Sangue Quente
21 About Family, Ex-Girlfriends and Evil Personalities
Notas iniciais
Capítulo XXI — About Family, Ex-Girlfriends and Evil Personalities
(Sobre Família, Ex-Namoradas e Personalidades Malignas)
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Natsu custou a dormir naquela noite.
Ao contrário de Lucy, que, assim que caiu na cama, adormeceu pesadamente.
Seu corpo reclamava, exausto. Afinal, nos três dias em que ficara “sumido”, ficara também sem dormir. E apesar do exercício físico intenso que realizara com a namorada há poucas horas, simplesmente não conseguia se desligar.
Então ali estava ele, encarando a perfeição de sua garota em seus braços, enquanto o dia amanhecia. Lucy costumava dizer-lhe que quando ele dormia, ficava com o semblante tão tranquilo e indefeso que ela tinha vontade de chorar.
Ele entendia essa sensação.
Lucy, quando dormia, era quase como o primeiro raio de sol a tentar quebrar uma madrugada gelada: frágil e sutil. Sua temperatura corporal era mais baixa que a dele, mas não escondia o potencial que tinha para aquecer seu coração.
E no entanto, nesse exato momento, ele não queria ter o coração aquecido por ela. Estava confuso, frustrado e muito chateado, e não conseguia refletir sobre isso; ela roubava-lhe todos os pensamentos.
Relutante, mas sabendo que era preciso, deu um jeito de se desenroscar do corpo nu de sua namorada – que resmungou audivelmente, ainda que sem acordar –, vestiu a calça jogada no chão e sentou-se no sofá, cobrindo os olhos com as mãos.
Suspirou uma, duas, três vezes. Chegou até a soltar fumaça pelo nariz. Inquieto, passou os dedos pelos cabelos, bagunçando-os e espetando-os ainda mais. Mordeu os lábios e, por fim, apertou a ponte do nariz, como se tentasse se livrar de uma dor de cabeça.
Não tinha jeito, ele tinha que admitir para si mesmo: estava se sentindo traído. Era humilhante, ele sabia, afinal, fora traído por seu próprio corpo. Poderia culpar Lucy por ter se deitado com sua outra personalidade?
Sim, pensou. Quer dizer, não sabia se de fato podia, mas, mesmo assim, culpava-a. Ele não era o Edo-Natsu, e ela deveria saber muito bem disso. Aliás, onde ela estava com a cabeça? Edo-Natsu sempre a odiou, sempre a atacou quando tinha chance. Por que dormir com alguém assim?
Uma lufada de ar veio por debaixo da porta, trazendo um cheiro de alguém que não lhe era familiar. O cheiro de um rapaz. O olfato de Natsu era muito bom, mas para ele ter captado o odor de um completo desconhecido, de dentro de casa, isso significava que o indivíduo devia estar parado na porta.
Caminhou até a porta, irritado. Era só o que lhe faltava! Um homem parado na soleira de sua namorada, quando o sol mal tinha se levantado. Girou a maçaneta e se deparou com um rapaz magricela, assim como o cheiro havia atestado.
– Você... mora aqui? — O magricela perguntou, parecendo surpreso por um homem ter atendido a porta.
Natsu não gostou da pergunta. Pela surpresa e confusão na expressão do rapaz, ele não devia saber que existia um homem na vida de Lucy.
Como se para demarcar território, o Dragon Slayer fez uma cara intimidadora.
A careta pareceu surtir o efeito desejado, porque o magricela começou a tremer um pouco e, sem falar mais nada, entregou-lhe um envelope. O rosado o pegou na mão, desconfiado, e, sem agradecer, fechou a porta na cara do outro.
Observou o envelope. Era bem simples e não tinha nada escrito. Sem remetente, nem destinatário. Por um momento, pensou em como o rapaz, provavelmente o carteiro do bairro, sabia exatamente onde entregar.
Deu de ombros. Esse era um mistério que ele não estava afim de descobrir. Como não havia destinatário, e curioso sobre o conteúdo, abriu e encontrou um bilhete. Desdobrou-o e passou a ler em voz baixa:
“Amanhã, na hora do almoço.
Não vá furar comigo de novo!
