Sangue Quente
13 Rusty Heart
Notas iniciais
Capítulo XIII – Rusty Heart
(Coração Enferrujado)
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Seus longos cabelos loiros balançaram com a brisa cortante de início de inverno enquanto seu queixo quase foi ao chão com a cena diante de seus olhos. Natsu Dragneel, Dragon Slayer másculo e viril, desmaiado logo abaixo de seus pés, como uma menina indefesa e vulnerável.
Que merda havia acontecido ali? Natsu estava se enrolando todo com as palavras e então, de repente, seus olhos ficaram opacos e suas pernas tombaram para frente. Lucy não teve tempo nem de ampará-lo, de tão súbito que foi.
A ideia de que ele havia sido atingido na cabeça por algo, ou alguém, começou a tomar forma na mente da garota. Sabia que Natsu, por ser um Cão do Conselho, possuía incontáveis inimigos – pessoas que teriam muitos motivos para deixa-lo desacordado daquele jeito. Ela olhou em volta, nervosa, já posicionando uma das mãos no cinto onde carregava suas chaves, à procura de qualquer tipo de inimigo. Mas não havia ninguém ali – absolutamente ninguém -, exceto pelo casal.
“Isso é uma pegadinha, certo?” pensou, sua cabeça trabalhando incessantemente. “Claro que tem que ser uma pegadinha”. Deu os dois passos que a separavam de Natsu e se ajoelhou ao lado dele, sacudindo-o pelos ombros largos.
– Natsu, você já pode abrir os olhos agora – resmungou, ainda com os nervos à flor da pele. Deu uma risadinha para descontrair, tentando indicar que não estava brava com a brincadeira, mas o som saiu um tanto esganiçado, prestes a se quebrar em um choro indesejado. – Abre os olhos, Natsu, não tem mais graça!
Mas o garoto nem sequer se mexeu. Lucy, que ainda chacoalhava os ombros másculos com força, afundou suas unhas na pele do local, somente naquele momento notando o quanto ele tremia. Com um desespero crescente no peito, puxou Natsu para seu colo e, com espanto, sentiu o quanto estava gelado. A pele, outrora quente ao ponto de deixá-la com calor em pleno inverno, gelava até os ossos. A situação era tão insana ao ponto de deixar Lucy no abismo de um ataque de histeria.
– Imbecil – voltou a dizer, seus olhos marejando conforme o nervosismo de não saber o que fazer aumentava. Tirou o tecido que repousava em seu pescoço alvo e o enrolou novamente em torno no de Natsu. – Se estava com tanto frio, não precisava ter me dado seu cachecol!
Mas a Heartfilia sabia que antes, quando ele conversara com ela, não parecia ter frio. Foi algo muito súbito, disso ela tinha certeza. Entretanto, não mudava o fato de não saber o que fazer. Podia leva-lo ao hospital, mas o estabelecimento ficava no centro da cidade, um tanto longe para ir a pé. Não estava tão distante da guilda, podia ir até lá e pedir ajuda, porém Natsu parecia piorar a cada segundo.
Esforçando-se para pensar acima do nervoso, lembrou-se de uma das conversas que teve com Levy, e então sabia exatamente o que fazer.
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– Você parece bem pra baixo – Wendy comentou, observando Happy encostado em um banco em volta de uma das mesas na guilda.
A balbúrdia prosseguia, mas a grande maioria dos presentes já se encontrava bastante bêbados, o que dificultava uma conversa mais complexa. Romeo, do outro lado do grande salão, lançou-lhe uma piscadela, causando uma leve ardência em suas bochechas.
– Meu plano foi um fiasco – o exceed azul disse, desanimado. – Acho que piorei ainda mais a relação dos dois.
Wendy parou alguns segundos para ponderar. Era verdade que Natsu estava terrivelmente chateado por causa da briga com Lucy, mesmo que não admitisse e tentasse esconder por baixo de uma camada funda de irritação. Ele era incapaz de enganar a azulada, afinal, morava com ele desde seus nove anos de idade.
