Sangue Quente
27 Do You Remember That Time?
Notas iniciais
Capítulo XXVII – Do You Remember That Time?
(Você se Lembra Daquele Tempo?)
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O silêncio recaiu sobre o cômodo como uma manta de lã, espessa demais para o momento. Para qualquer pessoa de fora, tal silêncio podia ser interpretado como uma resposta afirmativa, mas não para Lucy. Ela odiava seu hábito de se precipitar na hora de interpretar, e estava tentando mudar sua atitude. Por essa razão, não aceitaria aquilo como resposta.
— Persephone disse que você conhece quem pegou Lisanna – voltou a insistir. — Isso é verdade?
Natsu havia dito, quando encontraram a albina, que não o conhecia, mas Persephone tinha sido tão enfática que lançou uma sombra de dúvida em sua cabeça. Tinha que tirar essa história a limpo.
— Não conheço— o rapaz respondeu, ainda olhando para o chão, como se não pudesse encará-la.
Lucy crispou os lábios.
— Por que não olha para mim?
Natsu cerrou os dentes e fechou os olhos com força, travando uma batalha interna. Estava mentindo, como ela havia percebido. Não gostava de mentir e, principalmente, não queria mentir para ela.
— Eu sei quem sequestrou Lisanna – respondeu, pausadamente, como se estivesse dando um tempo para a informação entrar na mente da loira. — Mas não o conheço.
A maga celestial olhou indignada para o namorado.
— Você podia ter mencionado isso antes, não? Ou acha que isso não é importante? — Provavelmente não era sua intenção soar de maneira tão grossa. Talvez fosse o cansaço, ou até mesmo a dor, mas a questão é que soou. E ela pôde ver, através dos olhos de Natsu, a mistura de sentimentos que lhe causou.
Ora, ele devia estar exausto também, apesar de não aparentar — o único indicativo, talvez, era a fina camada vermelha logo abaixo de seus olhos, constituindo uma olheira.
Primeiro, ela pôde ver que ele estava desorientado, como se tivesse levado um golpe de um lugar inesperado e lutasse para se recuperar. Depois, a confusão transformou-se em mágoa e, então, algo entre a irritação e a raiva. Não era raiva genuína, ela sabia, porque senão estaria olhando nos olhos de Edo-Natsu agora.
— Bem, talvez não seja tão importante assim, afinal – ele disse, lentamente, cuidando para que o tom amargurado não fosse tão aparente. — Porque, se fosse importante, então você se lembraria.
— Espera... O que? — A Heartfilia não entendeu o que ele quis dizer com isso, mas, pelo seu tom de voz, julgou que deveria afetá-la de alguma forma.
Ele inspirou e respirou fundo, como se estivesse fazendo um esforço enorme para conter o que quer que fosse.
— Nada, deixa pra lá. Sinto muito por não ter te contado antes.
Lucy passou os dedos pelos cabelos, muito parecido com o que Natsu fazia quando estava nervoso. Somente alguém de fora conseguiria notar o quanto os dois se assemelhavam a cada dia mais; um espelhando o outro.
— Natsu... Eu só estou tentando entender o que está acontecendo – suspirou, coçando os olhos. — Me conte a verdade, por favor.
Algo faiscou no fundo dos olhos cinzentos do menino, do mesmo jeito que costumava faiscar quando ele aceitava um desafio.
— Você quer a verdade, Lucy? — Ele questionou, sua repentina empolgação causando uma agitação estranha no estômago da menina. Ela devia saber que coisa boa não viria. Todos os sinais de advertência estavam presentes. Mesmo assim, foi com uma surpresa amarga que ela escutou o que se seguiu: — Eu não conheço o cara que sequestrou Lisanna, mas você conhece. Ele era seu amigo.
A Heartfilia riu do absurdo. Não foi um movimento calculado, porque sentiu uma pontada forte de dor logo depois.
— Nenhum amigo meu faria isso, Natsu.
Sem comentar, ainda, o óbvio: ela nunca havia levado um amigo para sua casa antes. Nunca. Mas Natsu não estava disposto a perder essa.
