Sangue Quente
20 Wild Flame
Notas iniciais
Capítulo XX – Wild Flame
(Chama Selvagem)
.
.
“Certo”, Lucy pensou, franzindo as sobrancelhas, “essa noite acaba de entrar para o meu TOP 5 de noites-mais-bizarras-da-minha-vida.”
A estranheza começou quando desceu ao segundo piso e encontrou Gray, Wendy, Charles e Happy em pé rodeando uma Erza abaixada, com as mãos no rosto. Ela tremia e emitia uns ruídos tão estranhos que a loira demorou a entender que se tratavam de soluços.
Erza Scarlet estava chorando.
Mais do que chocada com a cena, a Heartfilia acabou por agachar-se de frente para a amiga, mas não antes de pedir gentilmente que Gray amarrasse e amordaçasse Persephone, porque apesar do surto, Natsu estava certo em apontar que se ela não falasse, não havia perigo.
– Ei, Erza, você está bem? – Perguntou gentilmente, tentando esconder o assombro.
A ruiva levantou a cabeça das mãos e assentiu, apesar de ostentar um adorável biquinho e de seus olhos estarem vermelhos e marejados.
– Não acho que o Natsu tenha pego pesado, se quer saber – se manifestou Wendy, sem usar seu tom tímido habitual.
“Estranho”.
Lágrimas grossas e pesadas escorreram pelas bochechas da Scarlet.
“Muito estranho”.
– O que o Natsu fez? – A loira perguntou, genuinamente curiosa. Depois, observando melhor o arredor, mudou a pergunta: – Onde está o Natsu?
O biquinho de Erza aumentou.
– Ele... Ele desceu muito rápido do terceiro andar, parecia perturbado. Saltou e ficou de pé no parapeito daquela janela – apontou para uma janela grande na parte mais alta da parede –, e então eu perguntei “onde você está indo?” e ele... – Respirou fundo, tentando recuperar o controle sobre o choro.
E aqui vai o prêmio estranheza do ano:
– Ele respondeu “vai se ferrar, demônia ruiva” – completou Wendy, normalmente.
Então, para essa noite subir ainda mais no ranking de noites estranhas de Lucy, Happy se ofereceu para dividir com Charles algumas uvas-passas que ele tinha encontrado no pequeno tour pela loja.
– Eu não me sinto confortável em dividir qualquer coisa com você – a gata resmungou.
Sem nem se abalar, o gato deu de ombros e retrucou:
– Sei, mas aparentemente você se sente confortável em ser chata.
Lucy arregalou os olhos diante da situação inédita. Happy nunca, nunca, havia respondido dessa forma.
E então a bizarrice da situação só aumentou quando Erza não parou de chorar, e Charles se juntou a ela.
– Gray? – Lucy chamou, desconfiada. – Você amordaçou Persephone direitinho, não é?
– Sim! Por que, tá achando que eu sou um incompetente, é? – Foi a resposta atrevida de Gray.
“O que está acontecendo aqui?” perguntou-se enquanto tentava domar o impulso esquisito que subitamente teve de espancar o mago do gelo.
A loira imediatamente olhou para Persephone, certa de que o comportamento altamente esquisito dos amigos – e dela mesma – era por causa da magia de persuasão. Todavia, não poderia culpa-la dessa vez; Gray estava certo, a prateada estava amordaçada corretamente. E se ela não podia falar, então não era capaz de lançar sugestões, segundo Natsu.
A Heartfilia estava sob pressão. Estava ficando com raiva e não podia acreditar que Natsu tinha simplesmente pulado a janela e fugido. Respirou fundo uma, duas, três vezes para se acalmar.
Não funcionou.
A urgência de bater em alguém até que perdesse os sentidos era tão forte, tão presente! E ao mesmo tempo, ela estava preocupada de verdade com o namorado. E com raiva. E com fome.
Agarrou os cabelos rente à cabeça, fechou os olhos e encostou a testa nos joelhos. O que estava acontecendo com ela? Ela não sentia esse lado irritadiço dela se manifestar desde... Bom, desde criança. Ela estava certa de que tinha coberto esse seu lado violento com uma grossa camada de cordialidade, empatia e simpatia.
Mas então... Por que ela sentia que precisava desesperadamente socar alguém?
