Sangue Quente
5 I Just Get That Feeling
Notas iniciais
Capítulo V – I Just Get That Feeling
(Eu Só Tenho Aquela Sensação)
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O barulho estrondoso de algo parecido com um rugido ecoou dolorido em seus ouvidos, então sua primeira reação foi levar as mãos até eles, mas se conteve; Lucy estava sonhando e sabia disso. Quando sonhava, ela tinha aquele estranho sentimento de liberdade, como se fosse voar apenas tirando os pés do chão.
No entanto, naquele sonho em específico, ela não conseguia voar. E, sinceramente, ela nem tinha vontade de conseguir no momento. Não com aqueles... lagartos estranhos infestando o céu tingido de vermelho, antes azul.
“O que eu faço?” perguntou mentalmente. “Estou com medo”. Era a primeira vez, desde a infância, que sentia medo em um sonho, no entanto, Lucy sabia que aquele não era um pesadelo normal. Era real demais. Frio demais.
Um dos lagartos esquisitos cobriu a luz do sol com suas asas imensas e a garota tremeu, cedendo ao estranho instinto de chamar por Natsu. Era estranho, sim, mas ela não se culpava. Se estava frio, bem, então nada melhor do que trazer um pouco de calor para este lugar, certo?
Enchendo a boca, a Heartfilia chamou pelo rosado uma, duas, três vezes. Quando estava prestes a perder a esperança, ele apareceu bem ali, na sua frente, e sorriu. Não era seu famoso esgar de lábios sacana, nem maldoso, nem nada do tipo. Era o mais caloroso e confortante sorriso que Lucy já viu.
– Estou aqui, Luce, vê? – Natsu estendeu-lhe a mão e a maga estelar achou que fosse derreter em lágrimas doces quando ouviu o apelido carinhoso. Sem pensar duas vezes, agarrou a mão oferecida. – Não precisa ter medo.
A loira fungou, aliviada, e só aí percebeu seu rosto molhado; esteve chorando por todo esse tempo. Natsu a fitou por alguns segundos, o que ocasionou um leve rubor na face feminina. O garoto se aproximou de seu rosto e, em um ato totalmente inesperado, capturou os lábios entreabertos com os seus próprios.
Não foi nenhum beijo de cinema, nem nada de muito espetacular; apenas um tocar de lábios. Foi o suficiente para fazer a alma de Lucy se aquecer e seu coração bater descompassado no peito.
Nada mais estava fora do lugar: era como se Natsu beijá-la fosse natural, ideal, correto. Como se ele já tivesse feito isso antes. Como se ele fosse fazer isso para sempre.
Por que estava sentindo esse tipo de coisa agora?
O barulho estrondoso tal como um rugido soou novamente, mas ela já não estava mais com medo.
Lucy fez força e abriu os olhos, despertando do pesadelo. Coçou os olhos e se espreguiçou, então olhou em volta. Ainda estava na cabine, sentada de maneira relaxada, e não demorou muito pra notar que o “rugido” do seu sonho era simplesmente o apito do trem, indicando que tinham chego ao destino.
Happy estava com as patas cruzadas, sentado na ponta do banco da frente. Possuía um olhar reprovador direcionado para o parceiro sentado à direita de Lucy. Quando observou a feição fechada que o rosado mantinha no rosto, piscou abobada.
Ele era muito bonito, mesmo emburrado, formando um discreto biquinho com os lábios. Aqueles lábios... De repente tão convidativos... Ela podia jurar que o fitara por horas, mas foram apenas alguns segundos, então se lembrou do desfecho de seu sonho e lá estava o rubor plantado em suas bochechas com força total.
O clima na cabine estava tenso entre o gato e o mago, o que fez seu constrangimento evaporar quase que instantaneamente. Olhando de um para o outro, decidiu perguntar:
– Certo... Perdi alguma coisa?