— Seu nome é Rogue — insistiu, sem nem mesmo piscar.
Rogue, Rogue, Rogue... O nome definitivamente coçou a memória de Lucy.
Esforçando-se um pouco, foi capaz de associar o nome a uma imagem pálida e sombria, de olhos vermelhos. Rogue era aquele cara estranho que havia lhe dado arrepios logo de cara, após terem encontrado Lisanna.
— Mas ele é seu amigo! — Exclamou, pelo que bem se lembrava da situação. Sting e Rogue, os dois estranhos exóticos que haviam pedido a ela para mandar um "oi" a Natsu.
O rapaz balançou a cabeça, negando qualquer possibilidade daquilo ser verdade.
— Não estamos falando do mesmo Rogue. O seu Rogue é uma aberração de outra linha do tempo.
A maga celestial queria explodir em risos. Queria, podia jurar que sim, mas não conseguia. Existia algo dentro dela que a impossibilitava de descartar tão facilmente assim o que o namorado acabara de dizer, por mais insano que fosse.
— Você não está fazendo sentido nenhum, Natsu — sacudiu a cabeça, perdida. No mesmo instante surgiu uma estranha pressão em um ponto ao fundo da mente dela, que ameaçava engoli-la por completo. — Isso não faz sentido — repetiu.
— E sabe o que é pior, Lucy? — Ele perguntou, desencostando-se da parede e parando bem perto do leito da cama onde ela estava. — O pior é que você sabe de tudo isso. – Sua voz era mansa, quase como um sopro, mas machucava como um tornado. — Só não se lembra.
A pressão em seu cérebro aumentou, causando uma dor de cabeça que beirava o insuportável.
— Pare, eu não entendo — ela disse em um fio de voz.
— Por que você não se lembra, Lucy? — Natsu insistia, seu olhar ardendo intenso, apesar da voz baixa. — Eu me lembrei. Por que você não consegue?
— Pare, Natsu, por favor — a loira suplicou.
— Isso acaba comigo, Lucy. Quanto mais você demora em se lembrar, mais eu me sinto sozinho – comentou, derrotado, olhando para baixo.
— Para. Para. Para!
De repente, ela gritou de dor. O grito foi tão agudo e agoniante que atordoou a audição sensível do rosado. Segurando a cabeça, ela quase arrancou o tufo de cabelo que agarrou por impulso.
Natsu assustou-se, mas imediatamente se lançou sobre a cama para segurar o corpo delicado que começara a se debater.
— Shh — ele disse, enfiando-se com sucesso entre o corpo inquieto dela e a cama, de alguma forma colocando-a em seu colo. — Tá tudo bem, shhh.
— Eu não entendo – choramingou. — Não entendo.
Lucy continuava repetindo mecanicamente, enquanto seu corpo era acometido por tremores violentos. Natsu não a soltou em momento algum, nem mesmo quando suas unhas bem feitas lhe arranharam os braços e o rosto. Quanto mais ele sentia arder, mais ele se recusava a soltá-la. Se ela estava fazendo aquilo com ele, o que faria com ela mesma quando se soltasse seria muito pior.
Quando os movimentos pararam e ele percebeu que o motivo era que ela havia desmaiado, não soube se sentia alívio ou desespero. Um misto dos dois, talvez. O que diabos estava acontecendo?
Alguns instantes depois, Polyushka apareceu pela porta, preocupada com o barulho. Os olhos de Natsu estavam afiados quando a encarou.
— O. Que. Está. Acontecendo. Com. Ela? — Perguntou pausadamente, lutando para não gritar de frustração.
— Eu é que devia perguntar isso, não é mesmo? – A velha devolveu com outra pergunta. Ele a encarou feio, e Polyushka recuou. Não porque ficara amedrontada, afinal ela era especialista em encaradas feias, mas porque sabia o que havia ocorrido ali. — Você contou pra ela.
Não era uma pergunta, como ele bem percebeu, mas se sentiu na necessidade de responder um "sim" baixinho.
— Eu disse pra você não contar. Disse que ela mesma se lembraria, quando estivesse pronta — a curandeira voltou a falar.