Natsu era como um irmão mais velho para ela; cuidara de seu desenvolvimento como pessoa e como Dragon Slayer. Devia tudo a ele, e odiava vê-lo infeliz. Entretanto, a culpa não era do plano do Happy. Tinha um forte pressentimento que, com plano ou sem plano, o rosado e a loira nasceram para se desentender. Não duvidava que um dia eles se acertassem, mas sabia que o caminho ia ser longo, árido e tortuoso.
– Você não pode desistir agora – disse, por fim.
Charles, que estava ao seu lado, estalou a língua, se pronunciando:
– Se você desistir agora, todo o esforço da Wendy vai ser em vão.
A garota ruborizou-se ao máximo e resmungou o nome da parceira. Como era muito tímida, não queria que mais ninguém soubesse do que tinha feito para evitar que Lucy ficasse triste. Quer dizer, ela não tinha feito nada, todo o trabalho e mérito deveria ser das garotas da Fairy Tail. Romeo, com os olhos pregados nas bochechas rosadas dela, sorriu. Wendy afundou-se na cadeira, encabulada demais para retribuir o gesto.
– É só que eu não sei mais o que fazer. Achei que causar ciúmes no Natsu era o “plano dos planos”, afinal o cara é muito possessivo – os ombros do gato cederam com o peso do fracasso. – Era meu melhor plano.
– Eu já sei o que fazer – a gata apontou, brilhantemente. – Vamos trancá-los em um lugar apertado e escuro, tipo um... É, tipo um armário. A proximidade vai fazer o resto.
A sacerdotisa do ar, que já parecia um pimentão, sentiu suas bochechas ficarem mais e mais vermelhas, se possível. Não era mais uma criança, tinha lá seus quinze anos, mas tratar da vida amorosa e da intimidade de outros casais a levava ao nível máximo de constrangimento. Como se não bastasse, Romeo, filho do tarado Macao, não tirava os olhos de sua figura.
Era um garoto belo e muito simpático que também considerava Natsu um irmão mais velho. Tentara por vezes incontáveis puxar algum assunto decente com ela, mas Wendy experimentava uma não tão rara dificuldade de articular frases muito cumpridas em sua presença, o que dificultava uma amizade mais profunda.
Happy soltou uma gargalhada, provavelmente da fala de Charles, já que esta lhe lançou seu melhor olhar irritado. O gato engoliu a risada e deu um sorrisinho amarelado, tomando cuidado com suas próximas palavras:
– Eu... Bom, não que seu plano seja ruim, Charles, mas é que... Hã, sei lá, se um plano como o meu, complexo e cheio de detalhes, não funcionou, eu duvido que um plano como esse, mais... simples... vá, sabe, dar certo.
A gata estreitou ainda mais o olhar e Happy prendeu a respiração, se preparando para levar xingo. Wendy, querendo evitar possíveis desmembramentos no clube “NaLu”, decidiu interferir:
– Além disso, eu duvido muito que um simples armário trancado vá segurar o Natsu, se ele quiser sair. Quer dizer, ele destrói cidades mesmo sem querer! Um móvel qualquer não vai ser capaz de fazer frente a ele.
Charles novamente estalou a língua, impaciente.
– Mas a ponto é: Natsu não vai querer sair!
– Não sei – a azulada ponderou, apaziguadora. – Acho que ainda tem muitas falhas no plano, você precisa amadurecê-lo.
A gata fechou a cara e empinou o nariz, em sua famosa pose de superioridade e arrogância. Wendy riu e olhou em volta, se perguntando onde diabos estaria Natsu e porque ele estava demorando tanto pra voltar. Levantou-se, pedindo licença, e foi até o bar. Happy empurrou um prato em cima da mesa para Charles, com uma expressão esperançosa.
– Charles, quer dividir um peixe comigo?
A gata em questão riu com desdém e nem sequer dirigiu um olhar para o azulado.
– Dividir um peixe é humilhante, eu já disse que os como inteiro.
