Sangue Quente
15 A Slice of The Truth
Notas iniciais
Capítulo XV – A Slice of The Truth
(Uma Fatia da Verdade)
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Lucy acordou com alguma coisa fazendo cócegas em suas costas, pareciam borboletas batendo delicadamente as asas contra sua epiderme. Abrindo seus olhos, a primeira coisa que viu foi um braço envolto ao seu redor, coberto por alguns raios de sol que passavam pelas frestas da cortina. Natsu estava curvado junto às costas femininas, seu quadril tocando o dela.
As borboletas eram ele pressionando beijos em sua pele.
O primeiro pensamento que ela teve foi “por que eu enrolei tanto tempo pra dormir com ele?”. O segundo não era de longe tão romântico: “oh, caramba, ele me transformou em uma pervertida”, e então enrijeceu.
– Pelo visto você está acordada – o Dragneel parou de beijá-la com um esgar de diversão. – E pela tensão em seus músculos, aposto que se lembrou de tudo o que fizemos ontem. Está arrependida?
A loira pegou o braço forte que a envolvia pela cintura e o trouxe para os lábios, beijando seu pulso. O rosto sonolento, porém absurdamente sensual de seu namorado, apareceu na periferia de sua visão, e então, mesmo que se ela já não soubesse a resposta, aqueles traços firmes e masculinos a teriam convencido naquele momento.
– É claro que não – o sorriso que ele lhe deu por causa de sua resposta era tão radiante que poderia facilmente iluminar seu apartamento inteiro. Era tão quente e carinhoso que Lucy se pegou pensando que ela seria uma completa louca se estivesse arrependida. Quando pegou novamente o pulso de Natsu e plantou outro pequeno beijo ali, notou que uma tinta negra cobria um pedaço da pele local, típica de tatuagens. – É nova?
O Dragon Slayer demorou alguns segundos para entender ao que ela se referia. Quando entendeu, no entanto, sentiu seu estômago se apertar em um bolo de apreensão. Na noite passada, durante a urgência de ficar completamente nu e tocar a pele de Lucy sem impedimentos, acabou por não notar que se livrou até mesmo das munhequeiras, deixando à mostra a tatuagem que Polyushka lhe falou para esconder.
Pigarreou um pouco para que sua hesitação fosse disfarçada.
– Não, eu a tenho desde meus doze anos de idade – respondeu com saudosismo evidente na voz. Era verdade que a tatuagem havia desaparecido junto com suas memórias do ocorrido há seis anos, mas, para ele, agora que se lembrava, não era nova.
A Heartfilia virou ligeiramente o pulso que mantinha em suas mãos para maior visualização, enquanto Natsu se acomodava melhor às suas costas. A imagem tatuada coçou as beiradas de sua memória. Recordava das aulas de música que teve na infância, portanto conhecia aquele símbolo parecido com uma brisa e dois pingos logo abaixo, como um “F” estilizado.
– É uma Clave de Fá – murmurou baixinho, acariciando a pele pintada. Fazia tanto tempo que não via essa clave... De fato, a última vez que a viu, sua mãe ainda estava viva. Algo se remexeu em seu peito, e ela teve que lutar para não se sentir sufocada. Essa era a segunda clave favorita de Layla Heartfilia. — A clave masculina.
– Sim... – O rosado concordou com a voz rouca. Depois, hesitante, quase como se não quisesse se pronunciar, disse: — A Clave de Sol começa onde...
– ...a de Fá termina – a loira completou automaticamente, surpresa. Mas não se engane, ela não estava surpresa por saber o final da frase, porque, afinal, sua mãe vivia citando-a quando sentava-se para tocar piano. Na verdade, estava surpresa por Natsu conhecer tal citação. Ele havia feito aulas de música? Após breves segundos ponderando, riu. Impossível, era mais fácil ver o Cão do Conselho dançando hula. – Por que você tem tatuado em seu pulso uma clave musical?
