Sangue Quente
12 Like a Thief In The Night
Notas iniciais
Capítulo XII — Like a Thief In The Night, She Stole My Filthy Heart
(Como Uma Ladra na Noite, Ela Roubou Meu Coração Imundo)
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CAPÍTULO NARRADO POR NATSU DRAGNEEL
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– Ei, Natsu, onde está a Lucy? – Perguntou Droy pelo que parecia ser a sexta ou sétima vez. Sério, se ele queria me irritar, havia acabado de conseguir.
– Se você me perguntar isso mais uma vez, juro que vou esfregar essa sua cara gorda no assoalho – espalmei as mãos na superfície da mesa, sentindo uma veia começar a saltar em minha testa.
Droy arregalou os olhos, não duvidando em nenhum momento de que eu cumpriria a ameaça. Wendy, sentada ao meu lado, agarrou um de meus braços e me puxou delicadamente de volta ao assento, murmurando um “acalme-se, por favor. Você está há um passo de perder o controle”.
Eu estava ciente do que “perder o controle” significava, então respirei fundo algumas vezes e me recompus. Voltando-me para Droy, declarei:
– Eu já disse, não sei onde ela está.
– Também não diga como se não se importasse – a baixinha azulada sussurrou, me repreendendo.
Agora, preciso deixar claro uma coisa: Wendy era a única que eu permitia que fizesse isso. Nunca suportei levar duras, mas há muito tempo decidi que não valia a pena me voltar contra a pequena sacerdotisa do ar. E, na maioria dos casos, ela estava certa em me repreender.
Não que eu um dia fosse admitir isso em voz alta.
Oh, glória à Mavis, pelo menos ainda lhe resta um pingo de dignidade, Edo-Natsu resolveu se pronunciar, e para evitar uma briga mental das grandes, e também me esquivando de ter que dizer algo à Wendy, entornei o copo de cerveja nos lábios e enchi minha boca com o líquido amargo.
Já estava ficando farto da minha parcela mental chata me importunando em dados momentos, mas notei, com certo desgosto, que Edo-Natsu geralmente se pronunciava com mais frequência quando meu humor estava do cão. Ou, para jogar em pratos limpos, quando eu brigava com Lucy. Quer dizer, quando ela brigava comigo, porque era sempre ela quem começava. A garota era um poço de contradições e ainda tinha a coragem de me chamar de bipolar!
Fico me perguntando em que momento você falhou e deixou de ouvir os conselhos do Igneel.
Oh, cale a boca, resmunguei, nem um pouco afim de entrar nos méritos da questão.
Não, você vai me ouvir. Se lembra do que Igneel dizia? “Fique longe de garotas bonitas, elas são perigosas”.
Provavelmente ele só dizia isso porque eu era uma criança pateta e inocente demais. Fiz uma pausa. Mas, espera aí, você acabou de afirmar que acha Lucy uma garota bonita?
Oh, cale a boca, agora foi a vez do Edo-Natsu resmungar. Senti que ele ficaria silencioso por enquanto. Vitória!
Revirei os olhos, bebendo mais um longo gole da cerveja antes que algo em meus sentidos me alertasse para a presença de Lucy no ambiente. Era mais como uma queimação na espinha do que um pensamento coerente de “ela está aqui”. Tudo o que precisei fazer foi levantar a cabeça e endireitar o corpo.
E lá estava ela, minha garota – não quero nem saber o que vocês dizem, ela é minha -, parada no meio do salão da guilda, se destacando dentre a bagunça festiva. Quando ela decidiu me encarar, sustentei seu olhar de mel derretido e amêndoas queimadas com uma intensidade proposital, desafiando-a a desviar se fosse capaz. Ao que parece, ela não era. Ou não queria. Difícil diferenciar.
Ela era – perdão pelo clichê barato – como um colírio para os meus olhos cansados. A figura magra, mas com todas as curvas necessárias para me deixar salivando de tesão, parecia evaporar com qualquer resistência fútil que eu mesmo impunha aos meus pensamentos. Diabos, evitei pensar nela durante o dia inteiro, e o trabalho com Wendy até ajudou a me distrair, mas Lucy era como uma constante no fundo do meu cérebro; apesar de não focar meus pensamentos nela, eles continuavam lá, só espreitando pelo momento no qual me arrebatariam.
E tal momento, eu suspeitava, não tardaria a chegar. Meus sentimentos por aquela loira totalmente fora dos padrões estavam planejando uma emboscada para mim, e eu tinha a nítida sensação de que me deixaria ser apanhado por eles sem resistência.