Um pouco de racionalidade em forma de preocupação com Natsu cortou seus pensamentos viciosos. Sim, ela não podia bater em ninguém, não agora. Natsu estava em algum lugar lá fora, em uma Silver Clock escura, sozinho e surtado.
“Tenho que encontra-lo”, pensou. Depois que o encontrasse, tudo ficaria bem. Ela poderia soca-lo daí. “Sim”.
Ainda de olhos fechados, sua mente começou a processar as informações de maneira diferente. Ela sentia o ambiente de forma diferente. Sua respiração estava agitada, mas pesada, e ela notou que podia sentir o odor característico de praticamente tudo ao seu redor, caso se concentrasse bastante.
Lá estavam as fragrâncias de metal, gelo e vento de seus amigos. Concentrando-se ainda mais, ela era capaz até mesmo de ouvir suas respirações, o ar sendo puxado e expelido. Seus músculos se tensionaram com a nova carga sensorial e ela pôde claramente distinguir uma trilha no ar que continha o um cheiro bastante familiar.
O cheiro de Natsu.
Abrindo os olhos, sem nem hesitar, Lucy correu e, tirando sabe-se lá de onde a força necessária para se içar sobre o parapeito da mesma janela pela qual o namorado saíra, saltou. No mesmo momento, provavelmente assustado pela sequência de ações inacreditáveis da loira, Gray cambaleou para trás e esbarrou em um objeto oval, derrubando-o no chão.
Ao cair, o objeto emitiu um barulho semelhante ao de um circuito queimando, e, quase imediatamente, Erza e Charles se acalmaram, parando de chorar. O garoto de gelo piscou, bastante confuso, e agarrou a coisa do chão.
– O que é isso?
Lucy também ficou curiosa em descobrir, mas não tão curiosa ao ponto de parar seu progresso. Ainda sentindo a trilha de cheiro, respirou fundo e pulou pela janela, ignorando completamente o fato de estar no segundo andar.
Em vez de se espatifar contra o piso coberto de neve do lado de fora, contrariando as leis da física por completo, a garota pousou perfeitamente agachada, seus joelhos dobrando no ângulo certo para amortecer o impacto, girando uma cambalhota para completar o processo.
Sem demoras, olhos apenas na caçada, levantou-se e começou a correr na direção que tinha tudo para crer que Natsu havia tomado. Correu muito, muito rápido, de um jeito que ela nunca fizera antes.
A adrenalina devia estar circulando à mil em suas veias, era a única explicação que ela conseguiu pensar depois, quando teve tempo para refletir.
Não parando de correr, abençoando a força muscular que aparecia do nada, avistou ao final da rua uma figura rósea, que também corria. Os movimentos dele pareciam confusos, incertos e desajeitados, como se ele tivesse desacostumado a correr em uma velocidade tão baixa.
Sim, porque, estranhamente, Natsu estava muito lento para seus padrões.
Lucy estava muito perto de alcança-lo quando, de repente, outros cheiros brotaram de uma rua vizinha, interpondo-se sem querer entre ela, a caçadora, e Natsu, a presa.
Era um grupo de dez pessoas, todas metidas no uniforme de guardas do Conselho. A loura parou de correr, confusa com tal aparição, e, assim, o momento de adrenalina se perdeu, e ela já não mais podia sentir cheiros, nem mais possuía aquela incrível explosão muscular.
.
~*~*~
.
Pouco tempo depois, o grupo mais forte da Fairy Tail – sem Natsu, por óbvio – encontrava-se do lado de fora, nas ruas de Silver Clock, conversando calmamente com os guardas do Conselho. Aparentemente, eles estavam lá para levar Persephone sob custódia.
Lucy preferiu não pensar em como ou porque os guardas estavam ali, porque definitivamente nenhum deles os havia chamado. Estava mais ocupada notando que não havia sinal algum de Natsu, e que Persephone levava nos lábios de coração um sorriso satisfeito, como se tivesse, finalmente, cumprido seu objetivo.
E então tudo fez sentido.
Natsu era como uma fera enjaulada e adormecida, e Lucy pôde ver com clareza que Persephone era a turista que batia insistentemente no vidro para acordá-lo.
Andando até ela, discretamente pediu aos guardas um momento para falar com a bandida.
