Sangue Quente
26 Burst
Notas iniciais
Capítulo XXVI — Burst
(Explosão)
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Os dois loiros seguiam pelas ruas desertas de uma Magnólia adormecida. Não era uma cidade noturna, seus cidadãos comuns preferiam aconchegar-se em suas casas quando a lua dava as caras. Por esse motivo, a noite era dos magos.
Um loiro não podia ser mais diferente do outro. Lucy era curvilínea, delicada e andava de forma apressada. Já Laxus era grande, corpulento e andava como se não houvesse preocupações no mundo. Talvez, para um cara como ele, realmente não houvesse. Queria apressar o rapaz, mas sentia que não tinha intimidade o suficiente para fazer isso sem irritá-lo. E irritar Laxus nunca era uma boa ideia.
— Será que ainda pegaremos o horário de visitas da Prisão do Conselho? — Perguntou com voz suave, disfarçando a indireta. Por dentro estava gritando "será que poderia andar mais rápido?”
O mago dos raios colocou as mãos nos bolsos, olhando para ela sem emoção.
— Estamos sendo seguidos — disse, como quem comenta a passagem constante do tempo.
— O que?! – A menina, surpresa, começou a olhar em volta de forma alarmada. — Como você sabe?
Laxus a lançou um olhar impaciente, como se a resposta fosse óbvia; ele era Laxus, afinal. Sem nem mudar o ritmo das passadas, alcançou Lucy e a fez parar quieta com uma leve trombada de ombro.
— Estamos sendo seguidos desde que saímos da guilda. Se fosse para nos atacar, já teria feito seu movimento. Além disso — disse, levando a menina em um passo firme, mas tranquilo -, não sinto nenhuma intenção ruim vindo dele, então relaxe.
Lucy respirou fundo, absorvendo as informações.
— "Ele"? Então é um cara?
O mago fez que sim com a cabeça, um movimento bem discreto.
— Provavelmente um fã.
Ela não parou pra pensar muito se ele queria dizer que era um fã dela ou dele — Laxus era bem famoso por aí, apesar de não posar para revistas -, e deu o assunto por encerrado. Não iria se preocupar com isso agora, já tinha muito em sua mente.
Quando chegaram ao salão de entrada da Prisão Mágica do Conselho, passaram duramente por uma revista de pertences. Os guardas queriam tirar as chaves de Lucy, mas, quando agarrou-se a elas ferrenhamente, Laxus interviu com um olhar assustador. Os guardas engoliram em seco, certamente conhecedores da fama de durão do loiro, e o assunto das chaves não foi mais tocado. No momento em que estavam para entrar na ala na qual a cela de Persephone situava-se, no entanto, os guardas voltaram a enfrentar Laxus, mas dessa vez sem medo.
— Só há espaço para mais um lá dentro — disseram, sem emoção.
Aquilo era estranho. Havia mais alguém com ela lá dentro? Não seria melhor esperar essas pessoas saírem para que pudesse entrar? Depois de alguns minutos esperando, Lucy fez tais perguntas em voz alta. Um dos guardas balançou a cabeça e disse:
— Você verá quando entrar.
Laxus não tinha gostado muito da ideia de ficar para fora da sala, mas, com um estalado de língua, não se opôs. Quando Lucy sumiu pelo arco da porta, decidiu que talvez fosse legal prestar uma pequena visita à Jura, já que estava ali mesmo.
~*~*~
— Oh, uau, olha só quem decidiu aparecer para o chá – Persephone deixou um sorriso atroz transparecer pelas bordas da xícara de chá que levava aos lábios.
Aquela não era uma cena com a qual Lucy esperava se deparar. Tinha se preparado mentalmente para muitos cenários, como uma Persephone maltrapilha e acorrentada, ou mesmo em uma solitária escura e mal cheirosa, mas não estava preparada para aquilo.
A cela suspensa de vidro estava toda enfeitada, e era preenchida por uma mesinha de madeira decorada com uma toalha de babados, cadeiras combinando e um fino conjunto de chá de porcelana que se assemelhava bastante com aqueles presentes na mansão de seu pai.
Ocupando as cadeiras em volta, estavam duas pelúcias. Bem, duas tentativas de pelúcias, pois mais pareciam bolinhas de retalhos. Supôs que aqueles eram os ditos "convidados" de Persephone. Como os dois bichinhos destoavam da delicadeza e cuidado demonstrados na decoração, Lucy teve motivos para acreditar que havia sido Persephone mesmo quem os costurara.
