Notas iniciais
Gente depois desse Ep teremos mais 3 Eps que marcam o final desse livro

Os pais de Roberto lembravam bem pouco o filho; ou melhor, ele os lembrava bem pouco. Enquanto os olhos dele eram verdes, os dos mais velhos eram castanhos claros ou cor de mel. O pai era alto e esquálido como o filho, mas a mãe tinha aparência mais cheia e um rosto de coração.

Aqueles seriam detalhes simples a serem percebidos por Rafa... Se eles não estivessem fazendo cara feia pra ele. Tinham expressões que iam da censura à incredulidade – era como se Rafa e Roberto estivessem fazendo algo de errado.

Talvez para eles fossem.

– Quem diabos é você e o que pensa que esta fazendo aqui? – o pai de Roberto se dirigiu a Rafa – e somente a ele – os olhos arregalados de raiva.

– Pai... – Roberto tentou interver, ficando de pé.

– Roberto, não – a mãe se envolveu, em um tom tão severo para um corpo tão pequeno.

Andressa e Lucas pararam na porta, as expressões indecifráveis. Vick ficou de lado no quarto, o olhar de pena caindo sobre Roberto de vez em quando. Rafa apenas encarou o pai de Roberto.

– Sou o namorado dele – respondeu, simplesmente, dirigindo-se a Roberto com um gesto vago.

A mãe de Roberto arquejou alto e as narinas do pai inflaram de ódio.

– O que disse? – ela questionou em uma voz estridente que deveria ter ecoado pela vizinhança toda.

Rafa franziu o cenho.

– Que eu sou...

– Cale essa boca – o pai interrompeu. – Esta insinuando que meu filho é gay?

Em resposta, Rafa deu uma risada, mas a expressão deles fez com que ele se contivesse.

– Olha, sem querer ser grosso, mas seu filho esta aqui – ele apontou. – Por que é que não perguntam a ele?

– Nós não precisamos perguntar nada! – o Sr. Borges vociferou. – Nosso filho não é gay!

Roberto retorceu o rosto.

– Pai...

– Ah, não? – Rafa tocou o braço dele para impedi-lo. – Então por que ele quis me beijar a uma semana, durante a festa lá em casa?

A Sra. Borges quase teve uma sincope, mas o Sr. Borges apenas balançou a cabeça, em total descrença.

– Querer não é a mesma coisa que poder.

Rafa queria rir da cara dos dois, mas ao ver o olhar magoado e nervoso do namorado, achou melhor apenas formular uma resposta melhor.

– Bem falado, senhor – ele assentiu. – Mas seu filho me beijou na festa. E ontem também. E hoje também. O que só posso presumir que ele...

– Isso é tudo influência sua! Uma péssima má influencia! Ficar arrastando meu filho para esse estilo de vida...

– Estilo de vida? – Rafa repetiu. – Eu sou gay, não um ET com uma cabeça no ombro! Meu estilo de vida não é muito diferente do seu, eu também sou humano, sabia?

Sem muitos argumentos, mas ainda puto com as palavras de Rafa, o senhor Borges apontou para a porta.

– Eu quero você fora – ele disse entre os dentes e depois lançou um olhar para Andressa e os outros ali, que olhavam espantados. – Eu quero todos vocês fora!

Rafa apenas deu de ombros.

– Tudo bem – ele começou a sair do quarto.

– Rafa, não – Roberto começou a ir atrás dele.

– Filho! – a mãe o repreendeu.

– Roberto, deixe o ir! – o pai o pegou pelo braço.

– Me solta! – Roberto exigiu.

– Larga ele! – Rafa girou nos calcanhares.

– Não se mete nisso! – o Sr. Borges o empurrou com o punho.

– Não toca nele! – Lucas começou a se mover.

De repente, na bagunça, alguém se moveu com tudo no quarto e acertou o rosto do senhor Borges. A Sra. Borges recuou, as mãos levadas a boca. Roberto e Rafa se seguraram, olhando surpresos enquanto Andressa se endireitava e esfregava o punho.

– Desculpe senhor – ela olhou sem expressão para o pai de Roberto jogado no carpete. – Desculpe senhora – ela olhou para a mãe de Roberto. – Só achei preciso.

No meio do silencio, Lucas pegou Andressa e a levou pelo corredor, provavelmente para o banheiro, já que seu punho estava sujo com o sangue do nariz do pai de Roberto.

Vick os observou partir depois encarou Rafa e Roberto.

– E-eu – ela engoliu em seco. – Eu sinto muito.

E então seguiu por onde Andressa e Lucas tinham ido.

A mãe de Roberto logo se agachou para ajudar o marido, tocando seu queixo para medir o machucado no rosto. Quando ela fez isso, ele reclamou de dor.

Rafa não o culpava, Andressa era meio agressiva às vezes.

– Acho melhor você ir – Roberto se dirigiu a ele, tocando seu ombro.

Ele o olhou nos olhos. Não parecia bravo, mas tinha uma expressão sombria nos olhos.

– Tem certeza? – ele questionou, lançando um olhar para o Sr. Borges. E se ele tocasse em Roberto na sua ausência.

– Tenho – ele respondeu, o olhando de volta. – Eu cuido disso.

Eles se encararam um bom tempo e Rafa quase quis beija-lo antes de ir, mas definitivamente aquela não era a hora perfeita para aquilo.

– Tem certeza que não esta doendo? – Lucas perguntou a Andressa, recostado no batente da porta do banheiro. – Você acaba de bater em um cara com mais de metade do seu tamanho!

Andressa terminou de lavar o sangue nas mãos e o olhou de esguelha.

– E o que tem isso? – perguntou, com um toque de petulância.

Lucas apenas corou e se retraiu, da mesma forma que sempre fazia.

– Nada, é que você... Eu te achei bem corajosa – ele se atropelou nas palavras. – O que você fez, lá dentro. Queria ter tido tanta coragem.

– Não é questão de coragem – Andressa respondeu. – Ele tocou no Rafa, alguma coisa tinha que ser feita.

– Concordo – Lucas sorriu surpreso. – Você é uma amiga e tanto pra ele.

Ela pensou um pouco, encarando seu reflexo de olhos brilhantes no espelho.

– Não somos amigos, exatamente.

Lucas se aproximou, pegando a mão dela ferida e a olhando nos olhos.

– E quanto a nós? Somos o que?

Andressa quase teve uma sincope quando ele ficou mais próximo. Já podia ver no que aquilo ia se tornar com os dois dentro do banheiro, sozinhos enquanto todos estavam no quarto de Roberto, tensos.

Mas então ela soltou sua mão.

– Lucas, não.

Ele piscou surpreso.

– O que? Por que não? – reclamou em um tom meio magoado.

Andressa balançou a cabeça e então pegou seu rosto com as mãos, de forma nada carinhosa, enquanto o encarava com os olhos severos. Por um segundo, ela parecia mais sabia do que dois segundos antes.

– Tudo isso é um erro. Você gosta de outra.

Lucas franziu o cenho.

– Você também.

– Não, eu não gosto dele – ela pensou profundamente. – Eu o amo.

A expressão de Lucas era estranha após ouvir aquilo. Parecia sentir dor, como as criaturas que Andressa costumava enfrentar ou com Eduardo quando ele levava um tiro – o que não era muito raro.

Era uma expressão bem familiar – ela achava que se chamava coração partido.