Você sabe onde me encontrar.”
A assinatura era de um tal de Zodíaco. Natsu não o conhecia, mas não precisou pensar muito para chegar à conclusão de que ele, mais do que provavelmente, era um homem com os dias contados.
Sim, porque Natsu não o deixaria viver depois desse bilhete infame. O que esse maldito ousado estava pensando, chamando-a para um encontro?
O que o preocupava, no entanto, eram duas simples palavrinhas presentes na escrita: “de novo”. Por óbvio, essa não era a primeira vez que o Zodíaco – tinha até asco de pensar nesse nome – a chamava para sair.
Só que Lucy não tinha comentado nada disso com o Dragneel.
Enquanto sentava-se novamente no sofá, pensou, com raiva fria, em suas opções. Podia queimar o bilhete. Ou podia amassá-lo e então queimá-lo. Ou picá-lo e queimá-lo logo em seguida. Ou mastiga-lo, queima-lo e então engoli-lo.
Eram tantas opções...
Ou, então, eu poderia simplesmente dobrar novamente o bilhete, coloca-lo de volta no envelope e deixar no tapete da porta de entrada, como se eu nunca tivesse mexido em nada. Pensou, tentando ser racional.
Sim, era o mais sensato a se fazer.
Mas, não, o que ele queria mesmo envolvia queimar o bilhete.
De olhos inexpressivos, o Dragneel deixou sua mão esquerda, a que não segurava o papel, acender-se em chamas. Foi nesse momento que Lucy abriu os olhos.
– O que está fazendo? – Ela perguntou, sua voz arrastada pelo sono.
– Nada – respondeu, apagando a chama. – Volte a dormir, Lucy. Ainda é cedo.
Ela sorriu, sonolenta, fechou os olhos novamente e virou-se na cama, ficando de costas para o namorado.
– Eu sei, por isso volta pra cama, Natsu.
Ela esperou pelo momento em que iria sentir o peso do corpo masculino afundar o colchão atrás de si e seu calor envolve-la, mas esse momento não chegou. Ao se dar conta disso, a loira virou-se de volta, com o cenho franzido, perguntando:
– O que foi?
O rosado apenas balançou a cabeça.
– Nada, só estou sem sono.
Lucy sabia que havia algo de errado. Se a voz inexpressiva e monótona não era indicativo o bastante, havia ainda o fato de que Natsu nunca deixava passar uma chance de deitar-se com ela, mesmo que estivesse realmente sem sono.
Suspirou, cansada, e sentou-se na cama, puxando o lençol para cima a fim de cobrir o corpo desnudo.
– Você está assim por causa do que aconteceu ontem?
– Não – ele desviou o olhar. A esquiva foi toda a confirmação de que ela precisava.
– Sabia! – Exclamou, agora totalmente desperta. – Foi por causa de ontem.
Natsu olhava para tudo, menos para a namorada.
– Escuta... – Disse, sabendo que era inútil negar. – Só preciso de um tempo sozinho pra pensar.
A resposta veio imediata:
– Da última vez que você saiu sozinho, ficou sumido por três dias.
– Aquilo foi diferente...
– Diferente como? – Inquiriu a garota, levantando-se. – Da última vez, você ficou irritado por algo e resolveu sair sozinho. Exatamente como quer fazer agora. Você podia conversar comigo.
Natsu colocou os dedos em suas têmporas, respirando fundo.
– Eu estou conversando com você, não estou?
Lucy rolou os olhos, impaciente.
– Natsu, você sabe o que eu quis dizer. Tudo o que eu sei sobre você são coisas pequenas, do dia a dia. Sei que você tem enjoos quando entra em um meio de transporte. Sei que adora churrasco e uma boa luta. Sei que odeia tirar fotos. E eu achei que saber isso era o suficiente, mas não estou mais tão certa assim...
Algo em seu discurso fez o garoto realmente olhar para ela e estreitar os olhos, desconfiado. A loira, se sentindo incomodada pelo olhar que recebia – que absolutamente não era o olhar que ela esperava -, arqueou uma das sobrancelhas, como se dissesse “o que, quer brigar?”.
