Sams Town

10 Perdendo o Tato


Quinn estava em seu quarto, na pensão, enquanto lia um romance que não era do Nicholas Sparks, mas que parecia muito ter sido escrito por ele. Sentada em uma poltrona que ela até achava bonita, via também a tarde virar noite e sentia na pele o calor daquele dia perder espaço para a brisa fria da noite. Naquele instante, percebia que já fazia um tempo desde que ela não via mais Sam. Tinha medo de que ele tivesse interpretado mal a pequena discussão que tiveram naquela manhã e tivesse ido embora, deixando-a ali, por mais improvável que essa hipótese fosse – Sam era disléxico, não esquizofrênico.

Estava, de alguma forma, irritada, e suspeitava que isso tivesse a ver com o romance. Quinn sempre admirara a maneira como amores impossíveis se tornavam possíveis na maioria dos livros, mas naquele dia ela estava odiando isso. Fatos como os que ela lia não faziam parte da realidade, e os escritores daqueles romances deviam saber disso. Nem tudo é um mar de rosas quando se trata de relacionamento, por maior que seja o amor que uma pessoa sente pela outra.

Quinn pensava em Sam enquanto tais reflexões percorriam seus pensamentos. Ela não deixara de amá-lo por conta do seu comportamento de dias atrás, muito menos pela escolha absurda que ele fizera do lugar para a despedida de solteiro. Ele fora persuadido, querendo ou não, e precisava ser perdoado. Por isso, sua intenção nunca foi querer fazer o noivo pensar que a discussão feita naquela manhã era uma separação. Esperava que ele tivesse entendido isso.

Levantou-se da poltrona, pousando o livro fechado sobre ela, e dirigiu-se até a varanda. Por mais bonita que a vista daquela noite estivesse, estava ficando mais frio do que Quinn achava agradável. Fechou as portas da varanda e passou as cortinas por cima.

Antes disso, porém, viu Sam lá embaixo, na rua, se aproximar da entrada da pensão. Ele andava rápido demais para uma pessoa que estava de férias numa cidade rural. Aquela postura não combinava com Sam’s Town.

Quinn se sentou na cama, as mãos unidas, apreensiva, enquanto esperava Sam chegar. Ouviu-o subir as escadas e ouviu-o abrir a porta do quarto para entrar. Levantou-se no mesmo instante, ainda mais temerosa do que antes.

E lá estava o Sam, fechando a porta e virando-se para encarar a noiva. Não estava com uma expressão muito bonita no olhar, embora continuasse tão bonito quanto sempre. Mesmo assim, Quinn se sentia feliz por vê-lo.

Correu até ele para abraçá-lo.

Ele não foi embora, pensou e quase chorou. Estava espantada com suas emoções. Não imaginava que fosse ficar tão abalada ao rever o noivo, e agora percebia que se arrependia profundamente por tê-lo tratado tão mal nas últimas horas.

- Achei que não fosse mais voltar – ela disse num sussurro, a cabeça pousada confortavelmente no ombro do homem.

Sentiu os braços dele envolvê-la e as mãos pousarem, quentes, nas suas costas. Sentiu-se segura. Mas Sam continuou em silêncio.

- Queria dizer que me arrependo muito de ter sido tão cruel nas últimas horas e... – Quinn não queria gaguejar. Faria todas as pausas necessárias se isso a impedisse de chorar, mas não queria parecer fraca diante de Sam. -... Você não tem culpa de nada. Fomos levados até o lugar onde os garotos brancos dançam. Confio o bastante em você para saber que você não seria tão insano a ponto de me levar para um lugar como aquele, se soubesse do que ele se tratava.

A mão de Sam correr suas costas e pousaram suavemente no seu quadril. Quinn estremeceu com aquele toque.

- Eu te amo demais – finalizou.

Sam afastou-a com um gesto sutil, segurando seus ombros como se para mantê-la em pé. Olhou-a nos olhos e engoliu em seco. Mais uma vez, Quinn teve a impressão de que havia algo de muito errado por trás daquele olhar, mas, como da primeira vez, relevou. A presença do futuro marido era o que mais importava. Sentir a falta de Sam era uma sensação que ela esperava jamais ter que sofrer novamente.

