Sangue Quente
4 There Is Something About Natsu...
Notas iniciais
Capítulo IV – There Is Something About Natsu...
(Existe Algo Sobre o Natsu...)
.
.
Lucy achou que vermelho pimentão era eufemismo para descrever a cor que se instalara em um piscar de olhos em sua bochecha. Ela sentia seu rosto inteiro arder de vergonha e, veja só, de raiva também. Por uns bons minutos, permaneceu em silêncio, tentando assimilar a cena que tinha bem diante de seus olhos.
A primeira coisa da qual se deu conta foi o cabelo espetado. Rosa. Depois, como quem não quer nada, grudou os olhos no abdome malhado. Certo, aquele era Natsu, sem dúvidas. Ele estava casualmente encostado na parede com um sorriso muito sacana nos lábios, mas o que Lucy custava a crer era nos braços musculosos rodando entre os dedos — nada mais, nada menos que — sua calcinha mais ousada.
Ela não havia percebido que estava segurando a respiração até que a soltou por completo em um grito muito agudo. Natsu largou a peça íntima na gaveta aberta ao seu lado e tapou os ouvidos com as mãos, produzindo uma careta.
– Mas que droga, Lucy, você tem que ser tão barulhenta assim? – Reclamou, seus ouvidos hipersensíveis latejando em protesto.
A maga celestial ignorou o que ele disse como se não tivesse nem escutado e, no estado atual dela — totalmente vermelha, nervosa e arfando -, o Dragon Slayer não descartava tal hipótese.
– O que, apenas o que, você está fazendo aqui? – A garota se controlou para não gritar muito mais alto, seria bem ruim se seus vizinhos começassem a prestar queixas.
O Dragneel se desencostou da parede e observou o quarto tranquilamente. Ele preferia fazer isso a olhar para a figura tentadoramente vermelha e seminua da loira. Céus, ela sequer percebera que estava só de toalha?
– Sabe toda aquela coisa um tanto quanto clichê de “conheça seu inimigo”? – Como tinha uma imaginação muito boa, mentalizou Lucy vestida com as roupas mais masculinas que conhecia só para conseguir olhar para ela e, quando o fez, deu de ombros. – É isso o que estou fazendo.
A Heartfilia piscou, notavelmente confusa. Depois cruzou os braços finos debaixo dos seios grandes que permaneciam precariamente cobertos pelo tecido da toalha – ainda sem perceber que vestia apenas aquilo – e soltou um riso nervoso.
– Mas eu não sou sua inimiga! – A maga exclamou, massageando as têmporas doloridas com indício de uma dor de cabeça e suspirou profundamente. – De qualquer forma, por que está fazendo isso?
A resposta veio sem hesitações:
– Porque o Mestre te pediu pra ficar de olho em mim.
Lucy piscou enquanto a memória do breve encontro com Makarov invadia e tomava conta de sua mente sem permissão.
“- Então, o que acha de entrar pra Fairy Tail?
– Está brincando, não é? – Perguntou, tentando conter certa expectativa.
– Não estou. Se aceitar, no entanto, tenho um pedido a te fazer.
Lucy riu. Um único pedido? Céus, para entrar na Fairy Tail, Makarov podia fazer mil pedidos e ela os realizaria com um sorriso no rosto!
– Claro, qualquer coisa!
– Quero que fique de olho no Natsu, não o deixe sair muito da linha. Já que estava disposta a segui-lo hoje, essa tarefa não deve lhe incomodar tanto, não é?
Mas lhe incomodava. O rosado era muito inconstante, e manter um olho nele seria exaustivo e complicado, só que ela não podia simplesmente dizer isso ao velho. Aquela era sua oportunidade de ouro e jamais abriria mão de fazer parte da guilda de seus sonhos. Então aceitou, acenando com a cabeça.”
– C-Como você... sabia? – Conseguiu se pronunciar após longos segundos, gaguejando o mínimo possível depois de muitas vezes abrindo e fechando a boca.
– Sou um Dragon Slayer – Natsu disse, como se apenas essa frase explicasse tudo. Mas não explicava, pelo menos não para a loira. Notando sua confusão, completou: — Quando quero, posso apurar minha audição.
– E já que eu tenho que ficar de olho em você, resolveu me dar o troco? – Constatou a garota, apoiando as mãos na cintura, ligeiramente descrente.