Silêncio. Nenhum dos dois respondeu, ocupados demais travando uma batalha muda de olhares feios. Crispou os lábios e esperou, achando que hora ou outra Natsu dirigiria um tipo de provocação para ela e então tudo estaria de volta aos conformes.
Para sua surpresa, todavia, quem se pronunciara foi o exceed.
– Oh, perdeu. Muitas coisas. Gostaria de saber o que perdeu, Lucy? – A garota não pôde deixar de notar o tom claro de ameaça direcionado ao rosado na voz do gato. Era como se estivesse o desafiando...
– Não pense em dizer nada a ela, Happy, ou então as coisas entre nós vão ficar feias! – Natsu rosnou, se inclinando para o meio da cabine e apertando o estofado do banco com as mãos.
Lucy já nem tinha mais vontade de saber o que estava acontecendo, só queria que os dois parassem com isso. Não os conhecia há muito tempo, certo, mas tinha uma vaga sensação de que os dois nunca tinham brigado. O Dragneel se levantou e escancarou a porta da cabine, deixando os nakamas para trás em um mero piscar de olhos.
– O que...? – A maga estelar balbuciou.
– Parece que Natsu ainda está fortemente preso ao passado — Happy suspirou. De um modo distorcido, ele não podia estar mais certo.
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Era por volta da hora do almoço, mas Clover Town não estava com suas ruas cheias. Não era algo estranho, todavia, porque, como dito antes, a cidade era pequena. Teriam que pegar informações na taverna mais popular de lá — a única que havia, na verdade.
Natsu parara de trocar olhares raivosos com Happy quando o grupo foi se encontrar com o contratante dos seus serviços. Lucy ainda não sabia o que havia acontecido para os dois brigarem, mas em face ao pedido do contratante, sua curiosidade ficara em segundo plano.
Quem tinha requisitado o trabalho dos magos era o senhor Bennett, o homem mais rico de toda Clover Town. Ele estava desesperado. Sua filha, a amada Camille, havia sumido logo após sair de sua aula de piano, há dois dias. Ele colocara seus guardas particulares para participar da busca em conjunto com a pequena guarda municipal, mas não obtivera sequer um mísero sinal da garota.
Os olhos de Lucy brilharam com inveja discutível. Digamos que se ela estivesse desaparecida, seu pai dificilmente moveria um dedo para encontra-la, ele simplesmente não tinha interesse nela. Ela sabia, já havia comprovado isso. Quando menor, achou que esse era um comportamento comum às pessoas ricas, mas aí estava o senhor Bennett para jogar no meio de sua fuça que existiam sim pais ricos que se preocupavam com as filhas.
“Nós vamos encontra-la, senhor” foi o que Lucy disse, e ela se esforçaria como nunca para que isso acontecesse.
Quando o sol estava a pino, o grupo entrou na famosa Bloody Shot. Era um estabelecimento enfiado na penumbra — como toda taverna o era – e cheirava à madeira e bebidas. Como parte do plano, Natsu foi para as mesas de sinuca mágica, e Happy e Lucy se dirigiram ao balcão do bar, no centro.
A maga celestial ocupou uma das banquetas e o exceed sentou-se ao seu lado, não tendo que esperar muito tempo para serem atendidos. O barman, que enxugava um copo com um pano de prato, se aproximou da loira pelo outro lado do balcão e lhe sorriu galante.
– Belo gato – comentou.
– Obrigado – o próprio Happy respondeu, assustando o barman. Exceeds não eram exatamente a coisa mais comum por aí.
– O que posso lhe servir? – Perguntou, recuperando a compostura e terminando de secar o copo, pegando outro.
– Saquê, por favor.
O homem piscou, depois franziu a sobrancelha.
– Pretende beber sozinha?
Lucy forçou um biquinho decepcionado a se formar em seus lábios, suspirou e apoiou o queixo em uma das mãos; tudo parte da encenação, que, até agora, estava dando certo.