– Como você sabe que eu odeio tirar fotos? – Questionou em tom ameno, mostrando que não queria arrumar confusão, só estava curioso. Talvez surpreso. Afinal, pelo que se lembrava, a namorada nunca tinha tentado tirar uma foto dele para saber que ele não gostava.
– Levy me contou, ela disse que é algo dos Dragon Slayers – balançou a mão, tentando expressar que a fonte da informação era, de fato, a importância da questão. – Vê? Pra piorar, tudo aquilo que eu sei sobre você, não foi nem você que me contou. Eu acabo descobrindo por meio dos outros.
Natsu não assimilou – ou preferiu não assimilar – as últimas frases que escutou; acabou ficando encanado com algo muito menos importante, na opinião de Lucy.
– Não gostar de tirar fotos não é uma coisa dos Dragon Slayers – ele disse, franzindo as sobrancelhas. – De onde a Levy tirou isso?
– Bem, acho que por meio de observação. Você e Gajeel fazem de tudo para não sair em fotos, e, quando acabam saindo sem querer, arrumam uma maneira de destruí-las o mais breve possível. Mas essa não é a questão, Natsu!
O rosado não lhe deu ouvidos. Se essa era a questão ou não, ele não ligava.
– Você também não gosta de tirar fotos, Lucy.
Tal afirmação, dita sem rodeios e em um tom tão firme, tão cheio de certeza, a fez estancar no lugar.
– De onde você tirou isso? – Sua voz saiu assustada, e isso a apavorou. Por que estava se sentindo assim?
– Olhe ao seu redor – o Dragneel apontou, abrindo os braços para abranger o apartamento como um todo. – Você mora aqui há um bom tempo já, mas eu nunca vi uma foto sua exposta na parede, ou nos quadros. Tem uma foto da sua mãe, e céus!, tem até mesmo uma da sua boneca favorita na infância, mas não tem nem sequer uma sua.
Por incrível que pareça, ela olhou ao redor, tentando achar pelo menos uma foto sua para provar que ele estava errado. No entanto, sabia que não iria encontrar; conhecia seu apartamento – e, principalmente, sua decoração.
– Eu gosto de tirar fotos – fechou os olhos, negando as provas visuais. Não sabia ao certo o porquê era tão importante mostrar ao garoto ali parado que ela não tinha problema algum em sair em fotografias, mas mesmo assim, continuou. – Só... me sinto incomodada com o flash. E eu já disse que essa não é a questão! O que está em pauta aqui é que você nunca me conta nada sobre você!
Natsu trincou os dentes, subitamente lembrando-se de algo que segurava firmemente entre os dedos de uma mão.
– Ah, já que estamos falando sobre “não contar nada”, esse bilhete é um grande exemplo! – Comentou, sarcástico, jogando o dito cujo na cara de Lucy.
Ela estava confusa. “Que merda é essa de bilhete?” pensou, pegando-o na mão. Leu-o em pouquíssimos segundos, porque, ao botar os olhos na letra, já sabia do que se tratava.
– Eu ia te contar sobre isso no dia em que recebi o primeiro bilhete, mas, antes que eu tivesse a chance, você sumiu por três dias! E quando você voltou, bem... Eu estava preocupada demais pra me lembrar disso – explicou-se calmamente, só depois percebendo o fato de que o papel já estava fora do envelope. – Espera aí! Você abriu uma correspondência minha sem permissão?!
O garoto fez pouco caso sobre isso:
– Não tinha remetente, nem destinatário, então, sim, eu abri. “Mas essa não é a questão” – resmungou em voz fina, tentando soar como Lucy quando dizia tal frase. A imitação não foi bem-vinda, tanto que a menina lançou um soco de direita em direção ao rosto do engraçadinho, que desviou facilmente.
Após respirar fundo umas três ou quatro vezes para se acalmar, ela se recompôs.
– Não estou entendendo qual é o drama, Natsu. Não sabia que você se importava tanto assim com o fato de eu ter encontrado uma chave mágica que eu estava atrás.
– O que? – Isso o pegou de surpresa, deixando-o confuso. Chave mágica? O que “chave mágica” tinha a ver com o bilhete de encontro do Zodíaco?