– Por que você não escapou naquela hora? – Lucy questionou, referindo-se ao momento em que Gray a soltou. – Quer dizer, você poderia sim ter fugido. Afinal, conseguiu passar despercebida por Erza no segundo andar, ao subir para o terceiro.
O sorriso de Persephone aumentou.
– Você já sabe a resposta.
Lucy sabia.
– Você tinha um plano a seguir, despertar no Natsu aquele tipo de humor perverso.
Persephone olhou divertida nos olhos de Lucy.
– Você é inteligente, Lucy, mas acho que Erza descobriu isso antes de você – comentou, apontando com a cabeça na direção de Erza, que estava de braços cruzados e olhos fixos nas duas. – Você sabia que “bipolar” é um termo um tanto errado para se referir ao Natsu?
– O que você quer dizer com isso?
– Bom, o transtorno bipolar é caracterizado por alterações extremas de humor, como períodos de pura euforia, e logo depois profunda depressão. Há também falta de controle e bom senso. Sabemos que a falta desses dois últimos fatores descreve o nosso pequeno Natsu...
– Mas...? – Lucy pressionou, pressentindo que naquela frase haveria um porém. Não estava gostando nada do tom de palestrante que a prateada usava, porém sua curiosidade já havia sido capturada.
– Mas – concordou, concluindo o pensamento – o que ele manifesta, na verdade, é um transtorno dissociativo de identidade, mais conhecido como dupla personalidade. Vê? O transtorno dele não é de humor. Ele apresenta características de duas personalidades, e cada uma tem sua maneira de perceber e interagir com o meio.
– Como você sabe tanto sobre isso? – Lucy perguntou, assombrada demais para fazer a pergunta que realmente queria, “como você sabe tanto sobre Natsu?”.
– Eu sei que mulheres bonitas como eu são normalmente taxadas de burra, então, novidade pra você: eu estudei. Sempre me interessei por psicologia, de qualquer forma – deu de ombros.
– E o que você ganha fazendo com que o Edo-Natsu fique no controle?
– Eu? Nada. Já o autor original do plano com o qual eu fiz um acordo... – Persephone disse como quem não quer nada.
– Quem é o autor original do plano? – Lucy exigiu.
– Oh, mas não seria muito mais divertido descobrir sua identidade quando a trama estiver mais avançada?
– Minha vida – Lucy disse entre dentes, chacoalhando-a – e o psicológico do meu namorado não são para serem tratados como uma história!
– Eu discordo – Persephone disse enquanto um dos guardas a afastava de Lucy.
Antes que ele as alcançasse, no entanto, Lucy comentou maldosamente:
– Quem sabe assim, presa desse jeito, você não consegue finalmente visitar o Cobra?
– Ah, mas é exatamente o que eu pretendo fazer – sorriu, pela primeira vez, um sorriso verdadeiro.
E então Lucy, de alguma forma, entendeu que mesmo que a bandida amasse apenas a si mesma, isso não queria dizer que ela não era capaz de pelo menos gostar de outra pessoa.
Refletindo sobre a conversa nos poucos segundos em que Persephone era afastada por um guarda, Lucy perguntou em voz alta:
– E o que o autor original do plano lhe ofereceu por sua colaboração?
A resposta veio sem rodeios:
– Aniquilação total dos bandidos do norte, meus rivais.
Lucy ficou confusa.
– Mas eles ainda estavam por aqui quando nós chegamos...
– Mas agora não estão mais, não é mesmo?!
Arregalando os olhos, Lucy compreendeu.
– Nós os destruímos pra você!
– Exatamente – um último sorriso sacana, e então ela estava fitando o guarda que a escoltava. – Cuide bem de mim, sim?
.
~*~*~
.
Três dias.
Lucy estava sem notícias de Natsu por três malditos dias. Ele não era visto desde a confusão em Silver Clock; não tinha passado na guilda, nem voltado pra casa. Apesar das palavras tranquilas do Mestre – algo como “dê um tempo a ele, logo estará de volta” –, a maga estelar não podia evitar ficar preocupada.
Se pudesse, teria montado uma espécie de plantão na casa dele, mas ela não sabia onde era localizada. Poderia ter perguntado ao Happy, ou até mesmo à Wendy, só que seu orgulho falou mais alto; se Natsu ainda não a tinha levado para conhecer sua residência, ela não ficaria mendigando para os outros.