– Mas... – o olhar dele era perdido ao tentar falar. – Mas e a gente? O que vai acontecer?

Andressa, comovida demais ou com pena demais, apenas enlaçou seus braços na cintura dele.

– Não pense que eu vou te ignorar e parar de falar com você – ela murmurou em seu ombro. – Ainda podemos ser amigos.

Lucas fez uma careta, mas então suspirou, não apenas pelo que Andressa tinha acabado de dizer, mas também pelo cansaço que o dia de hoje tinha exigido dele. Um sorriso minúsculo começou nos lábios dele e isso foi o suficiente para Andressa sorrir de volta.

– Só amigos, certo? – ela perguntou.

– Só amigos – ele assentiu com um sorriso cansado.

E os dois se abraçaram.

Porém, enquanto os dois o faziam em silêncio, Vick se desencostava da parede do corredor mais perto do banheiro e voltava para o segundo andar, pensando em quem Lucas realmente deveria gostar.

Quem seria?

– Vai ficar mesmo bem? – Rafa perguntou enquanto Vick, Andressa e Lucas desciam juntos a escada. Um triângulo estranho, ao ver de Rafa.

Roberto assentiu, lançando um olhar melancólico para dentro da porta da frente aberta.

– Eles não vão esquecer isso tão cedo, mas posso lidar com isso.

Rafa cruzou os braços.

– Não é disso que estou falando, e você sabe disso.

Roberto baixou o olhar, se recusando a tomar coragem de olhar ele nos olhos.

– Ei – Rafa pegou sua mão. – Por favor, olha pra mim.

O namorado o fez e Rafa aproveitou para lançar um aviso de volta com os seus.

– Proteja sua opinião – ele pediu. – Eu sei que seus pais são do tipo que acham que devem escolher o que é certo pra você, mas...

– Eu sei – Roberto fungou. – Eu sei o que é certo pra mim – ele apertou a mão de Rafa. – Você é o certo pra mim.

O beijo dos dois foi carinhoso dessa vez, sem pressa demais ou voraz demais. Rafa não sabia se ia conseguir vê-lo amanhã e Roberto com certeza também mal sabia de seu destino também. Dali pra frente, tudo seria diferente.

Quando terminaram, Rafa se despediu com mais um selinho e Fernando fez o que pode para continuar quieto no carro escondido onde ele e Eduardo se encontravam.

Eles poderiam aparecer ali para Andressa e os outros, mas Eduardo não tinha nenhuma simpatia pelo melhor amigo de Rafa, uma vez que ele tinha dormido com sua amada – e Fernando, bem, ele tinha seus motivos para não pisar na casa de Roberto.

Mas depois daquela cena ele não sabia mais o que fazer.

– Temos mesmo que ficar aqui no escuro? – Fernando comentou sarcasticamente. O carro de Edu estava mesmo estacionado debaixo de um poste quebrado e apagado.

– Prefere pisar no jardim? – Eduardo retrucou entredentes. – Matos eu não estou curtindo essa situação mais do que você esta curtindo.

Derrotado, Fernando apenas suspirou e encarou enquanto Rafa se juntava aos ao sair da casa de Roberto, o andar suave, sem saber por um segundo que ele estava ali, praticamente o espionando.

Fernando admirava aquela visão, completamente distraído, até que um movimento súbito atrás de Rafa chamou sua atenção e ele se remexeu no banco.

– Qual o seu problema? – Eduardo questionou. – Eu sei que quer tanto ir lá, mas o namorado dele...

– Não é isso – Fernando sibilou, os olhos mirando Rafa. – Olhe atrás do Rafa, rápido!

Eduardo seguiu seu olhar e tentou olhar atrás do rapaz de cabelo escuro enquanto ele saia da propriedade dos Borges, o sol do fim de tarde caindo sobre suas costas e atrapalhando um pouco a visão.

Mas então Edu viu quando Rafa virou a calçada com o grupo e, em um poste logo atrás, alguém se moveu instintivamente.

– O que? Quem é aquele...?

– Eu não sei – Fernando sussurrou assustado também ao olhar a sombra escondida. – Não da pra ver daqui.

Rafa subiu no banco do passageiro e a sombra também se moveu um pouco mais, acompanhando o trajeto do carro, passando de poste em poste em uma velocidade surpreendente enquanto o carro deixava a rua.

Quando o carro passou por eles, Edu e Fernando se abaixaram na mesma hora, sabendo muito bem que Andressa era a única esperta o suficiente para saber que eram eles ali, mas o carro passou direto.

Assim que ele sumiu no fim da rua, eles se levantaram de novo e viram a sombra seguir pelo final da rua também, por onde Rafa também tinha ido.

Ir a pé pra escola. Era isso que Rafa ganhava por perder a hora para chegar à escola. Seu pai não era do tipo de perdoar atrasos e sempre saia na hora marcada. Então se ele acordasse um minuto ou dois atrasados, ele já descontava isso e partia sem ele.

Que grande pai, hein?

Com coragem, Rafa encarou a calçada que o aguardava e começou a andar em um ritmo vagaroso. Seus tênis mal faziam barulho na rua vazia e ele tinha medo que parecesse estar rebolando enquanto andava. Por instinto a isso, ele olhou para trás uma vez e viu alguém se refrear rapidamente e voltar na mesma hora.

Rafa parou de andar, congelado de choque. Ele tinha visto aquilo mesmo? Tinha alguém atrás dele? Olhou uma vez mais para ver se não estava ficando louco, mas a rua agora estava vazia.

Ele meio que se forçou – e teve que se forçar muito – para voltar por onde tinha feito seu caminho e tentou encontrar a sombra de novo. Mas nenhum sinal dela.

Estava prestes a suspirar de alivio, até que um barulho chamou sua atenção. Um dos arbustos de lado da vizinhança dele se remexeu, fazendo um barulho bem audível.

Seu corpo voltou a ficar parado, seu coração sendo a única coisa a permanecer em movimento constante dentro dele. Antes que pudesse decidir quando correr, o arbusto se remexeu mais uma vez e uma mão o agarrou, puxando ele com tudo para dentro.

Por um minuto ele esperneou e ficou de pé de um jeito meio desajeitado, pronto para brigar com qualquer que fosse a Beta, Atirador ou Wendigo na sua frente. Mas era só Fernando, os olhos de cores mistas brilhantes.

– Mas que merda? – Rafa começou a elevar a voz, mas Fernando colocou um dedo sobre seus lábios.

Rafa estava prestes a protestar, até que notou Eduardo com eles, fazendo o mesmo sinal, só que tocando seus lábios com seus próprios dedos enquanto se agachava atrás dos arbustos.

Rafa esperou alguns minutos, enquanto os dois olhavam para algo na rua, erguendo os pescoços para enxergar o que Rafa não poderia, já que estava imóvel.

Quando finalmente relaxaram, Fernando abaixou a mão e Eduardo suspirou, se levantando para ficar na altura deles dois.

– Tá – Rafa olhou de um para o outro brevemente. – Que merda toda foi essa?

Fernando e Eduardo trocaram o mesmo olhar conspirativo de sempre. Rafa teve que bater o pé para evitar ter que bater em um dos dois – até porque ele apanharia mais.

– Tinha alguém seguindo você – Fernando respondeu.

Rafa revirou os olhos.

– Eu sei disso... Este alguém eram vocês dois.

– Não – Eduardo balançou a cabeça. – Nós estávamos seguindo seu seguidor.

