Sangue Quente
24 An Admirable Joke
Notas iniciais
Capítulo XXIV — An Admirable Joke
(Uma Piada Admirável)
.
CAPÍTULO NARRADO POR LUCY HEARTFILIA
.
Eu provavelmente não queria dizer que estava nervosa ou incomodada, mas havia uma certa possibilidade de que eu estivesse, sim.
E não, não era por causa do abraço que Lisanna e Natsu dividiam na minha frente. Sério, não era mesmo. Quer dizer, como poderia? O gesto era um tanto desajeitado e esquisito, como se eles nunca tivessem se abraçado. E, de fato, se formos levar em consideração as habilidades de interação humana do Natsu de alguns anos atrás, isso não seria surpresa nenhuma.
Além do mais, a garota estava desaparecida, presumida morta, havia anos! Se eu estivesse em seu lugar, sozinha, presa em um lugar escuro e sujo como esse, e, de repente, um rosto amigo aparecesse, eu estaria fazendo um escândalo pior que o dela, pode ter certeza.
Ah, e eu também não estava assim por causa da total falta de resposta por parte dos meus três companheiros, caso ache isso. Eu até que consigo lidar bem com o silêncio, de vez em quando.
Eu estava assim porque estavam os três ali, estancados no lugar, sem saber como reagir, enquanto o único que poderia saber alguma merda do que estava acontecendo ali escapava alegremente, com o maldito livro que me faria ganhar dinheiro em mãos.
Mas eu não diria isso em voz alta, é claro. Entenda, sou uma pessoa de opiniões fortes e temperamento complicado arraigados muito profundamente. Meu interior está quase sempre explodindo, mas, por fora, eu era a calma em pessoa. Um verdadeiro comportamento de uma dama de alta classe, se me permite dizer.
Certo, eu não era sempre assim, e Natsu parecia ter essa habilidade especial em me tirar do normal, mas, na maioria das vezes, eu fazia um bom trabalho em ser compreensiva. E, vamos encarar, naquele momento, eu precisava ser compreensiva.
É óbvio que nenhum dos três sequer cogitaria em ir atrás do careca; estavam com o raciocínio — mas, principalmente, o emocional — abalado. Eu nunca tive amigos próximos, porém conseguia imaginar como estaria mexida caso uma situação parecida acontecesse com Levy-chan, por exemplo.
É por isso que a preocupação de pegar o careca apenas atingia a mim, e eu sabia que deveria fazer algo sobre isso. Eu devia essa ao Natsu.
E foi justamente por isso — e talvez por sentir que aquele momento de reencontro, em que Happy vencera o torpor e já se atirava no abraço grupal, era particular aos três ali — que me virei e saí do armazém sem demoras.
Romeo, no entanto, acostumado a interpretar as ações de Natsu, acabou interpretando as minhas erroneamente, me seguindo até metade do caminho para fora do cômodo, preocupado.
– Ela está fragilizada, Lucy-nee-san... — Comentou em um muxoxo, como se tentasse apaziguar uma namorada ciumenta prestes a se perder em lágrimas.
Mas eu não era uma namorada ciumenta prestes a se perder em lágrimas. Bem, talvez fosse ciumenta, sim, mas não era esse o caso agora.
– Eu sei — foi o que respondi, já começando a correr pelo caminho que acreditava que o careca havia tomado. Estava contando com a minha famosa sorte.
– Lu-Lucy-onee-san! — ouvi-o gritar, ameaçando me acompanhar.
– Eu estou bem — disse, virando-me sobre o ombro, forçando um sorriso tranquilizador nos lábios. — Vá abraçá-la, também. Esse momento é de vocês.
E, com isso dito, me afastei o mais rápido que pude, forçando os joelhos arranhados e cansados à exaustão. Enquanto corria, parei pra pensar no quanto aquilo tudo era engraçado. Era uma piada, na verdade.
