Sangue Quente
17 The Shadows' Whisper
Notas iniciais
Capítulo XVII – The Shadows’ Whisper
(O Sussurro das Sombras)
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Com um suspiro prolongado, Lucy deixou-se cair sentada em um dos banquinhos e apoiou descuidadamente a testa no mármore branco do balcão da guilda. Soltando mais um suspiro, fez força para conter o impulso de bater a cabeça contra o móvel.
Mas que droga! Por que diabos não conseguia deixar o assunto “Lisanna” de lado, como tinha prometido a si mesma fazer? Descobrir mais sobre a misteriosa garota estava tomando a maior parte de seu dia e de suas ações, quando na verdade ela deveria estar focando seus esforços na realização de qualquer trabalho que pagasse o aluguel nesse final de mês.
O problema era que todo esse mistério era como uma corda muito resistente que amarrava impiedosamente sua atenção e curiosidade. Após ter saído do armazém trancado, há cinco dias, não perdera tempo em começar com sua pequena pesquisa de campo; primeiro perguntou a Droy sobre a menina e, após alguma relutância, recebeu a última resposta que queria: “É um tabu falar sobre ela, mas se realmente quer saber algo, acho melhor você perguntar para o Natsu”.
De primeira, a resposta não a aborreceu tanto assim. O que a tirou verdadeiramente do sério foi receber mais dez respostas semelhantes de outros membros da guilda. Então, juntando todas as informações coletadas, chegou à conclusão de que sabia apenas o que Levy lhe contara, que era o nome da menina e que ela foi alguém da Fairy Tail.
Vendo-se sem saída e incapaz de deixar para lá, decidiu finalmente perguntar ao Natsu, como todo mundo sugerira. “Oh, ela é minha amiga” ele tinha dito. Simples e direto, como quase tudo o que ele dizia. Quando estava prestes a pedir que ele desenvolvesse o assunto, porque aquela frase não esclarecia muita coisa, ela se viu subitamente presa entre os braços sarados do namorado, recebendo carícias indecentes que simplesmente não podia ignorar.
E assim a semana passou, sem novas descobertas. E não era por falta de esforço. Agora ali, com a cabeça jogada no balcão e o corpo em posição de derrota, não pôde deixar de analisar sua situação. Então certo, uma pessoa normal daria o assunto por encerrado logo após receber a resposta inocente de Natsu.
Só que Lucy não era exatamente uma pessoa normal.
Não, sua mente trabalhava em uma outra frequência. Bem verdade que não possuía o maior dos Q.I, mas exercitava bastante seu cérebro com suas leituras. Fosse o que fosse, Lucy notou certa incoerência em tudo aquilo: se Lisanna era um tabu, porque os membros da guilda mandavam-na perguntar sobre ela ao seu namorado? E pra quê tanto mistério para no fim Natsu simplesmente dizer “ela é minha amiga”?
– Você parece frustrada – comentou uma voz suave e agradável do outro lado do balcão.
Saindo de seus devaneios, a loira ergueu a cabeça e identificou o rosto sereno de Mirajane. Ajeitando melhor sua posição sentada, fez uma careta.
– Acho que eu não estou disfarçando muito bem, né?
– É, não muito, mas se te serve de consolo, a guilda está praticamente vazia – Mira deu de ombros e Lucy forçou um sorriso. – Vamos lá, o que aconteceu?
A Heartfilia tirou a maldita foto ligeiramente queimada do bolso e a deslizou pela superfície do mármore, deixando-a ao alcance dos olhos da albina.
– Isso aconteceu – disse, apoiando a cabeça nos braços.
– De onde... De onde veio essa foto? – Mira perguntou com a face assombrada, detalhe que passou despercebido pela colega de guilda.
– De uma caixinha dentro do armazém – fez um gesto de descaso com as mãos, indicando que o grande problema não era o lugar do achado. – A questão é: por que raios eu não consigo saber quase nada sobre essa tal de Lisanna na foto? Todo mundo diz que é um maldito tabu falar nela, mas ah, “pergunta pro Natsu”!
A maga de rank S coçou e piscou os olhos para disfarçar a crescente umidade neles, deslizando a foto de volta para Lucy.
– E você perguntou para o Natsu? – Quis saber.