– Seguindo meu seguidor? – Rafa repetiu. – Preciso dizer o quão louco isso soa? Acho que não.

– É sério. Ontem, quando você estava saindo da casa do Roberto com os outros, nós vimos. Alguém definitivamente estava atrás de você.

– Espera – Rafa hesitou. – O que estavam fazendo lá na casa do Roberto?

– Não tecnicamente na casa – Eduardo respondeu. – Estávamos do lado de fora.

– Vocês estavam me espionando? – ele perguntou aos dois, mas só olhava Fernando.

– Tentamos entrar em contato com você e ela – ele deu de ombros. – E quando chegamos lá, achamos melhor ficar do lado de fora... Já que lá dentro estava tão tenso.

Rafa semicerrou os olhos pare ele, mas Eduardo prosseguiu.

– Tínhamos acabado de voltar da casa da Carla – ele fez aspas ao chegar na palavra “casa”. – Pedimos algumas informações sobre os Atiradores.

Rafa suspirou, cansado.

– Eu estou tão cansado de ouvir esse nome – disse. – Por que não chamamos eles de caras vestidos de preto? Ficaria tão mais simples. E por que toda essa obsessão por eles? Não devíamos correr deles ao invés de procurar por eles?

– Fica fácil quando você fala assim – Eduardo retrucou. – As coisas mudaram agora, Rafa. Eles queriam a caixa e sabem que esta com a Anna, mas continuam por aqui e eu acho isso suspeito. Acho que tem algo a mais por trás disso tudo. Eles pegaram a Carla muito antes de encontrarmos você, o que só pode significar que Carolina tem outros planos, coisas piores em mente.

Rafa estremeceu ao ouvir aquele nome.

– O que ela pode estar querendo?

Fernando deu de ombros.

– Talvez controlar toda a cidade. Vimos o que os Atiradores fizeram na cidadezinha perto da fortaleza deles. Eles podem estar querendo controlar aqui também.

– E eles podem mesmo fazer isso? – Rafa questionou, pensando na quantidade de departamentos de policia. Carolina podia ter um exército, mas não era muito maior que o número de população de Vallywood.

– Acho que é pra isso que eles querem a caixa – Eduardo disse. – O que quer tem naquela caixa pode trazer o caos ao mundo, lembra?

– De novo esse papo – Rafa retorceu o nariz com nojo. – Eu sei que vocês me condenam por culpado que a abriu, mas já deu né?

– Pra você ver no que a curiosidade dá – Fernando comentou. – Agora olhe só, pode ser que você seja culpado também por ter dizimar sua cidade inteira.

Eduardo balançou a cabeça.

– Mas essa é só uma possibilidade – ele disse. – Ninguém sabe exatamente onde esse espirito foi parar.

Rafa estava prestes a abrir a boca, mas parou.

– Espera, você disse espirito?

Os dois se entreolharam outra vez.

– Parem com isso – Rafa grunhiu. – Eu sei que estão escondendo alguma coisa, só me digam, por favor.

– Isso não tem importância – Fernando desviou o olhar. – No momento, a prioridade é o seu seguidor.

Rafa estremeceu e isso conseguiu afastar um pouco seus pensamentos sobre o assunto anterior. Imaginar alguém se esgueirando atrás dele não era muito reconfortante.

– Então, sobre isso – ele assentiu. – Vocês conseguiram ver quem era?

– Não. Mas temos um plano.

Rafa olhou de um para o outro, confuso.

– Plano? Que plano?

– Poderíamos dizer para você ir para casa – a expressão de Eduardo era compreensiva. – Mas talvez seja melhor usarmos você como isca.

– Vocês estão loucos?

– Pensa bem – Fernando irrompeu. – Você continua fingindo que não sabe estar sendo seguido e, enquanto isso, eu e o Edu podemos vigiar ele para você. Podemos seguir o seu seguidor.

– Seguir meu seguidor – Rafa suspirou. – Deus, a que ponto eu cheguei?

– Só vá até a escola – Eduardo tentou acalma-lo com um sorriso forçado. – Converse com seus amigos, ou até mesmo a Andressa se quiser. Fique olhando pra algum garoto por perto ou algo assim. Seja um adolescente hoje.

– Que tarefa e tanto, hein.

– Tenho certeza que você não vai ter nenhuma dificuldade com isso – Fernando piscou e deu a ele um sorriso irônico em resposta.

Era tão estranho fingir ser normal naquele momento para Rafa. Ele andava pela rua da escola do mesmo jeito de sempre, mas havia um certo nervosismo a cada passo. Provavelmente não era fácil fingir estar tudo bem quando estava sendo seguido.

Depois de ouvir o plano maluco de Rafa e Edu, ele tentou sair o mais natural possível do arbusto e continuou andando, se perguntando se ele e os outros dois não estavam exagerando muito sobre essa coisa de seguidor. Será que não podia ser um mal entendido?

Mas logo duas ruas depois Rafa pode ouvir o barulho de passos acompanhando os seus e uma respiração entrecortada e baixa. Ele tentou se virar nas três das cinco vezes em que pensou que estava sendo seguido, mas ele apenas encontrava a rua deserta.

Mesmo que ele soubesse que Fernando e Eduardo estariam logo atrás, vigiando seus passos também e prontos para qualquer coisa que o perseguidor fizesse, Rafa não podia conter o nervosismo.

Há quanto tempo ele estava sendo seguido? Será que tinha começado ontem mesmo? Ou uma semana? Ou duas? Por quanto tempo ele podia estar sendo vigiado sem saber?

Chegando perto da escola, algo cruzou seu caminho no meio-fio. Uma viatura. Gabriella estava no volante, os dedos tamborilando enquanto percorria o olhar pelos alunos que entravam na escola.

Quando notou Rafa se aproximando, seus dedos ficaram imóveis e ele sentiu que ela o encarava por trás dos óculos escuros de armação escura.

– Quem é vivo sempre aparece – ela sorriu sarcasticamente.

Rafa desacelerou o passo perto da janela do carona.

– Deixa eu adivinhar – ele retrucou. – Investigação de rotina? Algum garoto desaparecido que já voltou para a casa?

As feições dela endureceram e ele percebeu que tinha conseguido irrita-la.

– Você se acha muito esperto, não é mesmo?

Ao invés de responder ele lançou um olhar atrás de si mesmo. Seu seguidor de forma difusa se escondia atrás de um prédio feito de tijolos, sem parecer se importar se Rafa sabia ou não sobre ele estar ali.

– Talvez – ele respondeu a pergunta da policial sem nenhum humor. Será que o seguidor não chegava perto por que tinha percebido o carro de Gabriella? Ele quase quis agradece-la.

Quase.

– Então me deixe dizer o que eu penso – ela se aproximou da janela de Rafa, visivelmente irritada pelo tom vago dele. – Eu penso que você deve pensar que eu sou burra, mas eu não sou. Eu sei muito bem que você esta envolvido em várias situações estranhas.

Rafa mal piscou, se perguntando do que ela entendia por situações estranhas. Será que sabia sobre as missões de Rafa com o Pack?

Uma possibilidade passou por sua cabeça: Gabriella teria o seguido? Ele analisou a policial jovem um pouco mais, depois lançou um olhar para quem se escondia atrás do prédio. E se ele não fosse um seguidor e Gabriella sim?

Mas então Gabriella rangeu os dentes de raiva, atraindo sua atenção.