Quer dizer, Lisanna estava morta para o mundo há quatro longos anos, e o único que acreditava que estava viva, foi, curiosamente, a mesma pessoa que a “trouxe” de volta à vida. E tudo isso porque eu escolhera o trabalho a ser feito.
Era mesmo uma piada. Uma piada admirável.
Mas o como e o porquê que de fato importavam, continuava um mistério. E eu tinha a nítida sensação de que o careca carregava uma peça considerável desse quebra cabeça. Eu tinha que achá-lo e dar um jeito de capturá-lo para futuro interrogatório.
E eu provavelmente não queria dizer que me sentia insegura, como se, depois de Natsu, eu não fosse mais tão confiante assim em minhas habilidades, mas, de novo, havia uma certa possibilidade de que eu me sentisse assim, sim.
Ao virar ao final de uma rua, comecei a bolar um plano de captura, que nunca foi finalizado. Porque ali, mais para frente, estava o careca, segurado pelo pescoço por um loiro de mão magra, mas forte. Foi aí que meu plano tomou um rumo diferente de antes, visando apenas minha sobrevivência.
Porque, se vocês me perguntarem, aquele rapaz me dava arrepios.
Certo, então não me considero mais tão sortuda assim.
Decidindo que eu não havia sido vista, tentei recuar silenciosamente para trás de uma pilha de lixo. Humilhante, eu sei, mas meu instinto de sobrevivência falava mais alto.
Tentei, eu disse, porque segundos antes de eu me enfiar no meio dos ratos — eu tinha certeza que eles estavam ali! — uma mão fina e fria encostou em meu ombro, e o arrepio de antes transformou-se em uma tremedeira dos infernos.
Desvencilhei-me do contato, cambaleando para frente e chamando atenção do loiro metido a machão, que ainda segurava o careca pelo pescoço. O livro dourado esquecido no chão com descaso.
– Você está nos espiando? — A voz condizente com a mão branquela atrás de mim perguntou.
Ao virar-me, percebi o motivo da tremedeira. O rapaz era incrivelmente branco, contrastando violentamente com o negrume do cabelo e o carmesim dos olhos. Era bonito, até, mas de um jeito meio mórbido, e me dava medo.
Não sabia o porquê de me sentir assim sobre ele, mas decidi me aproximar do loiro, que nos olhava curioso, para me afastar do moreno, que me olhava indiferente. Do loiro eu não tinha medo, pelo menos. Só receio.
– O que, uma fã? — A curiosidade era genuína em sua voz, mas muito bem disfarçada pelo sorriso e olhar convencidos. Se ele estava falando comigo, merecia uns dois tapas. Natsu era o único que podia falar desse jeito comigo. — Ah, ela é tímida, Rogue. E você a está assustando.
Sua última frase não poderia ser levada como mentira. Esse tal de Rogue estava mesmo me assustando, aparentemente sem estar fazendo nada de especial.
– Ela não está assustada, Sting. Está surpresa. — Coitado, esse Rogue era muito ruim em interpretar os sentimentos alheios. Eu não estava surpresa. Estava apavorada. — O que você quer aqui?
Engolindo esse medo maldito e inexplicável, concentrei-me em responder a pergunta, mas direcionada a Sting. Ele era algo bonito de se encarar, e o melhor: era o total oposto do esquisitão atrás de mim.
– Na verdade, eu quero esse livro — disse, apontando para o Daybreak caído em seus pés. — E, também... Eu meio que queria capturar esse cara. Você vê, ele...
Não pude finalizar minha fala, porque Sting começou a falar por cima:
– Pega o livro, toma — chutou o objeto dourado em minha direção, mostrando-se um completo idiota. Quem tratava livros com tanto descaso? — Mas esse cara... Não posso te dar. Estou curioso sobre o cheiro dele.
Céus, do jeito que o metido a besta falava, até parecia o Natsu.
– Hmm... Não podemos chegar a um acordo? — Ponderei, não acreditando nessa possibilidade nem por um minuto.