Procurá-lo pelos mercados e restaurantes de Magnólia durante os dois dias de seu desaparecimento – sim, dois, pois no primeiro dia, assim que saiu de Silver Clock, ela teve um colapso e acabou adormecendo por um dia inteiro! “Ah, a maldita adrenalina acabou comigo” – também se mostrou infrutífero, então tudo o que restava a ela era esperar. E a espera durou três dias. A pior parte, ela achava, era não saber qual das duas personalidades estaria no controle do corpo do namorado quando ele voltasse.
Porque, oh, sim, ele voltaria.
De um jeito ou de outro: sendo Natsu, por amor, ou Edo-Natsu, por ódio.
Sentando-se calmamente no sofá de seu apartamento, Lucy observou a janela do quarto. Estava fechada, mas mesmo assim ela pôde ver a tempestade se formando lá fora, o vento soprando forte e a neve caindo em abundância.
Suspirou, fitando o teto por incontáveis minutos, até que uma rajada de brisa gelada atravessou o aposento, pegando-a de surpresa. Lucy rapidamente girou a cabeça e voltou-se para a janela que tinha certeza de ter deixado fechada... para ver um Dragon Slayer empoleirado no parapeito, oscilando para dentro e para fora do cômodo.
Seu cabelo rosado estava desgrenhado pelo vento, seu corpo magnificamente molhado pelos flocos de neves derretidos pelo calor masculino, mas foram seus olhos que prenderam sua atenção.
Neles, ela viu crueldade, raiva e dor.
Tanta dor...
– Natsu – ela disse, dando alguns passos para alcança-lo, ignorando o frio que eriçou todos os pelos de seu corpo. – Eu estava preocupada com você.
A garganta do garoto emitiu um riso de escárnio quando ele pousou com seus pés descalços no tapete felpudo do quarto.
– Sua preocupação é risível.
E então ela sabia que quem estava ali, em pé, era o Edo-Natsu. Sabia também que tinha que agir com cautela, no entanto, se recusou a deixa-lo intimidá-la.
– Por onde esteve? – Questionou, cruzando os braços abaixo dos seios.
O rosado levou as mãos aos cabelos e os bagunçou, chacoalhando para fora a neve derretida. O movimento aparentemente relaxado não a enganou; aquela era a personalidade predatória, afinal de contas, que podia facilmente usar a casualidade como máscara para suas atitudes violentas.
Seus olhos castanhos nublados se levantaram e pousaram na figura feminina, brilhando com uma nuance muito perigosa.
– Estava apenas tirando o atraso dos meus deveres como Cão do Conselho.
Um silêncio bastante pesado tomou posse do quarto ao passo que Lucy compreendia que era desse modo que Edo-Natsu permanecia no controle; matando. Alimentando sua raiva com morte.
Um arrepio consumiu o corpo da garota.
– Vejo que já causou bastantes estragos.
– Pode-se dizer que sim – um dar de ombros muito, muito casual. Casual demais. – Bem, suponho que pelo ponto de vista dos alvos. Porque, pro Conselho, eu limpei o estrago.
Cala a boca, disse sua outra personalidade. Pare de falar bobagens.
Bobagens? Edo-Natsu retrucou. Eu realmente limpei o estrago, tirei da rua mais de vinte daqueles lixos.
Sim, mas fez isso só pra provocá-la.
Não fiz, não.
Fez, sim, acusou seu outro eu.
Não. Fiz. Não.
Claro que fez, pare de ser infantil. Antes, você realizava tais serviços pro Conselho porque, além de não se importar em tirar a vida de alguns bandidos, você queria informações sobre o paradeiro de Igneel. Você nunca gostou de matar. E agora que sabe o que aconteceu com Igneel, dá uma de Cão do Conselho somente para provocar Lucy, porque sabe que ela desaprova.
Cala a boca, maldito. Eu não sei nem porque você está se manifestando. Quem está no controle sou eu, portanto, suma. Volte pro seu canil.
Sua parcela mental mais sensata riu com desgosto. E agora você sabe como eu me sentia quando você surgia do inferno e ficava cuspindo maldições. Parecia uma mosca zunindo em meus ouvidos. Era bem irritante, na verdade.
Você não tem outro gostosão pra encher o saco, não? Que porre, você.
Não tenho, não.
Desapareça, peste.
Me obrigue.
