Sangue de Mármore - Fanfic Interativa
28 Amores Proibidos
Notas iniciais
Amores Proibidos
Azra sabia que estava apaixonado. Não tirou Kateryna da cabeça. Perguntava-se se ela estava dormindo tal hora da noite ou se queria um copo de água e não tinha coragem de chamar a criada. Em qualquer momento que estivesse ocioso, lembrava-se de seu nome e lá aparecia ela em sua mente de novo. Sempre que a via, queria ir lá falar com ela, incomodá-la, irritar e elogiar, apenas para que ficasse mais irritada. Se a russa percebia suas investidas para impressionar, fazia pouco caso. O que, é claro, só estimulava seu lado jogador. Azra não gostava de perder. Ele conhecia paixões unilaterais o suficiente para saber que muitas tentativas afastavam a presa, mas não dava para evitar antes que já estivesse lá, sendo irreverente com ela.
No jantar do quarto dia após o passeio, percebeu que ela era a mulher mais linda do mundo e não pôde desviar os olhos dela nem por um instante, nem pela torta de framboesa. Seu cabelo loiro parecia extrair a luz das lâmpadas para si próprio, seus olhos tinham uma cor única de verde cristalino e a pele… qualquer um diria que a beleza de Kateryna vinha da cor de seu cabelo ou de seus olhos, mas Azra podi ver que seu tom de pele era que sustentava toda a harmonia do quadro, branca e pálida. E ele apenas sabia que estava apaixonado por ela.
— Eu apenas soube. Quando olhei para ela, apenas estava lá esse sentimento.
— Como se um cometa de repente caísse na sua cabeça? — Savyna, encostada no dossel da cama, balançou o corpo sonolentamente.
— Exato. — ele concordou, ainda intrigado com aquela descoberta.
— Você acha que é ela?
Ela, quem deveria ser ela? A mulher da sua vida, sua metade. Por quem deveria ser eternamente louco. Azra sabia que seus pais eram a alma gêmea um do outro, afins desde que o mundo era mundo, mas como ele poderia ter essa certeza de que alguém era ela?
— É muito cedo para saber.
— Papai soube assim que viu mamãe — Savyna avaliou seu irmão
— Você acredita em amor à primeira vista?
— Sim. Você não?
Amor era uma palavra grande demais para Azra, envolvia um sentimento forte demais, irrevogável demais, o qual só sentia por sua família. Ele, sinceramente, não sabia se era capaz de sentir o mesmo por alguém que não fosse sangue do seu sangue. Mas também não duvidava do amor. Acreditava nele, podia ver isso em seus pais sempre, como não acreditar?
Com seu silêncio, Savyna continuou.
— Você não a ama?
— Eu gosto dela — era o máximo que podia responder. — Amor leva mais tempo.
— Você demorou quanto tempo pra me amar?
— Até hoje eu não sei direito se consegui fazer isso. — ele a atacou com cócegas e parou de repente. Piscou. Então voltou a olhar nos olhos de Savie, que ainda ria — Você já amou à primeira vista?
Savyna se remexeu debaixo de seu peso e ele percebeu que ela estava evitando contato visual.
— Savyna.
— Sim — foi tudo que ela ofereceu e então bufou — Mas não deu certo. Agora saia de cima de mim.
Azra obedeceu, mas sentiu orgulho de sua irmã, de tudo que ela era e que ainda viria a ser, Savie crescia aos tropeços, nem parecia mais uma garotinha. Como o tempo podia passar tão depressa. Há duas semanas ele conhecia Kateryna Petrov e estava apaixonado por ela. Há duas semanas havia reencontrado Savyna e era o irmão mais velho mais orgulhoso do mundo.
— Você acha que sua alma gêmea vai ser um homem ou uma mulher?
— Eu jamais me apaixonaria por um homem. — ela afirmou com tanta certeza que ele riu.
— Por que não?
— Você se apaixonaria por um?
Azra tentou pensar na teoria, mas era definitivamente impossível.
— Não.
