Sams Town
13 Desejo
Quinn Fabray ouviu o barulho de um rasgo às suas costas, mas na verdade aquele era um fechar de zíperes. Ouviu o som de algo sendo apertado, mas tinha alguma consciência de que esse era o som provindo das cordas que agora eram amarradas no seu espartilho. Aliás, decidira vestir um para a ocasião não porque se sentisse gorda – considerava-se até que em ótima forma –, mas estava com vontade de ter uma silhueta que não tinha, e isso desde quando tivera a sua primeira ideia de vestido de casamento. A senhora que agora a ajudava – que definitivamente não era a mesma alfaiata, mãe da tal da Nicki – concordava com ânimo com a sugestão do espartilho. “Em algumas mulheres, parece que deforma o corpo, mas em você vai ficar perfeito” foi uma das únicas frases que os lábios, selados por conta das agulhas que seguravam, permitiram que ela dissesse.
Não seria um vestido muito clássico. Quinn não gostava de seguir certos padrões, então exigiu, de última hora, que o vestido deixasse seus joelhos, ombros e braços à mostra. Quando a senhora a ajudou a vesti-lo, parecia apenas um vestido formal, e não um de casamento propriamente dito. Não tinha rendas nem brilho, apenas alguns tecidos sobrepostos que, na área da saia, davam um volume a mais e um ar de boneca à mulher vestida. Optara por um salto alto comum e branco para acompanhar o restante da vestimenta e fizera questão de usar um pingente de prata que ela carregava consigo há muito tempo.
De frente para o espelho envelhecido e manchado que havia naquele quartinho, Quinn observou o seu penteado. Providenciara-o mais cedo naquele dia, em um cabeleireiro muito famoso em Sam’s Town. O homem usara grampos e presilhas brilhantes para prender o coque que subia a partir da nuca de Quinn e terminava como um botão de rosa no alto de sua cabeça. Era um penteado mais sério, mas nem por isso menos glamoroso. A maquiagem se encarregava do verdadeiro brilho do visual, mas também fora tomado o cuidado de não deixá-la muito vulgar.
- Sam’s Town sente-se agradecida, Srta. Fabray – disse a senhora assim que a última agulha foi espetada.
- Por quê? – Quinn perguntou sem muito interesse. Não conseguia tirar os olhos do próprio reflexo.
- As pessoas ficaram sabendo do que aconteceu... – a mulher disse com um tom lamentoso. – Sentiram-se envergonhadas. Temos homens maus por aqui, mas temos muitos homens bons. O mesmo vale para as mulheres. Era o mínimo que poderíamos fazer.
Quinn discordava integralmente com a opinião da senhora, por mais meiga que suas palavras soassem. Mas Sam fora bem convincente quando dissera por que seria uma boa ideia aceitar o favor de Sam’s Town.
Sim, a população de Sam’s Town, pelo menos a sua maioria, oferecera-se para arcar com a cerimônia de casamento de Quinn e Sam, e Quinn não conseguia pensar em uma ideia mais absurda do que essa. Estava farta daquele lugar e de suas pessoas, e não queria que seu casamento, um evento tão importante, tivesse o dedo delas. Não queria guardar essa lembrança para si. Mas Sam queria. Dissera algo sobre como a lembrança de Sam’s Town poderia ser excelente se tudo desse certo, e que aceitar a festa promovida por eles era o mínimo que poderiam fazer para deixar a cidade sem nenhum tipo de maus comentários correndo a população, e soara convincente.
Quer dizer, pelo menos para ele, aceitar o favor oferecido parecia importante. Mesmo depois de tamanho discurso, Quinn ainda considerava a ideia absurda, mas deu o braço a torcer. Afinal, casamento também era sobre isso, não era? Dar o braço a torcer quando fosse preciso?
Sam deveria saber disso também. A vez dela de exigir algo estava próxima.
- Você está pronta, Srta. Fabray – a senhora informou tão sorridentemente que seu rosto de repente pareceu o de um bebê. – E, se me permite dizer, também está linda. Não há ninguém aqui que tenha tamanha criatividade quanto à que você demonstrou. – Fez uma pausa, pensando no que acabara de dizer. – Ou talvez ninguém por esses lados tenha provado do que é o amor verdadeiro. Um amor como o seu é inspirador.
Quinn assentiu com a cabeça. Não se lembrava bem da ocasião, mas tinha a impressão de que já ouvira aquela frase antes.