O mago mordeu os lábios, incerto. Se ele lhe contasse o verdadeiro motivo de ter tal tatuagem, teria que explicar quase todo o ocorrido que previamente lhe tirara algumas memórias, sem falar que estaria fazendo exatamente o que a velha Polyushka havia pedido – parcialmente mandado – para não fazer. Só que sua garota estava esperando por uma resposta, e se ele se recusasse a abrir a boca, ela poderia ficar magoada.
– Porque era importante pra mim – respirou fundo, explicando o que podia sem prejudica-la. – Veja só, para os Dragon Slayer, a imagem tatuada não importa. Sério, poderia ter tatuado até mesmo um ventilador, e ainda assim teria basicamente o mesmo significado que a Clave de Fá – coçou o queixo. – Para nós, é uma marca.
Muitas perguntas surgiram na mente de Lucy. A principal delas era “se, nesse caso, um ventilador e qualquer outra imagem teriam o mesmo significado, por que ele escolheu, especificamente, uma Clave de Fá?”. No entanto, o que ela se viu questionando foi:
– E o que essa marca significa?
Natsu passou a mão livre pelos cabelos, agradecendo mentalmente pela posição em que se encontravam; Lucy estava deitada de costas para ele, assim ela não poderia ver a inquietação que começou aos poucos clamar por lugar em seus olhos. Recorrendo à conversa que teve anteriormente com a velha, procurou formular uma explicação vaga, geral.
Uma meia-verdade.
– Significa... que achei o que eu estava... hã, procurando.
Puxou seu pulso do aperto firme da menina, mexendo-se desconfortavelmente na cama. Aquelas perguntas eram perigosas. Se ela continuasse a fazê-las, talvez ele não fosse capaz de continuar se esquivando. Ao contrário do que esperava, ela não o soltou, e acabou virando o corpo até que ficasse de frente para ele. Lucy afrouxou o aperto que ainda mantinha e deslizou seus dedos para encaixá-los entre os de Natsu, sorrindo suavemente.
Era exatamente em momentos como esse que o rosado se surpreendia com a amabilidade presente na maioria dos gestos da loira. Ele havia, propositalmente, de maneira vaga, dito que tinha encontrado o que estava procurando, e ela não o questionara sobre o que era isso, apenas sorrira compreensiva, ficando visivelmente feliz por ele.
As cabeças de ambos não estavam alinhadas corretamente no travesseiro; o Dragon Slayer estava alguns centímetros pra cima, fazendo com que o rosto da maga estelar ficasse na altura de seu pescoço. Ele queria expressar o quão intenso eram seus sentimentos por ela, mas, apesar de tudo, aquelas três palavrinhas mágicas ainda encontravam dificuldades para cruzar suas cordas vocais. Abriu a boca e tentou força-las para fora, enquanto Lucy o olhava com curiosidade. Não obteve sucesso. O que fez, no lugar de falar, foi inclinar-se para baixo e beijá-la na testa.
O rosto feminino se enterrou em seu pescoço, provocando-o com a ponta do nariz. Múltiplos arrepios fizeram seu caminho pelas costas do rapaz. A garota afastou-se lentamente, franzindo o cenho. Levantou uma mão, cuidadosamente, e traçou uma linha fina no lado direito do pescoço dele. Após um instante, a pergunta veio:
– Como conseguiu essa cicatriz?
Uma luz vermelha se acendeu na mente de Natsu, enquanto sua voz mental – não Edo-Natsu, ele estava estranhamente quieto essa manhã – gritava “perigo, perigo”, e algo parecido como uma evacuação de um prédio no meio de um incêndio circulava em seus pensamentos. A pergunta que Lucy lhe fez era perigosa. Não poderia lhe dar uma resposta vaga, porque tinha a ligeira impressão de que dessa vez não colaria. Tal pergunta não podia ser respondida. Não honestamente, pelo menos. Porém Natsu não conseguia mentir, quem o fazia era o Edo-Natsu, só que não podia contar com ele dessa vez; o desgraçado estava se fazendo de morto, ao que parece.
