Sangue Quente
23 Nest
Notas iniciais
Capítulo XXIII – Nest
(Ninho)
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Lucy e suas ações tinham um efeito engraçado no humor de Natsu.
Quer dizer, há quinze minutos, por exemplo, ele estava mais que radiante, louvando o amanhecer e aplaudindo o pôr do sol. O motivo? Lucy passara a noite inteirinha na cabana e eles acabaram tendo que dividir o pequeno espaço de uma rede.
Uma pessoa sensata poderia pensar que fora desconfortável. Mas nem Natsu, e nem Lucy – diga-se de passagem – eram sensatos.
E agora, lá estava ele, sentado no balcão do bar da guilda, bufando de impaciência a cada dois minutos. O motivo? A indecisão de Lucy.
– Ainda não escolheu nenhum? – Resmungou, apoiando a cabeça em uma das mãos. Happy, ao seu lado, mantinha-se com a cara enfiada na mesa, aproveitando para tirar um cochilo.
– Ainda não... – Ela comentou, distraída, enquanto analisava o mural de trabalhos da guilda. – Não consigo me decidir...
– Isso eu já notei – bufou, pois já tinha passado mais dois minutos.
– É que tem tantos trabalhos aqui... – Voltou a dizer, ignorando a impaciência do namorado. – Quero um que pague bem, acabei de comprar uma chave do Zodíaco.
– Deixa que eu escolho então – sugeriu, o tom de voz seco.
– Nem pensar! – Exclamou, virando-se para o garoto e olhando-o feio. – Acha que sou louca? Você vai escolher o mais difícil, e eu quero um fácil.
– Um fácil e que pague bem? – Natsu revirou os olhos e observou Mirajane limpando alguns copos atrás do balcão. – Mira, traz logo alguma coisa com álcool pra mim, antes que essa mulher me enlouqueça.
– Ela já te enlouqueceu – Mirajane apontou, rindo, para logo em seguida colocar saquê em um copinho e entregá-lo ao rosado.
– Tem razão – ele entornou o líquido todo de uma vez. – Ela é mestre nisso.
– Eu posso muito bem te ouvir daqui, sabia, senhor Dragneel? – Vociferou a loira, com as mãos na cintura e inclinada para baixo, ainda procurando no mural.
Natsu tinha uma resposta bem cretina na ponta da língua e estava prestes a soltá-la, mas cometeu o erro de transferir o olhar do balcão para a figura da garota. Na posição em que ela estava, sua bunda parecia bastante empinada e a saia que ela tanto gostava encontrava-se pouco abaixo da polpa volumosa.
– Você tem razão, meu bem – ele ouviu-se dizer, vidrado na cena. – Escolher o trabalho certo é essencial. Fique à vontade para demorar o quanto quiser.
A Heartfilia estranhou a súbita complacência do outro, mas não o suficiente para fazê-la se virar para ele novamente. Ela estava perto do folheto do trabalho ideal, podia sentir isso. E então ela o avistou; estava bem ali, no cantinho de baixo do mural, quase escapando de seu olhar de águia. Quase.
Quando estendeu sua mão fina para alcança-lo, no entanto, encontrou um obstáculo inesperado: puxando o folheto, do outro lado, estava Romeo.
Houve aquele momento meio constrangedor barra competitivo, em que ambos inicialmente se recusaram a soltar o pedaço de papel e trocaram olhares ofensivos. Após breves segundos naquela situação, riram e se endireitaram.
– Desculpa – a loira pediu, soltando o folheto. – Acabei me exaltando.
– Tudo bem... – Romeo corou, olhando para os lados. – É mesmo um trabalho pelo qual vale se exaltar. Quer dizer, olha só o valor da recompensa! E tudo isso só pra procurar um livro em uma biblioteca particular. É um ótimo primeiro trabalho sozinho...
– É mesmo – Lucy sorriu sonhadora, ajeitando a saia. – Bom... Faça um bom trabalho.
– Espera! – O menino gritou ao vê-la se virar para ir embora. – Não é justo. Você também pegou o folheto, afinal.
Lucy piscou os olhos castanhos, interessada no que ele dizia. Do balcão, Natsu os observava atentamente.
– E o que você sugere?
– Que tal decidirmos na sorte? Jokenpô.
Ela mordeu os lábios, balançando-se sobre os pés, incerta.
– Você tem certeza?
Agora foi a vez de Romeo piscar.
– Claro. Por que não?
– Porque – ela começou, incerta sobre como se expressar -, bom, para se ganhar em Jokenpô, você precisa ter sorte. E eu tenho a tendência de roubar a sorte das outras pessoas.