— Como você conseguiu tudo isso? – Questionou, a meio passo da incredulidade.
— Um dos guardas me trouxe. Quer dizer, eles não iriam me negar o chá da tarde, não é? – Uma piscada daqueles cílios enormes quase fez com que a Heartfilia se esquecesse de que aquela mulher com aparência de menina era, na verdade, líder de uma gangue de bandidos, e possivelmente ajudante de um sequestrador.
— Exceto que não é de tarde. Já passam das dez da noite. – Lucy notou, perguntando-se mentalmente se não estava sendo paranoica ao pensar que talvez ela já soubesse que a faria uma visita.
— Por favor, sente-se. – Persephone claramente preferiu ignorar sua afirmação. – Se você pedir uma xícara para os guardas, com esse par de pernas, duvido que eles te neguem.
O tom e a sugestão maliciosa contidas na voz da menina irritou Lucy, que estava começando a ficar impaciente.
— Eu não vim aqui pra tomar chá, Persephone. – Pontuou, cruzando os braços sob os seios. Sentindo uma mistura estranha de receio e determinação, decidiu que não era o momento para voltar atrás. – Eu vim para te perguntar algumas coisas.
— Uh... – a encantadora de serpentes torceu os lábios, desgostosa. – Já vi que isso vai ser um tédio.
Apesar de suas palavras, Persephone não parecia entediada, nem surpresa. Para ser honesta, Lucy achou que se fosse melhor em perceber micro expressões, teria notado a menina sorrir minimamente, como se já soubesse das perguntas.
— Aquela noite em Silver Clock – começou, agora abandonando o receio. – Você me induziu a ir até aquela loja de conveniências abandonada.
Persephone, como se estivesse segurando a respiração por todo esse tempo, suspirou audivelmente, mas, de alguma forma, o som continha uma pitada notável de decepção. Ela balançou a cabeça.
— Oh, por favor, achei que a gente já tivesse superado isso, querida.
A loira não se deixou abater pela ideia bizarra de ter decepcionado Persephone. Quer dizer, era ridículo porque ela nem se importava com a opinião da albina.
— Mais cedo, naquele dia — continuou, ignorando -, você colocou um dispositivo oval e prateado no segundo andar pra nos emboscar. Por quê? Do que se trata esse dispositivo? Onde você o conseguiu?
— Oh, é por isso que você veio até aqui? – A mulher riu, estalando irritantemente a língua. – Tantas perguntas inúteis... Pergunte-me algo mais interessante, como, por exemplo, sobre aquele sujeito, um dos irmãos Vanish. Tenho certeza que já o conheceu, não?
A maga celestial piscou, primeiro confusa, depois incrédula. As peças — que ela nem mesmo sabia que existiam — estavam começando a se encaixar. Como não tinha feito essa ligação antes? O relato do cara que havia tentado roubar o livro Daybreak e os levou diretamente ao armazém no qual Lisanna estava presa, condizia com o efeito da magia de Persephone.
— Você o hipnotizou para que seguisse um caminho de fuga específico? — Tão específico que não havia como Natsu não encontrar Lisanna. Persephone queria que a encontrassem. Mas por quê?
A prisioneira tombou a cabeça para o lado, seus lábios em forma de coração fechando-se em um biquinho que seria adorável, se não fosse irritante.
— Porque o estúpido pegou a menina errada, mas, quando percebeu isso, anos já haviam se passado. Não foi até recentemente que ele me pediu ajuda. Então me agradeça por ter dado um jeito de devolvê-la inteira.
— Como se você tivesse feito isso por bondade do seu coração — Lucy balançou a cabeça, sentindo um misto de incredulidade e raiva.
Algo perigoso piscou por trás daqueles olhos róseos.
— Eu posso não ter um coração, mas não sou má – de repente, seu tom de voz era duro, contido, como se já tivesse repetido aquilo para si mesma muitas e muitas vezes. – Você pode não aprovar minhas ações, mas fiz o que tinha que fazer. Fiz o que achei certo.
A loira não estava entendendo muito bem o que se passava ali. Em um momento, Persephone era cínica, mimada e fútil, mas, no outro, era séria, madura e amargurada. Quem era essa garota, afinal? E o que a fazia agir desse jeito? Sem a resposta para tais questionamentos e preferindo não dar o braço a torcer e agradecê-la, como ela havia pedido, focou-se na primeira coisa que havia escutado.