Sempre haveria a possibilidade de pular pela janela e evitar responder, é claro. Mas teria que fazer isso pelado, já que não teria tempo para vestir suas roupas.
– Eu não... gosto muito de falar sobre isso.
Lucy torceu os lábios, sem dizer nada, tentando se colocar no lugar dele. Se ela tivesse tido um ferimento desses no pescoço, talvez também lhe fosse difícil falar sobre o assunto. Tentou não se chatear muito com isso, contudo, falhou em seu intento. Lá estava novamente seu problema inicial: não sabia quase nada sobre Natsu – sobre a pessoa com quem ela havia dormido! E então, como se para dificultar seus esforços para descobrir mais, ele se fechava.
Uma pequena parcela de sua mente sussurrava que ela estava sendo irracional, que todos tinham o direito de ter traumas e serem discretos com o assunto. Sim, com toda a certeza aquela cicatriz fazia parte de um trauma no passado do garoto. Tinha que ser isso.
De repente, como um estalo, uma dúvida lhe ocorreu:
– Você a conseguiu quando tinha doze anos?
– Sim – se ele estranhou a pergunta, não demonstrou.
A Heartfilia tomou uma profunda respiração e resolveu deixar essa questão pra lá. Se um dia ele fosse capaz de se abrir, talvez ela fosse a primeira a saber. Já que era sua namorada. Já que ele havia demonstrado se importar com ela, quando com os outros era sempre meio que indiferente.
O silêncio abateu-se sobre eles, mas não era pesado. A mente de Natsu já não se sentia mais ameaçada pelas perguntas, e a curiosidade da loira parecia ter se aquietado. Era um momento de contemplação em que simplesmente aproveitavam da companhia um do outro.
– Gosto da cor dos seus olhos – a maga comentou em dado instante, quebrando o silêncio. Com a ponta dos dedos, acompanhou o formato das pálpebras inferiores do Dragon Slayer. – Um pouco difícil de defini-la, sabe? Mas gosto de classifica-la como “castanho-nublado” – sorriu, pensando que a definição realmente caía bem com o namorado. Era como se tudo sobre ele estivesse ali, na cara, só que nublada, para que as pessoas curiosas, tais como ela, conseguissem obter apenas vislumbres. – É bonita.
As curvas dos lábios do rosado se levantaram, mas não havia humor ali. Era um sorriso meio triste, meio sentido, embora a loira não soubesse o motivo.
– Meus olhos nem sempre foram dessa cor – ele disse, acariciando distraidamente as laterais do corpo feminino, que estava parcialmente escondido pela coberta. – Eu tenho certeza de que você teria gostado mais da cor que era antes dos meus doze anos.
E lá estava, “meus doze anos” novamente. A Heartfilia havia achado um padrão esquisito, mas que não deixava de ser interessante: tudo o que o Dragneel lhe contava de importante, ou de marcante, ou de traumatizante, havia acontecido quando ele tinha doze anos. Seu lado menos paranoico era inclinado a pensar que aquele havia sido um ano e tanto na vida do garoto, mas seu lado naturalmente desconfiado sabia que havia alguma coisa de estranho ali; era como se seus “doze anos” fosse um divisor de águas.
Como se o Natsu que ela conhecesse houvesse sido formado naquela época.
Estava prestes a se pronunciar sobre isso quando um cheiro muito ruim se apoderou de suas narinas. Era um odor podre, muito forte, que a fez tossir um pouco. “Como eu não senti isso antes?” pensou, olhando em volta para achar sua origem.
– Que cheiro é esse? – Perguntou para Natsu, que riu, apontando para a cozinha. Ela não precisava de mais nada para saber o que era. – Oh, caramba, é o macarrão!
Lucy se sobressaltou com a lembrança de ter deixado o macarrão fervendo desde o pretenso jantar da noite passada e, quando percebeu, já estava em pé ao lado da cama, correndo para a cozinha. Antes disso, é claro, teve o bom senso de puxar a coberta e leva-la enrolada em torno do corpo; nunca que ficaria desfilando nua por aí.