— Exatamente — ela estalou um beijo em sua bochecha — Eu espero que Deus seja bom e não me dê uma alma gêmea que eu não possa suportar. Mas tem mais algum desabafo a reportar?
— Acho que não…
— Ótimo, eu estou com sono.
Ele concordou e se despediu, dando um beijo também na bochecha de Savie.
Quando a deixou, porém, sua noite ainda não havia acabado. Ele cruzou o corredor dos quartos e entrou na sala de chá da família real, seguindo para a porta do quarto de Heid. Bateu e ouviu um “entre” resmungado. O primo, já debaixo dos lençóis, ergueu a cabeça e o encarou enquanto cruzava o quarto. Azra parou de pé ao lado do colchão e colocou as mãos por dentro da calça. Desde que havia falado com Savyna sobre aquilo, achava por correto falar também com o primo, mas talvez ele não recebesse tão calmamente as notícias. Heid nunca fora de dividir.
— Por que tenho a impressão de que você vai falar algo muito chato? — ele ergueu a cabeça do travesseiro e piscou, ainda despertando de seu sono. Como Azra não o respondeu, o príncipe se sentou de lado e esperou.
— Nada — disse, por fim — Boa noite, Heid.
— Boa noite.
Definitivamente Heid não precisava saber de nada.
Mizandre notou que o príncipe lhe lançava olhares por cima da mesa de café da manhã, mas ela não cedeu facilmente. Após cinco dias sem notícias, concluiu que ele não a achava digna de um mínimo pedido de desculpas, então que apodrecesse beijando a boca de outra selecionada antes de lhe dar a coroa, ela não tinha obrigação nenhuma de ser seu cachorrinho adestrado. Quando notou que não ganharia aquilo sendo o príncipe, Heid optou por uma outra forma de abordagem, uma que ele até então não havia cogitado, pois ser o príncipe sempre abria o caminho mais fácil.
— Senhorita Merveilleux — chamou, em alto e bom som, para que todos a mesa escutassem. As cabeças realmente se viraram para ele, incluindo o pai e a mãe. — O que acha das framboesas que colhemos recentemente? Não estão perfeitas para um bolo?
— Suculentíssimas, vossa alteza — Mizandre o respondeu, com os olhos levemente abaixo de seu rosto e a mão no copo de limonada. Assim que falou, ela bebeu o suco e continuou comendo. Se fazendo de difícil?
— Se não estou equivocado, lembro de tê-la convidado para me ajudar no escritório hoje.
Algumas meninas pareciam curiosas, outras indignadas. Mas não com o príncipe, pois ele nunca possuiria culpa. Estavam indignadas com ela, Mizandre, que bebia sua limonada como se o oceano inteiro estivesse dentro do copo. Ao fim tão aguardado da bebida, a franca precisou limpar o canto das bocas e permanecer sem resposta por mais alguns segundos, o tempo para pesar se saia ganhando no perdão ou na rejeição.
— Creio que está equivocado, meu príncipe — ela disse, simplória.
Heid piscou, pois havia sido rejeitado, na frente de todos.
— Verdade? Minha memória nunca falha, e eu lembro muito bem de nossa valsa no sábado.
— Nisso o príncipe está correto. Mas o convite era para o domingo, imagino que domingo não seja uma quinta-feira. É um atraso bem grande, não? — e então ela o encarou de frente, completamente convicta de que o derrubaria da cadeira.
Talvez tivesse causado um bom impacto no príncipe, mas não nas meninas ao seu redor. Mizandre não podia agradar pois seria arrogante, não podia incomodar porque seria arrogante. A inveja as havia cegado, de verdade, e Mizandre sentia muito por serem tão estúpidas. Mas pouco se importava com o que pensavam dela além da mente de Heid. Nem a Imperatriz e o Imperador importavam tanto. Quando Heid recobrou os sentidos, ele soltou um riso nervoso pelo nariz e foi sua vez de beber limonada, ganhando tempo para pensar em uma resposta. Mas Mizandre havia ganhado aquele embate.