Observe, e, dito isso, Edo-Natsu sufocou seu outro eu com uma avalanche impiedosa de raiva, ódio, dor e ressentimento. Era seu trunfo, desenvolvido durante o tempo que passou recluso, somente espiando os momentos de felicidade que o outro tinha com Lucy.
O outro Natsu era incapaz de lidar com sentimentos dessa natureza, mas Edo-Natsu... Bom, ele tirava sua força deles.
Satisfeito com o silêncio repentino em sua mente, o garoto levantou a cabeça e fitou a menina que o olhava com uma expressão determinada em sua face, que meramente disfarçava a tensão.
Percebeu que, por mais que o diálogo mental tenha se passado em questão de segundos, ele tinha ficado estático, olhando para o tapete, e isso a deixou desconfiada.
– Então – ela disse, sua voz firme. — Poderia devolver meu namorado?
A demanda o irritou mais do que ele esperava. Tudo bem, ele era irritadiço por natureza, já se encontrava irritado com outra pessoa, e obviamente nutria um caso de ódio por Lucy, mas quem ela pensava que era pra exigir algo dele? Quanta audácia!
– Oh, minha querida, mas eu sou o seu namorado — Natsu abriu um sorriso de canto que era dolorosamente familiar. Observando o semblante feminino se fechar, andou os poucos passos que os separavam e tocou o queixo dela com o indicador. – O que foi, não gosta de mim? Porque eu, definitivamente, não gosto de você.
Lucy afastou bruscamente o dedo de sua pele, dando um passo para trás. “Chega”, pensou, “alguém tem que pôr rédeas curtas nesse rapazinho”.
– Por que me odeia tanto? –Perguntou, o queixo levantado, claramente o desafiando a responder. – O que eu te fiz?
O sorriso já não mais enfeitava o rosto masculino. Sua expressão estava novamente neutra, mas seus olhos pegavam fogo.
Oh, sua maldita, eu não estou no humor para desafios.
Não desconte nela a raiva que você tem daquela pessoa, certamente não é culpa de Lucy que ele tenha tido a audácia de nos procurar.
Suma. Daqui. Outra avalanche de negatividade, sofrimento e fracasso.
Silêncio.
Um silêncio muito, muito pesado e perigoso.
E então...
– Por quê? – Ele começou, rindo com escárnio. – Bom, porque, por sua causa, minha garota estúpida, eu sou nada mais que uma massa revoltosa de sentimentos sombrios. Por sua causa, eu estou sozinho. Por sua causa – disse, segurando firmemente a mandíbula da maga estelar –, o Igneel se foi.
“Quem?” pensou, agora completamente confusa. Quem diabos era Igneel? E o que ela tinha a ver com o sumiço dele? Como ela poderia ter algo a ver com o sumiço de uma pessoa que ela nem ao menos conhecia?
– O... que? Eu não... estou entendendo nada.
É claro que não está, é estúpida, afinal de contas. No entanto, isso não me tira a satisfação da vingança que vou obter em cima de você.
– Não se preocupe – Natsu comentou, dando de ombros, deslizando sutilmente suas mãos para o pescoço delgado em seu alcance. – Mortos não precisam entender nada.
E apertou.
A Heartfilia deveria estar esperando por esse estrangulamento, afinal, sempre ocorria quando Edo-Natsu dava o ar de sua graça. Ela deveria ter percebido suas intenções no momento em que ele a segurou pelo queixo. Ela deveria estar atenta.
No entanto, tinha ficado tão surpresa com a declaração súbita sobre o tal de Igneel que realmente foi difícil prestar atenção em mais alguma coisa.
Ela se debateu com toda sua força, o que apenas serviu para aborrecê-lo ainda mais. Estalando a língua, o Dragon Slayer a empurrou até que ela batesse com as costas na parede mais próxima.
Ele sorriu.
Ela o encarou.
Ele a encarou de volta.
A parte animal do cérebro dela gritava que esse predador não tinha absolutamente nenhuma piedade nele. Inclinando a cabeça para trás a fim de escapar do agarre, Lucy encontrou a intensidade do olhar de Natsu. A tonalidade enevoada era tão desumana que doía, seus olhos lacrimejando em defesa instintiva.
Piscando, ela desviou o olhar.
– Você cede tão facilmente — disse o Dragneel.