Ao notar seus orbes castanhos marejarem, transformei meu olhar desafiador em um preocupado, e Lucy não mais me encarou, muito pelo contrário; saiu da guilda em disparada, atropelando Jet no caminho.
Sentia-me completamente desarmado diante de tal reação e, de súbito, soube exatamente o que acontecera. A loira devia ter presenciado uma cena protagonizada por nosso querido – por favor, quilos de ironia nessa palavra – Hibiki Lates e finalmente se dado conta de que o modelo queria apenas uma... hã, aventura com ela.
Ao que parece, somente eu – e, bem, Jet, o coitado que havia sido atropelado pelo furacão Lucy – notei a saída dramática da garota, portanto não hesitei mais nenhum instante; larguei o copo na mesa, acariciei o topo da cabeça azulada de Wendy, murmurando um “já volto”, e peguei o mesmo rumo que a loira.
Lucy sabia ser rápida quando queria, mas, novamente, não foi difícil achá-la. Meu olfato localizava sua essência agridoce com extrema naturalidade, de modo que a alcancei em pouquíssimos minutos. Ela não parecia ter percebido minha presença logo atrás, e preferi não denunciar minha posição quando ela diminuiu o ritmo da corrida, iniciando uma caminhada lenta.
Tínhamos acabado de entrar em uma praça pouco movimentada. Lucy seguia mais à frente, enquanto eu tomava cuidado para que ela não me descobrisse. Não sabia ao certo o motivo do meu comportamento furtivo, mas também não sabia como ela reagiria caso me visse, por isso decidi observá-la por um instante a mais.
A noite estrelada estendia-se por sobre nossas cabeças e, somada às luzes dos postes, havia iluminação o suficiente para clarear até mesmo as águas escuras de um pequeno rio que cortava a praça. A loira, curiosamente, escolheu se sentar em um banco de madeira bem em frente à água.
Seus ombros finos encolheram-se, muito provavelmente de frio, e eu torci os lábios em desaprovação. Era início de inverno e, embora eu não sentisse muito os efeitos da queda de temperatura, sabia que as roupas finas que ela usava não eram suficientes para aguentar um passeio ao relento.
Aproximei-me por de trás do banco em passos silenciosos, encarnando, literalmente, um predador à espreita de sua presa. Puxei o cachecol que Igneel me dera há muito tempo e, muito rapidamente, enrolei-o em torno do pescoço alvo da garota.
A Heartfilia começou a se debater violentamente, segurando o tecido entre as mãos para mantê-lo longe de sua pele, provavelmente pensando que eu era algum tipo de assassino estrangulador. Não que eu estivesse tentando estrangulá-la de fato, nem nada do tipo – pra ser sincero, o cachecol estava até frouxo em volta de seu pescoço -, porém suas reações exageradas eram simplesmente hilárias e faziam a caçada valer bem mais a pena.
Era um passatempo cruel, mas eu gostava de assustá-la.
Aproveitando a oportunidade que tinha de tocar em seus ombros delicados – quando é que eu não aproveitava uma oportunidade de assediar minha garota? – rocei meus lábios em sua pele exposta, e ela – para meu espanto e deleito — soube que era eu ali, mesmo sem nem se virar, porque imediatamente cessou sua luta contra o tecido branco e me xingou com vontade, estapeando minhas mãos para longe.
Levantei os braços em um gesto conhecido de rendição e pulei por sobre o encosto do banco, pousando sentado ao lado dela. Novamente levei minhas mãos para seu pescoço afim de ajeitar o cachecol.
– Natsu...! – Ela me repreendeu verbalmente, mas não se debateu, nem se afastou. Considerei como um bom sinal, mas achei melhor não abusar, portanto tirei as mãos dali tão logo ajeitei o assessório.
E aquele papo de que a Wendy era a única de quem você aceitava pacificamente uma repreensão?
Eu sinceramente achei que você ficaria ausente por mais tempo.
Vai sonhando, perdedor. Edo-Natsu, sempre uma personalidade graciosa.
Decidi por ignorar a alfinetada e voltar minha atenção para Lucy, que ainda me olhava com suas bochechas suavemente rosadas à espera de um pronunciamento.