O macarrão – se é que ainda poderia ser chamado assim – era praticamente uma crosta negra de puro carvão, colada no fundo da panela. Toda a água havia evaporado e, em algum momento durante a noite, a chama do fogão tinha se apagado. Provavelmente o gás, que já estava no fim, tinha dado seus últimos suspiros. Precisaria comprar outro, mas não tinha dinheiro sobrando, e ainda por cima o dia de pagar o aluguel estava próximo. Teria que urgentemente arrumar um trabalho lá do mural da guilda.
Ao voltar para o quarto, depois de levar a panela à pia, deparou-se com a nudez completa de Natsu. Antes, a intimidade dele tinha estado escondida pelo cobertor, mas agora que o tecido estava enrolado em torno dela, o corpo masculino repousava gloriosamente exposto. Seus braços estavam curvados para trás apoiando sua cabeça, o peito subia e descia conforme respirava, a perna esquerda descansava reta, enquanto a direita estava casualmente dobrada e, entre as duas, seu membro parecia parcialmente rijo. O jeito em que estava posicionado era muito favorável para seu físico de dar inveja, mas não era como se ele estivesse se exibindo, ou fazendo de propósito.
Os olhos castanho-acinzentados – ou “castanho-nublados”, como ela gostava de pensar — estavam fixos nas mãos da loira, que convenientemente seguravam o cobertor no lugar. Parecia que ele estava sugerindo a ela a largar o tecido e a se juntar a ele na cama, novamente. No entanto, ela não podia fazer isso. Tinha prometido ao Mestre que iria, durante a manhã, arrumar o armazém da Fairy Tail. Não podia se atrasar. E ela sabia, instintivamente, que se deixasse aquele cobertor escorregar de seu corpo, não seria capaz de deixar o quarto por pelo menos até a hora do almoço.
Lucy engoliu em seco. Quando seus olhos se desviaram para o abdome definido e deliciosamente malhado do namorado, sua boca salivou. “Foco, garota”, disse para si mesma, chacoalhando a cabeça.
– Eu vou, hã... Tomar um banho – disse, dando alguns passos em direção ao banheiro.
Nesse mesmo instante, o rosado se levantou da cama.
– Ótima ideia, Lucy – elogiou, esticando sua maravilhosa constituição. Por um minuto, a garota paralisou no lugar, dando a chance para ele alcança-la.
– O que você está fazendo? – Ela perguntou, barrando a passagem do rapaz quando ele tentou entrar no banheiro.
– Indo tomar um banho com você – piscou, todo inocente e confuso.
As bochechas da Heartfilia ficaram tão rosadas por conta do rubor que possivelmente rivalizavam com a cor dos cabelos do Dragneel.
– Não! – Sua resposta saiu de imediato, um tanto ríspida por conta da vergonha. – Quer dizer, acho melhor eu tomar um banho sozinha.
– Por quê? – Ele a envolveu por trás em um abraço pela cintura, pousando casualmente o rosto em um dos ombros dela. O gesto parecia deliberado, como se ele não tivesse segundas intenções, mas, com isso, toda vez que ele expirava, o ar batia contra suas orelhas delicadas, e ela estremecia.
– Porque... – Lucy começou, tentando controlar a crescente excitação. Fechou os olhos, trêmula, e tomou uma respiração profunda. A verdade escapou por seus lábios sem querer: – Porque se você for junto, nós não vamos exatamente tomar banho, entende? E eu realmente, realmente, não aguentaria outra rodada, por mais que eu queira, porque estou absurdamente dolorida. Satisfeito?
– Longe de estar – Natsu respondeu de imediato, aproveitando para impulsionar os quadris para frente e pressionar sua ereção, agora completamente desperta, contra as nádegas da loira, que pôde senti-la mesmo com a proteção do cobertor. – Mas eu não estava sugerindo outra... Como você chamou? Ah, é, outra rodada. Eu só ia inocentemente esfregar suas costas. Lavar seus cabelos. Só isso – ele riu e acariciou sua orelha com a ponta do nariz. – Minha nossa, eu não sabia que você era tão pervertida assim. Por acaso está tentando me corromper?