– Esse seu silencio não vai te inocentar de nada – ela disse em um tom de alerta. – Eu vou descobrir o que você tem a ver com a morte daquele turista, quer você queira ou não.

E então ela deu partida, deixando Rafa ali com uma expressão confusa. Será que ela não podia ser um pouco mais esperta do que aquilo? Ou atualizada? O turista morto era passado comparado com as últimas coisas que ele tinha lidado ultimamente.

Decidido a continuar com o plano e não se arriscando a ficar muito parado ali, ele correu para acompanhar o ritmo de um grupo de alunos para dentro da escola, olhando uma vez mais por sobre o ombro.

O perseguidor ainda estava ali.

Os mesmos rostos da escola se viraram para olha-lo quando ele andou pelos corredores. Alguns apenas batendo o olho uma vez, outros olhando de jeito mais intenso e cutucando uns aos outros enquanto falavam sobre ele. Um garoto alto, com fones de ouvido semicerrou os olhos para ele por segundos e uma garota que tentava imitar o penteado de Lindsay Lohan fez cara de nojo. Mas Rafa nem se importou.

Desde a chegada de Fernando e dos outros ele sabia que sua má fama tinha se espalhado ainda mais. Provavelmente muitos que já odiavam Rafa agora o odiavam mais ainda. Todos com inveja mútua por ele reunidos, se juntando para falar mal dele e apontar seus defeitos – quando na verdade eram eles os problemáticos.

Era tudo isso que Rafa pensava ao andar pelo corredor, mas ao virar para o começo das fileiras de armário, ele entendeu muito bem porque todos o olhavam mais do que o normal hoje.

Em um dos armários no fim do corredor estava Roberto, a cabeça baixa enquanto se concentrava em pegar os livros corretos para a próxima aula. Dava a impressão de estar bem, mas Rafa percebeu que quando um grupo de garotas passou dizendo alguma coisa que Rafa não entendia, seus ombros estremeceram.

E então a ficha caiu para ele: todos eles já sabiam sobre ele.

Rafa logo começou a se perguntar como, mas ao perceber Vick e Lucas parados ao seu lado não demorou muito ao ler as expressões em seus rostos e descobrir qual era o motivo. Ou melhor, quem.

– Taffara? – ele sussurrou para eles.

Os dois apenas assentiram, virando seus olhos cheios de pena para Roberto. Tomado por algum impulso, ele sentiu o olhar deles e levantou a cabeça. Seu rosto se iluminou um pouco e ele parecia querer sorrir para Rafa, mas então algo atrás dele chamou sua atenção e então fez com que ele fechasse a cara.

Não demorou muito para Rafa ouvir o barulho do salto pisoteando o corredor de jeito imperioso. Hoje parecia ser aniversario de alguma amiga dela porque ela usava um vestido branco e brincos de argola que tilintavam quando ela se mexia.

Sorria de orelha a orelha como se fosse alguma rainha da Inglaterra, só faltava acenar para todo mundo. Ao passar por eles, Vick logo se adiantou na direção dela, mas Lucas a segurou antes.

Taffara sorriu ao ver essa cena, mas sorriu ainda mais quando teve que passar por Roberto. Ele a encarou de modo vazio quando seus olhos se encontraram, parecia formular alguma coisa na mente.

Depois que ela passou foi que Rafa entendeu porque ele não tinha feito nada. Ele não fazia ideia de que Taffara tinha um dedo naquela armação toda. Era apenas uma questão de juntar dois mais dois, ou Rael mais Taffara. O resultado era armação.

Ele bem que deveria ter suspeitado desde o inicio. Ela toda feliz no dia anterior, a saída de Roberto dizendo que seus pais tinham enviado uma mensagem para ele, depois Rael no jardim.

Era tudo uma armação – Roberto tinha sido obrigado a sair do armário por pura armação. E a culpada estava livre e solta desfilando pelo corredor.

– Acha que devíamos entrar?

– Acha que devíamos ficar aqui fora?

Eduardo e Fernando hesitavam do lado de fora da escola, dentro do carro.

– É a escola dele – Eduardo exclamou. – Não podemos simplesmente entrar lá.

– Nós estudamos lá, supostamente – Fernando o corrigiu.

Eduardo suspirou.

– Não podemos. Temos que ficar aqui fora, caso ele decida aparecer.

– O seguidor? – Fernando riu sem humor. – Até parece. Se ele for esperto o bastante, vai decidir ficar escondido onde quer que esteja.

Eduardo encarou o parceiro de longos anos. O tom de ameaça refletia na expressão de impaciência. Parecia realmente disposto e confiante de que poderia matar quem quer que fosse o seguidor. Será que haveria um motivo para ele estar tão dedicado ultimamente?

– Você se preocupa mesmo com ele, não é? – perguntou.

Quando Fernando se virou de lado, parecia ter vacilado na expressão e tinha um olhar meio brilhante. Como se quisesse contar algo. Mas antes que ele sequer pudesse responder, seus olhos se desviaram para fora do carro.

– Oh – ele arfou e Eduardo se virou para olhar também.

Agora ambos viam. O seguidor. Estava de costas, tinha cabelo preto escuro e uma pele meio bronzeada. Um par de jeans meio desgastado e uma camiseta preta com furinhos no ombro escultural.

– Quem é esse?

– Nunca vi na minha vida – Eduardo desabafou. – Ele esta de costas, droga, se ao menos eu pudesse ver o rosto!

O seguidor estava parado do lado de fora da escola, recostado sobre os apoios para bicicletas do estacionamento. Dali de onde eles viam, parecia estar encarando a escola de modo deliberativo. Como se escolhesse a hora perfeita para atacar.

– O que fazemos? – Fernando sussurrou.

O parceiro em resposta se desencostou um pouco mais do banco, devagar, enquanto tocava a maçaneta; com um sinal de cabeça Fernando entendeu o que ele queria fazer e tocou a maçaneta de sua própria porta.

– Quando eu disser já...

Justo na hora, o estranho se virou como um borrão e olhou para os dois dentro do carro. A frente da blusa estava rasgada mostrando o dorso e seus olhos escuros se apertaram com raiva.

– O que ele...

E então o estranho correu, não para dentro da escola, mas para os fundos da escola, o estacionamento de trás, onde havia um atalho para a campina – onde Rafa e eles tinham se visto pela primeira vez.

Os dois saltaram do carro e correram para alcançar o sujeito. Fernando sabia que era tarde demais, porém esperava ao menos que eles conseguissem pegar algum rastro.

Nos fundos da escola, o estranho corria pelo estacionamento em uma velocidade sobrenatural. Não parecia um borrão então era considerável dizer que ele não era um Vampiro. Mas mesmo assim era rápido.

– Ele vai fugir! – Fernando gritou enquanto eles corriam logo atrás.

– Não se eu puder evitar! – o outro respondeu no mesmo tom.

Com um solavanco, ele ergueu a mão direita e Fernando pode ver o borrão de fogo sair de sua mão e cruzar o ar rapidamente. Não demorou muito para chegar ao sujeito, mas este apenas se moveu para o lado para não ser pego pelo ataque. Como se tivesse olhos nas costas.

Eles continuam correndo e foi a vez de Fernando investir. Seus pés começaram a raspar o chão e ele se impulsionou para frente, tentando alcançar o sujeito que já estava a dez passos de entrar na colina. Só mais um pouco de adrenalina e Fernando estaria a dois passos de pegar as costas da camiseta dele.