O garoto riu de leve, achando, pelos primeiros cinco minutos, que se tratava de uma piada. Porém, o rosto da loira estava sério, deixando-o em dúvida.
– Ela está brincando, não? – Perguntou, dirigindo o olhar para Natsu, que deu de ombros. Imitando o gesto do amigo, decidiu arriscar: — Bom, vamos lá, então.
Lucy ergueu as mãos, como se dissesse “depois não venha reclamar”, e preparou-se.
– Jo-ken-pô – disseram os dois, em uníssono. Romeo formou, com a mão, o símbolo da tesoura.
Lucy, o da pedra.
– Eu avisei...
– Melhor de três! – O moreno exigiu, determinado a ganhar.
No entanto, no final das três rodadas, ele chegou à conclusão de que, ou Lucy era muito sortuda, ou ela, de fato, deixava os outros azarados. Deu os parabéns a ela por ter ganhado e, após breves segundos cabisbaixo, virou-se para procurar outro trabalho no mural.
– Bom... A recompensa é até que alta, não faria mal se dividirmos entre três... – A Heartfilia murmurou, sentindo-se culpada.
– O que você disse? – O menino virou-se para encará-la, tentando esconder o súbito brilho nos olhos.
Lucy riu.
– Eu disse que não faz mal se você vier com a gente. Certo, Natsu?
– Certo – resmungou, tornando outra dose de saquê.
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– Oh, caramba – Natsu disse ao visualizar a imensidão da biblioteca particular do Conde Everlue. – Boa sorte pra vocês – e, rindo, foi sentar-se em uma das duas poltronas confortáveis posicionadas exatamente no centro do cômodo.
Lucy apoiou as mãos na cintura fina, exalando sua indignação até mesmo pelos poros.
– Você vai ficar com a bunda colada nessa cadeira, sem nos ajudar?
A missão, como dita anteriormente, era relativamente fácil. O Conde desejava encontrar um livro há muito tempo perdido em sua biblioteca. O problema era que, além de imensa, a biblioteca possuía centenas de livros e enciclopédias, porcamente arrumados nas estantes e em pilhas assustadoras nos cantos.
E o porquê de ter contratado magos em vez de faxineiras também continuava um mistério, que não vinha ao caso agora.
– Na verdade, vou – afirmou, acomodando-se melhor na poltrona. – Não estou no clima para procurar uma agulha em um palheiro. Não com tanto pó.
Romeo, parado entre a loira indignada e o gato ainda sonolento, riu baixinho. Ele sabia muito bem o motivo do rosado estar fazendo corpo mole, e achava divertido a maneira como facilmente o entendia.
Lucy, no entanto, parecia não possuir a mesma clareza de sentido que ele, porque uma veia começou a pulsar perigosamente em sua testa alva.
– Ah, não me diga! Está no clima pra quê, então?
Natsu lançou um olhar cheio de malícia e segundas intenções, aquele que costumava deixar a calcinha da namorada surpreendentemente encharcada. Estava brincando, obviamente, tentando provocar uma reação de embaraço nela para que esquecesse a braveza.
No entanto, não foi muito bem sucedido. Quer dizer, até foi, mas não da maneira que desejava.
Seu ato quase fez a veia saltada de Lucy estourar. O que conteve a explosão foi a percepção de que Romeo estava na sala, diretamente consciente das intenções implícitas no tal olhar.
O pobre menino corou violentamente, constrangendo a todos com seu entendimento.
– R-Romeo! – Natsu vocalizou, tendo sucesso em rapidamente conter o rubor. – Você não viu nada! Além disso, você é uma criança, pare de agir de maneira suspeita.
O menor se constrangeu ainda mais. Começou a fitar os pés, como se fossem a coisa mais interessante do mundo. O mesmo ocorreu com Lucy, abandonando imediatamente a raiva.
– Eu não sou mais uma criança, Natsu-nii... – Sua voz tremeu levemente. – Eu tenho doze anos, e já sei o que algumas coisas significam...
A fala de Romeo terminou o diálogo constrangedor. Natsu se afundou ainda mais no assento da poltrona, e os outros dois, mais o gato, acabaram por se dividir pelo cômodo.
E assim, facilmente, duas horas se passaram.
A Heartfilia já havia procurado em toda a parte da estante da parede norte, e Romeo estava quase terminando sua extensão da parede leste.
– Eu não aguento mais – ela disse quando o menino se aproximou, ainda na busca tediosa pelo tal livro. – Se o belezinha do Dragneel levantasse a bunda da poltrona e nos ajudasse, talvez já tivéssemos achado.