– Tá certo – resmungou. – E a sua ereção completamente dura possui apenas intenções puras, assim como você – ela gira os olhos, fechando a porta na cara do rosado. Por longos minutos, ela tem que lutar contra a vontade avassaladora de voltar a abrir a porta e puxa-lo aos beijos para dentro da banheira.
“Minha nossa,” ela pensa, ofegante. “Nem eu sabia que era tão pervertida assim.”
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Quando Happy entrou na guilda naquela manhã, não sabia ao certo o que iria encontrar. O salão estava relativamente vazio, considerando que já era hora do almoço. O gato achou um pouco difícil de acreditar que alguns magos ainda sentiam a ressaca como efeito da bebedeira absurda nas semanas anteriores, porém, segundo Mirajane, essa era a explicação.
Pois bem, segundo as análises do exceed, somente as pessoas que não exageraram na bebida durante a festa — acontecida há quase quatorze dias, diga-se de passagem – estavam por ali. Em uma pequena mesa mais pro canto, o pessoal da Shadow Gear conversava animadamente com Lucy. Happy estava feliz em ver a loira, já que fazia tempo que não se encontravam. Queria ir até lá e conversar com ela, mas deteve-se; não estava na ali para isso.
“Onde ele pode estar?” pensou, procurando com os olhos a figura rosada, encontrando-a encostada no bar.
Natsu acabava de pegar uma bebida e se afastava do balcão, caminhando em direção a uma mesa específica. Happy estava preocupado com o parceiro. Essa era a primeira vez que realmente o via durante duas semanas. Depois que o rosado saíra, sem mais nem menos, da festa que rolara na guilda há alguns dias, não teve mais a chance de sequer conversar com ele. Algo tinha que estar errado, porque o Dragneel começou a chegar tarde em casa, tão tarde que Happy já se encontrava em sono profundo. Depois, como se não bastasse, saía de manhã bem cedo, antes de Happy acordar.
O Dragon Slayer do fogo depositou o copo de bebida em cima da mesa e sentou-se ao lado de Lucy. “Bem, talvez as coisas entre eles não estejam tão mal assim”, pensou ao notar o garoto esticando um dos braços por trás das costas da loira. “Acho que não tenho motivos para ficar preocupado”. Mas então, como se só para contrariar seus pensamentos, Lucy ficou completamente rígida na cadeira e, no segundo seguinte, plantou um belo de um soco na cabeça do rapaz, que fez uma careta.
Quando o gato se aproximou, Lucy já não estava mais em seu campo de visão. Chamou o parceiro para um canto mais reservado da guilda e quase se jogou aos seus pés, em prantos, enquanto a culpa o consumia.
– Happy, ei, o que foi? – O rosado perguntou, preocupado, instintivamente procurando por machucados sob o pelo azulado, mas acabou não encontrando nada.
– Natsu... – ele chorou, secando o que escorria do nariz com as patas. – Eu sinto muito, a culpa é toda minha.
Era eufemismo dizer que Natsu não estava entendendo coisa alguma. Franziu o cenho, confuso, e começou a olhar a sua volta, procurando, talvez, alguém que pudesse ajuda-lo a acalmar o exceed. Os membros da Fairy Tail – sempre tão intrometidos nas conversas alheias – convenientemente prestavam atenção em outras coisas. Muito conveniente para ser verdade. “Ridículos”, xingou.
– Ok, respira um pouco, Happy – pediu, vendo que os soluços do amigo vinham aumentando de ritmo. Após poucos minutos, quando o outro já aparentava mais calma, questionou: — Do que você tá falando?