Porém o estranho deu um súbito salto, um salto anormal, e se jogou pelo ar até chegar ao topo da campina. Eduardo e Fernando só chegaram a tempo de se refrear e encarar.

Parado lá no alto, o perseguidor se virou para eles uma vez com um olhar indecifrável. Parecia medir eles com um ar divertido no rosto. Eduardo já estava prestes a lançar outra bola, mas o perseguidor foi mais rápido.

E correu para dentro da floresta.

– Ele se foi – desabafou Fernando insatisfeito.

– É – Eduardo arfou. – Mas algo me diz que ele não vai demorar a voltar.

– Desde quando isso tá acontecendo? – Andressa perguntou se recostando de lado no armário ao lado de Rafa durante o tempo entre o segundo e o terceiro horário de aula.

Rafa a olhou de jeito tenso em resposta. Não agradava a ele que o tom dela pudesse ser tão natural sobre uma coisa tão séria. Mais cedo, antes de a primeira aula começar, Rafa puxou Andressa para conversar e a deixou informada dos últimos acontecimentos. Isto era, o perseguidor dele.

– Eu não sei – ele respondeu em tom baixo. – Eles só me disseram que perceberam que eu estava sendo seguindo ontem, então não sei por quanto tempo isso vem acontecendo.

– Ontem? – Andressa questionou. – Ontem quando?

– Depois que saímos da casa do Roberto – Rafa suspirou, olhando para outras pessoas no corredor.

Enquanto um grupo de garotas normais falava sobre o novo clipe da Taylor Swift, ele e Andressa falavam sobre um perseguidor possivelmente paranormal que estava atrás dele. Belo tópico para começar a manhã, hein?

– Sério? – Andressa guinchou. – Como eu não percebi isso antes?

Rafa assentiu com a cabeça.

– Te faço a mesma pergunta – ele rebateu. – Você não é tipo uma caçadora? O que aconteceu com suas habilidades?

Andressa sorriu para ele ironicamente.

– Deixei com seu namorado dentro do armário em que ele vinha se escondendo.

Rafa a encarou de volta com um olhar vazio e ela se deu conta do que tinha falado.

– Desculpa – ela deu um sorriso amarelo. – Eu só estava tentando deixar a conversa mais leve.

– Então fale sobre o quanto os lenços umedecidos fazem para tirar maquiagem – ele retrucou. – Qualquer coisa que não envolva os acontecimentos da noite passada.

Um silêncio pairou enquanto Andressa via as pessoas passarem pelo corredor e Rafa guardava algumas coisas dentro do armário e retirava outras.

– Como ele esta? – ela perguntou mesmo assim.

Ele suspirou em resposta.

– Ele foi exposto aos próprios pais em uma armação que era pra ser pra mim. Como acha que ele esta?

Andressa murchou um pouco magoada, mas algo nas palavras de Rafa chamou sua atenção e ela levantou a cabeça rapidamente.

– Espera – ela ergueu um dedo. – Como assim armação?

Rafa a olhou em resposta com uma testa franzida.

– Armação – ele repetiu. – Alguém mandou uma mensagem para o Roberto fingindo ser os pais dele, pedindo para se encontrar no Vallywood Bear, mas quando chegou lá não tinha ninguém. E depois que ele voltou eu já tinha saído e os pais dele estavam em casa, com fotos dele e minhas juntos.

Andressa tinha uma expressão seca. Não parecia muito surpresa.

– Que tipo de pessoa baixa faria isso? – ela questionou.

Rafa estava prestes a responder, mas um armário se fechando em um corredor bem próximo chamou a atenção dos dois. Taffara toda sorrisos guardava livros dentro do seu armário, falando alto com duas amigas loiras e rindo de algo em seu celular.

Andressa olhou Rafa uma vez e ele assentiu em resposta, adivinhando a pergunta na cabeça dela. Ele meio que esperava que ela apenas revirasse os olhos com tédio, mas então Andressa trincou os dentes audivelmente e ajeitou os ombros.

– Ei, o que você vai fazer?

Ignorando a pergunta dele, ela se dirigiu a Taffara diretamente, parando bem atrás das duas loiras na frente dela. Ela viu Andressa parada ali e não demorou muito para suas amigas perceberem a aproximação dela também.

– De onde você veio? – uma loira perguntou.

– Pois não? – a outra loira perguntou.

Andressa ignorou as duas.

– Podemos conversar? – ela se dirigiu a Taffara.

– Sobre? – a rainha da escola questionou hesitante.

– O que você quer com ela? – a loira um questionou alto.

– Ela não tem o que falar com você – a dois ecoou torcendo o nariz com nojo.

Impaciente, Andressa pegou a mão de cada uma das loiras e torceu com força. Uma arquejou e a outra deu um gritinho com uma reclamação.

Taffara arregalou os olhos.

– A sós? – Andressa ergueu uma sobrancelha enquanto cruzava os braços.

Taffara engoliu em seco, mas acenou com a cabeça para as garotas e elas saíram dali cambaleantes, reclamando de dor e olhando para Andressa com raiva. Ela apenas deu um passo e elas andaram mais rápido.

– E então — Taffara se voltou para ela. – O que você quer, Andressa?

Um pouco irritada por Taffara não parecer temer ela da mesma forma que as loiras, Andressa jogou o cabelo sobre o ombro e cruzou os braços. Alguns alunos encaravam as duas.

– Então – ela começou. – Fiquei sabendo que o Roberto se assumiu para os pais.

Um começo de um sorriso cresceu no canto do lábio de Taffara e ela assentiu, chacoalhando o cabelo castanho de jeito muito vago.

– Sim, também fiquei sabendo – ela respondeu em um tom divertido. – E o que isso tem a ver? – perguntou cautelosa, os olhos brilhando em desafio.

– E que eu acho isso uma total mentira – Andressa teve que se conter para não dar na cara dela. Estavam frente a frente ela só precisaria bater a cabeça na dela.

Taffara franziu a testa, mas ainda sorria.

– O que você acha que é mentira? – questionou em um tom arrastado.

– Que ele se assumiu. Estou começando a achar que ele não saiu do armário, mas foi puxado dele.

– Sério? – Taffara fez uma falsa expressão de surpresa. – E como foi isso?

– Acho que alguém o empurrou, sabe?

– Ah – o sorriso dela aumentou mais ainda. – Será que ele se machucou quando caiu?

Perdendo toda a paciência, Andressa descruzou os braços e deixou as mãos atrás das costas. O que ela sempre fazia quando tinha que interrogar alguém em La Iglesia.

– Vamos direto ao ponto, Taffara – ela sibilou o nome no final. – Foi você quem fez isso não é?

A outra sorriu calada e futricou a bolsa pendurada no ombro. Sacou o celular e deslizou os dedos algumas vezes na tela. Depois que terminou, virou o celular para Andressa.

– Eu? – ela riu. – Por que eu faria isso?

Andressa olhou e viu que ela tinha colocado em uma foto. Não demorou muito para reconhecer Rafa em seu quarto, sem camiseta, jogado na própria cama. Parecia estar sentado em cima de alguém e Andressa podia apostar que pelo cabelo loiro aquele era Roberto.