– Sim – ela desabafou, alisando as sobrancelhas com os dedos em um gesto de nervosismo. – Ele respondeu algo bem simples; tanto estardalhaço pra pouca coisa. E é justamente isso que me deixa frustrada! Pra que tabu se a resposta é algo tão simplório? E não pense você que eu não notei a incoerência no tempo verbal – apontou, tentando não mostrar tanta irritação quanto sentia. – Quando questionei Levy sobre a garota, ela disse “Lisanna era um membro da Fairy Tail”, mas Natsu disse “Ah, Lisanna é minha amiga”.
Mirajane pegou alguns copos da pia e começou a secá-los lentamente enquanto o silêncio pelo término da sentença da outra reinava. Sorrindo nostálgica, disse:
– Acho que posso ajuda-la a esclarecer esse mistério. Lisanna Strauss era, realmente, um membro da guilda, assim como era bastante amiga de Natsu e...
– Espera um minuto – Lucy a cortou gentilmente. – “Strauss”, você disse? Isso quer dizer então que ela...
– Sim, ela era minha irmã mais nova.
– “Era”? – Frisou.
– Lisanna está morta, Lucy – os olhos de Mirajane marejaram, mas nenhuma lágrima escorreu.
A loura arregalou o olhar e suas sobrancelhas subiram até quase seu couro cabeludo. Sua boca gradativamente se abriu em choque e surpresa, enquanto uma de suas mãos a tapou.
– Meu Deus, Mira, eu... Eu não sabia! – Gaguejou, fitando em volta sem saber o que fazer. – Eu... Oh, caramba, eu sinto muito. Fui tão indelicada!
A Strauss mais velha alcançou a outra mão de Lucy, que repousava em cima do balcão, e a concedeu uns tapinhas de conforto. O sorriso gentil, mas nostálgico, não deixou seus lábios finos em nenhum momento.
– Não tem problema, minha querida. Você não tinha como saber mesmo – disse, voltando a secar os copos. – O pessoal da guilda acha que falar sobre ela me deixa chateada, por isso estabeleceram o tabu. A verdade é que eu gosto de falar dela, assim mantenho viva sua memória.
A maga celestial assentiu com a cabeça, ainda com a expressão um pouco surpresa e pesarosa. A maneira com a qual abordou o assunto fora realmente rude, e agora conseguia entender o porquê o resto da guilda tratava a morte de Lisanna como um tabu, apesar de ser errado.
– Se me permite perguntar... – a loira começou, hesitante. – Como aconteceu?
O questionamento fora bastante vago, mas ela sabia que a albina entenderia. A mulher levou alguns minutos para falar, mas quando abriu a boca, sua voz estava firme.
– Ela saiu em sua primeira missão com Natsu. Era bem simples, como achar um objeto que estava perdido. Tudo ia bem, até que no meio do caminho eles foram atacados. Natsu deu conta do problema, mas quando percebeu, um dos atacantes escapara de sua posse e atacou minha irmã, empurrando-a de um penhasco.
– Eu sinto muito mesmo – ela disse, sorrindo solidária para a amiga.
– Já faz cinco anos e meio. Não digo que superei – Mira confidenciou-lhe –, mas já não dói tanto como antes.
Lucy assentiu, absorvendo a história trágica. Devia ser por isso que o Dragneel não havia conseguido queimar por completo a foto deles juntos, afinal, como destruir o que pode ser sua única lembrança de uma amiga? Estava pronta para engavetar o mistério – agora resolvido – de Lisanna quando teve um sobressalto.
– Espera um minuto, Mira – a Heartfilia levantou-se, prostrando as mãos sobre o balcão, a cabeça girando em confusão. – Você disse que Lisanna... bem, que ela não está mais conosco... Então porque raios o Natsu disse que ela é amiga dele? Eu não estou enganada, ele usou o tempo presente para responder.
A Strauss mordeu o lábio inferior e olhou fixamente para o montinho de copos secos que havia separado.
– Natsu acha que... Lisanna ainda está viva.
O choque e a confusão fizeram a cabeça de Lucy girar ainda mais forte.
– Ele... Como assim?!
– O corpo de Lisanna nunca foi encontrado – a maga take over explicou. – Ele acredita que ela foi sequestrada, ou algo do tipo, mas que ainda está viva. Eu tento não pensar muito nessa hipótese, mas a esperança é sempre a última que morre, não é mesmo?
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Lucy saiu atrasada da guilda naquele começo de tarde. Ela tinha combinado com Natsu de se encontrarem em um restaurante no centro da cidade para almoçarem, mas a conversa com Mirajane fluíra de tal maneira que ela nem viu a hora passando.