O moreno balançou a cabeça, rindo baixinho. Colocou uma das mãos nos ombros da loira, porque era o máximo que podia alcançar devido sua altura, e confidenciou-lhe:
– Natsu não está nos ajudando por minha causa. Sabe, porque ele me ouviu dizendo que esse era pra ser meu primeiro trabalho sozinho...
Lucy abriu a boca em forma de um pequeno ‘o’, definitivamente pega de surpresa. Ela também tinha ouvido que aquele era pra ser seu primeiro trabalho sozinho, mas em nenhum momento havia considerado a possibilidade de deixar o garoto realiza-lo sem sua ajuda. Talvez fosse egoísta e precisasse urgentemente reavaliar suas ações.
– Oh, minha nossa, me desculpe! – Pediu, formando sua melhor expressão arrependida. – Eu vou... Sei lá, sentar um pouquinho ali na poltrona...
– Não! – O menino quase gritou, tentando disfarçar com uma risadinha o nervosismo que subitamente sentiu. – Quer dizer, eu gostei do gesto do Natsu, mas uma ajudinha é sempre bem vinda.
A Heartfilia sorriu, desconsiderando a ideia de que era egoísta, ao mesmo tempo em que Happy chegava até a dupla, se arrastando. Foi também ao mesmo tempo em que algo brilhante, como um reflexo, começou a incomodar seus olhos.
O reflexo vinha de cima, da fileira mais alta da estante, perto da porta fechada de um alçapão no teto. Piscou, aturdida, lembrando-se vagarosamente de que o livro que procuravam era dourado e normalmente emitiria um brilho característico. O brilho ali era fraco, mas ela atribuiu isso ao fato do livro, muito provavelmente, estar quase inteiramente coberto de pó.
– Happy! – Chamou, apontando para o local. – Eu acho que o livro está ali!
O exceed, entendendo a deixa, conjurou suas asas e voou até a última fileira, pegando o livro empoeirado. Deu pequenas batidinhas com as patas na capa e, quando pôde ler o título, alegrou-se.
– É o Daybreak mesmo! – Balançou-o acima da cabeça, comemorando a conclusão do trabalho.
No entanto, como nada parecia ser fácil para eles, o alçapão no teto abriu-se repentinamente, expondo a cabeça careca de um rapaz. Lucy não teve nem tempo de alertar o gato; de um momento para o outro, o livro estava nas mãos do intruso, que rapidamente sumiu por onde aparecera.
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Natsu estava com a impressão de que aquele tubo jamais terminaria.
Sim, tubo. O alçapão pelo qual o ladrãozinho escapou dava em um tubo de ventilação. Muito antigo e empoeirado, por sinal.
E Natsu odiava pó.
Mas a situação era pior que essa, acredite. O tubo era pequeno, forçando-os a engatinhar durante todo o percurso. Percurso este que estava sendo absurdamente lento. A culpa não era de Lucy, coitada. Quer dizer, sim, ela ia à sua frente e reclamava o tempo todo que seu joelho doía, e, sim, ela também parava a cada trinta segundos para arrumar sua saia. Mas, bem...
Certo, a culpa era dela sim.
Devia ter entrado pelo alçapão logo atrás de Happy, mas então quem estaria atrás de Lucy seria Romeo. O que estava totalmente fora de questão, porque Lucy estava de saia e Romeo estava suspeito ultimamente.
– Lucy... – Ele começou, tentando se manter calmo, mas falhando miseravelmente. Espirrou. Deus, pra quê tanto pó?
– Nenhuma. Palavra. Dragneel – sibilou, pausadamente. – O meu joelho já está em frangalhos, o Happy não para de soltar pelo na minha cara e eu realmente não preciso do seu ataque de pelanca.
Meu ataque de pelanca? Mulher, é você quem está tendo um.
Ela é a pelanca.
Edo-Natsu?! Questionou, surpreso, pois fazia dias que ele não se manifestava.
Cheguei em um mal momento?
Péssimo. Depois, a surpresa deu lugar à raiva. E não insulte a minha garota, não depois de ter se deitado com ela!
Deixa de ser manhoso!
Estava prestes a mandar um cala boca mental para sua outra personalidade, quando Romeo, logo atrás de si, comentou:
– Pessoal, eu tô vendo uma luz.
O rosado tinha ficado tão distraído com a aparição de Edo-Natsu que nem sequer notou a luz a sua frente. Seu corpo prosseguiu engatinhando automaticamente, empurrando a namorada, que havia parado, pela luz, que acabou por ser a saída daquele tubo horrendo.
A loira, que não era boba, agarrou a primeira coisa que alcançou do namorado – seu cachecol – enquanto caía, trazendo o corpo pesado para baixo junto com ela.