Taffara deu uma risadinha e deslizou a tela para que Andressa visse outra foto. Dessa vez o quarto era diferente e Roberto estava de pé, pressionando Rafa contra a parede. Os dois estavam sem camiseta e a perna de Rafa estava entrelaçada na cintura dele. Meu Deus.

– Agora imagine... – Taffara voltou a falar. – A cara dos pais do Roberto quando essas imagens chegaram em uma carta quando eles chegaram em casa.

Andressa a encarou com raiva.

– Qual o seu problema? Você não tem nada melhor do que fazer além de se esgueirar na janela dos quartos dos outros?

– Eu? – Taffara deu uma risadinha. – Acha mesmo que uma dama como eu faria isso?

Seu olhar se desviou para algo no fim do corredor e Andressa pode ver Rael solitário no meio do corredor. Quando encontrou o olhar dele o garoto ajeitou a bolsa no ombro e começou a virar o corredor.

– Ele me devia um favor – Taffara fungou. – Posso dizer agora que a conta já foi paga.

Aquela garota não tinha escrúpulos pelo visto. Obrigar o ex de Rafa a tirar fotos do próprio Rafa e seu novo namorado escondido era uma coisa que só pessoas baixas fariam. Por um segundo Andressa se perguntou por que ela estava fazendo isso?

Taffara sorria vencedora, mas quando Andressa estralou os próprios dedos sua testa se crispou de preocupação.

– Vai me bater? – ela tentou dar uma risada nervosa, mas parecia estar engasgando. – Sabia que você era como a Vick.

Fazendo de tudo para não estragar o disfarce de aluna nova, Andressa se aproximou do ouvido dela e recostou uma das mãos na porta do armário dela.

– Não fale da Vick – seu tom não era um sussurrou, mas era baixo mesmo assim. – Não fale do Rael. Do Roberto ou dos pais dele e, muito menos, do Rafa.

A respiração de Taffara era entrecortada em seu ouvido e, mesmo não vendo seu rosto, podia dizer que ela definitivamente com medo.

– Senão? – ela era bastante corajosa para perguntar, provavelmente sabia que Andressa não bateria nela na frente da escola toda.

– Senão eu vou pegar esse seu cabelo lindo que você tanto ama – ela pegou um dos cachos dela. – E vou cortar um por um, no meio da noite e acabar com sua vida.

Como ela esperava, para uma garota como Taffara aquilo era o fim. Andressa se afastou um pouco e Taffara ainda respirava pesadamente.

– Por que esta fazendo isso? – ela questionou. – Por que esta me ameaçando? Você é alguma ex-namorada do Rafa ou algo assim?

– Namorada? – ela riu e desfez o sorriso na hora. – Estou mais para o não te interessa. Não importa o que eu seja, mas você pode ter certeza que se você mover mais uma vez esse seu dedinho de vadia pra cima de algum apenas para magoar o Rafa... Eu vou acabar com você.

Taffara mal piscava quando Andressa se afastou, mas como era boa em disfarçar, se ajeitou rapidamente e estufou o peito para frente. Não deixaria alguém perceber o quanto de medo ela sentia.

No final do terceiro tempo, Rafa queria ter ido direto para o intervalo com Lucas e o resto da classe. Só que como estava distraído e nervoso, ele acabou divagando a aula toda, o que não deixou o senhor Thomas, o professor de sociologia, muito feliz. Ele odiava quando os alunos não prestavam atenção na sua aula.

Então obrigou Rafa a ficar depois da aula dentro da sala, dizendo que ele só poderia sair depois que escrevesse na lousa a giz todos os tópicos que ele tinha perdido na aula.

Aquilo com certeza era um saco, ficar dentro da sala e escrever sobre algo que nem tinha prestado muita atenção. Mas ao menos ele não estava tão sozinho. Brenda Sharman, outra aluna da turma de Sociologia, também tinha ficado divagando a aula toda e foi obrigada a ficar com ele na sala.

Os dois estavam ali, de pé na frente da lousa, em silêncio enquanto apenas o barulho dos gizes deles riscava a lousa. A letra de Brenda era cursiva e a de Rafa descia toda hora, deixando a linha torta.

– Droga de lousa – ele reclamou. – Ele não podia ter pedido simplesmente para fazermos no caderno?

Pelo canto do olho ele viu Brenda olhar para ele e depois assentir em concordância.

– Seria mais sensato – ela suspirou. – Mas não teria graça, porque ele quer nos torturar.

– Bem, esta conseguindo – Rafa grunhiu, terminando outra linha torta. – Mas aí, o que ele te pegou fazendo para você vir parar aqui também? Estava mexendo no celular?

– Não tenho celular – ela respondeu olhando para ele. – Eu só estava distraída, olhando para a janela.

– Eu também – Rafa sorriu para ela. – Ele não deveria nos deixar aqui dentro. A culpa é nossa que a aula dele seja uma merda e a voz dele seja irritante?

Brenda riu um pouco enquanto escrevia.

– Talvez. Mas acho que em parte a culpa foi minha, eu só não paro de pensar em algumas coisas.

Rafa a mediu com os olhos. Brenda era um pouco baixa, mas o cabelo escuro dela chegava até depois da cintura. Os olhos eram escuros do tipo que absorviam a luz da sala. Vestia uma calça jeans bem simples, mas a camiseta branca tinha listras roxas e um button da banda Fifth Harmony descansava em seu peito. Tinha feições sérias, mas alguma coisa dizia a Rafa que ela apenas estava cansada.

– E no que você estava pensando? – ele questionou.

– O que?

– Antes, na aula – Rafa explicou. – No que estava pensando.

Brenda o olhou nos olhos uma vez, parecendo pensar bastante no que dizer. Voltou a escrever na lousa enquanto dizia.

– Várias coisas, sabe – ela deu de ombros. – É que é muita pressão essa coisa de escola.

– Sei como é – Rafa assentiu tentando ser solidário. – Muitas matérias pra lidar, né?

Brenda franziu os lábios e balançou a cabeça.

– Não é exatamente na escola o problema – ela disse. – É mais os problemas que a gente tem que separar da escola. Pensa só, nós temos que acordar cedo, estudar doze matérias, entender cada uma delas só pra constar e encontrar nosso nicho também. Tudo isso enquanto nosso corpo esta crescendo, nossos hormônios vão se intensificando e nossos sentimentos ficam mais intensos. Tudo isso e eles ainda querem que sejamos perfeitos. Não tem como não explodir ou divagar.

Rafa pensou seriamente no que ela falava. Era realmente uma verdade universal tudo o que Brenda dizia. Problemas pessoais e problemas estudantis juntados em um só realmente acabavam com todos – e Rafa tinha um bônus nesse quesito, uma vez que agora ele tinha uma vida sobrenatural e três caçadores na sua cola. Não era nada fácil.

– Sabe, é muita pressão – Brenda continuou com uma risada nervosa. – E ainda tem aquela coisa de eles quererem que façamos uma escolha no final?

– Escolha? – Rafa questionou.

– É, uma escolha – Brenda assentiu. – Tipo, escolher o que você quer ser no futuro.

– Porra – Rafa passou a mão no rosto, os pelos do braço formigando. – Eu não tinha pensado nisso.

Brenda se voltou para a lousa.

– Um dia vai ter que pensar, acredite – ela avisou. – Um dia você vai ter que escolher.

De repente Rafa se viu nas palavras dela. Escolha. Não era exatamente escolha dele pular naquela vida sobrenatural, era? Quer dizer, uma vez que ele soube das coisas que descobriu não tinha como ele esquecer e continuar em frente.