Em um impulso muito mal contido, inclinei-me para frente e capturei seus lábios com os meus. Ela arfou, pega de surpresa, e isso só facilitou as coisas para minha língua que, parecendo ter tomado vida própria, invadiu sem piedade sua boca. Tentei não me ater ao fato de que ela não estava me retribuindo, colocando a culpa no teor inesperado de meu gesto para meu orgulho não sentir a picada.
Contudo, quando minha língua acariciou a sua, pude sentir Lucy gemer timidamente contra minha boca. Ela não parecia ter notado o som extremamente sensual que produzira, porém, ao contrário dela, meu corpo estava – e muito – ciente do que ouvira, o que me fez desejar ultrapassar o sinal. Isso, sim, ela pareceu notar, porque no instante seguinte, já se desvencilhava de mim.
Fiquei surpreso quando ela deslizou o corpo pelo banco, sentando-se na outra extremidade, fugindo de meu toque – apesar de no fundo já esperar por isso. Ela ofegava, o que me deixou orgulhoso de minhas proezas com a boca, entretanto, a despeito disso, ela mantinha no rosto uma expressão emburrada e rabugenta.
Piscando para ela, disse-lhe:
– Você devia estar sorrindo agora, Lucy – meus lábios se insinuaram nos cantos de maneira sacana, presenteando-a com meu melhor sorriso cafajeste. – E devia estar orgulhosa também, porque não é todo dia que se ganha um beijo do grande Natsu Dragneel.
Lucy me lançou um olhar extremamente cortante que me fez acreditar que, se seus olhos fossem fuzis, meu corpo já estaria cravejado de balas.
– Não consigo acreditar que você acabou de dizer isso! Você é mesmo um troglodita e tem um senso de humor perverso — ela levantou os olhos para o céu estrelado, consternada, e não disse mais nada. Eu acabei por fazer o mesmo, porque sabia que se não me calasse, ela iria surtar comigo, outra vez.
Agora que sua respiração normalizava-se aos poucos, ela parecia meio pra baixo, mas especialmente pensativa. Meio que de súbito, fiquei sem jeito de puxar assunto, então, em silêncio, fiz-lhe companhia. Não me sentia mais bravo com ela, se querem saber. Na verdade, nem parecia que estávamos brigados. Era em momentos assim que todos os sentimentos negativos que eu vinha nutrindo por ela — desde nossa recente briga — desapareciam.
Bom, acho desnecessário dizer, mas meus sentimentos negativos por ela não desapareceram.
Minha nossa, você é um saco.
Permanecemos em silêncio por longos minutos, tanto eu e Lucy, quanto Edo-Natsu. Em dado instante, notei que ela afundou o rosto no tecido branco do cachecol que tocava de maneira frouxa seus lábios cerrados. Poucos segundos depois, a garota olhava para mim, produzindo um sorriso triste.
– Seu cheiro é muito bom – comentou, enrolando distraidamente as pontas do cachecol em um dos dedos.
Se eu fosse um pouco mais inocente, como eu era aos meus doze anos, teria corado. Mas eu não era. Havia poucas coisas no mundo que podiam me constranger – e quase nenhuma constrangia o Edo-Natsu -, e minha masculinidade agradecia por isso.
Não devolvi o elogio. Não que Lucy não fosse fodidamente cheirosa – tinha sido o cheiro dela que havia me atraído, a princípio -, no entanto, toda a minha atenção estava voltada para aquele mísero sorriso estampado em seus lábios, aquele típico de alguém que estava pra baixo.
– Durante mais quanto tempo você pretende ficar nesse estado? – Questionei, arqueando uma sobrancelha. Ela não me respondeu, mas me direcionou um olhar surpreso. No mínimo devia ter achado que eu iria xingá-la.
Acho também que é desnecessário dizer, mas se eu estivesse no controle, eu xingaria. Você sabe.
É, e se você estivesse no controle, também tentaria tocar fogo nela. Eu sei.
Velhos hábitos nunca mudam.
– Não sei – Lucy respondeu, por fim. – Acho que só preciso me acostumar com a ideia.
Tomei uma longa respiração, como se me preparasse para ouvir uma resposta que com certeza me desagradaria, e perguntei:
– Tá certo, o que o imbecil do Hibiki aprontou pra você ficar assim desanimada?
A loira procurou por meus olhos enquanto fazia uma careta engraçada.
– E o que te faz pensar que estou desanimada por causa do Hibiki? – Soltou, acrescentando um tom de mistério em sua voz.
– Então não está? – Minhas palavras soaram incrédulas até mesmo para os meus próprios ouvidos.