Minha mão já se dirigia lentamente para as chaves de ouro presas na minha cintura, me preparando para a sua recusa. Eu odiava usar de força para alcançar meus objetivos, mas não podia me dar ao luxo de não voltar com o careca.
No momento em que encostei na chave de Taurus, Sting respirou fundo, parecendo puxar uma quantidade exagerada de ar para os pulmões, mais ou menos como Natsu costumava fazer quando tentava rastrear alguém pelo cheiro. E o que ele disse a seguir me deixou realmente surpresa:
– Ei, você tem o cheiro do Natsu Dragneel! — Seu timbre de voz me soava como acusação. Ele estava me acusando de quê, exatamente? E então seus olhos brilharam. — Ele está aqui por perto?
Abstive-me de resposta. Eu não sabia como esse maluco bronzeado tinha adivinhado isso, nem como ele conhecia meu namorado, mas do jeito que seu parceiro me deixava inquieta como um animal antes do abate, achei melhor não confirmar nada.
Pensei que Sting não fosse aceitar meu silêncio pacificamente, no entanto, incrivelmente, fui salva de responder por Rogue, que se pronunciou:
– Sting, vamos. O cheiro principal de que estávamos atrás está desaparecendo. Esse não é o cara que a gente tá procurando.
À princípio, pensei que estivesse falando sobre o meu rosado. Enganei-me; eles estavam comentando sobre o careca.
– Bem, mulher do Natsu, você acaba de ganhar na loteria — o loiro disse, resignado, afrouxando o aperto no pescoço do careca, que espertamente se mantinha quieto. — Pode ficar com ele.
Quando me estendeu o cara, oferecendo-o a mim, estranhei. Eu não sabia qual era a deles, mas aparentemente tinham outros assuntos com que se preocupar, e Sting decidiu bancar o bacana.
– Obrigada... — Agradeci, meio relutante, enquanto aplicava meu melhor aperto nos braços do ladrão.
– Agradeça-me dizendo ao Natsu que eu mandei um oi.
Oh, quem diria, uma mensagem bomba! Sim, porque conhecendo Natsu como eu conheço, aquele oi faria horrores em seu temperamento.
Furtivos como eram, só fui notar que Sting e Rogue haviam partido quando o careca ganhou vida e começou a tentar quebrar o meu aperto. A comichão de seguir os dois rapazes era muito perto do insuportável, e a curiosidade sobre quem era seu verdadeiro alvo de perseguição, e porque estavam interessados no cheiro do ladrão quase me sufocava.
No entanto, tentar segui-los significaria ter que abrir mão do careca, e isso eu não poderia fazer.
– Escuta – eu disse, chamando sua atenção. – Pare de tentar escapar. Eu só preciso te levar de volta e fazer algumas perguntas. Não vou te machucar.
Subitamente, ele parou de se mexer. Por dois segundos, acreditei de verdade que meus argumentos e poder de persuasão eram muito fortes. A fantasia não durou muito. Logo notei que ele havia sido nocauteado por um soco na cabeça. E foi aí que meu olhar percebeu a figura parada na minha frente, sorridente.
O sujeito era definitivamente bonito. Cabelos acobreados e estrategicamente espetados, traços finos e requintados, brincos, óculos de sol e terno o tornavam uma visão e tanto. Sua boa aparência, no entanto, não contribuiu para sanar minha confusão:
– O que...?
– Agora você está a salvo, bela dama — o sorriso que esculpia seus lábios era de orgulho, como se ele se parabenizasse pelo que tinha acabado de fazer, o que, admito, me deixou um pouco irritada.
– Eu estava a salvo — retruquei, não aguentando mais o peso do corpo largado em meus braços. — Talvez eu estivesse em perigo antes, mas não agora!
Ele fez uma cara confusa, parecendo surpreso com minha reação a sua "ajuda". Bem, se aquela era a ajuda dele, eu não precisava, obrigada. Soltei o corpo mole e pesado do careca e alcancei o cinto em minha cintura, selecionando uma chave de ouro. Em meio à nuvem de invocação do espírito da Virgem, pude visualizar a expressão de total espanto do rapaz.