– Bem, sim, estou desacompanhada hoje, mas tudo pode mudar se você me disser onde posso encontrar Eru Hikari... – Sugeriu inocentemente.
A mudança na postura do homem foi imediata. Ele se retesou e se afastou alguns passos, pegando o necessário para servir a ela seu saquê.
– Em sua escola de música, é claro.
Desenhando círculos com os dedos no balcão da taverna, Lucy se segurou para não agarrar o barman pela gola da camisa. Ela e seu grupo já haviam ido a tal escola de música, na verdade, fora o primeiro lugar que eles visitaram. Era o esperado, já que Eru Hikari provavelmente fora a última pessoa a ver Camille Bennett. O único problema é que o professor de piano não aparecera para trabalhar hoje e ninguém, absolutamente ninguém, parecia saber onde ele morava.
O que tornava tudo muito suspeito.
A dica de que Hikari frequentava a taverna Bloody Shot veio da secretária da escola de música, que estava muito abalada com o sumiço de Camille. A mulher dissera também que o barman era uma pessoa com muitas conexões, sempre por dentro dos boatos, e que se fosse pressionado, poderia ceder a informação desejada.
– Ele não veio trabalhar hoje e eu queria fazer uma visita mais... pessoal – a loura balançou os cílios, tentando ser persuasiva. – Você, por acaso, não saberia onde ele mora, não é?
Ele pareceu nervoso, quase suando frio, tanto que começou a esfregar os copos de maneira quase compulsiva. Lucy sabia que estava chegando a algum resultado.
– Eu não... aconselho a senhorita a encontrar com o senhor Hikari na casa dele.
“Ahá, aí está! Ele sabe onde esse professorzinho suspeito mora!” comemorou internamente, exibindo um leve esgar de lábios – movimento que ela aprendeu após observar muitas vezes os sorrisos sacanas de Natsu. “Só preciso ser um pouco mais persuasiva”.
Inclinando-se um pouco sobre o balcão, Lucy apostou no poder de seus seios. Sabia projetá-los para cima quando apoiados a uma superfície e fazer com que eles parecessem a ponto de pular para fora da roupa. O decote, é claro, ajudava. Pôde ver os olhos do barman ficarem fora de foco por um momento e então fixarem-se em seu busto, salivando. Ele estendeu as mãos em reflexo, como se ponderasse se seria capaz de apalpá-los.
Lucy nunca descobriu se o homem era tão audacioso a esse ponto; Natsu surgira do além e o agarrara pelo colarinho da camisa, prensando-o contra a parede atrás do bar. A maga se assustou e se levantou apressada, derrubando o copo de saquê e o banquinho no qual sentava.
– O que está fazendo, Natsu-idiota? – Ela parecia como se estivesse prestes a voar no rosado. Happy segurou a barra de sua blusa, só por precaução.
– Arrancando a informação que você não conseguiu desse infeliz, Lucy-ogra – suas feições estavam fechadas, estava furioso. Então se voltou novamente para o homem que mantinha contra a parede: — Vamos, nos diga onde Eru Hikari mora ou queime até as cinzas, bastardo!
As pessoas que estavam na taverna – não eram muitas, na verdade – se levantaram em polvorosa quando o punho direito de Natsu foi envolto por chamas. O barman, coagido e temendo o pior, tratou logo de cuspir a informação:
– N-No início da floresta Good Seed, a d-dez minutos da fronteira da cidade. Por favor, não me m-mate! – Implorou o pobre homem.
O Dragneel não foi capaz de sorrir por ter conseguido o que queria, mas imediatamente largou o homem no chão e pulou o balcão, parando ao lado de Lucy. Sem dizer nada, enganchou seu braço no dela e a puxou para a porta dos fundos da taverna com Happy em suas costas.