O peso da confiança fria que ouviu nele era assustador, mas não foi somente isso que ela ouviu. Bem lá no fundo, debaixo de toda aquela atitude raivosa e homicida, ela ouviu o apelo do garotinho que ele uma vez foi.
Era um apelo perdido, silencioso, abafado por quilos de orgulho e ressentimento.
Era um apelo de alguém que rogava desesperadamente para ser amado.
E isso ameaçou quebrar o coração de Lucy.
“Meu menino” pensou, carinhosamente, “meu pobre menino perdido”.
E de alguma forma, em seu íntimo, ela não conseguia mais diferenciar Natsu de Edo-Natsu. Tudo o que ela sentia, agora, era que seu namorado, seu menino tão adorado, estava sedento para receber um sentimento que ela estava sedenta para doar.
Se ela o amava, ela tinha que distribuir o amor para suas duas facetas, não?
– Se você acha que eu estou cedendo, Natsu – esforçou-se para dizer contra o aperto em sua garganta –, então você não me conhece – as mãos férreas aumentaram sua intensidade, cortando imediatamente a fala da menina. Mesmo sem conseguir emitir som algum, não desistiu; sabendo que ele a fitava, abriu os lábios e os movimentou.
Através de leitura labial, o rosado entendeu. “Faça o que você tem que fazer”, ela quis lhe dizer, parando de se debater. Aquela confiança, depositada nele – nele, não no outro –, foi o suficiente para que soubesse que mesmo que suas chamas fossem capazes de queimá-la, ele não seria capaz.
Eletricidade correu entre eles como um chicote incandescente.
E o Dragon Slayer veio à vida.
Imediatamente soltou o pescoço feminino. Enfiando a mão em seus cabelos louros, ele puxou a cabeça dela para trás para tomar sua boca em um beijo que era ao mesmo tempo uma reivindicação e uma advertência.
Ele não estava no humor para brincadeiras.
Bem, nem ela.
Apoiando as mãos em seus ombros fortes, ela o beijou de volta com a mesma paixão crua, acariciando a língua contra a sua em deliberada provocação – porque não importava o quão quente queimasse, com a fome de Natsu ela podia lidar.
Era quando ele era frio, ocultando-se na raiva, que ela pensava que poderia perdê-lo.
A mão dele apertou em seus cabelos, desgrudando seus lábios.
– Você acha que está segura comigo? – Perguntou, empurrando a mão livre sob a blusa de Lucy, os dedos fortes e longos se fechando sobre um dos seios dela em posse evidente.
– Segura? – Em uma respiração ofegante, ela correu os dedos pela lateral do rosto dele. – Talvez não, mas eu quero me aquecer com você, de qualquer jeito.
Natsu apertou e moldou sua carne sensível.
– Então faça isso.
Ele imediatamente deu um jeito de sumir com a blusa e o sutiã que ela usava, para deixar sua metade superior nua. Ela puxou a camiseta dele, que, no instante seguinte, devido à magia do Dragon Slayer, se desintegrou.
Lucy encontrou-se pele a pele com o garoto que literalmente pegava fogo. A sensação do fogo lambendo seu corpo era estimulante e assustadora. A queimação gelada estranhamente não a machucava, como sempre, mas ainda assim causava-lhe medo.
Porque era melhor não abusar, afinal, nunca se sabe quando essa característica peculiar de não pegar fogo pode simplesmente... desaparecer.
Tentando ignorar o medo, colou seu corpo no dele e esfregou a suavidade de sua barriga contra o volume duro de sua ereção.
Sem aviso prévio, Natsu a arrebatou no mais primitivo dos beijos, aproveitando para queimar o resto das roupas femininas, deixando-a completamente nua e vulnerável.
Tremendo, ela quebrou o beijo. Ele se recusou a deixa-la ir, trazendo a boca dela de volta contra a sua, mordendo e puxando com determinação o lábio inferior e delicado com os dentes ligeiramente mais afiados do que os de um humano comum.
A escuridão invernal que encontrou nos olhos do amante deveria assustá-la, mas apenas serviu para deixa-la ainda mais focada no objetivo de fazê-lo sentir seu amor. Ela queria trazê-lo de volta do fundo do abismo.
– Natsu – sussurrou como pôde em meio ao beijo impiedoso. – Natsu!