– Princesa — Virgo me cumprimentou, séria, se curvando. — Está na hora da minha punição?
Neguei enfaticamente, como sempre fazia, e me virei para notar o desconhecido ainda me olhando esquisito. Por que ele ainda estava ali, mesmo?
– O que? — Questionei em um tom seco. — Não vai me dizer que tem medo de magas celestiais?
Minha pergunta deve ter chamado a atenção de Virgo para ele, porque ela o imediatamente o encarou, abrindo um sorrisinho discreto:
– Olá, Leo-sama — disse, curvando-se novamente.
– Espera, você o conhece?
– Eu prefiro Loki — ele comentou, sorrindo amarelo. — E, respondendo sua pergunta, não, eu não tenho medo de magas celestiais. Apenas não sou muito fã.
Aquela declaração merecia bem mais que apenas cinco segundos de análise, porque era meio que inconcebível um espírito não gostar de magos celestiais — você poderia dizer que Aquarius não gostava, mas era especificamente de mim – contudo, eu não podia ficar perdendo meu tempo ali, com conversa fiada; o mundo de duas pessoas e um gato estava parado, e eu — mais precisamente o careca — tinha o poder de coloca-lo em movimento de novo.
– Certo — disse, esfregando as mãos, me preparando para o esforço físico que teria que realizar. — Loki, legal te conhecer, espero que perca esse medo bobo. Virgo, poderia, por favor, me ajudar a carregar esse careca?
– É claro, princesa.
Virgo pegou o careca pelas pernas enquanto eu o pegava pelos braços, levantando-o do chão. Quando começamos a andar em direção armazém, o peso ficou mais leve; Loki passou os braços por debaixo do corpo.
– Por que...? Achei que... – Por que diabos ele estava me ajudando se não gostava do que eu representava?
– Vou te ajudar — ele comentou, sorrindo, de novo, orgulhoso de si mesmo. — Afinal, fui eu que te causei esse problema.
~*~*~
No tempo em que chegamos ao armazém, Romeo, aparentemente deixado para trás, nos comunicou que Happy havia movido Lisanna para a biblioteca particular do Conde, e que Natsu estava furioso com o meu sumiço. Saber disso não me fez nada ansiosa ao entrar no cômodo lotado de livros, ainda carregando o pobre bandido.
Dizer que a expressão do meu namorado era surpresa podia ser classificado como eufemismo. Agora, eu não tinha certeza se ele estava surpreso pelo fato de eu ter conseguido pegar o careca, ou por ter um rapaz elegante e desconhecido comigo. Estava apostando que pendia mais para a segunda opção, porque subitamente ele me puxou para um lugar mais afastado.
– Que merda é essa, Lucy? — Questionou, apontando para Loki, que, no canto direito da biblioteca, acenava sorridente em nossa direção.
– É uma longa história — disse, não querendo me prolongar nesse assunto no momento. Quando ele me olhou feio, soube que não estava feliz com a resposta. — Olha, você tem outra prioridade agora, e é interrogar o careca.
Enquanto conversávamos, pude observar Virgo e Romeo amarrando o bandido contra uma das confortáveis poltronas. No outro assento, Happy pairava sobre o que parecia ser uma Lisanna em sono profundo.
– Você é minha prioridade. Sempre — a expressão de Natsu era dura, mas eu podia facilmente notar o mel em seus olhos. O que não me impediu de pensar que eu não fui exatamente sua prioridade quando encontramos Lisanna. Egoísta, né? Eu sei.
Passei meus braços em torno de seu pescoço forte, e Natsu recostou sua testa quente contra a minha. O contraste entre nossas temperaturas era delicioso. Aproveitei para plantar um beijo simples em seus lábios cerrados, o que se mostrou um erro:
– Espera um minuto — pediu, encostando o nariz em minha bochecha e puxando o ar. — Você está cheirando... Você esteve com outros caras, além daquele maldito?
