Sams Town

2 Bocas e Lábios


Não foram à casa de Quinn, porque era muito longe, e nem ao apartamento em que Sam andara vivendo com um colega, porque este era minúsculo e também porque eles não queriam ter companhia. Mesmo assim, quando Sam dirigiu seu carro em direção a um hotel que não era muito caro, mas muito bonito e bem distante dos olhares do Centro da cidade, era como se eles já tivessem consentimento sobre tudo isso, mesmo sem conversarem. Quinn não fez objeção alguma à escolha de Sam, até porque o lugar era a última das suas preocupações depois de encontrar aquele que, um dia, fora tão importante na sua vida.

O mesmo que agora prometia voltar a ter essa importância.

Mesmo que não fosse um hotel caro, Quinn o achou bastante bonito. O quarto era decorado em tons pastéis, decoração que englobava chão, parede e roupas de cama, e havia tantos objetos decorativos ao redor que era quase como se aquele fosse um ambiente familiar. Era mais belo do que a sua casa, sem sombra de dúvidas, mesmo que fosse apenas um quarto e um banheiro. A vista da janela era bonita, pois, mesmo que houvesse algumas outras casas naquela rua, era possível divisar um parque florestal à frente, com árvores altas que, na noite, se fundiam à escuridão do céu. Quinn se sentiu inspirada.

Mas, mais do que isso, sentiu que não podia haver noite melhor para se apaixonar do que aquela. E ela sabia que essa paixão estava para chegar.

Sam trancou a porta do quarto e caminhou até Quinn, que ainda estava na janela, sem que ela sequer percebesse. Estava demasiado avoada para notar alguma coisa que não fosse a tão bonita noite que havia do lado de fora. Ainda assim, foi incapaz de evitar o suspiro que rompeu da sua boca assim que Sam, abraçando-a por trás, pousou suas mãos quentes em torno da sua barriga e a cabeça em seu ombro. Ali, ela sentiu o cheiro que ele exalava mais forte do que nunca. Devia ser uma colônia barata, uma escolhida a esmo, mas, para ela, o aroma nunca pareceu tão bom.

Inclusive, foi ele quem a girou, desviando sua atenção da janela, e puxou-a para si. Beijou-a imediatamente, fazendo com que Quinn, mais uma vez, sentisse o corpo inteiro estremecer. Ainda não podia acreditar que estava mesmo beijando a boca quente e carnuda de Sam Evans, aquele no qual pensara e aquele pelo qual o coração doera tantas vezes quando era mais jovem, tempos que não estavam tão distantes assim.

Tão desejosa que estava, foi ela quem deu continuidade ao momento. Envolvendo-o em seus braços, pousando-os nos ombros do rapaz enquanto ainda se beijavam, ela caminhou com ele, ditando o caminho que deviam seguir. Sam foi surpreendido pela cama assim que suas pernas a tocaram, o que o obrigou a terminar o beijo naquele instante e cair sentado sobre ela, fazendo com que Quinn risse. Esse era o Sam que ela conhecia, tão bonito e atrapalhado. Mesmo que procurasse, ela sabia que não encontraria outro igual no mundo. E como estava feliz por tê-lo encontrado novamente!

Sentou-se em seu colo, abrindo as pernas para tornar a posição confortável, e então o beijo que iniciaram foi mais intenso. Não era só o movimentar de lábios em um ritmo recheado de ternura, com mãos que percorriam os corpos com carinho, mas um mais selvagem. Quinn sentiu vontade de morder o lábio inferior de Sam, e ele aceitou, suspirando. Não conseguia mais se segurar daquele jeito, então ousou e, enquanto tentava acompanhar o ritmo de Quinn, explorou as costas da mulher em busca de um zíper que pudesse facilitar a retirada daquele vestido. Como ele demorou a encontrá-lo, Quinn levantou uma mão do ombro do rapaz e, agarrando a dele, guiou-a até o zíper. Sam só precisou puxá-lo uma vez para que o vestido fosse aberto. Usando aqueles mesmos dedos, tocou-a nas costas, percebendo o quanto ela estava arrepiada naquela noite.