Só esperava, do fundo do coração, que o rosado não tivesse comido o restaurante inteiro, porque ele devia estar com fome e irritado. E, convenhamos, um Natsu com fome e irritado era bastante capaz de comer até mesmo a construção.
Apertando o passo pela rua central de Magnólia, Lucy ouviu alguém sussurrar seu nome. Surpresa, parou imediatamente, observando os arredores. Como era possível ela ouvir um chamado tão baixinho e discreto como aquele, em uma rua tão movimentada e barulhenta?
Novamente ouviu o sussurro, notando que o tal vinha de um beco ao lado, que estava estranhamente escuro e sem movimentação. A garota logo se viu caminhando em direção ao som, completamente incapaz de resistir ao chamado.
“Lucy” a voz entoava sedutora, hipnótica.
Ela deu dois passos para dentro do beco escuro, procurando com os olhos a origem do sussurro. Deixou cair a bolsa no chão. Olhou fixamente um ponto ainda mais escuro entre as paredes, esticando lentamente a mão, como se tentasse tocá-lo.
“Venha, Lucy” aquela estranha escuridão voltou a sussurrar. “Venha”.
Em algum lugar de sua mente, a Heartfilia não queria ir. No entanto, seu corpo se recusava a se mexer na direção oposta. Quando a ponta de seus dedos estava à milímetros do ponto mais escuro, um gato negro saiu de trás de uma caçamba de lixo e se atirou por entre as pernas da maga celestial, chiando alto, tirando-a do transe em que se encontrava.
Ela piscou uma, duas vezes, até reparar que estava sozinha no beco, não mais ouvindo o sussurro. Achando ser coisa de sua cabeça, Lucy abaixou-se, pegou sua bolsa do chão e correu em direção à rua central, amaldiçoando-se por perder tempo com bobagens quando estava tão atrasada.
Natsu iria matá-la pela demora!
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Natsu devia estar de bom humor. De verdade. Afinal, fazia pouco mais de duas semanas que o mal amado do Edo-Natsu não se manifestava. Nada, nem mesmo um grunhido ou xingamento, sem nenhum conflito interno ou ímpetos perversos.
Ele nunca esteve em tamanha paz mental.
Quer dizer, isso se sua namorada não estivesse tão atrasada.
– Lucy, eu vou te matar pela demora – resmungou enquanto enfiava uma coxa de frango assado na boca.
– Aye, Sir! – Happy reiterou com o rosto sujo de arroz, devorando um peixe de tamanho mediano com espinho e tudo.
Lucy olhou descrente para o caos instalado em cima da mesa. Ali tinha pelo menos quinze pratos vazios e um parcialmente cheio, do qual Natsu continuava retirando coxas assadas de maneira implacável.
– Bom, pelo menos o restaurante está intacto – ela comentou, sentando-se na cadeira de frente para o namorado. – Menos a despensa, acredito.
Agora que sua fome tinha sido ao menos aplacada, o Dragneel pegou um guardanapo e limpou os dedos e a boca.
– Você sabe que eu só destruo o restaurante quando você fica de graça com algum babaca — se inclinando por cima da mesa, beijou rapidamente os lábios femininos e delicados.
A loira sorriu e lhe acariciou os cabelos espetados e macios.
– E você nem adora destruir coisas, não é mesmo?
– Não mesmo – Natsu disse, mostrando o sorriso mais safado e cafajeste de que era capaz. – Particularmente odiei destruir aquele seu abajur, ontem à noite.
Lucy corou com a menção da noite passada, mas Happy não entendeu muito bem, por isso perguntou:
– Ataque de raiva?
O Dragon Slayer passou a língua insinuante pelo próprio canino afiado.
– Ataque sexual – corrigiu.
O exceed engasgou e tossiu, completamente estupefato, e Lucy, ao invés de socorrê-lo, arremessou um prato no rosto do namorado, corada ao extremo. Natsu resmungou, mas desviou à tempo, logo dando tapinhas nas costas do amigo.
– Natsu...! – O gato resfolegou com lágrimas nos olhos, ainda se recuperando da engasgada. – Você virou um predador sexual?! – A indignação em sua voz era palpável, porém logo deu lugar à curiosidade genuína: — Me diga, os peitos dela são mesmo de verdade?