– Sim – o Dragneel sorriu de orelha a orelha, seus dentes cintilando devido à iluminação do quarto. – Não vou te deixar fora do meu campo de visão. É por isso que, a partir de agora, você e eu formaremos um time.
A Heartfilia escutou uma gargalhada sonora ecoar pelo cômodo, só se tocando depois de algum tempo de que era ela rindo. Achou que ele estava brincando, mas ao observar seu semblante sério, percebeu que não havia piada nenhuma ali.
– Está pretendendo facilitar meu trabalho? – Questionou, achando totalmente sem sentido a decisão dele. Se ela tinha que ficar de olho nele, então formar um time com ele seria o ideal. Para ela.
– Facilitar? – Natsu riu, realmente achando graça. – Muito pelo contrário. Eu vou fazer do seu trabalho um verdadeiro inferno. Vou te fazer desejar nunca ter entrado pra Fairy Tail – fechou as mãos em punhos flamejantes. – Eu nunca facilito para inimigos.
Chocada. Lucy estava definitivamente chocada. Como ele podia ser babaca a esse ponto? Era uma falta de ética danada isso que ele estava fazendo e a loira não tinha feito nada para merecer tal tratamento.
– Exceto que eu não sou sua inimiga, sou sua nakama! – Sem pensar muito no que fazia, mostrou a ele as costas de sua mão na qual a tatuagem da guilda estava gravada.
Quando os olhos de Natsu pousaram na marca da Fairy Tail da garota, ele não conseguiu evitar o sorriso que lentamente abriu caminho por seus lábios. Estava feliz. Sim, inexplicavelmente, seu íntimo estava agitado e exultante. Achando isso ridículo, fez força para transformar o sorriso em algo mais malicioso.
– Oh, é minha nakama sim, mas me parece que quer ser mais do que isso.
Que o Dragon Slayer de fogo era um filho da puta, Lucy não tinha dúvidas. Sabia que ele iria comentar algo do tipo, havia sido burra e impulsiva ao mostrar-lhe a marca — mais precisamente sua cor – e agora arcava com as provocações.
– Não pense que é rosa porque eu estou remotamente interessada em você. Na verdade, eu percebi que rosa fica muito bem com o meu tom de pele. Sim, e eu gosto muitíssimo de rosa – isso era mentira; sua cor favorita era vermelha. Nunca achou muita graça no rosa, pra falar a verdade, mas Natsu definitivamente não precisava saber disso.
– Ah, eu posso ver como você gosta de rosa, Lucy – o Dragneel comentou, fuçando novamente na gaveta ao seu lado e retirando de dentro dela uma peça íntima em um tom rosado. De maneira muito sacana, ele a levou até as narinas e cheirou.
Lucy, assim como sua percepção de mundo, congelou. Um, dois segundos, mas pareciam horas. De seu interior, uma raiva espumante brotou da imensa vergonha e constrangimento. Não conseguia nem respirar direito. Tudo o que fez foi voar para cima de Natsu enquanto gritava para ele soltar a calcinha.
O mago não esperava realmente por aquela reação e, quando sentiu os socos da loira contra seu peito, deu alguns passos cambaleantes para trás. Os golpes não doíam, mas ele agia por reflexo. De repente, sentiu a cama bater por detrás dos seus joelhos e, perdendo o equilíbrio, caiu deitado no colchão, trazendo Lucy consigo.
Durante a queda, ambos fecharam os olhos. Por instinto, Natsu envolveu a cintura da garota de maneira protetora, e ela não protestou. Eles abriram os olhos e fitaram os orbes um do outro, assimilando a sequência de acontecimentos. Um longo minuto silencioso se passou e o rosado não saberia dizer o que estava mais macio: o colchão em suas costas ou aquilo que estava apoiado exatamente sobre de seu peito. Intrigado com a maciez, olhou para baixo, entre seus corpos colados.
A loira seguiu seu olhar, observando que a toalha na qual estava vestida havia descido e aberto, deixando seus seios fartos totalmente prensados no peitoral duro e definido do Dragneel. Piscou enquanto o constrangimento a tomava com uma voadora na cara.
Gritou. O mais alto que podia.
Levantou-se mais que rapidamente e se enrolou fortemente na toalha, se encolhendo no meio do quarto. Mais uma vez havia sido burra e impulsiva, e agora teria que arcar com as provocações – de novo. Sim, porque não havia modos de sair dessa situação sem receber ao menos uma alfinetada de teor erótico do rosado.