Quinn, então, começou a desabotoar a camisa de Sam, mesmo que achasse que ele ficava tão lindo vestido nela. Habilidosa como era, não demorou muitos segundos na tarefa, então logo suas mãos deslizavam por aquele peitoral tão trabalhado, coisa que Sam nunca deixou de dar importância. Ela não se lembrava muito bem de como ele era quando o tocara pela última vez, mas tinha a impressão de que Sam andara trabalhando aqueles músculos ainda mais do que já trabalhara em outras épocas. Seus dedos estavam tão sedentos daquele toque que, sem perceber, ela arranhou seu peitoral, fazendo com que Sam suspirasse um pouco mais alto.

O beijo cessou por um instante. Depois de um tempo de silêncio, os dois riram, de olhos fechados, as testas coladas, os narizes sentindo a respiração um do outro.

Sam abaixou o vestido de Quinn até a cintura numa única puxada. Não era uma peça tão difícil de ser retirada. Mesmo sem ver, percebeu que ela não usava nada para cobrir os seios – Quinn imaginava que qualquer sutiã marcaria o seu vestido, que era tão colado -, então deslizou suas mãos até eles, apalpando-os como muito pouco fizera enquanto ele e ela namoravam anos atrás. Quinn, naquele tempo, não era de se deixar levar tão fácil, ainda mais depois de ter ficado grávida. Levantando a cabeça, a mulher suspirou alto, os olhos ainda fechados, agarrando- os cabelos do homem enquanto ele a tocava ardentemente.

Deitaram logo em seguida. Enquanto Quinn beijava Sam, deitada sobre ele, ele teve tempo de retirar por completo o seu vestido. Giraram uma vez, trocando de posição, e então foi Quinn quem despiu Sam por completo. Os corpos, tão quentes naquela noite fria, se tocaram como não se lembravam de já ter feito antes. Quinn beijava Sam com a ferocidade de alguém que ansiara muito por fazer isso na vida. Sam, igualmente, parecia querer devorar a mulher sobre o seu corpo, tão desejoso do seu corpo que estava.

Fizeram amor, mas nem por isso deixaram de se beijar. Quinn subia e descia sobre o corpo de Sam, mas em nenhum momento desviou sua atenção de seus lábios. Passei muito tempo longe deles, então é melhor que não fujam tão cedo! Não se lembrava de algum dia ter pensado em voltar a ver Sam e o seu corpo nu uma vez mais, mas agora percebia que, durante todo aquele tempo, sentira muita falta daquele homem. E se sentia tola por tê-lo deixado partir.

Sam não pensava muito enquanto fazia o que fazia. Estava tão excitado enquanto fazia amor com Quinn que, mais tarde, sentia que poderia descrever aquela noite apenas com cores e sentimentos, não com imagens. Não se lembrava se um dia já fizera amor com Quinn, mas agora parecia que aquele era o ato mais belo do qual ele podia fazer parte. Alguma outra mulher já o fizera se sentir tão completo quanto aquela? Ele achava que não. Quinn era única. Quinn era a mulher com a qual ele devia ter ficado desde quando se viram pela primeira vez.

Quinn levantou o rosto e gemeu um pouco mais alto. Sam entendeu o recado e, quando menos pôde perceber, ele próprio percebeu que estava próximo de terminar. Soltou um suspiro alto como um alívio e então sentiu o corpo, embaixo do de Quinn, se acalmar, como se todas as tensões do dia tivessem ido embora de uma única vez. Quinn saiu de cima dele e, fitando-o com olhos profundamente sedutores – Esses olhos... -, deitou-se ao seu lado. Passou uma mão sobre o seu corpo e continuou alisando seu peitoral. Sam, desajeitado, tentou passar um braço embaixo de sua cabeça, coisa que Quinn passou a usar como travesseiro.

Ficaram assim por bastante tempo, mas não trocaram muitas palavras, coisa que tivesse alguma importância. Quinn, enquanto passava os dedos pelo abdome de Sam, fitava a janela, novamente fantasiosa, observando como as estrelas eram tão belas. Sam, por sua vez, olhava na direção de uma televisão que, agora ele percebia, estava ligada. As imagens passadas eram tão desinteressantes e o som da TV estava tão baixo que não era uma surpresa que o objeto tivesse sido desprezado durante todo aquele tempo.

Pela manhã, eu a desligo, Sam teve tempo de pensar.