Ao abrir a boca para responder, o rosado se deparou com o olhar mortífero da loira, que com inexplicável rapidez havia atirado outro prato. Só que esse foi em direção ao pobre coitado de Happy, que infelizmente não foi sortudo o bastante para desviar. A louça bateu em cheio em sua testa peluda, e então ele caiu inconsciente com a cabeça na mesa.
De olhos arregalados, Natsu engoliu em seco.
– Você acabou de matar o meu gato?
– Não – Lucy respondeu, sorrindo amarelo. – Ele só foi dar um passeio pelo mundo astral... Daqui a pouco ele volta, tenho certeza.
Como os outros fregueses a olhavam aterrorizados, a garota colocou um lenço de papel sobre a cabeça do exceed, para dar-lhe um pouco de privacidade enquanto estava desmaiado. Depois, para mostrar que era uma pessoa sofisticada, uma verdadeira dama, em vez de uma ogra, abriu sua bolsa em busca de um batom para retocar os lábios.
Quando puxou o batom para fora, um panfleto veio junto, escorregando sobre a mesa.
– O que é isso? — Natsu perguntou, fitando Lucy analisar o conteúdo do papel.
– Aparentemente é um pedido de missão.
– “Aparentemente”? Não foi você que pegou?
– Não – ela disse, estranhando. – Talvez Mirajane o tenha pego para mim, hoje lá na guilda eu comentei que estava precisando aceitar um pedido para pagar o aluguel...
– Pra quando é?
– Amanhã... Puxa vida, olha o pagamento! – Os olhos amendoados brilharam. – É três vezes o valor do aluguel!
– Oh, isso é bom – o Dragon Slayer sorriu relaxado. – Dá pra dividir tranquilamente entre nós. – A maga estelar lançou-lhe um olhar que deixava clara a sua dúvida. – É claro que vou com você, somos parceiros.
Lucy sorriu de canto e inclinou o rosto em direção ao de Natsu, facilitando o acesso aos seus lábios. Quando ele a beijou de verdade, de maneira terna e profunda, ela pôde jurar que viu estrelas.
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– Eu devia adivinhar que você já estava aqui – a voz no beco comentou.
A maga de estatura mediana e aparência delicada desencostou-se da parede oposta de onde vinha a voz e caminhou até o meio do beco.
– Sua percepção está com deficiência – ela comentou, e sua voz era tão leve que tilintava com o vento.
O desavisado que olhasse para ela, com certeza absoluta pensaria que se tratava de uma menina inocente, inofensiva e indefesa, de no máximo dezesseis anos. Era, ao menos, o que sua aparência declarava. Com longos e cacheados cabelos da cor prata, olhos incrivelmente rosados, boquinha em forma de coração e longos cílios negros, ela de fato parecia uma boneca.
– Não imaginei que chegaria aqui tão rápido, Persephone.
– Ah, você sabe – ela balançou um dos cachos com os dedos -, você está na minha lista de prioridades.
– Foi você que instigou aquele gato a se lançar na direção da garota? – Falou a voz em tom monótono.
Persephone piscou os olhinhos e sorriu meiga.
– É claro que não, por que eu faria isso?
O dono da voz encoberto pelas sombras certamente tinha dó dos que se deixavam enganar pela doce aparência, que na verdade não combinava em nada com sua personalidade. Por dentro, a prateada era sarcástica, pervertida, arrogante, mais maliciosa que muitos homens, e absolutamente flertava com a maldade.
– Você é mesmo excelente quando se trata de atuação – disse.
Imediatamente a máscara da garota caiu. Em segundos, ela assumiu sua típica expressão afiada de superioridade.
– Bom, você sabe mesmo como eu sou, nada menos que “excelente” poderia me descrever.
– Eu só espero que todo esse seu complexo de superioridade sirva para o meu plano – a voz desabafou.
Persephone torceu os lábios bem delineados com descaso e fitou suas unhas perfeitamente pintadas.
– Isso nunca foi um problema para mim. O que está em questão aqui é como você vai fazer para levar a maga celestial e o Dragon Slayer para Silver Clock.
– Apesar de você ter me atrapalhado com aquele gato, eu já dei um jeito nisso – a voz disse.
A prateada voltou ao semblante meigo e juvenil que adorava ostentar e sorriu abertamente, mostrando os dentes branquinhos.
Da maneira que as coisas caminhavam bem, no dia seguinte ela iria à caça.
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