— “O estúpido pegou a menina errada” – repetiu, colocando as mãos no bolso da saia. – Supõe-se que há uma menina certa, então, solta por aí. E o “estúpido” está atrás dela. Quem é ela?
Persephone deu de ombros e voltou sua atenção para o chá, demorando consideráveis minutos em silêncio. Lucy começou a preocupar-se que seu tempo de visita estivesse chegando o fim. Quando, por fim, a menina respondeu, calafrios percorreram o corpo da outra.
— Eu acho que você já sabe quem é.
A Heartfilia não sabia. Pelo menos, nunca admitira em voz alta. Contemplar a possibilidade de que estavam atrás dela esse tempo todo – que Lisanna sofrera e perdera esse tempo todo por causa dela— era inefável. E, ao mesmo tempo, nem fazia tanto sentido assim. Certo que Natsu estava realmente preocupado em deixa-la sozinha, e parecia saber de quem estavam atrás dessa vez. E havia os desenhos que ela tinha encontrado, dela bem mais nova. Ela poderia ser o alvo. Mas havia também desenhos do Natsu criança, indicando que ele também estivera na mira do suposto “estúpido”. E por que raios Lisanna teria sido pega por engano, em seu lugar? Naquela época ela não tinha nenhuma conexão com a garota ou com a guilda.
Não. O mais provável é que estivessem atrás de Natsu. Lisanna fora pega na época porque era a menina mais próxima dele, para atingi-lo. E Natsu estava preocupado com Lucy dessa vez porque ela era a menina mais próxima dele. Era o que fazia mais sentido no momento.
— Quem é ele? – Lucy perguntou, fazendo um esforço hercúleo para impedir a voz de tremer de pânico e nervosismo. Estava com medo. E o único jeito que podia pensar de acabar com esse medo era descobrindo quem o maníaco sequestrador era, para que pudessem captura-lo.
Persephone sorriu de orelha a orelha, o tipo de sorriso que não parecia humano.
— Por que não pergunta ao seu namorado? Ele o conhece.
Lucy não costumava perder o controle de seu temperamento – quer dizer, não desde que fizera treze anos -, mas dessa vez não conseguiu evitar. Quando deu-se por si, havia socado a parede de vidro da cela de Persephone com tanta força que sua mão imediatamente latejou e inchou.
— Estou perguntando pra você agora.
Embora aquele tipo de comportamento não fosse condizente com a imagem que muitos tinham da moça, Persephone nem mesmo se afetou, como se já estivesse acostumada com esses rompantes de fúria e soubesse exatamente quais eram seus limites.
— Oh, me desculpe, não consigo me lembrar quem ele é. Sabe, eu tenho uma péssima memória. Na verdade, até já esqueci qual foi sua pergunta... — piscou seus olhos inocentemente. — Mas, claro, acho que consigo me lembrar se você se sentar e tomar um chá comigo.
Lucy bufou, incrédula, mas quando viu que a mulher não lhe diria mais nada, foi atrás de um guarda para pedir o que lhe fora instruído. Alguns minutos e muita movimentação, ela estava devidamente sentada em uma cadeira simples, de madeira, dissolvendo um sachê de açúcar no chá. A parede da cela de vidro separava as meninas.
— Tudo isso é carência? – Não conseguiu se impedir de perguntar em um tom ácido.
A fronte de Persephone se contraiu, pela primeira vez demonstrando algum tipo de emoção autêntica. Não que fosse culpa dela soar tão artificial o tempo todo; suas feições que muito se assemelhavam às de uma boneca ajudavam a agravar o problema.
— Bem, sim. Mas eu também estava com saudades de tomar chá com você. Infelizmente, você foi a única amiga que me sobrou.
Lucy parou de mexer a colher no mesmo instante, impaciente.
— Você quer parar, por favor? Em primeiro lugar, eu não sou sua amiga. Segundo, nós nunca tomamos chá. Você é inacreditável! Eu estou aqui pra tratar de um assunto sério, e você fica aí, curtindo seu momento de mentiras.
A outra lançou-lhe um olhar que continha uma dose real de desprezo misturado com uma mágoa sutil.
— Bem, quem de nós tem uma péssima memória agora? — Ironizou — Inacreditável é a forma com que você descarta nossa amizade tão facilmente, como quem dá um peteleco em um inseto inconveniente que subiu no seu braço.
Lucy mordeu os lábios com força, segurando-se para não gritar de frustração.
— Claro, então, somos amigas. Isso se você considerar que amizade é algo como me emboscar e tentar fazer a personalidade potencialmente homicida do meu namorado dar as caras.