Huh-oh, pega no flagra.
– Eu te disse: longa história.
– Lucy...!
Tentei me desvencilhar dele e, quando meus esforços se mostraram infrutíferos, segurei seu rosto entre minhas mãos e o encarei profundamente.
– Eu confiei em você quanto à Lisanna, naquele abraço esquisito.
Era choque presente nos olhos dele? Oh, isso era bom. Se ele se sentisse culpado então, melhor ainda.
– Lucy... Lisanna estava...
– Fragilizada, sozinha e no escuro por anos, eu sei. É por isso que não estou reclamando — contei-lhe, apertando suas bochechas. — Agora preciso que confie em mim.
Natsu fez um biquinho contrariado que era muito adorável. Não aguentei e me coloquei na ponta dos pés, beijando-o suavemente nos lábios. Surpreendi-me com a intensidade que o senhor mal humorado retribuiu.
– Você vai me contar essa história direitinho depois. E vai ter que me compensar por isso. Com o corpo.
Girei os olhos, bufando. Todo momento parecia um bom momento para o Natsu pensar com a cabeça de baixo.
Tivemos que esperar cerca de mais quinze minutos para que o careca acordasse. Nesse meio tempo, tudo o que eu conseguia fazer era amaldiçoar Loki por ter uma mão tão pesada. Sim, porque enquanto o bandido estava desacordado, toda a atenção de Natsu estava voltada ao ruivo, e ele parecia ter feito de sua missão de vida hostilizá-lo.
E o espírito estelar, pra piorar a situação, se recusava a ir embora, sabe-se lá por qual motivo. Eu juro que até tentei afugentá-lo com o meu status de maga celestial, mas tudo o que eu conseguia era arrancar uma careta dele. Ao que tudo indicava, Loki era um espírito livre, sem associação alguma com qualquer mago, se mantendo nesse mundo única e exclusivamente pelo seu poder, então ele dificilmente se deixaria levar pelo meu pedido de "xô, sai daqui".
Certo, você pode estar se perguntando se, nem por pelo menos uma vez, eu não tenha pensado em fazer um contrato com ele. Admito que isso cruzou minha mente mais que uma vez, porque eu tinha como objetivo juntar todas as chaves do zodíaco, mas não achei que era correto uma tentativa agora. "Voe livre, pássaro Loki", pensei, “De preferência, depressa. Antes que meu namorado descubra um modo de enviar seu traseiro de volta para o mundo dos espíritos”.
E foi isso. Quando parecia que Natsu ia perder a pouca paciência que tinha, o careca acordou. Se ele soubesse que tinha acabado de evitar o que muito possivelmente seria um massacre, aposto que não estaria com essa cara de atordoado.
– Escuta — meu rosado disse, chegando bem próximo do rosto desconexo do bandido. — Eu tenho perguntas a te fazer, e você vai me responder.
Tal ameaça não soou tão vazia quando Natsu iluminou seu punho com uma chama escarlate. Aquela era uma boa abordagem? Sim, não podia negar, porque com certeza traria resultados. Contudo, não era uma abordagem que me agradava, e foi por isso que interferi:
– O que ele quis dizer foi: não pretendemos te machucar, só queremos algumas respostas.
O Dragneel formou uma careta engraçada na minha direção, claramente desaprovando minha posição, mas eu não cedi. E, sem querer, acabamos encenando o típico interrogatório do policial-bom-e-mal.
– Qual seu nome? — Foi o que eu quis saber primeiro, pois já estava cansada de me referir a ele como "careca".
Silêncio foi o que predominou, e eu suspirei. Sabia o que vinha a seguir. Natsu abriu o punho embebido em chamas e o arremessou muito rente à cabeça dele; se ele não fosse careca, o fogo teria carbonizado seu cabelo.
– Minha namorada te fez uma pergunta.