Happy apoiou o rosto na mesa com uma das patas, desanimado, sentindo o peso da rejeição. Se era assim que Natsu se sentia toda vez que se desentendia com Lucy, então podia facilmente compreender seu mal humor terrível. “Mulheres” pensou, “sempre dispostas a quebrar seu coração”.
Wendy aproximou-se de Mirajane pelo lado oposto do balcão, sorrindo educada para um Laxus ligeiramente bêbado encostado no bar. A mulher de longos cabelos albinos secava alguns copos enquanto jogava conversa fora com o loiro, e a azulada sentiu-se um pouco mal em cortar a interação entre os dois.
– Mira-san, você viu o Natsu-san?
– Acho que o vi saindo da guilda há pouco mais de uma hora – a maga take over sorriu docemente, e a mais nova repetiu o gesto, virando-se para voltar à mesa.
Contudo, ao dar meia volta, deparou-se com o rosto bonito e sorridente de Romeo. A garota corou e perdeu o fôlego pelo susto, mas o jovem parecia alheio às reações exageradas do corpo feminino a sua frente.
– Wendy – ele disse, e ela pôde observar com crescente fascínio o movimento que sua língua fazia ao pronunciar seu nome. – Você viu o Natsu-nii?
Wendy sacudiu a cabeça em negação, distraída demais com os lábios finos e masculinos de Romeo para conseguir pronunciar qualquer coisa. O pequeno mago soltou um muxoxo e pareceu querer dizer algo a mais. “Você consegue” disse a si mesmo, “convide-a para sair. Você consegue”. Quando abriu a boca para expressar o convite, no entanto, uma comoção surgiu no meio da guilda.
Os olhos da menina voaram para a figura bêbada, nua e sorridente de Gray em cima de uma das mesas. O rosto da mais nova entrou em ebulição. Claro que era extremamente comum o mago do gelo arrancar suas vestimentas involuntariamente nas mais diversas situações, mas isso não queria dizer que Wendy já estava acostumada com isso. Ao contrário dela, Juvia Lockser parecia em máximo deleite.
– Ahh, a nudez do Gray-sama é divina! – A maga stalker gritava em um de seus momentos de apreciação.
A azulada menor preferiu cobrir os olhos e virar o rosto totalmente para o lado oposto, fitando o balcão, considerando que era uma opção mais segura. Oh, doce engano. Mirajane analisava minunciosamente o corpo esculpido e cheio de músculos de Gray. Não que já não soubesse de cabeça onde cada pedaço definido se encontrava – porque afinal, o mago mais aparecia nu do que vestido -, mas adorava apreciar uma boa visão.
– Nada mal – a albina acabou por comentar, rindo discretamente enquanto pegava outro copo para secar.
– Quer ver um corpo que também não é nada mal? – Laxus, ao lado de Wendy, flertava descaradamente com Mirajane, levantando uma das sobrancelhas loiras em um gesto provocativo. Por óbvio, o Dreyar mais novo estava bêbado. Ou talvez só fosse um tarado como o avô.
Bêbado ou tarado – talvez os dois – não importava; a Dragon Slayer do ar estava ainda mais vermelha, se possível. Estar no meio de tantos magos que já eram atrevidos normalmente não era uma boa ideia. Estar no meio deles bêbados, nem se fala. Wendy tinha que sair dali, ou então iria desmaiar de tanta vergonha.
Cortando uma fala de Romeo ao meio, murmurou um pedido de desculpas e correu de volta para sua mesa, agarrando Charles pela pata e saindo em disparada para fora da guilda. Talvez Fairy Hills, seu dormitório, fosse um ambiente mais saudável para sua inocência.
Romeo ficou sem fala, aturdido com a fuga repentina da menina. Ele a havia assustado? Ponderando, olhou em volta e notou a balbúrdia pervertida que ocorria em quase todos os cantos da guilda. A maioria flertava entre si, alguns poucos se provocavam afim de arranjar uma briga, e Gray fazia um showzinho infame em cima da mesa, enquanto Juvia se dividia entre apreciar a exibição e ameaçar qualquer mulher que encarasse seu grande amor – “Tá mais pra obsessão”, pensou – por mais que cinco segundos.