— Não sabia que a havia magoado. — foi tudo o que ele disse e Miz ficou em silêncio, continuando seu café da manhã.
Quando os imperadores terminaram e se foram, a mesa começou a ficar vazia também, de pessoas que partiam para sua rotina de não fazer nada a espera de Heid. Mizandre engoliu tudo assim que viu que ficaria entre as últimas na sala, e tudo o que menos queria agora era ser pega sozinha com o príncipe, então arrastou a cadeira sem delicadeza e deixou parte de seu pão não comido. Mas antes que pudesse retornar para a sala de chá, alguém também arrastou sua cadeira e se colocou à sua frente.
— Mizandre, espere — Heid olhou para seus olho e então abaixou a cabeça, constrangido — Perdoe-me por tê-la magoado. Eu não sabia que havia me esperado.
Ele parecia sinceramente arrependido, por isso Mizandre sorriu e suspirou, colocando uma mão sobre seu ombro para confortá-lo.
— É o que todas nós fazemos, meu príncipe, por você.
— Não precisa mais! — ele ergueu os olhos, havia um brilho empolgado, como se uma ideia incrível perspassasse sua mente. — Podemos passar o dia juntos hoje.
Mizandre ergueu uma sobrancelha e olhou ao redor, para os criados que já se preparavam para arrumar a mesa. Assentiu, colocou a mão na curva do braço de Príncipe Heid e seguiram para o segundo andar, pelas escadas enquanto constatavam brevemente o quanto o clima parecia ameno, mas as promessas de chuva para o fim da tarde deixavam o príncipe muito animado. Ele gostava de chuva. E ela gostava de ter atenção. Heid a levou até o escritório em que assinava papéis e lia relatórios de prefeitos há algumas horas já, antes de descer para o desjejum. Por algum motivo, não conseguiu dormir hoje e se encontrava disposto ao trabalho maçante. Ele pediu por um jogo de chá e deixou senhorita Merveilleux em uma das poltronas da sala, buscou alguns blocos de tabelas e cálculos e se sentou na poltrona em frente, com um sorriso muito animado.
— Estou muito curioso sobre a senhorita — ele confessou, passando uma revista para ela. Na capa, uma foto de Mizandre passeando no vilarejo estampava com os dizeres “Favorita adora compras”, como se ela tivesse comprado mais que um batom novo e uma carteira para combinar com seu vestido prateado de jantar. Mas, justiça seja feita ao editor, ela estava deslumbrante com seu conjunto da última linha de roupas de sua mãe e um chapéu grande de veraneio, óculos escuros e um batom rosado que a fazia parecer mais bronzeada do que realmente era. Ela parecia mesmo uma pessoa humilde que ficaria bem em qualquer coisa e sabia como se divertir. — Saiu para o passeio até o vilarejo e tem uma matéria inteira na capa. A imprensa está proibida de vir até aqui em casos ordinários como esse, pois arriscaria muito nossa segurança e localização secreta; mesmo assim alguém aparentemente ficou sabendo o momento exato em que vocês iriam sair e se adiantou.
— Tenho certeza que a imprensa pode estar em qualquer lugar quando quer, vossa alteza — Mizandre sorriu — Sabe como são esses encrenqueiros.
— Sei, senhorita — ele assentiu, mas parecia incerto entre ser amável e ser duro. O que ela havia feito de errado? — Não acho que seja educado da minha parte insinuar isso, mas… Srta. Merveilleux, foi você quem informou aos fotógrafos onde estaria?
Ela piscou um pouco atônita, mas negou com facilidade, pois não precisava encenar aquilo. Não havia informado ninguém, ela quase não entrava mais em suas redes sociais para evitar ler comentários maldosos e matérias ridículas sobre sua a fama de sua família e a fortuna que tinham. Desde que chegou ao palácio, insistiam em dizer que tudo o que a mantinha ali era a promessa em dinheiro que seus pais faziam ao imperador. Mas que dinheiro que o imperador precisava? Aquele palácio era muito mais do que tudo que os Merveilleux sempre tiveram. Bem, haviam idiotas que acreditavam nessas histórias.