- Fico feliz que você esteja aqui – Quinn disse e procurou sorrir, sem muita vontade. Seus lábios tremularam como se ela chorasse.

Sam os observou durante um tempo e engoliu em seco uma segunda vez. Sem avisar, aproximou seu rosto do da amada e colou seus lábios nos dela num beijo.

Quinn fraquejou no lugar, e teve que se amparar nos ombros fortes de Sam. Beijou-o como quem se alimenta depois de sentir muita fome. Estremeceu no lugar quando a mão do rapaz segurou sua cintura e ficou na ponta dos pés, como se isso pudesse aproximar ainda mais a sua boca da do homem que beijava.

- Quinn... – Sam disse pela primeira vez, num sussurro, a testa colada contra a de Quinn.

Sob aquela perspectiva, Quinn não conseguia ver com precisão que emoções percorriam o rosto de Sam, mas não se importou. Suas palavras eram o bastante.

- Eu estou aqui – ela disse no mesmo tom. Tocou o rosto do rapaz com ambas as mãos e sorriu. – E duvido que eu vá te deixa tão cedo.

- Eu te amo, Quinn...

Quinn chorou e beijou-o novamente. A partir daí, não conseguiu mais controlar seus impulsos.

Retirou a camisa de Sam enquanto ele fazia de tudo para desabotoar o seu vestido. Tocou seu peito e o arranhou de leve, hábito que não conseguia perder de jeito nenhum. Sam encheu suas mãos nos seios de Quinn e, assim, levou-a para a cama. Beijou-a desde a boca até a barriga. Tirou sua calcinha num movimento rápido e beijou não só suas pernas, mas também por entre elas.

Quinn quase sentia vergonha de tanto desejo que estava sentindo naquela noite.

Sam dobrou-se sobre ela e tornou a beijá-la. Quinn aproveitou a deixa para tirar sua calça e a roupa de baixo. Apalpou-o de um jeito que ela sabia que ele gostava e em seguida, segurando-o pela bunda, puxou-o para baixo, fazendo com que se encostassem de maneira mais íntima.

Sam penetrou-a e Quinn viu estrelas. Sentiu-se feliz. Era com esse homem que ela queria fazer amor toda noite. O amor que sentia por ele não podia ser mensurado de tão grande que era.

Sam soltou um arquejo quando finalizou, mas continuou sobre Quinn, beijando-a, agora com um pouco mais de delicadeza. Tocava-a de vez em quando, acariciando-a onde ela mais gostava.

Quando menos puderam perceber, estavam deitados lado a lado, dormindo. Quinn dobrou-se para o lado e aconchegou-se no braço forte de Sam. Aquele era o melhor travesseiro que ela podia ter naquela noite.

Mal podia acreditar que um dia tão ruim quanto aquele pudesse ter ficado tão maravilhoso de uma hora pra outra.

Quinn aproveitou a manhã ensolarada do dia seguinte para ir à feira e à mercearia comprar alimentos diferentes. Estava inspirada. Como tinha praticamente o dia inteiro livre para cuidar dessas compras, não viu por que não demorar um pouco para escolher tudo do melhor. Olhava as frutas com atenção redobrada, lia a validade das embalagens, pechinchava em busca do melhor, enfim, fez compras como nunca antes fez. Mais um dos benefícios de estar em Sam’s Town.

Naquele momento, estava escolhendo maçãs para uma torta que tinha em mente, uma das poucas receitas que sabia de cor. Para que a receita ficasse boa, as maçãs tinham que ser as mais vermelhas e consistentes, então, além dos olhos, Quinn teve atenção também no tato. A torta daquela tarde teria que ser preparada da melhor forma possível.

- Procura mais embaixo – disse uma voz masculina ao seu lado.

Quinn não conhecia o dono da voz, mas, a julgar pelo modo como se portava, devia ser nativo de Sam’s Town. Mesmo assim, era mais bonito do que qualquer outro homem da sua idade, pelo que Quinn já tinha observado do lugar.

- Os vendedores escondem as melhores frutas lá embaixo nas pilhas, para que as não tão boas não sejam desprezadas – ele prosseguiu.

- Obrigada. Bom saber.

- Não está comprando frutas para uma fruteira, está?

- Não... Mas como é que você sabe?