Tinha?

Interrompendo os dois, um barulho na janela atraiu os dois.

– Você ouviu isso? – Brenda perguntou enquanto ambos encaravam as cortinas.

Rafa deu um passo para frente, conseguindo enxergar uma sombra parada na frente da janela. Por um segundo se perguntou quem era, mas não demorou muito para descobrir. Era o perseguidor. Nunca tinha visto o rosto dele, apenas a silhueta.

– Er, Brenda – ele engoliu em seco. – Que tal sairmos da sala? Tipo, agora hein?

– Hã? Por quê?

A sombra na janela se mexeu.

– Só vamos – ele a pegou pelo ombro.

– E quanto a isso? – ela apontou para lousa. — O professor...

– Ele não vai se importar – ele deu uma ultima olhada para a janela. – Vamos sair daqui, logo.

– Ei, Roberto! Ficou muito tempo sem ar dentro do armário?

– Roberto quem é o macho da relação? O Rafa?

– Roberto e aquela foto de vocês? Foi antes ou depois de vocês terem feito?

– Eu vi aquela foto, hein Roberto! Você ia chupar ele, era isso? Por favor, me diz que era isso!

Roberto tentava se concentrar no sanduiche de atum na sua frente, observando a massa dentro do pão se estender quando ele o apertava. O que ele fez muitas vezes toda vez que algum idiota passava por ele no intervalo e fazia alguma brincadeira patética.

Porém, patético ou não, Roberto tinha que admitir que estava funcionando. Ele estava ficando muito irritado. Duas garotas tinham dado conselhos para ele sem ele pedir. Um conselheiro tinha pedido para ele passar na sala dele depois. E até mesmo o diretor da escola, o próprio em pessoa, tinha passado por ele e dito “eu te entendo”.

De repente ele estava começando a se arrepender de ter vindo para a escola. Toda aquela discussão com os pais depois que Rafa tinha saído, pelo visto, teria sido em vão. Mas, tinha que admitir, preferia os idiotas da escola aos pais ultraconservadores.

– Ei, Roberto! – alguém chamou, mas ele mal se virou para olhar, sabendo que mais uma piadinha besta viria por ai. – Roberto, ei, tudo bem?

Ele levantou o olhar e se deparou com Vick e Lucas parados na sua frente. Ela com certeza tinha um olhar de pena cruzando seu rosto, ele provavelmente tinha feito a pergunta, uma vez que estava com a testa franzida.

Um cara passou rindo por eles e Roberto revirou os olhos.

– O que você acha? – cruzou os braços. – Estou ótimo!

– Não liga para eles – Vick procurou um lugar no banco em que ele se sentava. – São todos uns babacas.

– Babacas que sabem sobre mim – ele suspirou.

Lucas também se sentou e uma garota parou ao lado da mesa, encarando Roberto de um jeito estranho.

– Eu vi que você lê Divergente – ela desabafou a troco de nada. – Naquela foto.

Lucas e Vick se olharam uma vez e se levantaram para empurrar a garota. Ela implorou, mas Vick ergueu a mão uma vez e ela saiu correndo.

– De novo, os ignore – ela falou. – Isso é falta do que fazer.

– Acredite em mim – ele largou o sanduiche. – Eu estou ignorando.

Os três olharam ao redor e notaram que a escola inteira encarava. Era como se Roberto fosse o globo de luz do baile de outono passado. Só uma música da Demi Lovato para complementar a cena.

E então, fazendo com que todos parassem de sussurrar e falar ao mesmo tempo, Rafa entrou pelas portas do pátio, acompanhado de uma garota de cabelo preto. Eles se despediram e um garoto chegou perto de Rafa. Ele nada disse e Rafa passou por ele sem olhar.

Roberto observou sua entrada enquanto ele ia analisando todo o pátio, notando a tensão entre todos os alunos que encaravam. Quando notou que ele o olhava, olhou de volta, com uma cara de pena – e isso deixou Roberto muito bravo. De repente ele pensou: Quem eles achavam que eram? Perfeitos? Melhores que ele de alguma forma só porque ele gostava do Rafa? Quem eles achavam que eram?

Tomado por um poder desconhecido, ele se levantou de onde estava e começou a andar pelo pátio. Todos seguiram seu movimento com os olhos, enquanto ele cruzava todo o caminho até Rafa. Quando chegou perto dele, Roberto notou que ele estava confuso, com uma cara de: O que você vai fazer?

Sem mais delongas, ele respirou fundo e colou seus lábios nos de Rafa, puxando ele pela nuca. Como na festa. Como no primeiro beijo dos dois. Rafa correspondeu o beijo da mesma forma intensa, colocando as mãos no seu rosto.

Em volta deles não se ouviu nada por um instante. O som de seus lábios se tocando sendo a única coisa. Será que todos tinham se calado ou era aquela coisa que Roberto sempre tinha ouvido falar? Aquela coisa sobre o amor, e como quando duas pessoas se gostam e ficam juntas nada mais parece existir.

Será que era aquilo?

E então uma salva de palmas explodiu pelo pátio e eles pararam de se beijar para olhar. Meninos e meninas os olhavam, com olhares de aprovação e outros de surpresa, como se não esperassem que eles fizessem isso. Ué, mas já não sabiam que eles eram gays de qualquer forma?

Ignorando aquilo tudo, Roberto pegou a mão de Rafa e o puxou para outro beijo, enquanto as salvas de palmas aumentavam e as pessoas paravam para olhar.

Lucas e Vick sorriram um para o outro, felizes por eles e pensando a mesma coisa:

Eles não precisavam da aprovação de ninguém. Eles não se importavam.

Andressa se esgueirou na porta do pátio, olhando a cena linda Rafa e Roberto. Mas também logo atrás deles, Taffara com uma cara fechada. Então o plano da vadia não tinha dado tão certo?

Ela estava prestes a entrar no local e rir da cara dela e apertar as bochechas dos dois porque eles eram fofos, mas então a puxou pelo braço.

Claro que ela reagiu na mesma hora, pegando o braço de quem quer que fosse e o atirando no corredor da escola. Só depois de ele arquejar de dor no chão foi que Andressa viu quem era. Fernando.

– Você ficou louca?! – ele gritou para ela.

Andressa revirou os olhos.

– A culpa é sua, você sabe que odeio quando chegam por trás de mim!

Como a frase era cheia de mensagem subliminar, Fernando optou por ficar quieto na dele. Eduardo se aproximou deles, olhando de um para o outro. Andressa viu sua expressão e não demorou para entender tudo.

– O que esta acontecendo? – ela perguntou cruzando os braços.

– O seguidor – Eduardo respondeu. – Ele esta aqui na escola.

– Vocês o viram?

– Aham – Fernando se levantou. – Ele é meio bronzeado e rápido, muito rápido.

– O que ele é?

– Não sabemos – Eduardo balançou a cabeça. – Mas vamos encurralar ele na saída.

– Como?

– Vamos usar uma isca.

Todos olharam para o pátio e para Rafa que estava abraçado com Roberto. Fernando fechou cara, mas Andressa apenas assentiu para ele.

– Entendi.

– Precisamos que você fale com ele – Eduardo sugeriu. – Explique a ele o plano e diga pra ele não se preocupar, vamos estar logo atrás de olho nele.

– E diz pra ele – Fernando engoliu em seco. – Que ele tem que ir embora sozinho hoje.