– Que merda aconteceu ali?! – Gritou a Heartfilia, furiosa. Quando saíram do estabelecimento, deu um puxão com o braço e se livrou do aperto do Dragon Slayer, parando para encará-lo com as mãos na cintura fina. – Eu estava quase seduzindo o cara, ele ia ceder a informação pra mim!
Natsu rolou os olhos e bufou muito irritado.
– Exatamente! Depois de o que, duas horas? – O rosado estava exagerando, ela sabia. Não fazia nem meia hora que tinham entrado na Bloody Shot! – Até Gray, que tem o nível de sex appeal igual ao de uma capivara, conseguiria seduzir o cara em menos tempo e obter a informação. Cansei de esperar, então resolvi assumir o rumo da missão.
Happy escolheu esse momento para entrar na discussão calorosa, jogando ainda mais lenha na fogueira do Dragneel:
– Ah, vamos lá, Natsu, conte a ela o verdadeiro motivo pelo qual você interferiu! Não vale dizer que foi porque ficou entediado de esperar em uma taverna jogando sinuca mágica.
Os olhos castanho-cinzentos se franziram perigosamente e ele fechou as mãos em punhos ao lado do corpo, parecia fazer uma força imensa para não avançar no parceiro. Natsu parecia especialmente irritado e mal humorado naquela tarde.
– Cala a boca, Happy! Apenas... Cala a boca!
– Parem, vocês dois! – Lucy exigiu, vermelha de raiva. Era como se a raiva do rosado fosse combustível para a sua própria.
Subitamente em silêncio, os três se encararam. Estavam ofegantes e projetavam suas presenças uns nos outros em uma provocação não tão voluntária assim. Pareciam prontos para entrarem em uma briga de puxões de cabelos, dedos nos olhos e mordidas no nariz a qualquer momento.
Minutos depois, ainda com todos naquela mesma posição, Natsu encolheu os ombros e suspirou, desviando o olhar e fitando o chão, ligeiramente corado. Sem entender muita coisa, Lucy o viu despir-se do colete escuro que usava e entregar tal peça a ela.
Distraída com o físico do Dragon Slayer de dar água na boca, não pensou muito em suas ações e apertou com força o colete em suas mãos. Happy não tinha os olhos arregalados como achou que fosse ter, mas também não os desgrudou da cena que se desenrolava diante dele.
– Vista isso. Seu decote está... – Havia muitas coisas que Natsu gostaria de dizer para completar essa frase. “Tirando minha concentração”, “me fazendo salivar” e “me deixando louco de tesão” eram algumas delas. No entanto, como o bom tsundere que era, disse: — ...muito vulgar e é feio para uma garota como você andar desse jei-
Poft foi o som do soco que Lucy dera no rosto do mago, impedindo-o de concluir sua fala. Dizer que ela era vulgar era o mesmo que destruir o pote de sorvete de Erza: inaceitável, imperdoável, digno de porrada.
O gato azul, que até agora estava apreensivo com o rumo da situação, soltou um riso divertido, cobrindo a boca com as patas tardiamente. Como estava puto com Natsu, vê-lo apanhar sempre aliviava seu humor.
– E esse foi o famoso gancho de direita da Lucy.
– Eu não vou vestir isso – comunicou a garota, pegando fogo com a raiva recém-acesa. Jogou com força o colete no peito do rosado e trincou os dentes, apontando para ele. – E você devia vesti-lo novamente, não sou obrigada a ficar olhando para essa sua barriga flácida!
Happy olhou de relance para o parceiro enquanto seguia uma Lucy que se distanciava a caminho da tal floresta Good Seed pisando duro. O Dragneel havia arregalado os olhos ligeiramente, apalpando o próprio abdome malhado, chocado com a declaração da garota.
Não tinha interesse nenhum nela – tá certo, continue pensando assim que talvez você se convença! -, mas ter seu tanquinho criticado e ofendido havia chutado pra valer seu ego masculino.
“Lucy Heartfilia, você vai pagar em dobro por isso”.
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