Sem resposta, a garota teve que se segurar firmemente para manter o fio de sanidade que insistia em lhe escapar pelos dedos toda vez que o rosado puxava a ponta de seu mamilo teso com os dedos que conheciam seus pontos mais sensíveis.
A carícia picante de suas chamas mágicas era tão forte que ela chegou a pensar que a carga sensorial seria demais para aguentar. Tirando seus lábios dos dele com força, girou a cabeça para o lado, buscando por ar.
O aperto em seu cabelo se tornou férreo, dificultando ainda mais o movimento. Ainda assim, ela se recusou a virar o rosto para ele. Uma chama vermelha apareceu em torno deles, tão potente que ela se preocupou pela primeira vez com a integridade de seu apartamento.
– Natsu – ela ralhou –, ou apaga esse fogo, ou me deixe alcançar minhas chaves mágicas.
Uma pausa.
Ela está falando literal ou subjetivamente?
Bom, não importava o sentido, o fato é que ele não queria. Recusava-se a atender qualquer exigência da garota.
Chame de birra, ele não ligava.
– Por que eu deixaria você pegar suas chaves? – Sussurrou sedosamente.
A resposta veio imediatamente, a despeito da falta de ar que sentia:
– Porque você parece querer lutar comigo.
Natsu riu.
– Você é dificilmente um desafio.
E, como se para enfatizar seu dito, investiu o quadril contra o dela, realizando um daqueles golpes pélvicos que ela simplesmente amava.
Instintivamente, ela abriu um pouco as pernas.
– Mais, Lucy – era uma ordem, dada em um tom sexual e exigente, um pouco sem piedade. – Abra mais as pernas.
– Dando ordens mesmo na cama? – Perguntou, levemente emburrada.
Ela perdeu a noção do perigo, por acaso?
Colando sensualmente a boca na orelha da amante, agarrou uma das coxas sedosas, forçou-a aberta e sussurrou:
– Te aborrece saber que sou eu quem tem todo o controle? – Sugeriu, mordendo não muito suavemente o lóbulo auricular. A maga gemeu baixinho. – Ou te excita?
Não esperando obter uma resposta – até porque, a resposta que queria estava evidente no rosto dela –, Natsu moveu-se para baixo. Lucy tentou segurá-lo, mas o cabelo dele deslizou por suas mãos como água, sedoso e molhado por sua pele.
Talvez ela devesse ter resistido mais, no entanto, ela o queria em cima dela, dentro dela. Porque mesmo letal como ele estava, ele ainda era dela, e seu corpo o conhecia, sabia o prazer que ele podia lhe proporcionar.
Hoje, porém, esse prazer poderia muito bem ser temperado com uma pequena dose de crueldade sensual.
Agarrou a parede, cravando seus calcanhares no chão. Mas nada poderia tê-la preparado para a maneira como ele provou de sua intimidade, suas mãos mantendo-a aberta para o seu deleite.
Era agonia e êxtase, uma descarga elétrica líquida contida dentro de um corpo que parecia, repentinamente, pequeno demais, frágil demais, para o que estava sendo exigido que suportasse. Aqueles lábios – “oh, esses malditos lábios!” – acariciavam sua carne mais íntima de maneira determinada, implacável em sua exigência.
– Minha – ele disse, seu hálito fresco soprando contra o corpo dela. – Droga, você é minha.
O beijo de Natsu era tão físico quanto suas palavras, cheio de possessividade masculina e um desejo selvagem e inexorável. Prazer saturou o corpo dela, percorreu suas veias, inundou seus poros enquanto ele a incitava a se sentir de uma forma que ela nunca se sentiu antes.
O Dragneel suspirou baixinho. A intimidade da Heartfilia era ideal para seu gosto; suas paredes internas convulsionavam, e sua essência vazava aos poucos, juntamente com uma série de gemidos sensuais e maldições.
Ahh, perfeição.
– N-Natsu – Lucy arquejou, meio gemendo, meio reclamando. – Por favor!
– Qual é o problema? – Perguntou, soprando algumas respirações quentes contra sua carne mais íntima. – Eu achei que você gostasse da minha boca.
Sua garota tremeu em um espasmo, dedos e mãos ondulando apertadas.
– Só... Só coloca dentro logo, droga!
Sorrindo perversamente, ele piscou.
– Então implore.
– P-Por favor – ela pediu, mandando seu orgulho pro inferno. – Eu quero tanto...