- Obrigada – disse finalmente.
A senhora pareceu ficar ainda mais feliz ao ouvir o agradecimento.
- Agora, você tem de apressar – tornou a dizer, dando um braço para que Quinn pudesse se apoiar. – Atrasar-se é parte importante da cerimônia, mas também não se pode deixar os convidados ficarem fatigados.
Quinn tornou a assentir, acompanhando a mulher até a única porta dupla de carvalho que havia no recinto. Já ali, conseguia ouvir os murmúrios de algumas pessoas que, assim como Sam, aguardavam ansiosamente a sua chegada.
- Torcemos para que tudo dê certo entre os dois – a senhora disse, voltando a sorrir. – Um amor verdadeiro não é algo que se pode jogar fora, minha jovem. Agarre-o e desfrute de tudo o que há de melhor em vivê-lo.
- Obrigada.
Quando as portas duplas se abriram, o sol do meio dia iluminou o quarto e aqueceu instantaneamente o corpo de Quinn. A noiva sentiu arrepios, talvez por conta da expectativa de ter que caminhar na frente de tantas pessoas – ou talvez porque estivesse surpresa com o que se deparara.
Havia centenas de pessoas a aguardá-la, e Quinn não precisava contar uma a uma para ter certeza disso. Sentadas em cadeiras de plástico, levantaram-se no mesmo instante quando perceberam a porta se abrir. Havia um tapete púrpura diante da noiva, cobrindo parte do gramado sobre o qual a cerimônia aconteceria. Alguns metros à frente, depois de fileiras e fileiras de cadeiras preenchidas de gente que nunca Quinn vira antes, estava Sam, em pé, em frente a um padre que sorria, aguardando a aproximação de sua futura noiva.
E ele estava lindo.
Quinn não saberia descrever ao certo o porquê de Sam estar tão bonito. Poderia ser o terno negro que valorizava o corpo bonito que ele já tinha, mas também poderia ser o brilho que encheu aqueles olhos claros assim que a avistaram. Poderia ser o cabelo louro que ele tomara o cuidado de pentear para trás com alguma espécie de brilhantina, mas também poderia ser o sorriso sincero que contorceu aqueles lábios enormes. Poderia ser a felicidade que exalava daquele corpo trabalhado e que contaminava a todos, mas também poderiam ser as mãos que ele levou à boca, surpreso, quando se deu conta de que a mulher com a qual iria se casar estava encantadora.
Quando Quinn deu seu primeiro passo em direção ao altar, a senhora que a ajudara a se vestir, cujo nome ela não conseguia se lembrar, não estava mais ao seu lado. E nem as preocupações. Muito menos toda a ira de antes. No momento, era como se a traição de Sam não significasse nada, como uma história tão sem importância que não valia a pena ser relembrada.
Era como se a visita que Quinn fizera à alfaiata e à sua filha no dia anterior não tivesse acontecido, e nem mesmo a discussão aos berros à qual ela se submetera. Os palavrões ditos, os tapas desferidos, o rancor que ela sentiu ao se dar conta de que a tal da Nicki não sentia arrependimento nenhum pelo que fizera. A mãe que, embora proferisse “Parem com isso!”, torcia para que a filha saísse vitoriosa daquela batalha. A cadeira que, num momento de desespero, Nicki decidira jogar em Quinn. Aqueles ombros finos e magros de uma garota que não se alimentava direito que Quinn agarrou, esbravejando, cuspindo, e impulsionou para trás, fazendo a garota colidir erroneamente contra um balcão, derrubando uma pilha de tecidos. Os desaforos que teve que ouvir sobre o lugar em que os garotos brancos dançam e a culpa que Sam tinha nisso, sobre a mensagem que ele passara para a população, e como Quinn era tola por querer ainda continuar com um homem daquele. Tudo não passava de fatos tão longínquos e estranhos que pareciam fragmentos de um livro que talvez Quinn tivesse lido na infância, há muitos e muitos anos.
Nada disso tinha importância mais. Se perguntassem, Quinn diria que nunca acontecera, afinal, onde já se viu, uma mulher de classe como ela, agir como um animal durante um ataque de fúria? Nada daquilo acontecera. Quinn, se tivesse ido até o ateliê da alfaiata, teria conversado com seriedade, talvez até chamado a senhora e a sua filha para um chá da tarde a fim de resolver as suas indiferenças. Pior do que criar inimigos é perder a oportunidade de fazer amigos, não é o que dizem? E tabefes, socos, pontapés, não!, Quinn não sabia fazer esse tipo de coisa! Podia afirmar, de pés juntos, que não seria capaz de brigar nem mesmo com uma pessoa mais fraca do que ela, porque não sabia bater.