Tudo que ela queria era perguntar “Eu pareço precisar pedir por atenção?”, mas para o seu próprio bem ela negou novamente com veemência e então tirou o celular do bolso. Abriu no Instagram e exibiu sua conta ao príncipe.
— Como estamos todas na Seleção, imaginei que seria bom seguir todas as outras selecionadas — ela entrou num perfil específico — Mas a única que vive atualizando tudo o que faz é essa.
A última foto publicada era de uma garota descendo as escadas aos saltos, com os cabelos ruivos flutuando congelados na fotografia e seus olhos muito azuis com estranha felicidade. Na descrição ela contou “O primo do príncipe é o melhor: compras no mundo antigo” e ela havia colocado a localização de Mariyinsky, o que deveria ser o pior de tudo. Príncipe Heid leu a postagem e então assentiu, como se compreendesse quem era a traidora e tentasse decidir qual o próximo passo a ser tomado. Mas Mizandre sabia que ele se encontrava apenas sem argumentos, após tê-la deixado esperando por seu encontro por cinco dias, queria ter conseguido acusar sua pessoa de passar informações importantes para a imprensa. Não sabia se se sentia ofendida ou muito honrada, pois apenas uma mente esperta se daria ao trabalho de manipular tanto assim as circunstâncias. Entretanto, preferiu se ofender.
— Agora que já esclarecemos esse assunto — Mizandre ergueu o pescoço, assumindo que tinha a confiança de Heid e ele estava em dívida de qualquer forma. — O que está lendo?
— Medidas de contenção de gastos do Exército. Coisas enfadonhas sobre nossas forças na fronteira. Nos últimos cinco anos tudo foi racionado para conter os gastos com assistencialismo médico para todo o Império. — o príncipe deixou que ela pegasse as folhas e passasse os olhos pelos gráficos. Números demais, nomes complicados demais, Mizandre desistiu com um sorriso — É engraçado, pois há cinco anos a taxa de mortalidade infantil era cinco vezes maior que a atual, mas o povo me critica pela alta do preço do arroz e o exército parece estar sobrevivendo de migalhas. Como aplicar de um lado sem faltar ao outro?
Mizandre demorou a compreender que ele queria uma resposta de verdade, ao invés de estar usando a retórica. O príncipe a olhava com expectativa, como se qualquer um fosse capaz de orientar sobre como governar um império de dois continentes. A franca engoliu em seco e fingiu estar pensando, ao enroscar um dedo no cabelo louro claro e fazer um biquinho com a boca que poderia ser muito charmoso se em analisado. E Heid a analisava.
— O equilíbrio deve ser a melhor forma de não deixar os dois lados caírem, investir e cortar gastos de forma equilibrada — ela falou, um senso comum muito fácil de engolir, pois o príncipe assentiu, sério, e aceitou sua sugestão. Mizandre não entendia nada de economia, mas entendia uma ou outra coisa de diplomacia, o que podia ter o mesmo efeito quando bem usado.
Como se mastigando os próprios pensamentos, Heid engoliu e pressionou as têmporas. Ele parecia repentinamente muito frágil. Mizandre piscou, com as mãos unidas sobre os joelhos, sentindo-se inútil diante da frustração de seu Príncipe.
— Você se importaria de…
— Ir embora? — a voz que saiu não foi cooperativa, nem compreensiva. Parecia uma lamúria. Uma bem egoísta.
— Não, não! — Heid abriu os olhos e a encarou — Não — parecia a única coisa que ele era capaz de dizer diante da expressiva decepção de Mizandre. E então olhou para a porta dos criados. Ele se levantou e caminhou até o cordão de chamar a criadagem, ao retornar trazia também xícaras do jogo de chá e colocou uma nas mãos de Mizandre. Sentou-se ao seu lado, na cadeira ao lado e pendeu os cachos castanhos para ela, enquanto retirava um fio solto da barra da sua calça. Tudo com muita naturalidade. Ela nunca estivera tão próxima de um possível marido, encolheu-se pelos ombros, impressionada com sua própria timidez.