– Gray! – O pequeno mago gritou, exasperado, finalmente dando-se conta do que fizera Wendy sair correndo mais vermelha que o cabelo de Erza. – Veste sua maldita roupa!
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Natsu abriu os olhos para um mundo novo. Não que algo de fato houvesse mudado, exceto, talvez, por ele mesmo. Sua concepção, ideias, sentimentos e atitudes pareciam todos — sem exagero — diferentes. Via o mundo e as pessoas ao redor com novos olhos. E não era só isso; memórias esquecidas de um acontecimento aos seus doze anos povoavam sua mente de maneira clara.
Como ele pôde ter se esquecido de tamanho evento? Foi algo que transformou sua vida por completo e de súbito, de um jeito que não se podia mais voltar atrás. Estava inconformado. Talvez tivesse empurrado essa memória para o fundo de uma gaveta secreta em uma parte pequena do cérebro, de modo que lhe ficasse inalcançável, afinal, foi um trauma para ele.
No entanto, Natsu sabia que havia algo a mais por trás disso, porque todos os outros envolvidos no acontecido há seis anos não davam mostras de que estavam cientes de tudo. Por Mavis, até mesmo Gajeel e Wendy pareciam esquecidos do pequeno detalhe que despedaçou suas vidas!
Uma profunda tristeza inundou seu coração, ameaçando afogá-lo. Agora tudo, absolutamente tudo, fazia sentido. As razões e motivos para suas ações e a dos outros envolvidos começavam a se encaixar perfeitamente como em um quebra cabeça de tamanho médio, recomendado para crianças acima dos dez anos.
Mas isso não fazia com que sua tristeza diminuísse.
Perder Igneel, sem saber como nem porque, havia sido muito difícil, porém conseguiu superar com a ideia de que poderia – e iria – encontra-lo novamente caso procurasse com afinco. Recobrar as memórias do acontecido e descobrir o que havia, de fato, levado Igneel de seu convívio, tornava tudo ainda mais dificultoso, simplesmente porque sabia que a tarefa de trazê-lo de volta era quase impossível.
Com um pouco de esforço, levantou-se de onde estava deitado e sentou-se ereto. Encontrava-se dentro de um cômodo em tons pastéis e bem arejado; a brisa do inverno passava sem impedimentos pela janela. Os móveis bem distribuídos eram feitos de madeira rústica, o que conferia um charme ao local. Natsu tinha noção de quem aquela casa pertencia.
A luz do sol da manhã brilhava contente, mas fraca, sobre o colchão que ele ocupava. Mas, o mais importante era que, ao seu lado, sentada em uma cadeira pouco confortável e com a cabeça repousada no canto da cama, Lucy dormia.
Vê-la com seus novos olhos pela primeira vez era uma sensação indescritível. Soube exatamente o que sentia por ela e também o queria dela. Sem relutância, sem disfarces, sem metáforas ridículas e humilhantes, somente a indiscutível verdade.
Involuntariamente procurou com os olhos o interior de seu pulso direito, que ardia – não de uma maneira incômoda -, e encontrou-o enfaixado. A munhequeira negra que costumava usar no local repousava em uma mesinha perto da cama. Sorriu com genuína satisfação; sabia a causa da ardência e, agora que se lembrava do que a causava, notou o quanto sentiu falta da sensação.
Inclinando-se, plantou um singelo beijo na testa de Lucy e levantou-se, colocando a garota deitada na cama antes ocupada por ele. Ela não acordou, mas seus lábios carnudos subiram nos cantos em um sorriso discreto. Endireitando-se, saiu do quarto à procura da dona da casa. Encontrou-a na cozinha, concentrada em uma das muitas poções e remédios em cima de um balcão. Ao dar dois passos silenciosos em sua direção, a senhora, sem nem se virar, comentou distraída em seu tom naturalmente seco:
– Finalmente acordou, pirralho.