— Não. – Persephone imitou seu gesto com igual intensidade. – Amizade, pra mim, é participar de todas as suas festas do chá, sentada ao lado de um pequeno elefante desbotado e uma girafa antipática, enquanto a doce menina encarava uma cadeira vazia, esperando que a mãe a ocupasse!
Os olhos de Lucy arregalaram-se de maneira quase impossível, ao mesmo tempo em que uma explosão soava ao fundo do ambiente, somado ao alarme de incêndio. Os minutos seguintes foram uma confusão. De alguma maneira, a parede de vidro que delimitava a cela de Persephone desapareceu em muita fumaça e cacos. A mulher saiu de lá calmamente, sem parecer surpresa. Ao seu lado, o famoso Cobra, da Oración Seis, sorria-lhe predatório.
Atordoada, a maga celestial levou as mãos rapidamente ao cinto para alcançar uma de suas chaves, movida por um instinto de sobrevivência primitivo. No entanto, a encantadora de serpentes já havia prendido seu olhar ao dela.
— Oh, por favor, quem você quer enganar, Lucy? — Persephone disse, emitindo um som indiscutivelmente de escárnio. — Você não quer lutar com a gente.
A maga celestial encarou a mulher, descrente. A albina não sabia nada sobre ela, sobre o que ela queria. Sim, estava com medo e sabia que provavelmente não conseguiria vencer contra os dois ao mesmo tempo, mas tinha que tentar, certo?
— Deixa-a lutar, Persephone — Cobra disse, sorrindo minimamente. — Ela daria um bom aquecimento para abrir meu apetite. E, de quebra, seria uma vingança digna contra o bastardo do Natsu.
A maga em questão olhou severamente para Cobra, crispando os lábios.
— Não! — Determinou, nervosa. — Você não vai encostar nela, e Lucy não vai fazer nenhuma bobagem.
— Vai entender... — Cobra suspirou, conformado.
Aproveitando o momento de distração, a Heartfilia segurou firmemente uma chave de ouro e estava prestes a entoar o encantamento para abrir o portão celestial.
— Lucy, você realmente não quer fazer isso — Persephone sugestionou, retomando a compostura. — Então fique parada exatamente onde está.
A mente humana é uma coisa engraçada a se considerar. Lucy realmente não queria lutar, mas o fazia porque sua noção de honra exigia. Aparentemente, o que habitava fundo em seu inconsciente era a vontade de ficar parada, porque, logo após a sugestão, não conseguiu se mover, nem sair do lugar. A loira arregalou seus olhos caramelos, assombrada pela descoberta.
Quanto a Persephone, essa genuinamente sorriu. Quando os dois deram as costas para a maga celestial, um estrondo assustador ecoou através das paredes do prédio, e o chão tremeu.
— O que foi isso? — Cobra questionou.
— Não quero ficar aqui para descobrir — a outra balançou a cabeça, rumando para a porta.
Após a saída do casal, Lucy ficou pelo que pareceu uma eternidade tentando quebrar a sugestão de Persephone em seu inconsciente, mas falhou miseravelmente. Os estrondos continuaram ecoando, parecendo cada vez mais perto. A essa altura, ela sabia que o prédio estava pegando fogo.
Não pergunte como, ela apenas sabia.
~*~*~
Lucy abriu os olhos para o caos.
Havia muita fumaça no ar a sua volta, sua cabeça latejava e para onde ela olhava, ela via vermelho. Devia ter batido a cabeça ou algo parecido, porque demorou em reconhecer o vermelho como sendo fogo.
Era um incêndio.
Suas roupas estavam queimando, reduzidas a trapos chamuscados, mas seu corpo permanecia intacto; nem mesmo ardia. Ela teria permanecido em seu assombro silencioso se uma voz grossa e familiar não tivesse soado em seus ouvidos.
— Eu realmente não posso tirar os olhos de você nem por um minuto — ele suspirou, atravessando uma labareda de fogo como se não fosse nada. E pra ele não era mesmo.
— Natsu! — Ela exclamou, ainda caída no lugar, mas se arrependeu quando a pontada em sua cabeça ficou mais forte.
— Só um minuto — ele pediu, abrindo a boca e sugando o fogo que a circundava. — Ainda bem que eu não jantei hoje mais cedo.
No instante seguinte, ele a amparava, ajudando-a a levantar. Lucy quis rir da situação, mas sua cabeça rodava tanto que ela não conseguiu. Seu corpo mole só foi capaz de ficar em pé porque todo seu peso estava escorado na estatura firme de Natsu.