O criado chegou e se curvou antes de perguntar o que vossa alteza desejava. Heid abriu um sorriso curto.
— Pode trazer o bule de chá por favor? A senhorita Merveilleux gostaria de…
— Camomila, por favor — para aquietar aquelas palpitações.
— Camomila — repetiu o príncipe -, e se puder um comprimido para dores. Pode ir.
Mizandre percebeu tarde demais que aquele “Você se importaria de…” era um pedido para buscar o criado, ou o remédio, mas ela o havia interpretado errado e ele fora gentil demais ao ignorar sua dor para deixá-la à vontade na poltrona. E ainda ocultara o real motivo do chamado com um chá. Ela percebeu o quanto Heid poderia ser deferente e percebeu o quão má ela fora indiretamente.
Quando o criado foi buscar o chá (e o remédio do príncipe), voltaram a ficar sozinhos, mas não naquela paz de encontro-com-o-futuro-marido, Mizandre ainda tinha as batidas de seu coração muito nítidas nos ouvidos. O príncipe, é claro, não notou. Por que ela esperava que ele fosse notar qualquer coisa? O garoto não conhecia nada do mundo para entender quando uma mulher estava encantada. E Deus faça justiça, ela jamais pensou em ficar encantada por Heid Pazzlav, o príncipe e o homem mais infantil que já se dispusera a seduzir.
— Espero que tenha sido uma boa desculpa para mantê-la aqui — ele sorriu, como um menino, e Mizandre assentiu, ainda incomodada.
— Peço perdão por não tê-lo compreendido, meu príncipe.
— Senhorita Merveilleux, pode me chamar de Heid, desde que eu possa te chamar de Mizandre.
E ela tinha certeza que ele queria que aquilo soasse como um flerte, pois sorria e corava. Um homem corando ao flertar! Ela estava numa enrascada ainda maior: a princípio imaginou que, sendo o príncipe, Heid havia “recebido” a companhia de muitas admiradoras, até mesmo de criadas, mas jamais considerou que ele fosse “inocente”. E, no entanto, era ela quem estava engasgando nas próprias palavras. O príncipe ao menos fazia esforço para se sair perfeitamente entendível.
— P-pode — coçou a garganta e balançou a cabeça, para dar mais ênfase. Heid estava muito satisfeito com seus avanços.
— Estou preso nesses papéis há horas, Mizandre, veja quão tedioso é esse trabalho de imperador. Nada daquele luxo que se vê no Jornal Semanal, hein?
E, para sua surpresa e completa falha mental, ela adorou o modo que ele disse “Mizandre”. Sem aquela peculiar sombra de desprezo, raiva ou inveja. Apenas… chamando-a, e de modo quase doce, carinhoso. Ela percebeu que nenhum homem que importasse já a havia chamado de Mizandre. Ela era sempre filha da estilista Merveilleux, ou apenas a Srta. Merveilleux. A Mizandre de Heid parecia tão singular e especial…!
Ela piscou, atônita. Se não se conhecesse o suficiente, diria que estava sentindo falta de sua família.
Eles, sim, a chamavam de Mizandre daquela mesma forma.
— Com certeza há quem possa ajudá-lo. — aquela não era a resposta mais brilhante, mas Mizandre não se sentia no espírito de ser brilhante.
— Há, mas eu não teria tanto crédito por ser o imperador, ou o futuro imperador. Diriam que sou apenas uma figura para sorrir e acenar e logo se cansariam de mim. E então viraríamos uma ditadura, ou é isso que me ensinaram. De todo modo, fui muito bem convencido a desempenhar meu papel. Eu até gosto — ele se calou e ergueu os olhos — Isso é tedioso para você?
— Como? — foi tudo que ela conseguiu dizer.