Natsu falhou em reprimir o riso, o que fez com que Polyushka o fitasse com uma das sobrancelhas lilases arqueadas. Sempre achara graça no mal humor evidente da velha, mas nunca realmente dera risada. Agora, no entanto, sentia-se mais leve; seu riso vinha aos lábios com muito mais facilidade. O rapaz abanou uma das mãos, pedindo desculpas, e logo encontrou um canto para encostar o corpo de maneira folgada. Ainda sorrindo, perguntou:
– Como Lucy te convenceu a abrir a porta e nos acolher?
A senhora soltou um resmungo ininteligível e voltou-se a sua tarefa interrompida. O rosado riu mais um pouco, divertindo-se de verdade com tamanha rabugice. Quando deixou de esperar por uma resposta, surpreendeu-se:
– Nas dez primeiras batidas na porta, eu gritei para que ela fosse embora. Nas dez seguintes, eu disse que iria arrancar os cabelos dela com os dentes. Nas dez posteriores, ela acabou por me vencer pelo cansaço. Quando abri a porta e encontrei você inconsciente e tremendo de febre nas costas de um espírito estelar, logo compreendi a situação e deixei-os entrar.
O Dragneel notou um arrepio percorrer sua pele ao lembrar-se do terrível frio que sentira noite passada, efeito da febre. A febre de um Dragon Slayer do fogo era diferente, fazia com que a temperatura de seu corpo descesse à níveis alarmantes, congelando-o até os ossos. Por muito pouco ele não acabou delirando permanentemente. Contudo, saber que Lucy demonstrara tamanha determinação em ajuda-lo, fazia seu interior remexer-se em júbilo.
– Obrigado por cuidar de mim – o garoto murmurou de maneira simples e sincera.
Tal agradecimento pegou Polyushka de surpresa, que nunca esperaria uma sincera gratidão vinda de um dos mais famosos Cães do Conselho Mágico. “Ele está diferente, mais aberto” constatou, coçando a testa enrugada. Seu momento estupefato não durou muito mais; sabia exatamente o que mudara o teor das atitudes dele.
O garoto havia recuperado a memória.
– Devia agradecer à maga celestial. Eu só disponibilizei o remédio e um lugar de repouso, quem realmente cuidou de você, foi ela.
O sorriso que o Dragon Slayer lhe mostrou muito provavelmente rivalizava com o brilho do sol do meio dia. Seus dentes branquinhos e ligeiramente pontiagudos estavam expostos, e os orbes castanho-cinzentos encontravam-se fechados em verdadeira alegria. Era uma expressão única e muito, muito incomum; em todos esses seis anos, nunca o vira assim.
– Quando Lucy acordar, – ele disse, desviando os olhos para o teto, distraído – vou dar os devidos agradecimentos.
– Se eu soubesse que você ficaria muito mais suportável com suas memórias completas, teria torcido para que você as recuperasse bem antes – comentou, ainda em seu tom seco, mas a impressão de brincadeira tingia o ar.
Natsu piscou e, tão logo abaixou o olhar, dirigiu toda sua atenção à velha curandeira, amiga de Makarov.
– Então você sabia.
Não era uma pergunta, mas mesmo assim Polyushka assentiu.
– É claro, quem você acha que o examinou e o diagnosticou com perda de memória quando Makarov lhe acolheu?
– Por que não me lembro de você então? — A pergunta parecia besta, afinal, se ele fora diagnosticado com perda de memória, por óbvio não se lembraria de ter sido examinado pela velha. O que o incomodava, porém, era outra coisa: — Quer dizer, eu me esqueci de todo o incidente há seis anos, mas, agora que recuperei essas memórias, não consigo me lembrar de você ou de Makarov me acolhendo.
A senhora cerrou os lábios, mas não parecia aborrecida. Ou talvez estivesse irritada, mas Natsu não conseguia perceber a diferença.