Natsu não estava exatamente envergonhado, mas deduziu, pelo tom de voz, que deveria estar. Ele se lembrava bem de ter escutado isso justamente nesse quarto, na vez em que ele mesmo teve um colapso devido às memórias. A diferença é que o dele não havia sido tão violento assim.
— Ela estava me perguntando! — Exclamou, ainda embalando o corpo da menina com zelo. — Achei que estava pronta.
— Ela deve se lembrar sozinha, como você fez. A verdade sobre o passado de vocês é tão traumática, que ela se recusa a aceitar. Seu corpo a rejeita.
O menino suspirou pesadamente, apoiando o rosto no topo da cabeça da namorada.
— Ela está tão fria...
— Provavelmente está com febre. Vocês dois ficam gelados, em vez de quentes — disse Polyushka, já se movendo para preparar os medicamentos necessários.
— Até quando ela vai ficar assim?
— Eu não sei — ela foi sincera em sua resposta e não conseguiu tirar o tom de pesar da voz. — Até provavelmente ela se lembrar e aceitar o que aconteceu.
~*~*~
Lucy deveria saber que algo assim aconteceria.
Aquela manhã estava estranha demais para o seu gosto. Primeiro, sua mãe a tinha acordado; isso nunca acontecia. A mulher era ocupada demais para isso. Segundo, ela não reclamara de encontrar na cama a boneca que Lucy não desgrudava; ela sempre reclamava, alegando que já era grandinha demais para ser tão apegada a um brinquedo. Terceiro, a mulher estava em casa, o que também nunca acontecia.
Tendo isso em vista, Lucy deveria ter previsto.
No entanto, não pôde evitar que seu estômago revirasse em nervosismo enquanto escutava, sentada na mesa da pequena e aconchegante cozinha, sua mãe desistir de seu sonho.
— Mas mãe, — disse, engolindo em seco — você não pode simplesmente... Está tão perto de realiza-lo!
E estava mesmo. Na verdade, estava mais perto de conseguir juntar todas as chaves de ouro do Zodíaco que qualquer Heartfilia já esteve.
A mulher, linda e loira no auge de seus trinta anos, abanou as mãos, dispensando o problema como quem dispensa um inseto.
— Bobagem, é claro que eu posso. Já estou velha pra essas coisas.
Lucy duvidava.
A mãe parecia tão jovem que muitas vezes eram confundidas como irmãs. Mesmo assim, decidiu não contrariá-la; uma vez que a mulher colocava uma ideia na cabeça, não havia meios de tirar dela.
— Bem, então o que acontece agora? — Perguntou, movendo-se um pouco desconfortável na cadeira. Com onze anos, baixinha como era, Lucy mal conseguia alcançar os pés no chão.
— Bom, agora é a sua vez de sonhar — a mãe sorriu, pegando de sua cintura robusta o aro prateado onde carregava penduradas as chaves celestiais.
A menina arregalou os olhos e sorriu de maneira boba, tendo motivos para acreditar que a pequena choupana de madeira em que vivam não seria grande o suficiente para conter sua felicidade.
— Isso é sério?
— Sim, acho que já é hora — determinou, desprendendo a chave de ouro do signo de capricórnio e a colocando delicadamente na mesa rústica, em frente à menina. — É a sua vez de tentar juntar as doze chaves do zodíaco, e eu vou te ajudar com o comecinho: a chave de Capricórnio.
A mais nova soltou um gritinho de felicidade e vorazmente avançou para pegar a chave nas mãos, mas foi impedida por uma espécie de um forte brilho dourado vindo da chave.
— O que...?
Sem entender, olhou, confusa, para a mãe, que balançava a cabeça.
— Não achou que fosse ser tão fácil assim, não é? — Na verdade, Lucy achou que sim, mas não respondeu. Novamente, devia saber melhor que quando se tratava da mãe, nada era tão simples. — Me diga, por qual motivo eu não consegui juntar as doze chaves?
Lucy sabia a resposta.
— A décima segunda chave de ouro está sob a posse de Grammy — uma maga celestial competente, mas nada que chegasse aos pés da matriarca Heartfilia.