— Estou falando e falando… você pode falar também, Mizandre. Quero conhecê-la.
O coração de Mizandre literalmente saltou.
— E-eu…
— Sei que você é linda, e com certeza isso me chamou a atenção — ele sorriu, constrangido em dizer aquilo na frente da mulher mais linda do mundo, ela se sentiu tão infinitamente feliz de apenas se lembrar daquilo que não percebeu que soava diferente da primeira vez. Mais verdade, mais exclusivo. Apenas para ela. — Mas não espero isso seja tudo o que Mizandre Merveilleux seja.
Mas era. Ela percebeu com um aperto no coração que beleza era tudo o que ela tinha. Sem sugestões inteligentes para resolver a economia, sem ouvidos atentos para compreender tratados políticos, sem qualquer tato para ser atenciosa com quem passava necessidade. Ela nem conseguia se lembrar dos inúmeros problemas do mundo quando estava tão focada em si mesma, em viver sua vida para fazer a si mesma feliz. E, no final, não era mais que uma casca polida que brilhava quando mudavam sua posição. Uma casca muito bem polida.
— Não sei o que posso oferecer ao príncipe, mas tentarei ser mais útil.
Heid parecia decepcionado, pois assentiu regiamente e voltou os olhos para o papel. Ela havia perdido sua chance de impressioná-lo. De fazê-lo rir. De qualquer coisa.
— Você disse que gosta do papel de imperador, mas não parece se divertir muito — ela respirou fundo — Heid.
Ele voltou a encará-la, com um sorriso. Visivelmente satisfeito por tê-lo chamado pelo nome. Aquilo era loucura, ele deveria ser o príncipe! Não… qualquer outra pessoa.
Como poderia ser o príncipe e Heid?
— Quando não estou desesperado, eu faço um bom trabalho. Mas agora estou desesperado. — e com essa confissão, passou a folha que havia lido imediatamente para ela — Veja isso, uma carta de Tierra Roja, há suspeitas de novos abalos na costa entre as cidades não atingidas.
— Em Iberya? — Mizandre franziu as sobrancelhas.
E Deus, como ela ficava linda daquele jeito. Heid se perguntou se mais alguém no mundo já a vira franzir as sobrancelhas, perguntava-se se precisaria matar o cretino. Então riu de si mesmo, porque não podia esconder o quanto gostava dela nem em pensamento.
— Sim, Iberya.
— Minha mãe ia para lá no final do verão.
— Seria prudente avisá-la de não se hospedar nas cidades portuárias.
— Farei isso. — Mizandre murmurou. Ela nunca havia avisado sua mãe de nada, nunca havia se preocupado com ela. Aquilo… significava alguma coisa? Por que sentia que havia algo grande demais mudando dentro dela?
— Você e sua mãe são próximas?
Não.
— Eu a acompanho desde criança em desfiles e eventos.
Não era uma mentira.
— É difícil ter pais ocupados.
Não fora uma pergunta.
— Sim.
— Minha mãe tem um péssimo gosto para moda. Não seria irônico se elas se conhecessem?
E por alguma razão insondável, Mizandre riu.
— Sendo a Imperatriz, mamãe diria que todo o guarda-roupa real é de uma elegância e sofisticação indescritível, e depois ofereceria a sua coleção como presente.
— Madame Merveilleux é uma mulher perspicaz e sutil.
E falsa. Assim como eu. Mas Mizandre apenas sorriu.
Por que estavam falando de família? Por que aquilo parecia errado?
— Talvez eu providencie esse encontro. — Heid disse, baixinho.
Não, por favor não.
— Sei que minha mãe ficaria encantada.
— O jantar de Solstício deve ser suficiente — ele colocou os papeis sobre a mesinha no momento em que o criado retornava com o bule fumegando com chá de camomila. — Vamos parar com isso. Chá?
E ela aceitou com um meneio.