– Seu relacionamento com a Lucy – o gato disse, passando as costas de uma das patas contra as pálpebras molhadas. Não desejava ter aberto o berreiro com Natsu, mas, infelizmente, sempre teve um sentimental muito frágil e a culpa estava pesada demais para aguentar de olhos secos. Tentando controlar a voz para não perder o pouco da dignidade que lhe restava, continuou: — Eu estraguei tudo... Agora ela está até mesmo te agredindo!
O rosado enrugou o nariz, coçando distraidamente os cabelos. Lucy o socara naquele local pouco antes do azulado puxá-lo para o canto para conversarem, então ele devia ter visto isso. O que ele provavelmente não tinha visto, no entanto, era que Lucy só o socara porque uma certa mão boba tinha passeado pelo traseiro dela.
– Não, não é... – Estava prestes a dizer algo como “não, muito pelo contrário, meu relacionamento com Lucy não podia estar melhor”, mas então estancou. Não tinha como admitir que não conseguia tirar as mãos de cima da namorada, principalmente porque Happy não sabia que eles estavam namorando. É, falha dele não ter contado antes; agora o amigo achava que era o responsável por acabar com suas chances de conquista.
– Eu sei o que você vai tentar dizer, algo como “não é realmente sua culpa” – de qualquer forma, o exceed o interrompeu, balançando as patas em frente ao corpo. – Mas é! Eu armei tudo. Tudo. E agora deu errado e...
Levou muitos segundos para que a mente aturdida do Dragneel pudesse interpretar corretamente as palavras ditas a ele.
– Espera aí, o que?
O gato resfolegou e involuntariamente deu dois passos para trás, como se a incredulidade presente no tom de voz do outro o agredisse como um soco. Seus olhos voltaram a marejar, mas por mais que temesse a reação do mago, não podia se acovardar agora.
– Quando você disse para mim que estava apaixonado pela Lucy, lá em Clover Town, eu decidi que não deixaria você se livrar desse sentimento, porque, caramba, você nunca gostou de ninguém... – Suas patas tremiam e a respiração lhe vinha ofegante. – E aí, tcharam, aparece a Lucy e, poxa, você merece uma chance de ser feliz! – Conseguiu sorrir, apesar das lágrimas, pois realmente acreditava no que dizia. – Então assim que voltamos para Magnólia, eu pedi para o Hibiki chama-la para sair. Eu sabia que você ia morder a isca, e você mordeu. Eu achei que se você sentisse ciúmes, iria tomar uma atitude quanto à Lucy. E você tomou. E aí era pra vocês serem felizes para sempre, mas eu não contava com essa reação negativa da Lucy! E agora as suas chances estão perdidas...
– Você... – Natsu arregalou os olhos e fechou as mãos em punhos. Estava surpreso, perplexo, irritado e, de alguma forma, feliz. Tudo ao mesmo tempo. “Que diabos!” Happy havia armado pra ele. E somente agora vinha lhe dizer sobre isso. De repente, o garoto já não se sentia mal por não ter lhe contado que estava namorando a maga estelar. Só que também tinha que admitir que estava contente pela iniciativa do amigo, e soube reconhecer que, se não fosse por ele, muito provavelmente não estaria em um relacionamento com Lucy. Foi por isso que fechou os olhos e tomou uma respiração profunda. Quando os abriu novamente, seu rosto estava sereno. — Quer saber? Deixa pra lá. E, pra sua informação, as minhas chances não estão...
O exceed não o deixou completar a frase, adiantando-se:
– Eu sei que o que fiz foi imperdoável, mas juro que tinha a melhor das intenções – juntou uma pata na outra e meio que curvou a cabeça, implorando: — Então, por favor, não vire um delinquente, Natsu.
– Um delinquente?! – Exclamou, a boca ligeiramente aberta em descrença. – Que ideia é essa, Happy?
O animal em questão fez uma careta.
– Depois que você brigou com a Lucy, naquele encontro, você tem chegado bem tarde em casa, todas as noites. E saído bem cedo, também. Anda todo furtivo. A única explicação que eu tenho pra isso é que, para se esquecer da dor de um coração partido, você se tornou um delinquente e entrou pra uma gangue.