Ela o conhecia bem o suficiente para saber disso.
Porém, contrariando todas as suas expectativas, Natsu virou o rosto para a parede, respeitando seu momento e depois se levantou, ficando de costas para ela.
– N-Não esqueça de estar amanhã bem cedo na guilda, vamos escolher um trabalho – e, dito isso, o Dragon Slayer passou pela cama e pulou habilmente através da janela, sumindo na noite estrelada.
Aparentemente, Lucy não o conhecia tão bem assim.
Porque, afinal, era impressão sua ou... Natsu havia mesmo gaguejado? E aquilo no rosto dele, logo antes de ir embora, eram bochechas coradas?
.
~*~*~
.
Na manhã seguinte, a Heartfilia fez força para levantar; estava acabada. Depois que o Dragneel havia ido embora ao início da noite, tudo o que ela conseguiu fazer foi rodar initerruptamente na cama como se fosse um espetinho assando. Durante a noite inteira. Não conseguira sequer pregar os olhos e, quando a claridade começou a dar as caras pela janela e o despertador tocou insolente, Lucy tê-lo arremessado contra a parede não foi nenhuma surpresa.
Arrastou-se para fora da cama junto com a coberta, entrando em um breve estado catatônico enquanto fitava o tapete felpudo aos seus pés. Inspirou e expirou, rastejando até o banheiro e largando o pijama pelo caminho.
O banho ajudou a garota a recobrar o ânimo, mas quando foi selecionar a roupa que vestiria, estancou. A calcinha rosa ainda estava onde caíra noite passada, no pé da cama. Apenas a visão daquela peça fez com que ela despertasse totalmente e se enchesse de vergonha.
“Droga”, reclamou. “Isso é inaceitável!”.
E realmente era. As ações daquele maldito Dragon Slayer não podiam afeta-la tanto assim, era ridículo! E daí que ele vira e mexera em suas calcinhas? Ela não precisava dar um chilique por causa disso. Nas lojas, por exemplo, quase todo mundo via as calcinhas à venda e alguns até mexiam!
“Sem chilique”.
Mas o problema, ela sabia, não estava aí. Havia algo de muito íntimo em ter um homem cheirando sua calcinha, ela achou, por mais estranho ou pervertido que fosse. E não foi só isso. Seus seios haviam entrado em contato direto com a pele quente de Natsu, e tal acontecimento matava-a de vergonha porque, na verdade, ela tinha gostado da sensação.
“Mas ele não sabe disso!” exclamou uma parte de sua mente. O mago não sabia o que ela havia sentindo, nem tinha como ter percebido porque ele mal olhara pra ela.
“Sim, vitória!”.
.
~*~*~
.
Naquela manhã, Happy estava achando o comportamento de Natsu algo muito estranho. Ele estava aéreo, distraído, desligado. Seu parceiro normalmente era hiperativo, animado e estava sempre pronto para entrar em uma briga, no entanto, quando chegara à guilda mais cedo do que o costume e recebera uma provocação explícita de Gray, nada fizera; ele apenas piscou os olhos, como se visse através do moreno e assentiu.
Natsu Dragneel assentiu para uma provocação!
Aquilo era inédito.
– Natsu... Está tudo bem? – O gato perguntou com genuína preocupação.
“Não.” o rosado quis dizer “Não está.” Não havia conseguido dormir direito porque ficara pensando em certos acontecimentos da noite passada e rolara na cama, inquieto. Não que fosse admitir isso para Happy, nem para ninguém.
Limitou-se a acenar com a cabeça, mas o resultado estava ali: parecia um zumbi. O exceed, crendo que nada tiraria o rosado do estranho estado no qual se encontrava, suspirou e sentou em um dos banquinhos do bar, observando seu parceiro fitar insistentemente o teto.
E então, de repente, tudo pareceu mudar. Lucy entrou de maneira determinada pelas portas da guilda e, sem nem dispensar um olhar para os lados, rumou direto para o quadro de pedidos. Ela passou os dedos pelos panfletos pregueados no mural e escolheu o último da direita, levando-o consigo na direção do Dragneel.
Ele parecia mais acordado quando a Heartfilia enfiou o panfleto em sua cara e disse em tom de voz alto:
– Esse é o pedido que eu quero, vamos, mexa-se.