Porque não queria agarrá-la, Azra sabia que seus sentimentos eram genuínos. Na verdade, se esforçou muito para pensar em qualquer coisa mais ousada que segurar suas mãos, mas Kateryna não permitia que ele fosse além, conforme erguia os olhos de seu livro e o fuzilava friamente, à maneira dela. Esforçou-se de novo para olhar aqueles olhos e vê-los tomados de paixão. Não, ela com certeza estaria sempre desprezando ele, de qualquer forma. Mesmo se o amasse por isso.
— Pelo amor de Deus, pode parar de olhar para mim? — ela grunhiu, fechando o livro com tanta força que ele se perguntou se sequer havia marcado a página que lia. Pensando bem, ela nem deveria estar lendo, apenas fingindo.
— Não é muito egoísmo pedir para um cavalheiro deixar de apreciar uma dama tão bela? — sua voz, por mais que quisesse ser sensual, estava mais para a de um cão chorando por carinho. — Você pegará sardas se continuar de frente para a janela.
Sente-se do meu lado, para que eu possa apreciar de perto.
— Eu não preciso que você me diga isso — Kateryna se levantou e deixou de lado a manta que cobria suas pernas. O livro também ficou esquecido na poltrona em que ela estava, na recentemente aberta sala de estar na câmara após os quartos dele e de Savyna. Que disposição peculiar de cômodos, quase como se quisesse dificultar que algum intruso atrapalhasse o lazer dos residentes. Ela realmente havia entendido sem comentário como uma censura?
— Aonde você vai?
— Lhe devo explicações agora?
Azra pensou em se levantar para acompanhá-la, mas continuou sentado. Ela o estava evitando desde aquele dia, no vilarejo. Entendia que detestasse tê-lo seguindo-a por todos os cantos, mas desde que seus motivos mudaram, Azra estava disposto a dar-lhe espaço. Mesmo que fosse contra toda a sua natureza, depois que descobrira aquele sentimento tão… quente.
Kateryna, então, saiu da sala de estar do andar das visitas e se refugiou na sala de chá, aquele lugar proibido. Uma nítida forma de dizer que não o queria por perto. Azra não quis dizer que achava ruim que ela tivesse sardas por ficar exposta ao sol. Na verdade, era bem impressionante como a tonalidade da pele de certas mulheres podia despertar vibrações quando se bronzeava. Mas suspeitou que a tez pálida de Kat ficaria apenas vermelha e arderia muito.
— Você perdeu o jeito — Joanna mordia os lábios para não rir — Depois de todos esses anos, eu pensei que estivesse aperfeiçoado.
— Não temos muitas oportunidades no exército — ele se defendeu.
— E ele não perde a oportunidade assim que escapa. Não pode perdoar nem a selecionada do seu primo?
— Heid terá trinta outras para correr atrás.
Ela jogou algo para ele, era uma bola de golfe.
— Comprei para você. Não achei hora apropriada para dar.
— Eu fui ao mesmo vilarejo que você, Anna, não precisava me dar nada.
— Sei, sei — ela balançou a mão — Comprei para Savie e Heid também, se isso o satisfaz.
— Sei que satisfaz Savyna — ele piscou.
E Joanna descruzou as pernas para se inclinar sobre os joelhos, daquele modo pensativo e importante que ela criava apenas para dizer:
— Você acha que ela ainda…
— Com certeza.
Anna sorriu e balançou a cabeça, parecia duvidar, mas estava feliz. Feliz. Se a irmã fosse apaixonada por um homem e ele sorrisse ao saber disso, feliz, Azra seria obrigado ou a fazê-lo se casar com ela imediatamente ou então teria de matá-lo com o que encontrasse na frente. Porque não permitiria que outra pessoa se satisfizesse dos sentimentos de Savyna. Mas essa pessoa era Joanna, e Anna nunca machucaria os sentimentos de Savie.
— Ela é gostosa, não posso negar.
— Eu categorizo minha irmã como bonita.
— Graças a Deus não sou irmã dela — eles trocaram um sorriso confidencial. — Nem sua.
— Praticamente minha irmã.