A técnica de intimidação funcionou, porque no instante seguinte, ele estava balbuciando:
– Eu sou Elai... O mais velho dos irmãos Vanish...
– Oh, bem, olá, Elai — cumprimentei, forçando um sorriso, torcendo para que ele colaborasse sem mais demonstrações mágicas. — Na sua fuga dessa biblioteca, você nos levou, intencionalmente, eu presumo, para um armazém onde minha amiga estava sendo mantida em cativeiro. Você é o responsável pelo seu sequestro?
Elai estava de cara fechada, obviamente não gostando da situação. Olhou uma vez para a amiga em questão e então negou com a cabeça.
– Eu já sequestrei pessoas antes, mas eu nunca a vi.
– Ela tinha uma aparência mais jovem na época — eu disse, ao mesmo tempo em que Natsu acusava "mentiroso".
– Eu nunca mexi com alguém de cabelo prateado, eu juro.
Eu acreditava, apesar de ter um Dragon Slayer rosnando atrás de mim. Um breve olhar para Loki, mais afastado, me dizia que ele também acreditava. E eu confiava na capacidade de julgamento dos espíritos. No entanto, eu não acreditava que Elai nos tinha levado ao armazém por puro acaso.
– Por que você roubou o livro bem enquanto estávamos aqui?
Elai nem ao menos vacilou; ele sabia que era só uma questão de tempo até que eu fizesse tal questionamento.
– Porque eu fui pago pra isso.
– Como é que é, maldito?! — Também era só uma questão de tempo até que Natsu perdesse seu temperamento e o agarrasse pela gola da blusa.
– Eu fui pago p-pra isso — repetiu o bandido, encontrando um pouco de dificuldade em manter o tom. — Um cara me encontrou, me deu esses detalhes, me pagou e aqui estou eu.
– Quem te pagou pra fazer isso? — Perguntei suavemente, tocando por cima do aperto do meu namorado, tentando afrouxa-lo.
– Eu não sei — Elai respondeu, um pouco mais calmo. — Estava escuro, e ele vestia capuz.
– Você aceita trabalho de um desconhecido nas sombras?! — Natsu não estava mais agarrando-o pelo pescoço, mas seu tom em nada era ameno.
– Eu sou de uma guilda de mercenários... Pagando bem, eu faço praticamente qualquer coisa, pra qualquer um.
– Suponho, então, — comecei, quase roendo as unhas com a situação – que ele o tenha pagado para seguir aquele exato caminho em sua fuga...
– Não – Elai engoliu em seco, parecendo perturbado com o que estava prestes a confessar. – Ele não precisou me pagar pra isso. A mulher que estava com ele me disse pra seguir aquele caminho, e eu simplesmente não pude negar. Era... estranho.
Levou alguns minutos para que percebêssemos que aquilo era tudo o que iríamos obter de Elai; o bandido estava tremendo incontrolavelmente, como se sentisse muito frio, e os olhos pareciam injetados, fixos no nada. Ou ele estava tendo um ataque de pânico atrasado ante ao comportamento de Natsu, ou havia algo de muito errado acontecendo ali.
Romeo o desamarrou e guiou o subitamente frágil mercenário até a saída da mansão Everlue, como prometido, para soltá-lo. Ao mesmo tempo, Natsu foi até o escritório do Conde para tentar se informar a quem pertencia o armazém. E então eu já não aguentava mais ficar naquela biblioteca.
Não me pergunte a razão, mas, quando saí do cômodo, eu já tinha o armazém como destino certo. Quando dei por mim, estava parada em frente à porta, exatamente como esteve Natsu antes, estática. O interior do armazém era realmente escuro, e a luz do sol que entrava pela porta fazia pouca questão de iluminar mais que o centro.
Hesitei antes de entrar, não porque não sabia o que eu queria ali, mas sim porque o escuro me incomodava. Eu não tinha medo, só odiava a sensação de não enxergar. A maioria das pessoas era extremamente previsível no escuro, e eu não era a exceção. De qualquer forma, movida principalmente pela curiosidade do desconhecido, entrei.