- Não teria escolhido tantas maçãs se fosse o caso. Deve estar pensando em fazer uma sobremesa, estou certo?

- Você é um moço muito observador – Quinn disse com um sorriso jovial.

- Não há muito o que observar em Sam’s Town, então a gente reconhece novos costumes assim que os vê. É natural.

- Quem? O turista? – disse uma terceira voz em algum lugar.

Não havia muitos turistas em Sam’s Town, portanto, Quinn estava mais do que certa de que a conversa que começou a ouvir, vinda do estande de melancias, não muito longe dali, só podia ser sobre ela e Sam.

- Sim, o próprio – disse uma quarta voz que, a julgar pela rouquidão, assim como a outra, devia pertencer a uma senhora já de certa idade.

- Elas estão falando sobre mim e o meu noivo – Quinn falou para o atual colega de compras.

O homem assentiu e virou o rosto. De repente, pareceu querer deixar não só aquela feira, como também a conversa que tinha iniciado. Para Quinn, aquele era um sinal claro de culpa contida.

- O que está acontecendo, hein? – perguntou de imediato, um tanto preocupada.

- Não quero falar sobre isso, senhora...

- Então você sabe do que estão falando! Anda! Fala pra mim o que está acontecendo? – De repente, não havia mais qualquer sinal do semblante jovial que Quinn ostentava minutos atrás.

- Você sabe como Sam’s Town é uma cidade pequena...

- Já ouvi isso de metade da sua população!

- Então sabe que todas as pessoas por aqui se conhecem bem.

- Quanto a isso, não tenho a menor dúvida!

- Sabe que um segredo só é um segredo se só uma pessoa sabe.

- Que seja!

- Contar um segredo, em Sam’s Town, é como anunciá-lo no jornal de uma cidade grande.

Quinn estava chocada pelo simples fato de não saber do que ele estava falando.

- Do que você está falando?

- Receio dizer que seu noivo esteja te traindo, senhora.

Não foi preciso dizer mais do que isso para que Quinn largasse as compras no chão de qualquer jeito e saísse correndo daquela mercearia.

Chorou no meio do caminho. Se havia algo que não aceitava de jeito nenhum era traição, e isso fora algo que aprendera ainda na adolescência, depois de tanto trair. Não gostava de imaginar que Sam a tirara do seu conforto em Ohio sob a promessa de querer se casar com ela para então traí-la com a ajudante de uma das principais alfaiates daquela cidade medíocre. Era inconcebível e imperdoável.

- Sam, você... – Quinn chorava tanto que a cabeça doía.

Diante do noivo – ex-noivo? -, agora ela entendia o porquê de a noite passada ter sido tão maravilhosa. Sam a traíra com uma garota qualquer e por isso queria se redimir. Provavelmente, devia ter se prometido que concederia a melhor noite de sua vida à mulher, como forma de se sentir menos culpado por causa do seu erro.

Quinn se sentia uma idiota. Sentia tanto nojo do homem para o qual olhava agora que o simples fato de estar na presença dele a incomodava. Queria poder esmurrar seu peito com toda a força, mas tinha a impressão de que suas energias estavam todas sendo gastas enquanto chorava. Tinha medo de desmaiar de tão furiosa que estava.

- Nada do que eu disser vai te convencer do contrário, não é? – ele perguntou em uma voz polida, calma como se nenhum problema estivesse sendo tratado ali.

- Isso é o que você tem a dizer?

- Eu queria pedir perdão.

- Não é o suficiente. O erro já foi cometido.

- Mas Quinn...

Quinn apanhou um travesseiro e o lançou na direção de Sam, que o agarrou antes que pudesse ser acertado.

- Eu me perdi, Quinn. Perdi o tato – ele voltou a arriscar.

- Se perdeu, mas conseguiu achar o caminho de volta pra casa? – Quinn indagou em tom irônico. – Vá embora, Sam! Diga aos seus amigos que está perdendo o tato, não a mim!

Sam virou-se para sair pela porta.

Quinn o assistiu partir como se ele fosse um covarde.

De costas, no entanto, Sam não deixou que ela percebesse que, na verdade, ele chorava com o mais puro arrependimento que já sentira na vida.

Notas finais
Até eu me emocionei com esse final :(