Realmente, ela era praticamente sua irmã. Mas por algum motivo, Joanna estreitou os olhos e fechou os lábios, espremendo-os um contra o outro. Ele não sabia o que pensar daquilo, era novidade. Bem, não se surpreendia, afinal passaram dez anos ou mais afastados, havia partes um do outro que não haviam conhecido ainda. E outras partes que não deveriam conhecer. Como era estranho que conseguissem olhar tão naturalmente para a cara um do outro quando quase haviam feito amor em um celeiro, nada mais que no celeiro de Versalhes.
— O que foi?
— Ahm?
— Você está com essa cara.
Anna piscou os olhos e deu de ombros.
— Devo estar pensando em quantas formas depravadas eu poderia estar cometendo incesto se imaginasse Savyna tomando banho.
— Isso poderia ser dito de nós, não é mesmo? — ele alfinetou, e, como resultado, Joanna realmente arregalou os olhos. Ela havia pensado sobre aquele dia, como supôs.
— Crianças não contam — ela balançou a cabeça, perturbada demais para que fosse algo simples. Azra também sentia que era complicado, mas não tão inaceitável.
— Eu nunca tive chance de pedir desculpas. Você foi para Iberya e eu para o exército… no final nunca te vi depois daquele dia.
— Não tem porque pedir desculpas.
Ela estava sendo sincera, mas olhava para as mãos.
— Por que isso te deixa tão incomodada, então?
— Ora — e então ela voltou a ser a Joanna insolente e sarcástica — porque você me viu… naquela situação. E outras pessoas nos viram. E minha mãe quase me deserdou.
— Não sabia que comandantes do exército tinham tanta herança. Você tem uma casa de férias e terras de cevada no norte de Iberya?
— Não zombe, Az — ela colocou um fio de cabelo que caia por sobre os olhos para trás da cabeça, num gesto muito irritado. — Eu sou uma mulher, no final das contas. Essas coisas precisam me incomodar.
— Não posso ter sido o único.
Então ela piscou de novo e ele viu o vermelho acender em toda a sua face antes dela se erguer e quase atirar outra bola de golfe na sua cara. Passou raspando pela orelha. Verdade seja dita, era mais mérito seu ter desviado que desmérito de Joanna errar a mira.
— Você é insuportável! Não o perdoo por nada, eu o odeio e espero que…
— Espera que…?
— Ah — ela suspirou, exasperada, e se sentou novamente. — Você é insuportável.
— Desculpe.
E realmente se sentia culpado. Não precisava ter dito aquilo.
— Desculpe-me por insinuar algo tão indigno para a sua honra. Eu estava brincando. — mas então confidenciou com um sussurro — Mas fico honrado em ter sido o único, se isso significa algo.
— Significa que meu irmão mais velho pensou coisas sujas a meu respeito quando eu ainda nem conseguia diferenciar o que era certo e errado.
— Foi você quem me puxou pra lá.
Joanna gargalhou. Finalmente!, ela estava rindo da situação.
— Como mais velho, você deveria ter dito que era errado.
— Não adianta de nada, no final não consegui nada — e com a sua cara de decepção, Joanna jogou uma almofada (dessa vez acertou em cheio o alvo) e riu.
— Aquele maldito cavalariço, nem para aparecer alguns minutos mais tarde…
— Você fazia barulho demais.
— A culpa é minha?! — Anna ergueu uma sobrancelha — Mas… ainda bem que nada realmente aconteceu.
Azra sentiu uma fisgada em seu orgulho.
— Seria insuportável te olhar e não lembrar do pior erro da minha adolescência.
Outro impacto, dessa vez como uma locomotiva.
— Se algo de bom deve ser extraído de tudo isso, eu criei um pouco de juízo.
— E eu posso colocar ossos no lugar, agora. E costurar as tripas para dentro da barriga de qualquer um.
Ela riu, tranquila, como Joanna normalmente era com a vida.
— Somos adultos decentes.

Mizandre nunca sentira palpitações
Fale com o autor