Natsu piscou, parecendo ganhar um pouco de vida perante a atitude autoritária de Lucy. Ele parecia até aliviado. Happy estranhou, mas decidiu não questionar; aquilo era algo entre os dois. Abrindo as asas, sobrevoou a cabeleira rosada e pousou ao seu lado no chão.
– Aye, sir!
.
~*~*~
.
Tinha algo de muito engraçado em ver o todo poderoso Natsu Dragneel, Cão número um do Conselho, tão enjoado no trem ao ponto de quase colocar seu estômago, fígado e tripas para fora. Ele tentava falar algo, ou então provoca-la, mas simplesmente parava na metade da frase, se segurando fortemente para não vomitar.
E Lucy? Oh, ela só ria, achando o mundo um lugar justo porque, de qualquer forma, isso parecia um castigo por todas as atitudes bestas que Natsu tomara; como, por exemplo, invadir seu apartamento e fuçar em sua gaveta de calcinhas.
Happy já não compartilhava de sua opinião. Como um bom amigo sarrista, sim, ele achava certa graça na cena deplorável que o parceiro protagonizava, mas até certo ponto apenas; Natsu estava mal há mais de meia hora e o gato estava começando a ficar com dó.
A missão que a Heartfilia escolhera era em Clover Town, uma cidadezinha pequena ao sul de Magnólia, situada em uma área montanhosa cercada por florestas. Duas horas de viagem em um trem; um dos piores pesadelos do Dragon Slayer.
– Lucy, ajude o Natsu – implorou o exceed, fazendo uma carinha especial de pedinte.
Ela soltou um riso um tanto quanto arrogante – deem uma folga para ela, Natsu merecia! – e balançou os cabelos, fazendo pose.
– Está vendo isso, Natsu? Eu, Lucy Heartfilia, a maga mais bacana e bondosa de Fiore, vai te ajudar, mesmo você sendo um filho da mãe – o mago ainda tentou manda-la à merda, sem sucesso, é claro, e Lucy se voltou para Happy: — Então, o que posso fazer?
O parceiro do Dragon Slayer de fogo pensou por um momento, depois disse:
– Erza costuma prensa-lo contra o peito para deixa-lo inconsciente, assim, oh – realizou o movimento com as mãos, indicando como deveria ser feito.
Lucy assentiu e, como era inocente demais, não viu malícia na situação. Pegou a cabeça de Natsu nas mãos e o puxou repentinamente e com força contra seu peito, encaixando o rosto masculino entre os montes sedosos. O garoto pareceu gemer surpreso, mas satisfeito, e quando a loira percebeu que o plano não havia dado certo e que ele ainda estava acordado, pôde ouvir Happy produzir um risinho sacana. O gato azul havia se esquecido de comentar – de propósito, diga-se de passagem — que Erza conseguia deixa-lo inconsciente com tal movimento porque ela vestia uma armadura.
– Pervertido! — Mais vermelha que o tom dos cabelos da Scarlet, a Heartfilia puxou Natsu pelos fios rosados e o empurrou, batendo com força a cabeça do pobre mago contra a janela da cabine na qual se encontravam. O resultado foi imediato: Natsu perdeu a consciência e caiu duro e pesado no colo da loira.
Happy parou de rir na hora, mas nunca desfez o sorriso do rosto.
– Desse jeito também resolve, Lucy-ogra.
A maga celestial ficou sem reação, ligeiramente assustada com o que tinha acabado de fazer, tanto que nem atinou para o apelido cretino que recebera. Natsu repousava com o rosto em suas pernas e respirava compassadamente, parecendo sereno. Havia algo sobre o mago desacordado, de maneira quase vulnerável, que atiçava seus instintos maternos e a fazia ter uma vontade louca que afaga-lo, velar seu sono.
Corou. Ela não costumava sentir esse tipo de coisas. Não costumava corar com frequência também. Olhou em volta ao notar o silêncio que se instalara na cabine e encontrara Happy adormecido no banco à frente, foi então que percebeu que passara minutos na mesma posição, em seu estranho estado contemplativo.
Desistindo de lutar contra seus impulsos mais profundos, Lucy pousou as mãos sobre as madeixas rosadas e as acariciou, cedendo logo em seguida ao sono avassalador que reivindicava sua consciência desde que “acordara” de sua noite mal dormida.
Havia algo sobre Natsu... que a fazia sentir-se diferente.
Fale com o autor