Sendo totalmente franca, foi bastante dificultoso sair da linha que a luz cobria. No entanto, a partir do momento em que eu não podia enxergar mais nem meu próprio pé, me senti mais calma. Caso eu me virasse, seria capaz de ver a entrada iluminada, e era extremamente fácil se entregar à quietude que o escuro proporcionava.
Era quieto, sim, mas não vazio. Por diversas vezes, acabei esbarrando em vários objetos, levando-os ao chão em um baque surdo. Até que minhas pupilas, que deveriam estar amplamente dilatadas, se acostumaram com a ausência de luz, e eu pude distinguir algumas formas presentes ali. Uma mesa de canto, um tapete, uma cadeira... Sentei-me nela.
Do meu ponto de vista, ficava fácil ver os colchões e cobertores em que Lisanna fora encontrada, pois estavam iluminados pelo ângulo que a luz do sol entrava. Parando bem pra pensar, se o armazém era um cárcere, então a porta não ficaria aberta, barrando a luz. E foi nesse exato momento em que eu descobri que a pessoa que a manteve prisioneira por todos esses anos podia enxergar muito bem no escuro.
O efeito que tal descoberta teve sobre mim foi perturbador, porque eu estava sentada exatamente onde essa pessoa se sentou diversas vezes para observar a pobre menina cativa. Levantei de súbito, não querendo mais permanecer ali de jeito nenhum. Em minha ansiedade em sair correndo dali, acabei tropeçando na mesa de canto e derrubando muitos papeis que me fizeram escorregar, caindo sentada no limiar do feixe de luz.
Atordoada e respirando irregularmente por causa do tombo, apoiei-me no chão, erguendo meu peso em pé. Peguei os papeis na mão e notei, com espanto letárgico, que se tratava de desenhos. Desenhos muito bem feitos, por sinal. Porque eu reconheci exatamente quem era retratado ali.
Natsu, em uma versão mais jovem dele.
Eu mesma, em uma versão mais jovem de mim.
A situação toda, a partir daí, tinha tomado uma vertente tão perturbadora que eu não encontrei razão ou lógica nas próximas coisas que fiz. Coloquei os desenhos amassados dentro da minha bolsa, andei de forma mecânica para a porta e fiquei parada lá, encarando o pôr do sol.
Natsu me encontrou ali mais ou menos depois de uns vinte minutos, com a lua brilhando tímida no céu. Sua expressão era uma mistura de preocupação e medo. Ele me abraçou antes de qualquer coisa, bem forte, afundando o rosto nos meus cabelos. O gesto foi muito bem vindo, porque eu estava com frio, e ele era quente.
– O armazém é do próprio Conde Everlue, mas, como não é usado há anos, ele não sabia da presença de Lisanna aqui. — O aperto de seus braços ao meu redor aumentou e eu fechei os olhos, sentindo seu hálito gostoso balançar alguns fios do topo da minha cabeça. – Por que você tem essa mania de sumir de repente?
Eu podia muito bem ter discursado por vários minutos sobre como eu não sumia, que eu apenas gostava de ficar à margem quando a situação ameaçava me sufocar, mas preferi não entrar no mérito dessa questão.
– Desculpe-me – pedi, beijando o peito sobre seu coração, que batia forte e rigoroso. Eu gostava disso. Gostava de como a vida de Natsu parecia exalar por seus poros, me envolvendo em uma manta confortável e segura.
– Lucy... – Sua voz rouca soou muito perto da minha nuca, causando-me arrepios. – Eu gostaria que você não andasse mais por aí sozinha.
Enquanto eu acenava afirmativamente com a cabeça, soube de duas coisas que mudariam permanentemente nossa vida dali pra frente.
Uma: eu não diria a ele sobre os desenhos perturbadoramente realistas que eu havia encontrado naquele armazém.
Duas: Natsu sabia exatamente quem havia sequestrado e mantido Lisanna.
Fale com o autor