– Zodíaco é o vendedor da loja de artigos mágicos – ela disse, impaciente. – Ele conseguiu adquirir uma chave mágica que eu estava procurando, então fez a oferta. O que achou que fosse? Um bilhete amoroso?!
Sim, foi exatamente isso que ele achou que fosse, e tinha motivos para achar, já que as palavras eram bastante insinuantes e gerais, não parecendo nem por um minuto a oferta de um produto. Mas ele não ia admitir em voz alta. Na verdade, não ia falar mais nada. Precisava ir embora.
Lucy ficou extremamente irritada com o silêncio. Nem o olhar esse maldito lhe dirigia! Sempre que o assunto era ele mesmo, o rosado dava um jeito de volta-lo para a loira. Era ridículo, e ela estava cansada disso. Colocou as mãos na cintura, bufando, sem ideia de como ralhar com ele.
E foi aí que percebeu que estava nua.
O tempo todo.
Ela não sabia ao certo se toda a cor de seu rosto lhe tinha fugido, ou se tinha tomado conta de suas bochechas. Que mico estava pagando! Discutindo com o namorado, exigindo respostas, nua.
Natsu pôde dizer exatamente o momento em que a garota notou seu estado de nudez, porque sua respiração quase parou, retornando logo em seguida com uma lufada. Ele tinha perfeita noção de que a Heartfilia esteve esse tempo todo pelada, mas não tinha comentado nada por achar a cena peculiarmente erótica.
Só que ele não podia realizar nenhum avanço sexual – era sua maneira de punir a si mesmo pela noite passada.
– Escuta... – Ele disse, coçando a cabeça, observando-a pegar um lençol e se cobrir. – Eu preciso ir. Happy deve estar morto de preocupação e eu ainda tenho que... falar com a velha Polyushka.
Lucy deu de ombros, de costas para ele. Estava esgotada de exigir uma boa conversa e explicações. Era mesmo melhor ele ir embora agora, assim pelo menos eles não aumentariam o nível da discussão.
– Lucy... – Natsu voltou a dizer, se aproximando. – Você poderia me encontrar na frente da guilda, depois do almoço? Eu... tenho algo a lhe mostrar, e então a gente conversa.
A garota suspirou e, relaxando os ombros, assentiu. O namorado tentou alcançar seus lábios, porém, não conseguindo, depositou um beijo na testa delicada, antes de sair pela janela.
Assim que se viu sozinha, ela se moveu para a lacrima de comunicação que mantinha em cima da mesinha de centro.
~*~*~
– Tá, repete a última parte que você me disse pela lacrima – Levy pediu, concentrada.
Lucy esticou-se na cadeira, mentalmente esgotada.
– Bom, Edo-Natsu disse que, por minha causa, ele é “nada mais que uma massa revoltosa de sentimentos sombrios”.
A azulada assentiu, batucando os dedos nos lábios – uma maneira muito fofa de demonstrar o quanto estava usando o cérebro.
– É claro, agora tudo faz sentido!
Não era lá muito claro para a loira, que, sem acompanhar o raciocínio, perguntou:
– Como assim?
– Tudo faz sentido, não vê? – Ela parecia bastante empolgada. – Você disse que o Natsu tem plena ciência do que o Edo-Natsu faz quando assume o controle do corpo, que ele observa tudo sem poder interferir. Só que isso é estranho. – Agora Lucy foi capaz de acompanhar. Era mesmo estranho. — Nas pesquisas que nós fizemos, quando a pessoa sofre de transtorno dissociativo de identidade, uma personalidade normalmente não se lembra do que a outra faz quando está no controle, é como se sofresse de “apagões”.
– Exato – concordou, lembrando-se muito bem das pesquisas que realizaram juntas.
– Descobrimos também que esse transtorno geralmente está ligado a um trauma. Estávamos supondo que Natsu adquirira essa condição por ter sofrido um trauma muito forte e, para lidar com a situação, acabou criando o Edo-Natsu... – a McGarden voltou a falar. – Mas acho que nós estávamos equivocadas.
– Então você está dizendo que...?