– Não. Quer dizer, estou desanimada, mas não é com Hibiki – explicou, continuando a mexer distraidamente no cachecol. – É com você.
O soco que suas palavras me deram doeu mais do que achei que fosse possível. Então ela estava chateada comigo. Fazia sentido, afinal ela havia fugido de mim, na guilda, e fugido do meu toque, agora de pouco, como o maldito diabo foge da cruz.
– É sobre nossa briga, não é? Escuta, eu não vou pedir desculpas, mas...
– Não precisa pedir desculpas, você estava certo – Lucy cortou minha frase, olhando diretamente dentro dos meus olhos. Se antes eu tentara prende-la com a intensidade do meu olhar, pareci um garoto inexperiente, porque a intensidade de seus orbes castanhos derretidos superavam em muito a minha. – Claro que você poderia ter se posicionado de forma mais gentil, mas você estava certo.
– É claro que eu estava – não pude me impedir de dizer, e a Heartfilia soltou um grave barulho de repreensão.
– E esse é o problema – anunciou, passando por cima de minha última pronunciação. Seu corpo repousava meio torto, completamente virado para mim, mas seus olhos desviaram-se para um ponto entre minha perna e o assento do banco. – Hibiki é um imbecil. Estou desanimada porque tenho que dar o braço a torcer e dizer que você esteve certo o tempo todo.
Coisinhas engraçadas, as palavras. Em um momento, estão de dando uma surra, no outro, pareciam conjurar o paraíso que descia sobre mim. Eu estava deliciado em ouvir aquilo; tão deliciado que me vi pedindo:
– Repete isso outra vez.
Lucy me olhou de maneira revoltosa.
– Não sabe o quão difícil foi ter que admitir em voz alta que você estava certo, Natsu Dragneel, então não abuse da sorte!
– Não – tive que corrigir, ainda na expectativa de ouvir aquilo sair de seus doces lábios novamente. – Quero que repita o que disse antes disso.
A maga a minha frente me encarava indignada.
– Estou começando a me arrepender de ter desabafado tal coisa; quer dizer, olhe só pra você, já está com o ego na lua!
De acordo.
Não finja que não está deliciado em ouvir aquilo também. Eu te conheço, babaca.
– Repita o que disse antes, Lucy, ou então eu juro que vou mandar meu autocontrole pro inferno e te beijar até que seus lábios comecem a doer!
Certo, preciso confessar que uma grande parcela de mim ansiava que Lucy não repetisse o que tinha dito para que assim eu pudesse cumprir minha ameaça. Para o meu grande desapontamento, a garota logo tratou de dizer:
– “Hibiki é um imbecil”. Satisfeito?
Nem de longe, pensei, mas já era um bom começo. Tentando omitir meu desagrado por não poder encher seus lábios carnudos de beijos, sorri mostrando os dentes.
– Viu só, o adjetivo “imbecil” ganha muito mais sentido quando acompanhado do sujeito “Hibiki” – eu disse. Lucy revirou os olhos e me mostrou a língua; vontade de capturá-la com a boca não me faltou, no entanto não me mexi. Apesar de ter afirmado que Hibiki era um imbecil, ela parecia ter dificuldades em dar o braço a torcer e concordar que ele era muito mais imbecil que eu. Lucy era uma mulher bem arisca, de fato. Hmm, meu tipo preferido. – Minha garota orgulhosa.
Com grande satisfação fui capaz de ver suas bochechas corarem antes que ela pudesse escondê-las sob o cachecol. Eu ganharia alguns pontos em seu conceito se dissesse que Lucy foi a única pessoa para qual eu emprestara meu cachecol depois que Igneel o dera pra mim?
– Precisamos... – A garota anunciou, de repente, sem olhar para mim. – Precisamos resolver as coisas entre nós.
– Entre nós – repeti, saboreando as palavras; deixavam um gosto muito agradável na minha boca.
– Sim, entre nós.
Algo em seu tom de voz não me agradou. Ela usava um timbre sério, como se tivesse pensado muito em nossa... hã, relação. Ou, pra ser mais específico, como se tivesse pensado muito em meios de terminar nossa relação. Não que de fato tivéssemos uma relação. Quer dizer... hã, ah, deixa pra lá, isso me deixa confuso. No entanto, pensando por uns pequenos instantes, em um raro momento de iluminação mental, algo me ocorreu:
– Então existe um “nós”.
– Não, não existe.
– Você acabou de dizer “nós”.
– Não disse. Você está imaginando coisas.