Ele teve que agir rápido. Inverteu as posições dos dois – tomando cuidado para não ser enforcado pelo puxão no cachecol -, fazendo com que a queda de Lucy fosse amortecida pelo próprio corpo.
Funcionou, claro, mas doeu.
– Vocês estão bem? – Perguntou o moreno na beirada do tubo, há uns dois metros acima do chão.
– Ah, sim – Lucy respondeu, saindo de cima do rosado e limpando a saia.
– Que bom – Natsu ironizou.
Happy, sobrevoando a área em busca do ladrão, olhou com humor para o casal.
– Vocês são idiotas?
– Não podemos enrolar aqui – disse Romeo, descendo do tubo de maneira bem mais tranquila, observando que estavam do lado de fora da mansão. – Natsu-nii, você ainda pode sentir o cheiro do careca?
– Mais ou menos – respondeu, levantando-se e sacudindo o pó do corpo. Espirrou novamente. – Eu vou atrás dele.
Lucy segurou sua mão antes que pudesse dar-lhes as costas e iniciar a perseguição. Natsu olhou-a, intrigado e curioso. Ela tirou do bolso um lencinho branco de seda – que milagrosamente continuava limpo, apesar do pó todo a que estiveram expostos – e o esfregou na ponta de seu nariz afilado, com o intuito de limpar a sujeira e livrá-lo da inesperada alergia. Ela sorriu docemente, e ele entendeu que aquele era um pedido silencioso de desculpa pelo mal humor.
– Vamos todos juntos – ela disse.
Ele tomou um longo fôlego, captando os odores ao redor muito mais facilmente.
– Então é melhor a gente correr – comentou, pulando no ar para que Happy o pegasse. – O maldito já abriu uma boa distância de nós.
Dito isso, Happy voou na direção indicada pelo parceiro, levando-o junto. Lucy e Romeo se entreolharam, começando a correr atrás deles. Levou exatamente cinco minutos para que a menina os perdesse de vista.
Não é que Lucy era lerda... É que eles eram rápidos demais. Mas também não deixou de pensar que talvez estivesse precisando fazer mais exercícios...
Continuando a correr pela ruela deserta, faltando pouco para o fim da tarde, torcia para que os garotos não tivessem virado em um beco qualquer, porque aí ela estaria perdida.
Enquanto isso, dois quilómetros à frente, Natsu se soltou de Happy e estancou no caminho, bem em frente a um armazém fechado de porte pequeno. Romeo, que vinha logo atrás, também parou, estranhando.
– O que foi, Natsu-nii?
Porém o dito cujo não respondeu. Na verdade, sua boca estava ligeiramente aberta, mas nenhum som saía dali. E seus olhos estavam tão arregalados que o exceed achou que ele tinha visto um fantasma.
Visto, não. Sentido.
No instante seguinte, o Dragon Slayer arrombava a porta do armazém e entrava dois passos, permitindo que a luz do sol iluminasse um pedaço do interior.
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– Ei, rapazes – Lucy chamou, encontrando-os completamente congelados na porta de um armazém aberto. – Por que vocês pararam? O careca entrou aí?
Não houve resposta. Nenhum deles mexia um músculo sequer. Extremamente curiosa, se esgueirou pela entrada e parou atrás de Romeo, analisando o interior do local.
Era uma bagunça, pra dizer o mínimo. Bandejas de comida com restos estavam jogadas a esmo, tinha uma mesa no canto, mas, além de estar caindo aos pedaços, estava lotada de revistas de pelo menos quatro anos – não, Lucy não tinha enxergado as datas, ela apenas conhecia as capas – e, no centro de toda aquela zona, havia uma menina encolhida em um cobertor sujo.
– Natsu – a loira disse, encostando a mão no ombro do namorado e encontrando-o totalmente rígido, tenso. – O que está acontecendo?
Novamente, não houve resposta. No entanto, sua pergunta deve tê-lo despertado do transe em que se encontrava, porque ele piscou demoradamente e andou até o centro, muito perto da pessoa encolhida no pedaço de pano.
A movimentação do rosado também causou uma reação na menina do cobertor. Subitamente, ela largou tudo e se lançou direto no corpo masculino, que não desviou, nem tentou se defender.
Claro, pensou Lucy depois do que pareceu uma eternidade. Ele não se defendeu porque não se tratava de um ataque.
Tratava-se de um abraço.
Abraço que ele retribuiu. Agora vocês devem estar se perguntando porquê diabos o Natsu, que era indiferente a quase todo mundo, estaria retribuindo um abraço de uma estranha. A resposta era bem simples, na verdade.
Ela não era uma estranha.
Era Lisanna.
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