora.
— Sim, sim.
Amir se curvou mais uma vez e deixou a sala. Agora tudo o que restava era a mínima chance de haver uma outra alternativa.

O príncipe jamais faria algo assim
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