Maldita mulher que ainda vai me deixar insano!
Eu te disse que ela era encrenca. Deveríamos tê-la queimado assim que pusemos nossos olhos sobre ela, naquele dia no beco.
Cocei a nuca, exasperado com o rumo das duas conversas; a real e a mental. Retorci as feições do rosto em uma careta e decidi descontar a frustração com a teimosia de Lucy na conversa com o Edo-Natsu: Mas eu tentei queimá-la naquele dia. Quer dizer, você tentou, só que não deu certo!
Não deu certo porque você é frouxo e não me cedeu o controle por completo. Se você não estivesse me reprimindo naquele momento, Lucy com certeza não passaria de cinzas agora.
O problema é que eu não quero que ela vire cinzas, cacete!
Toda essa conversa mental havia se passado em menos de um minuto, tanto que Lucy ainda me encarava emburrada.
– Tudo bem, você não disse “nós” – passei as mãos pelos meus cabelos; um movimento obviamente exasperado. Apesar de mentalmente esgotado, ainda tive a decência de avisar: – Mas isso não importa, porque agora eu vou te beijar.
No entanto, quando me inclinei sobre Lucy, dei com a cara no assento do banco de madeira. A loira havia se levantado de maneira abrupta, e já se encontrava a três passos de distância.
– Qual o problema com você? – Questionei, muito mais frustrado do que imaginei que fosse estar.
– Não, qual é o seu problema? – Ela estava ofegante e vermelha, uma visão, devo ressaltar, extremamente tentadora. – Acha que um beijo resolve tudo?
Preciso admitir, em minha defesa, que não pensei muito sobre a resposta.
– Sim.
– Pois não resolve, Natsu! – A loira andava de lá pra cá na minha frente, como se intencionasse aliviar o estresse. – Eu preciso... Eu preciso saber como você se sente, droga.
– Se você tivesse me deixado beijá-la, você saberia – resmunguei, desconfortável.
– Eu preciso que você me diga, Natsu. Com palavras.
Oh, não. Eu não ia dizer. Me recuso. Meu coração está enferrujado pelos tantos anos sem uso; eu não sei falar sobre os meus sentimentos. No entanto, eu tinha absoluta certeza de que qualquer mulher já teria sacado o que eu sentia, mas não Lucy. Claro que não, o trabalho dela era dificultar minha vida e me deixar insano no processo.
Gosto do fato da Lucy ser uma tapada.
E era isso. De súbito, eu estava exausto demais para continuar com qualquer uma das conversas. Suspirei, derrotado pela teimosia e cabeça dura dessa mulher irritante que tinha por objetivo de vida me deixar maluco, e enfiei uma das mãos no bolso da calça, recuperando de seu interior uma correntinha dourada.
– Aqui – eu disse, entregando o colar com o pingente de rubi que Lucy descartara no banheiro no dia anterior. Seus olhos castanhos adquiriram um brilho incandescente quando pousaram sobre o objeto, e sem demora ela o pegou entre os dedos. – Se você joga-lo fora outra vez, eu juro que o transformo em cinzas.
Por causa da ameaça, acho, ela me encarou desconfiada, mas algo em sua expressão denunciava que ela havia achado graça.
– Eu não o joguei fora – Lucy informou, acariciando, encantada, o pingente de rubi em forma de gota.
– Tanto faz – eu disse, encolhendo os ombros, mostrando indiferença, muito embora eu estivesse satisfeito em saber que meu presente não havia sido descartado.
Dei as costas para Lucy e me coloquei em movimento, indo embora. Então sua voz soou atrás de mim, firme e forte:
– É isso então? Vai fugir de mim?
Virei-me novamente e vi seus olhos emparelharem com os meus, com ceticismo exalando de forma muito teatral. O engraçado é que, há menos de uma hora e também há poucos minutos, era ela fugindo de mim. E, pra deixar claro, eu não estava fugindo. Estava apenas indo embora pra não me irritar ainda mais com a frustração e acabar brigando com ela outra vez, porque, diabos, eu definitivamente tinha sangue quente, facilmente inflamável.
– O que você quer de mim, Lucy? – Perguntei, seco.
A loira parecia ter a resposta na ponta da língua, porque não hesitou, nem titubeou quando disse:
– Eu não quero ficar sozinha, Natsu.
Eu sabia que ela não se referia a apenas esse momento; era algo muito mais profundo. Ela queria alguém ao lado dela, que não a abandonasse.