Filho da puta, pare logo com isso! A outra personalidade de Natsu gritou, sentindo-se prisioneiro em sua própria mente. Incapaz de tomar o controle, sendo obrigado a visualizar a cena de longe, como um maldito voyeur.
E agora você sabe como eu me senti antes.
Só dê logo o que ela quer, droga. Doía dizer isso, porque era como se ele pedisse pra outro cara satisfazer a excitação de sua própria namorada. Era horrível, e realmente o chateava, mas ele a amava de tal maneira que vê-la sofrer, mesmo que por uma “tortura” teoricamente prazerosa, era inaceitável.
Por que eu deveria? Ela gosta disso, vê?
Aumentando ainda mais seu sorriso de canto, Edo-Natsu mergulhou três dedos dentro dela.
– Está satisfeita agora?
– Não... – negou, apesar de estar choramingando de prazer. – Não é isso o que eu quero. Eu quero você!
Droga de sadista, você nunca realmente pretendeu dá-la o alívio necessário, não é?
Oh, você me conhece, meu alívio em primeiro lugar.
– Seus gritos são como música para os meus ouvidos – ele comentou, acelerando os movimentos cadenciados.
E então, subitamente, seus dedos cessaram e se retiraram, enviando-a para longe do abismo delicioso em que ela se encontrava. Lucy ficou furiosa. Odiava ter seus desejos negados, e Natsu sabia disso. Ele estava fazendo de propósito, provocando-a, levando-a ao limite, depois trazendo-a de volta momentos antes do tão almejado pico.
“Bastardo sádico” amaldiçoou.
O Dragon Slayer deslizou para cima com um sorriso bastante sacana no rosto e, esquivando-se de um dos punhos da maga celestial – que com certeza estava com uma intenção assassina -, posicionou as mãos em seu quadril farto, impulsionando-a de maneira que ela instintivamente enlaçasse suas pernas sedosas em torno de sua cintura.
Seus lábios logo foram para o pescoço dela, o punho nos fios dourados puxando sua cabeça mais para o lado. Ela sentiu os dentes em sua pulsação, e mais abaixo, a pressão rígida da ereção. Ela não aguentava mais. Pensando rápido, Lucy sussurrou sua cartada final:
– Essa coisa de provocar é sexy, mas eu quero você dentro de mim, grosso e duro e agora.
Claro, princesa, abra a boca então.
Não. Se. Atreva. Desgraçado.
Natsu apertou-lhe a coxa.
– Lucy.
O coração dela bateu mais forte. Porque aquela voz, aquele tom, ela conhecia. Era menos cruel, muito mais carinhoso, mas de forma alguma menos abrasadora.
– Natsu – gemeu, em êxtase. – Eu preciso de você.
Ele era o único homem pra quem ela já disse isso em sua vida adulta, o único homem que tinha ganhado sua confiança.
Um arrepio perpassou o corpo grande que a mantinha presa contra a parede, a mordida quente de sua magia se transformando em uma carícia derretida que eram mil beijos suaves sobre a pele dela e, em seguida, a ponta brusca de sua ereção empurrou contra a entrada do corpo dela.
Sugando o ar antes de Natsu recuperar seus lábios em um beijo ardente, Lucy segurou-se firme quando ele se moveu para dentro dela com uma intensidade lenta e calculada, não parando até que ele estivesse enterrado até o fim em seu interior.
Seu corpo arqueou com o violento choque de prazer. O rosado se aproveitou de sua posição para brincar com os seios fartos, morder, lamber e chupar até que sua garota revirou os quadris em movimentos de urgência.
As unhas compridas picaram ombros musculosos.
– Pare de provocar, Dragneel.
Outra pausa, e de repente ele era pura demanda masculina, seu corpo liso e duro, e muito, muito forte debaixo de suas mãos delicadas. Abrindo os olhos, ela olhou nos dele... e viu o implacável castanho nebuloso, inumano. Deveria ter ficado confusa ao constatar que quem tinha novamente o controle do corpo era o Edo-Natsu, mas não ficou.
Ele investiu contra ela com a experiência sexual de um ser que, no momento, era completa dedicação no que fazia, e, assim, ele a enviou estalando para o êxtase final.
Gemendo, ela agarrou-lhe com o corpo, clamando-o, levando-o com ela.
Fale com o autor