– Isso é porque você estava inconsciente quando o achamos. Assim como Gajeel e Wendy.
O rosado assentiu e o silêncio reinou no ambiente por alguns minutos. A pequena casa da de cabelos lilases era bem tranquila, sendo invadida constantemente pelo canto suave de pássaros das mais variadas espécies. Um pouco distraído com a melodia longínqua, começou a desatar as bandagens que cobriam seu pulso direito, sabendo exatamente o que iria encontrar na pele do local.
Foi com grande saudosismo que Natsu fitou a marca em seu pulso. Era uma tatuagem mágica, como a da Fairy Tail que marcava seu ombro direito, mas, diferentemente da marca vermelha da guilda, a em seu pulso era da cor preta, e o formato lembrava algo como uma brisa e dois pingos logo abaixo. Para um leigo, aquilo não tinha significado algum. Para os Dragon Slayers, no entanto...
– Desacostumado com a marca, pirralho? – Polyushka questionou. Parecia curiosa, mas algo em seu tom fez com que o rosado pensasse que era uma pergunta retórica, que ela não esperava realmente uma resposta.
Mesmo assim, disse-lhe:
– Não muito... Agora que me lembro do incidente, parece que a marca nunca saiu de meu pulso. No entanto, sei que não estava aqui noite passada.
A velha assentiu, olhando para algo além da janela. Provavelmente fitava o céu claro, tal como Natsu teria feito se estivesse perto o bastante para alcança-lo com seu campo de visão.
– Realmente não estava. Junto com suas memórias, a marca havia sido selada pelo efeito colateral do... Bom, você sabe – gesticulou com uma das mãos.
Ele sabia. Agora, pelo menos, sabia e talvez por isso não conseguiu evitar que uma fúria antiga abrisse caminho em suas feições. As mãos masculinas fecharam-se em punhos e um canino pontiagudo pressionou-se contra o lábio inferior do garoto, arrancando um pequeno filete de sangue que escorreu por seu queixo.
– Pelo menos agora eu sei o porquê do Edo-Natsu odiar tanto a Lucy – comentou com amargura. A velha arqueou uma sobrancelha e seus orbes vermelhos fitaram-no com confusão. – A minha outra personalidade – explicou.
– Então você é realmente bipolar – Polyushka constatou e voltou a mexer com suas poções. – Eu apenas supunha, mas, parando agora pra pensar, é óbvio. O trauma que sofreu aos doze anos foi muito forte e acabou por te dividir. A sorte de todos, acredito, é que sua personalidade menos raivosa predomina.
– Na maior parte do tempo, sim – o garoto concordou. Tremia só de pensar o que teria feito com Lucy caso Edo-Natsu detivesse naturalmente o controle. Por falar em Lucy, uma dúvida alojou-se em sua mente e, sem perceber, já estava expressando-a em voz alta: — Como vou explicar isso pra Lucy? – Questionou, mostrando a marca em seu pulso.
Polyushka parou o que estava fazendo e o encarou com cenho franzido.
– Você não vai explicar nada sobre a marca, pirralho, muito menos sobre suas memórias recuperadas – informou. Natsu embasbacou-se e acabou por proferir um sonoro e indignado “por que?”, e ela continuou: — Não é o momento para Lucy saber dessas coisas. Vai causar nela reações muito mais extremas do que essa simples febre que você teve.
O Dragneel, ainda encostado no canto, emburrou-se, mas entendia os motivos de não poder revelar nada à loira. Agora tinha certeza de que sua febre repentina era efeito da quebra do selo que aprisionava suas memórias. O selo havia se rompido sozinho porque o rosado estava pronto para se lembrar. Mal podia imaginar os efeitos que causaria em Lucy caso forçasse essas coisas sobre ela, se não era o momento ideal.
– Tem razão – disse, por fim.
– Acho que, por hora, você devia esconder a marca sob a munhequeira que sempre usou – a velha opinou, ajeitando a capa vermelha que vestia sobre os ombros. — Mas, caso Lucy descubra, diga a ela uma meia-verdade, algo geral, sem precisar dar muitos detalhes.