– Eu estou aqui, não vou te deixar sozinha – afirmei, soltando um suspiro cansado.
– E quero que seja sincero – Lucy adicionou. — O que você quer de mim?
Oh, aí está a pergunta de um milhão de jewels. Eu queria muitas coisas de Lucy. Como, por exemplo, dividir a cama com ela. Eu também queria seus lábios, seus seios e pernas, seu corpo. Seu calor pulsante. Inferno! Queria até mesmo seu coração. Principalmente seu coração. Eu queria tudo de Lucy; tudo o que ela tinha pra oferecer e mais.
Diabos, eu queria ser aquele que ela estaria morrendo de vontade de amar.
E também queria não soar tão gay ao dizer essas coisas.
Você é um filho da puta egoísta.
Como se você não fosse!
– Eu... – Balbuciei feito um babaca, impressionado com a intensidade dos meus sentimentos pela maga celestial.
Em vez de tentar dizer qualquer coisa, porque pelo visto eu era incapaz, me aproximei da loira e acariciei suas bochechas com os polegares. Ela enrubesceu diante de meu toque, e sussurrou tão baixinho que se eu não tivesse os sentidos aguçados de um Dragon Slayer, nunca teria escutado:
– Por que está fazendo isso?
Uma sensação mais engraçada do que esquisita começou a tomar forma em meu interior, ameaçando me engolir.
– Porque... Porque... – Passei a língua pelos lábios, tentando umedecê-los, enquanto pensava em frases diversas para me expressar. Minha mente, completamente sob pressão, focou-se em uma em específico que Happy usara com Charles: — Porque eu quero dividir um peixe com você.
Tal frase fazia muito mais sentido nos meus pensamentos, devo acrescentar. Lucy olhou pra mim com uma careta engraçada.
Olha só, depois dessa, eu juro que vou nos jogar de cabeça nesse rio aqui perto. Quem sabe assim a gente não se afoga e você nos poupa dessa humilhação?!
– Está pensando em comida em um momento como esse, Natsu? – Ela colocou as mãos na cintura, me lançando um olhar feio. – Isso é tão você.
– Não... – Cocei a nuca, exasperado. Lucy não tinha entendido o real significado por trás da frase. Talvez fizesse bem mais sentido entre os exceed. De repente, as palavras que uma vez meu velho dissera iluminaram minha mente: “Natsu, quando for o momento de selecionar uma parceira, escolha uma que, para seus padrões, seja estranha. Porque assim você se sentirá sempre desafiado, e isso é essencial para um Dragon Slayer”, então, recorrendo ao ensinamento de Igneel, disse, por fim: — É porque você é estranha.
Sério, são só quatro ou cinco passos para o rio. Até você tem que admitir que a ideia de morrer afogado está parecendo tentadora no momento.
– Como é que é? – Agora Lucy definitivamente me lançava um olhar maníaco, apenas a um passo de se tornar um encarar assassino.
– Você não tá entendendo, droga!
Era, definitivamente, o fim. Eu podia ver com extrema nitidez a minha dignidade acenando em despedida e partindo para talvez nunca mais voltar. Porque, merda, como um ladra na calada da noite, Lucy roubara meu coração imundo.
E então, como um raio, aquela sensação esquisita que ameaçava me engolir, de fato, acabou me engolindo. Eu devia saber que havia algo errado, algo fora de lugar, porque minha mente havia ficado estranhamente silenciosa, sem nenhum pronunciamento amargo do Edo-Natsu. Foi estranho, devo dizer. Era como um martelar insistente em um ponto específico da minha cabeça e, como uma porteira se abrindo, muitos flashs de memória me atacaram sem dó, nem piedade, tudo de uma vez, inundando meu cérebro e me dando uma baita dor de cabeça.
Meus olhos começaram a ficar embaçados, e o borrão loiro que se tornara Lucy chamou pelo meu nome, mas parecia muito distante dos meus ouvidos. Essas memórias esquisitas, vindas de um ponto adormecido da minha mente, tomaram todos os meus sentidos em uma avalanche fria e forte.
Eu sentia frio. Muito frio. Me sentia congelar até os ossos como se, do nada, tivesse perdido minha imunidade à baixas temperaturas bem no dia mais frio do ano. Mas isso não era possível, era? Minha cabeça girou, zonza, e meus olhos se tornaram turvos. De repente, não pude mais sentir meus pés abaixo de mim.
Ouvi Lucy gritar meu nome, mais uma vez, quando tudo ficou escuro.
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