O fato do azulado ter dito o que disse em tom de quem comenta sobre o tempo, só contribuiu para que o rosado soltasse uma longa e alta gargalhada. Precisou colocar ambas as mãos sobre a barriga para respirar melhor.
– Ficou maluco? – Perguntou, tentando estabilizar seu estado de riso. – Eu não ando todo furtivo, só tento ser discreto pra não atrapalhar seu sono! E eu tenho ficado até tarde fora e saído bem cedo porque estou pesquisando alguns arquivos confidenciais da biblioteca do Conselho Mágico.
Isso não era uma mentira. De fato, realmente andava pesquisando tais arquivos, mas é claro que quem contribuía para essa nova rotina corrida era Lucy. Não que fosse contar a ele sobre isso; era sua vingancinha pessoal contra o parceiro por armar pra cima dele.
– Espera... — Olhos arregalados, boca caída, braços soltos; Happy era a própria visão de alguém pego completamente de surpresa. – Você, pesquisando?
– Pois é – Natsu deu de ombros, sem se ofender pela surpresa do gato. – Mas é necessário.
– Que loucura! – Exclamou, ainda tendo dificuldades para controlar suas expressões exageradas. Então soltou uma tosse rápida e forçada, e voltou a ficar sério. – Encontrou alguma novidade?
– Algumas – o garoto ponderou. Depois, sorriu. – Vamos almoçar, te conto no caminho.
– Você... – Hesitou, torcendo as patinhas uma na outra. – Não está bravo comigo?
– Não, claro que não – Natsu coçou entre as orelhas do amigo, ainda mantendo aquele sorriso caloroso nos lábios. Desde cedo havia aprendido que não valia a pena brigar com Happy. – Só me prometa que nunca mais vai tramar nada pelas minhas costas.
– Aye Sir!
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– Pode dizer, Wendy, meu plano é terrivelmente engenhoso – Charles disse, sorrindo de uma maneira que parecia bem maníaca.
Wendy olhou de esguelha para a gata, tentando não ficar preocupada com esse tipo de sorriso. Charles vinha elaborando o tal plano do armário há semanas. As olheiras escuras abaixo de seus olhos provavam que horas de sono foram perdidas para que ela pudesse aperfeiçoar o que tinha tramado inicialmente.
Esse tipo de determinação dava calafrios à garota.
– Claro, mas você tem certeza que o Natsu e a Lucy estão aí dentro? – Perguntou hesitante, enquanto apontava para a porta fechada do armazém da Fairy Tail.
A exceed lançou um olhar indiferente ao seu entorno. O armazém ficava logo atrás do prédio principal da guilda, no quintal. Não tinha muito movimento a essa hora, portanto as duas estavam sozinhas ali. No dia anterior, a gata havia descoberto que Lucy ficara encarregada de limpar o armazém, que era um ótimo lugar para botar seu plano “tranque o casal em um cômodo e a proximidade fará o resto.” Ela estava contando com a possibilidade de Natsu ajudar a garota a limpar.
– Você que me diz se eles estão aí dentro – deu de ombros, tocando o nariz da amiga. O olfato de um Dragon Slayer era muito mais apurado do que o de um exceed.
Wendy franziu o cenho e enrugou o nariz, procurando pelo odor conhecido do Dragon Slayer do fogo. A expressão se suavizou depois de algumas inaladas.
– Sim, eu consigo sentir o cheiro do Natsu e da Lucy aí dentro.
Charles deu novamente aquele sorriso maníaco e, de dentro de um pequeno bolso no vestido que usava, tirou um dispositivo de metal do tamanho da palma de sua pata. Olhou para Wendy, que assentiu, e então pressionou o disco contra a madeira da porta. No mesmo instante ouve um sonoro “click” de uma tranca, e a energia deu uma falhada, apagando todas as luzes do quintal e, muito provavelmente, de dentro do armazém também.
Dois gritos soaram de dentro do cômodo trancado.
Ambos femininos.
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