Natsu apreciou a ideia, por mais que seu interior se sentisse enjoado em não poder despejar toda a verdade para a maga celestial. Contudo, percebendo que não havia uma segunda opção sobre isso, outra dúvida surgiu em sua mente.
– O desgraçado escapou com vida?
Polyushka observou-o com olhos analíticos. A postura do garoto era rígida, os músculos à vista estavam todos tencionados pela profunda raiva que sentia. Olhos em fenda, sobrancelhas franzidas e uma veia saltando na testa complementava sua figura.
Temendo a destruição de sua casa, mas não tendo outra resposta que não a verdade, disse:
– Quando chegamos, ele já não estava mais lá.
Foi nesse momento que a jovem de cabelos loiros apareceu na porta da cozinha, com roupas amarrotadas e olhos nublados pelo sono, bocejando. Muito provavelmente, vê-la foi o suficiente para que o rosado esquecesse da fúria latente em seu íntimo e desistisse de quebrar uma das paredes. Polyushka agradeceu aos céus.
– Onde está o Natsu? – Lucy perguntou, bocejando novamente, sem nem dar-se conta da presença do rosado no outro lado da cozinha.
O Dragon Slayer em questão desencostou-se do canto no qual se encontrava imediatamente e, mais rápido que o Jet em dia de corrida, alcançou a garota em poucos passos. Enlaçou sua cintura fina com seus braços absurdamente musculosos e, sem perder mais tempo, colou seus lábios aos dela, desesperado em sentir seu sabor.
A Heartfilia, completamente atordoada pelo sono e pela rapidez dos movimentos do garoto, não ofereceu resistência alguma quando a língua quente e máscula pediu passagem em sua boca. De qualquer forma, não ofereceria resistência nem se estivesse sã. Quer dizer, talvez tentasse impedir como fez noite passada, mas havia ficado tão preocupada com a saúde dele que beijá-lo parecia o ideal.
Os lábios finos de Natsu eram quentes contra os dela, e sua língua ditava habilmente o ritmo do ósculo roubado. A loira foi aos poucos perdendo o fôlego, mas ele continuava lá, beijando-a como se não a visse há mais de anos, inclinando-a em seu abraço forte. Quando o beijo cessou, o garoto afastou-se apenas o suficiente para encostar sua testa na dela e observa-la com grande fascínio enquanto normalizava a respiração.
Lucy ficou mais vermelha que Wendy em um de seus ataques de timidez. A intensidade daquele simples beijo a deixara completamente afogueada, e a ideia de que a velha Polyushka estivesse assistindo a interação entre eles lhe causou muita vergonha. A senhora, entretanto, encontrava-se de costas, prestando atenção aos medicamentos, provavelmente respeitando a privacidade dos dois.
– O que foi isso? – A maga celestial perguntou com dificuldade para acertar o ritmo de sua respiração ofegante. O rosado nunca, repito: nunca, a havia beijado dessa maneira tão intensa e carinhosa, como se venerasse seus lábios.
– Foi um beijo de bom dia – Natsu sorriu matreiro, sabendo exatamente o que dizer para deixar seus sentimentos claros. As tentativas da noite passada lhe pareciam agora coisa de babaca, e se perguntava firmemente como pôde ter se enrolado tanto com simples palavras. Contornando levemente com a língua o lábio inferior da garota, sussurrou: — O primeiro de muitos que eu espero te dar.
O sorriso mais radiante de toda Fiore fez sua morada na boca de Lucy, e Natsu perdeu o fôlego somente em contempla-lo. A loira acariciou as laterais do rosto masculino e voltou a colar seus lábios, dessa vez em um beijo cálido, como se selasse um segredo entre eles.
Natsu não precisava dizer mais nada; Lucy sabia que esse era o modo de seu coração enferrujado confessar que a amava e, por enquanto, isso bastava.
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