Depois disso, adormeceu, minutos depois de Quinn também adormecer sobre seu braço, uma mão ainda repousada em seu abdome.

~//~

Sam acordou com o sol forte que entrava pela janela que Quinn esquecera aberta durante a madrugada. Mal conseguiu abrir os olhos, mas, uma vez com a visão acostumada, conseguiu enxergar melhor as coisas que havia ao redor. Percebeu Quinn sentada à beira da cama com uma garrafa de vidro gorda, cheia de um líquido âmbar, nas mãos, observando-a como se tentasse decifrar do que se tratava. Não estava vestida, o que permitiu que Sam percorresse com o olhar toda a extensão daquele corpo que, para ele, era tão perfeito. Quando foi que você ficou assim tão bela, Quinn...?

- O que será que é? – ela perguntou e a rouquidão na sua voz denunciou que ela não acordara há muito tempo.

A princípio, Sam não entendeu muito bem a pergunta. Como acabara de despertar, ainda não estava esperto o bastante para relacionar a pergunta de Quinn à garrafa que ela segurava.

- Diz aqui que é um Bourbon Whiskey – ela voltou a dizer. – Você já tomou algum?

- Não sei – Sam respondeu, franzindo o cenho. – Deixe-o na estante. Eu o bebo sozinho, depois.

Quinn virou-se na direção de Sam e mordeu o lábio num sorriso. Novamente, o corpo do rapaz foi preenchido por aquela sensação calorosa que ele sentira horas atrás.

- Eu preciso ir – disse Quinn e ensaiou uma busca pelo seu vestido, que devia estar perdido por entre os cobertores na cama.

- N-Não! – Sam deparou-se dizendo, gaguejando porque subitamente percebera-se desesperado ao ouvir a frase da mulher.

Levantou-se num pulo e correu até a porta do quarto, apanhando a chave e segurando-a firmemente numa mão. Encontrou o olhar de Quinn, que descia do seu rosto e percorria todo o seu corpo até seus pés. Ela sorria, maliciosa.

- Não vai me deixar ir embora, Sam? – ela perguntou sem se levantar. Ainda ria. Parecia estar se divertindo muito com aquilo.

- Antes de você dizer adeus, eu preciso dizer algumas coisas.

Só então Quinn se levantou. Caminhou vagarosamente até ele, mas parou alguns centímetros antes, apoiando-se numa estante que ficava próxima à porta, onde Sam havia pedido que ela deixasse o Bourbon.

- Eu te amo e te amarei eternamente – os lábios dele se moveram para dizer. O olhar no seu rosto parecia engraçado para Quinn. – Q, você não vê? Eu não vou ficar satisfeito enquanto não puder te abraçar de novo.

- Você pode fazer isso agora, se quiser.

- Não vou me contentar em te abraçar mais uma vez hoje. É como eu te disse, te amo eternamente, e isso significa que nunca vou te esquecer novamente. Não depois de hoje. Não depois de tudo o que fizemos.

Quinn sabia o que ele queria dizer com isso e, na verdade, essa era uma conclusão a qual ela chegara muito tempo antes, até mesmo antes de eles chegarem ao hotel. Parecendo pensar no assunto, ela começou a balançar os quadris de um lado para o outro, como numa dança sem música. Fitava o chão enquanto pensava. Quando voltou a fitar Sam, que engoliu em seco na expectativa daquele momento, ela disse:

- Também não quero voltar a ficar sem você.

Ele sorriu. Dessa vez, foi ela quem sentiu o calor percorrer todo o corpo.

- Só preciso de mais uma chance e tenho certeza de que vou fazer a coisa certa, Q – ele disse depois.

- O que você quer dizer com isso? – Quinn disse e, pela primeira vez, demonstrou algum receio.

- Venha comigo.

- Como?

- Venha comigo, Quinn. Vamos sair desse lugar e seguir para outro, um em que nós possamos ser nós mesmos e viver como sempre quisemos viver.

- Você quer deixar Lima?

- Você vê algum problema com isso?

Quinn engoliu em seco. Seu rosto demonstrava claramente o quanto estava preocupada.

Por isso, Sam teve que esperar um bom tempo até que a resposta que tanto procurava finalmente rompesse pela boca da sua amada.

Notas finais
Que resposta seria essa...?