– Estou dizendo que Edo-Natsu não é uma personalidade criada por Natsu, mas sim separada de Natsu – Levy estava tão empolgada com a suposta descoberta que quase convenceu Lucy. Quase. Percebendo a cara de descrença da amiga, resolveu exemplificar. — Para pra pensar: você alguma vez já viu o Natsu ficar extremamente furioso, ou frustrado pra caramba, ou muito chateado, sem ceder o controle pro Edo-Natsu?
A loira chamou em sua mente todos os momentos de fúria, frustração ou chateação extrema que havia presenciado no namorado, e chegou a uma conclusão aterradora:
– Não... Sempre que isso acontece, é o Edo-Natsu que está lá.
– Justamente! – A baixinha bateu palmas, sem poder conter a felicidade pela descoberta, embora a outra não soubesse ao certo o porquê deveria ficar feliz. – Minha opinião é que, por causa da situação que gerou o trauma, Natsu sentiu todas essas emoções negativas, mas não quis, ou não pôde, lidar com elas. Esse desejo ou incapacidade de lidar com elas, o fez isolá-las de si mesmo.
Apesar de incapaz de se sentir feliz com a descoberta perturbadora, mas compreendendo sua importância para entender os atos de Natsu, Lucy colocou os pensamentos em ordem, percebendo aonde Levy queria chegar:
– Só que esses sentimentos não somem assim do nada, principalmente quando são tão fortes...
– Sim, e é aí que surgiu a outra personalidade; uma parte que Natsu renegou de si mesmo, que ele deu um jeito de tirar de sua consciência principal – a azulada opinou, coçando o queixo. — Edo-Natsu é uma personalidade de depósito, onde Natsu joga tudo aquilo que ele não quer sentir.
A maga estelar engoliu em seco, se endireitando na cadeira.
– Se pensarmos assim, faz mesmo sentido ele me dizer que é “uma massa revoltosa de sentimentos sombrios”.
– É, embora eu não saiba o porquê isso seria culpa sua...
Lucy suspirou e cobriu os olhos com a mão. Se Levy, que tinha um Q.I especialmente alto, não conseguia entender porque raios isso seria culpa dela, como ela mesmo poderia saber?
~*~*~
Como combinado, pouco depois do almoço, Lucy parou em frente ao portão da guilda, de braços cruzados. Surpreendentemente não precisou esperar muito, pois Natsu logo apareceu. Ele lhe sorriu tímido, se aproximando com cuidado, como se não soubesse ao certo como agir perante uma Lucy aparentemente apática.
Ela não lhe cumprimentou, nem lhe sorriu de volta, mas não estava agindo assim porque estava brava. Sua irritação tinha sumido tão logo descobrira o segredo por trás do Edo-Natsu.
Agia assim por pensar incansavelmente em um motivo para ela ser a causa da separação do Natsu em Edo-Natsu.
O garoto coçou a nuca, nunca antes se sentindo tão desconfortável com o silêncio, e indicou o caminho por meio da pequena floresta que rodeava a Fairy Tail. Andaram por cerca de dez minutos, e em nenhum momento a maga celestial se perguntou o que o namorado queria lhe mostrar.
Ele parou e pigarreou, chamando sua atenção. Quando ela o fitou, anunciou:
– Bem vinda à... – parou, incerto sobre como continuar a frase. “Bem vinda à minha casa” fazia mais sentido, mas era mais do que isso para ele. Aquele simples lugar, feito de cinco ou seis paredes de madeira, de aparência rústica, era mais como um refúgio.
Onde ele finalmente encontrara segurança após ser deixado por Igneel.
Lucy, percebendo o silêncio constrangido do namorado, analisou com calma o lugar. Estava parada de frente para um chalé simples de madeira, rodeado por grandes árvores, e aparentemente esquecido pelo tempo. A chaminé era redonda e feita de pedras, mas, assim como o telhado, estava coberta por musgos e trepadeiras. Ela já tinha uma ideia de onde se encontrava, mas, por via de dúvidas, leu o que estava escrito em uma plaquinha desgastada:
–... Casa do Natsu e do Happy.
O garoto coçou a cabeça, sem graça, e ela riu suavemente da cena, jogando suas dúvidas e questionamentos sobre Edo-Natsu em uma gaveta secundária em sua mente. Por dentro, a Heartfilia dava cambalhotas. Ele finalmente – finalmente – a havia trazido para conhecer sua casa!