A menos, é claro, que o corpo estivesse tomado de ira e fúria. Mas Quinn era uma pessoa paciente, não era?
Nicki e sua mãe jamais falariam a respeito. O vexame seria imensurável, ainda mais depois de um casamento financiado e organizado pela grande maioria da população de Sam’s Town. A história havia morrido. A traição de Sam não tinha mais importância nenhuma para ninguém, nem mesmo para os envolvidos.
O casamento aconteceria e, como Sam defendia, tudo daria certo. Essa era uma lição que agora Sam’s Town ensinava: é preciso se ater ao que há de bom em um lugar, e não ao que há de mau. Só assim a felicidade plena é possível de ser alcançada, e Quinn, enquanto caminhava na direção de Sam, que ainda não conseguia conter as próprias emoções, sentia isso. Talvez tivesse alcançado a felicidade e só então se desse conta disso.
Quer dizer, não restava dúvidas de que ela encontrara a felicidade durante a festa de confraternização de sua empresa, quando avistara Sam do outro lado do hall. Aquele era um sinal de que, em algum momento, tudo daria certo, mas não um de que tudo seria fácil. Uma felicidade que vem fácil vai fácil, Quinn pensou e sorriu quando a mão fria e suada de Sam apanhou a sua. E a batalha que tivemos que enfrentar até aqui, no final das contas, valeu a pena.
Sam sorriu para a noiva como se tivesse ouvido o seu pensamento. Quinn sorriu de volta e teve que fazer uma força sem precedentes para não avançar em direção aos lábios carnudos do noivo e mordê-los depois de um beijo.
Voltaram-se para frente e a cerimônia transcorreu naturalmente. O padre falou textos intermináveis para os quais ninguém deu a mínima e Quinn e Sam sentiram vontade de se olhar o tempo inteiro. Não soltaram as mãos em nenhum instante, mas nem por isso a mão de Sam se aqueceu. Ele estava nervoso, o que não era de se admirar. Casar-se depois do que acontecera era um vexame não só para a pessoa traída, mas para o homem traidor também, principalmente em um lugar tão tradicionalista quanto aquele.
Nós mudamos a história de Sam’s Town, Quinn tornou a pensar. Sam’s Town não é o lugar onde os problemas são criados, mas onde eles são resolvidos, e não só para uma das partes, mas para as duas. O amor é possível por aqui. Basta que ambas as partes de um mesmo casal sejam fortes.
Mesmo assim, acho que nunca mais vou querer voltar a esse lugar.
- Aceito – disse Sam, acordando Quinn de seu devaneio. Tomou a sua mão esquerda e nela colocou uma das alianças de ouro branco mais lindas que Quinn já vira na vida. Era cravejada de pedras minúsculas e brilhantes, mas Quinn entendia tão bem de pedras preciosas quanto conhecia o significado da vida. Talvez fosse um anel valioso no que dizia respeito ao dinheiro, mas, para ela, o valor sentimental daquilo fora tão grande que, quando o anel encaixou perfeitamente no seu dedo anelar, o corpo inteiro da mulher foi tomado por paz de espírito.
Definitivamente, isso é felicidade, ela pensou enquanto encaixava o anel no anelar esquerdo de Sam. Não há como duvidar.
Pessoas passam a vida inteira em busca disso, e eu encontrei. Em um dos lugares mais remotos do mundo, mas encontrei. Não sou só sortuda, sou abençoada.
- Pode beijar a noiva – disse o padre com uma voz muito mais do que alegre.
- Eu queria poder guardar esse momento para o resto da minha vida – disse Quinn num sussurro, sem saber qual dos olhos de Sam fitar.
- Se esse é o seu desejo, acho que não vai ser difícil realizá-lo – disse-lhe o marido.
Os lábios se uniram, as línguas se tocaram e os olhos se fecharam.
Houve fogos de artifício, mas Quinn não conseguiria ter certeza se eles estouravam no céu de Sam’s Town ou dentro do seu coração.
- Obrigado por me tornar o homem mais feliz do mundo – Sam sussurrou para os lábios entreabertos da esposa.
- Obrigada por jamais ter desistido – Quinn disse em mesmo tom.
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