— Eu realmente... realmente não me queimei!
Natsu balançou a cabeça, apoiando-a com uma só mão para que com a outra conseguisse tirar seu próprio colete. Ele a vestiu com muita calma, como se fosse feita de porcelana. Depois, rasgou um pedaço de sua calça para pressionar contra o ferimento que sangrava na testa delicada da menina.
A Heartfilia deu-lhe um olhar grato, visto que sua recente nudez parcial a estava incomodando.
— Como me achou aqui?
— Instinto. Seguir seu cheiro também ajudou — ele disse, passando uma das mãos embaixo de seus joelhos, levantando-a no colo. — Vem, vou te levar para Polyushka.
Lucy fez uma careta.
— Não precisa, eu estou bem.
Agora foi a vez de Natsu fazer careta.
— Você está tão bem quanto eu estou feliz. E olha a minha cara de feliz.
A menina realmente olhou, mesmo reconhecendo o sarcasmo em sua voz.
— Você está bravo — ela constatou.
— Não. Nem um pouco — o rapaz deu seu melhor sorriso irônico.
Ela enfiou o rosto no peito nu do namorado e suspirou; sua pele estava quente, como sempre.
— Você me pediu pra não andar sozinha por aí. Eu não estava sozinha, Laxus veio comigo.
A mandíbula do rosado se tornou inflexível e uma veia saltou em sua testa.
— Ah, Laxus, é claro. Se eu vê-lo na frente, vou quebrar a cara dele.
— Então você não sabe onde ele está — a loira estremeceu.
Ele deu de ombros.
— Da última vez que eu o vi, ele tinha derrubado o último membro da Oración 6".
Lucy levantou a cabeça, esperançosa.
— Cobra e Persephone?
— Não, aquela maga estelar. Cobra e Persephone escaparam.
A garota fechou os olhos com força, sentindo dor.
— O que exatamente aconteceu aqui?
O Dragon Slayer caminhou os passos restantes até a casa de Polyushka, pausando um pouco para responder.
— A fuga da Oración 6 causou um problema com o sistema que controla as celas. Um mago fajuto de fogo escapou e fez a festa.
O tom de voz de Natsu não abria brecha para Lucy continuar com a conversa. Era um tom firme, de quem só dizia o necessário, e ela achou melhor ficar em silêncio o resto do caminho.
~*~*~
— O ferimento não foi muito sério — Polyushka comentou, arrumando os travesseiros na cama em que Lucy repousava. — Basta não fazer muito esforço.
A menina fez uma careta, querendo coçar o corte sob as faixas brancas enroladas no topo da cabeça.
— Então nada de atividades noturnas, certo, Natsu? — Quis descontrair, mas ele nem mesmo sorriu.
Ele permanecia naquele humor soturno, observando-a escorado na parede, de braços cruzados sobre o peito.
— Eu vou colher algumas ervas para fazer um chá — Polyushka anunciou, dirigindo-se para a porta. Lucy teve a nítida sensação de que aquela era uma desculpa para deixá-los a sós. Ela tomou uma longa respiração antes de falar:
— Até quando você vai ficar com raiva de mim?
O rosado arqueou as sobrancelhas, pego de surpresa.
— Eu não estou com raiva de você. Como eu poderia? Você provavelmente poderia fazer qualquer coisa, e eu ainda não teria raiva de você.
A loira tentou esconder o sorriso que suas palavras causaram.
— Não? Nem mesmo se eu te chutar nas bolas por nenhum motivo aparente?
Natsu tinha uma expressão de quem sentia dor, as mãos protegendo a referida parte de sua anatomia.
— Não... Nem mesmo se você me chutasse nas bolas. Mas eu ficaria meio puto. E com certeza te faria entender, com o meu corpo, o quanto essas bolas são preciosas.
Ela balançou a cabeça levemente para não sentir dor.
— Se não está com raiva de mim, então por que parece que o Edo-Natsu está próximo de dar as caras?
— Não estou com raiva de você, estou com raiva da situação — bagunçou os cabelos, frustrado. — Ver você machucada e saber que eu não estava lá para te ajudar me deixa com raiva... – Torceu o nariz, como se tivesse dificuldade em dizer em voz alta. — Por que você não me chamou? Por que não me avisou?
Lucy mordeu os lábios, se sentindo mal com o sentimento de impotência exalando do namorado.