– Vamos entrar – disse, ainda sem graça.
A ansiedade e animação dela eram tanta, que teve que se segurar para não dar um duplo twist carpado até a porta. Quando entrou no chalé, então, teve que se segurar para não sair fuçando em tudo.
Como sabia que ele a observava minunciosamente, manteve a calma e simplesmente passou o olhar ao redor. A casa era composta por apenas três cômodos: um pequeno banheiro, a sala – lugar onde estavam – e a cozinha. A pia estava lotada de louça, e a sala tinha tantas bugigangas que era difícil se concentrar em algo em específico.
– E então, o que achou? – Natsu perguntou, incerto sobre o que pensar do silêncio da loura.
– É um lugar muito... – Lucy tentava achar a palavra ideal para definir o sentimento que aquele ambiente lhe causava.
Ele, entretanto, já tinha uma lista de palavras prontas, que começava com “sujo”, “bagunçado”, e terminava com “entulhado”, “provável de se contrair tétano”. Preferiu, no entanto, sugerir algo mais suave:
–... Pequeno, talvez?
A maga estelar piscou e sorriu.
– Comparado ao meu apartamento, não vejo tanta diferença no tamanho.
– Mas comparado a sua antiga casa... – Lançou, deixando o final da frase no ar.
– O que...? – Confusa, ela franziu as sobrancelhas.
– Ah, qual é, Lucy! – Ele exclamou, indo até a cozinha. – Acha que eu não sei que você é a única herdeira de uma das famílias mais ricas de Fiore?
Como ele sabia, no entanto, era um mistério para ela, que esperou ele fuçar nos armários atrás de comida para se pronunciar:
– Eu sou uma maga da Fairy Tail – disse, como se um título anulasse o outro. – E eu ia dizer “agradável” – desviou os olhos, com o semblante seco.
Natsu mordeu internamente as bochechas, se socando mentalmente pelo modo como abordou o assunto.
– Me desculpe... É que estou nervoso – deu de ombros, rindo sem graça. – É a primeira vez que eu trago alguém ao meu... refúgio.
Ela lhe lançou um olhar duvidoso.
– Wendy nunca veio aqui?
– Bem, sim, mas ela não conta.
Lucy olhou em volta, culposamente satisfeita com a afirmação.
– É aqui que você dorme? – Apontou, então, para uma rede estendida no canto da sala, perto da janela. Ele assentiu. – Não é à toa que você seja apaixonado pela minha cama.
Natsu riu, corado. Passou as mãos pelos cabelos, espetando-os. Ela conhecia esse gesto; era algo que ele fazia quando estava nervoso ou quando ia confessar-lhe algo.
– Sou apaixonado por seu cheiro, não pela cama – informou, recebendo um olhar de descrença. Resolveu então desenvolver sua explicação: — Quer dizer, sua cama é realmente muito confortável, mas eu gosto de dormir lá porque tem o seu cheiro. Você cheira à brisa, limão e morangos. Às vezes você cheira a sol, também.
Dessa vez, foi a Heartfilia quem corou, mas acabou por sorrir. Era realmente muito bom receber esse tipo de elogio de seu amado.
– O seu cheiro também é gostoso – disse-lhe, confiando-lhe algo que manteve até agora em segredo: — É único. Como não tenho um olfato esquisito igual ao seu, nunca consegui definir exatamente do que você tem cheiro, exceto naquela vez... – lembrou-se de quando saiu perseguindo Natsu por Silver Clock. – Eu pude sentir o cheiro de sol em você também, então sei do que você está falando.
Se ele estranhou ou se surpreendeu com o fato de ela ter sido capaz de sentir o cheio de sol — o que olfato normal nenhum conseguia -, não demonstrou. E em vez de contar vantagem sobre o elogio, como sempre fazia quando recebia um, o Dragneel comentou, baixinho:
– Meu pai também cheirava a sol...
Lucy prendeu a respiração. O rosado nunca, nunca, nunca havia falado de seu pai, ou sobre nada tão íntimo assim.
Será que finalmente iriam ter aquela conversa sobre família, ex-namoradas e segundas personalidades malignas, que todo relacionamento precisava ter?
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