A menina só não entendia o porquê a mãe fora incapaz de duelar pela chave. Era assim que as coisas funcionavam naquela pequena vila; se você quisesse algo que pertencesse à outra pessoa, você duelava por isso.
— Exatamente — a mulher disse, balançando a cabeça. — Agora me diga: se a chave continua sob a posse de Grammy, como pretende realizar o sonho Heartfilia?
A essa pergunta Lucy nem mesmo titubeou ao responder.
— Duelando pela chave!
A mulher sorriu brevemente antes de levantar a perna e desestabilizar a cadeira da menina, fazendo-a cair de bunda no chão. Ela exclamou, surpresa, sem entender o motivo daquilo.
— Resposta errada, menina — então pegou a chave de volta, suspirando. — Vou te dar uma última oportunidade de ganhar essa chave, então preste bem atenção. Até amanhã ao anoitecer, você tem que me responder a seguinte pergunta: como conseguirá as doze chaves do jeito certo?
Lucy piscou, aturdida, ao mesmo tempo em que três batidas soaram na porta. Recuperando-se, correu até a entrada da choupana e a abriu, dando de cara com uma figura bastante peculiar.
Um jovem rapaz, talvez quatro ou cinco anos mais velho que ela, de cabelos longos amarrados e bicolores, e inquietantes olhos vermelhos. Para completar a imagem perturbadora, sobre o nariz havia uma grande cicatriz, e ao redor dos olhos, uma tatuagem negra. Não o conhecia, mas sentia calafrios desconfortáveis percorrerem seu corpo.
O estranho sorriu discretamente e seus olhos brilharam de maneira estranha.
— Encantadora, como pensei – ele disse.
Ela tentou disfarçar uma careta.
— Quem é você? – Perguntou, desconfiada.
O rapaz agachou-se para que seu rosto ficasse no mesmo nível que o dela.
— Eu sou Rogue Cheney, e eu tenho a impressão que vamos nos dar muito bem.
— Lucy – a mãe chamou atrás dela. Não sabia dizer a quanto tempo ela estava lá. – Por que não vai dar uma volta no bosque para pensar na resposta que eu quero?
A mulher encarava o tal de Rogue, mas ele não desgrudou os olhos estranhos da menina.
— Talvez você queira evitar os bosques por agora. Está para chover bem forte – ele disse, de repente.
Lucy olhou do rapaz para a mãe, notando certa tensão no ar. Era óbvio que a mais velha não a queria ali, e achou melhor não se impor, decidindo questioná-la sobre isso mais tarde.
Passou pelo estranho e se encaminhou para o bosque, como a mãe sugerira. No entanto, no meio do caminho parou, observando nuvens muito escuras pairando logo acima das grandes copas das árvores do bosque. Lembrando-se do conselho do estranho Rogue – mas odiando segui-lo -, deu meia volta e atravessou o pacato vilarejo, rumando para o rio.
Ter um rio próximo da aldeia certamente era conveniente, contudo, todos os moradores dali pareciam evita-lo; algo a ver com uma lenda envolvendo dragões. Lucy nunca havia visto um dragão, mas não sentia medo. Claro que se toda aquela chuva que as nuvens estavam prometendo realmente caísse, perto do rio seria o último lugar que ela iria querer estar.
A margem do rio era até que agradável, plana, apesar de não poder contar com nenhuma sombra de árvore. Somente na margem oposta havia árvores, mas, apesar do rio ser relativamente estreito, ninguém ousava atravessá-lo. Lucy não era exceção, mas não porque tinha medo, só achava que não valia o esforço.
Sentou-se na margem e colocou-se a pensar, mas não somente na resposta que deveria encontrar, pensava também na figura estranha de Rogue. Não gostava muito da primeira impressão que teve, e não sentiu que dali viria algo de bom.
Suspirou.
Após alguns minutos de contemplação, a menina avistou uma figura rosada parada na margem oposta. Tratava-se de um menino de cabelos espetados e rosa, com cara de desconfiado. Aparentava ter a mesma idade que ela.