— Porque você não entenderia, não me deixaria ir... — No instante que tais palavras deixaram sua boca, ela desejou que pudesse engoli-las de volta; Natsu parecia como se tivesse levado um soco no estômago.
— É assim que você me vê? Como alguém que não te entende e que te proíbe de fazer suas próprias decisões?
— Não... — Ela começou, mas parou. Conscientemente ela sabia que não pensava assim. Contudo, se chegou a tomar a decisão impulsiva de ir falar com uma prisioneira perigosa e deixa-lo para trás de propósito, algum motivo tinha. Ela só estava com medo de admitir que era isso. Talvez não confiasse nele tanto quanto achou que confiava.
O Dragneel deve ter percebido isso, porque começou a rir, nervoso.
— Eu não tenho direito de te proibir de nada, Lucy. E mesmo assim você preferiu confiar no Laxus.
A garota mordeu o lábio inferior, sem graça.
— Laxus é tão capaz quanto você.
E era mesmo.
Laxus, na verdade, estava ranqueado em melhor posição na guilda do que Natsu. Laxus era um mago S. Mas por mais que ela soubesse disso, tinha dito isso somente para ele ficar tão incomodado com o assunto quanto ela estava.
Funcionou, porque o mago desgrudou imediatamente da parede, mirando-a com olhos predatórios.
— Laxus é forte, sim. Mas eu e você temos um laço que é muito mais profundo que o de nakamas. – Respirou fundo, cuidado para não soltar muita fumaça durante o ato. — Nunca mais duvide do poder que eu posso gerar se for pra proteger você, Lucy.
A maga celestial engoliu em seco e assentiu. Já havia passado tempo o suficiente com ele para reconhecer suas mais variadas maneiras de dizer "eu te amo", sem pronunciar essas exatas palavras. Essa era uma dessas maneiras. Ela fez uma nota mental para no futuro montar uma lista.
Ao notar que sua mensagem e tudo o que ela significava havia entrado na cabeça da namorada, o menino prosseguiu:
— Certo, dito isso... O que diabos aconteceu lá? Quem te atacou?
Lucy balançou a cabeça em negação.
— Ninguém me atacou. Persephone... Ela sugeriu que eu ficasse parada no lugar, e então, quando o prédio começou a ruir, eu não consegui me mexer.
Natsu cerrou os dentes com força, obviamente tentando conter a raiva.
— Quando cheguei até você, tinha uma viga de madeira em chamas bem ao lado da sua cabeça — fechou os olhos, inflando a narina. — Entrei em desespero por alguns instantes.
Ela mordeu os lábios, incerta.
— Eu me lembro de ver a viga caindo e achar que iria acertar minha cabeça, mas a pancada nunca veio. Eu achei... — Sua voz diminuiu e tremeu, como se estivesse lhe confiando um segredo um tanto perturbador. — Achei que tinha sido você que impediu de me acertar.
Ela pôde distinguir o momento exato em que o namorado saiu de sua compostura ligeiramente incomodada para entrar em um puro e enervante estado de alerta
— Você estava sozinha na sala?
— S-Sim... – disse, mas, depois, pensando melhor, não sabia se estava ou não. Preferiu, no entanto, guardar sua incerteza para si mesma. Não precisava preocupa-lo mais do que já estava.
Após alguns momentos de um silêncio tranquilo, Natsu voltou a questioná-la, hesitante.
— Você... Conseguiu a resposta que queria?
Lucy podia ver que ele estava morto de curiosidade, mas, ao mesmo tempo, com medo do que escutaria.
— O que? – Fingiu-se de desentendida, tentando ganhar tempo para encontrar a melhor maneira de contar-lhe suas descobertas.
— Persephone... Você foi até ela para lhe fazer algumas perguntas, não?
— Mais ou menos... — Coçou a cabeça, inquieta. — Obtive algumas respostas, mas, no final, acabei com mais perguntas.
— Sim? — Incentivou o rapaz.
Um longo minuto de silêncio se instalou no quarto, e dessa vez não era tranquilo. Era tenso. Lucy olhou profundamente nos olhos de cores misteriosas do namorado, como se o avaliasse como um inimigo.
— Você tem algo a me contar? — Perguntou a moça.
Natsu arregalou os olhos por um breve segundo, chocado com a possibilidade da garota estar contra ele, mas então os desviou para o chão, o semblante triste. Após alguns minutos, ela percebeu que não receberia uma resposta, então respirou fundo e decidiu por ser direta.
— Você conhece o responsável pelo rapto de Lisanna?
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