Ele estava bebendo água do rio, mas assim que notou sua atenção, parou. Parecia que havia sido pego no flagra por ela; como um cervo selvagem escondido entre a vegetação, mas que tinha sido notado pelo predador.
A ideia lhe pareceu ridícula. Tão ridícula que resolveu ignora-lo, fechando os olhos e fazendo uma careta.
Lucy escutou um suave farfalhar de folhas, imaginando que o menino “selvagem” tivesse aproveitado o momento para voltar para o mesmo lugar misterioso de que veio. Pouco tempo depois, ouviu também um baque surdo, e sentiu algo pequeno e redondo bater suavemente contra sua perna cruzada.
Abriu os olhos, sobressaltada.
Era uma maçã.
Espantada e sem entender o que estava acontecendo – e de onde tinha vindo aquela maçã, tendo em vista que as árvores estavam do outro lado -, notou que o menino agora se encontrava na mesma margem que ela.
“Como...?” Pensou, estreitando os olhos. Como ele havia atravessado, se ele estava seco e não havia ponte pela qual passar? E como ela não notara a movimentação?
Eram muitas perguntas rondando sua mente, contudo, pegando a maçã na mão, o que perguntou foi:
— Pra que é isso?
— Pra você comer – ele respondeu, como se fosse óbvio.
Apesar de seu tom de voz ser despojado, ele se encontrava totalmente na defensiva; agachado, mãos perto dos pés, como se pudesse facilmente sair correndo com qualquer movimentação bruta.
— Não estou com fome – a loira respondeu firme.
O rosto dele foi da desconfiança à surpresa em um instante.
— Então por que fez careta? Careta, pra mim, é fome.
— Porque... Você é estranho – ela respondeu, fazendo novamente uma careta. Aquela manhã estava cheia de cenas inusitadas.
O rosado franziu o cenho e se aproximou alguns passos. Lucy não conseguiu deixar de compara-lo a um animal silvestre tendo seu primeiro contato com um ser humano, se mostrando curioso, porém receoso.
— Mas estranho é bom. Está flertando comigo?1
A menina não conseguia entender como a situação tinha chegado àquilo. O que tinha a ver flertar com ele ser estranho?
Ele estava brincando, certo?
No entanto, pôde perceber que ele falava sério. Aquilo fazia sentido para ele. Após fita-lo com descrença, riu. Os olhos dele brilharam com o som.
— Estou surpresa por você conhecer essa palavra – debochou, como era de seu instinto. Era seu lema de vida: se não sabe o que fazer, deboche.
O rosado torceu o nariz.
— Conheço muitas coisas.
— Certo – ela disse, duvidando. Parecia que ele tinha saído de uma caverna, por seus modos e atitudes. Quer dizer, quem bebia água do rio diretamente, sem fervê-la antes? No entanto, ele era bonito. Muito bonito. – E, por acaso, você me conhece?
— Não conheço – confessou, piscando os belíssimos olhos verdes2.
— Então por que está falando comigo?
O menino sorriu, mostrando de relance alguns dentes pontiagudos, e deu de ombros.
— Eu sou Natsu – disse, apresentando-se, mas sem estender a mão ou se aproximar.
— E eu sou “não-fale-comigo” – disse de volta, fechando os olhos.
Acreditava que se fizesse de conta que ele não estava lá, em algum momento ele iria embora. Sabia que estava sendo grosseira e, talvez, injusta, mas não gostava da atenção de estranhos. Não era muito ativa socialmente e esperava manter seu status desse jeito mesmo.
— Oh, bem, esse é um nome bem feio – a voz do tal de Natsu voltou a soar, ignorante, ou talvez indiferente, ao corte que lhe havia infligido. Parecia falar com a maior ingenuidade do mundo. – Vou te chamar de Careta, se não se importar, porque parece que é só o que o seu rosto sabe fazer.
De alguma forma, aquele comentário não a ofendeu. Devia ser por causa da sinceridade avassaladora presente na voz dele. Era uma sinceridade inocente, que desarmava. Era isso: de uma maneira bastante inusitada, ele estava desarmando suas defesas.
Lucy riu de leve, sacudindo a cabeça.
— Careta, não. Pode me chamar de Lucy.
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