Andressa assentiu, entendendo tudo outra vez. E não era apenas do plano que ela estava falando.

– Como eu nunca tinha adivinhado que tinha sido a Taffara o tempo todo? – Vick se perguntou enquanto ela e Lucas olhavam a cena que se seguia no pátio. Rafa e Roberto juntos, ignorando todos a sua volta.

– Me faço a mesma pergunta – Lucas bufou. – Acho que tudo que tem de mal no mundo vem dela.

– É, algumas vezes sim – Vick concordou. – Mas ás vezes coisas ruins também acontecem com ela.

Lucas olhou Vick de lado.

– Você esta falando do Henrique, né?

– Estou.

– Ela mereceu – ele declarou.

– É, mas o Henrique mereceu? – Vick questionou. – E se o Rafa não tivesse feito o que fez? Talvez ela não fizesse o que fez com o Roberto.

– Tanto faz – Lucas deu de ombros. – Pra mim o Roberto não parece infeliz.

Vick assentiu.

– Ele não esta mesmo.

Lucas se virou para olhar seu rosto. Ela era tão bonita quanto nos últimos anos. Não usava muita maquiagem, e nem mesmo precisava. E olha aquelas pernas! Quantas vezes Lucas perdia a falta toda vez que ela as cruzava? Ele nem sabia contar. Ela era linda e era uma pena que tivesse um namorado. Um namorado idiota, aliás.

– O que foi? – ela notou seu olhar.

– Eu sei lá – ele deu de ombros. – Eu só estava pensando no que você disse. Sobre as coisas ruins que aconteceram desde que a Taffara perdeu o Henrique.

– Muitas aconteceram – Vick concordou.

– É, tipo com você.

– Comigo?

– É. Se não fosse por isso você não teria que aturar o idiota do Diogo.

Vick revirou os olhos, não gostando nem um pouco de tocar naquele assunto. Graças a Deus ele não tinha vindo hoje, a paciência de Vick já estava se esgotando.

– É preciso – ela deu de ombros. – Se eu terminar com ele, as coisas podem ficar muito ruins para o Rafa. E eu não quero isso. Eu prometi.

– Mas você tem que pensar em você, Vick! – Lucas guinchou. – Eu sei que você só quer ajudar o Rafa, mas ser infeliz pelo resto da vida não é uma opção! Você tem que achar alguém bom pra você!

Vick desviou o olhar de forma bem cética, como se já estivesse cansada de ouvir aquilo sair da boca de Lucas. Ele parou pensando um pouco... E se ela soubesse...?

– Eu só quero ajudar o Rafa – ela murmurou. – Nada mais importa.

– Nada mais? – Lucas repetiu. – E a sua felicidade? Vai jogar ela assim do nada? Vai ficar infeliz pelo resto da vida?

– Você fala como se tivesse alguém que gostasse tanto assim de mim – ela se defendeu e o coração de Lucas deu um salto. Agora era hora.

– E tem!

Vick o olhou nos olhos.

– Ah, é mesmo? – ela cruzou os braços e procurou com os olhos pelo pátio. – Cadê?

Ele se cansou de ouvir aquilo e a puxou para ele, tocando seus lábios pela primeira vez, como havia sonhado inúmeras vezes. Lucas a beijava com voracidade, abaixando o pescoço para tocar os lábios da garota que o amava.

Mas e então, ela parou de corresponder e colocou a mão em seu peito para afasta-lo. Sua expressão era indecifrável, mas um toque de surpresa brilhava em seus olhos.

– Vick, eu...

– Não – ela engoliu em seco. – Não fala, por favor.

– Vick, eu sempre te amei – ele colocou para fora. – Como você nunca notou? Eu amo você, Vick, eu te amo!

Mas ela apenas piscou os olhos para ele e se afastou meio tremula, tocando os lábios de um jeito nada feliz.

– Felicidades para o casal – Taffara disse a Rafa no momento em que ele ficou sozinho no pátio. – Espero que durem e muito.

O sorriso no rosto dela era irritante. Rafa queria poder ter motivos para odiar ela, mas na verdade não tinha nenhum. Ela podia ter dito sobre Roberto para os pais dele, mas isso só tinha melhorado as coisas para ele. Tudo seria mais fácil dali por diante.

– Obrigado Taff, por tentar me destruir de novo – ele deu de ombros. – É uma pena que não deu certo.

O sorriso dela se desfez.

– Acha mesmo que essa é a minha ultima tentativa? – seu tom era carregado de ameaças. – Espere e verá Capoci.

Rafa balançou a cabeça de um jeito melancólico.

– Você nunca vai se cansar de tentar acabar comigo?

Ela riu alto.

– Esta mesmo me perguntando isso? – ela crispou as unhas. – Você e seu namorado Rael acabaram com meu namoro, mandaram o Henrique pra longe de mim! Acha mesmo que merece algo?

– Eu já me desculpei!

– Desculpas não adiantam – ela sibilou. – Eu quero acabar com sua vida, tirar todos os seus amigos de perto de você.

Rafa riu sem nenhum humor.

– Boa sorte – ele assentiu. – Eu vou adorar ver você tentar.

Ela dançou um olhar ao redor do pátio e viu Lucas parado ali.

– E eu já tenho minha próxima vitima – ela sorriu com os olhos brilhando. – O melhor amigo que é apaixonado pela melhor amiga! Nossa como vai ser maravilhoso acabar com todas as chances de ele conseguir ficar com ela.

Rafa olhou para Lucas. Ele agora estava sozinho, passando a mão no rosto e parecendo frustrado. Seus lábios tremiam como se ele tivesse acabado de ter feito algo importante.

– Deixa ele em paz – Rafa se virou para ela. – Faça algo comigo, não com ele.

Taffara sorriu.

– Desculpa, Rafa, mas comigo é olho no olho. Eu vou tirar alguém importante de você da mesma forma que você tirou de mim. Pelo Henrique.

Tomado por uma raiva anormal, Rafa se cansou de joguinhos.

– Quer saber de uma coisa? – ele se aproximou dela. – Eu cansei de você. Cansei mesmo. Me provocar tudo bem, eu até deixo. Agora envolver meus amigos e usar meu próprio ex-namorado contra mim é demais. Eu cansei de você!

Taffara riu em desafio.

– Ah, é? E o que vai fazer a respeito? Qual o seu grande plano para acabar comigo?

Rafa não pensou me hesitar... Apenas fez.

– Rael não mandou o Henrique embora, ele o matou.

Toda a estrutura de Taffara foi para baixo. Seu rosto se contorceu e Rafa podia jurar que algo estalou dentro dela. Seus olhos piscaram e seu sorriso malicioso foi se apagando aos poucos na medida em que as palavras entravam em sua mente.

Mas Rafa não se importou. Lembrou-se dos pais de Roberto e do choro dele pelo celular no dia anterior. Aquilo tinha valido a pena.

– Isso mesmo, ele o matou — Rafa repetiu. – Eu levei a culpa por ele. Desde o começo. Seu namorado está morto desde o natal passado e você nem mesmo sabia.

As mãos de Taffara caíram ao lado do corpo e Rafa quase teve pena. Mas ela tinha que ser parada e ele não suportava mais guardar aquele segredo. Era a hora de acabar com aquela história toda. Rafa pensou em Vick e no fato de ela não precisar mais fingir gostar de Diogo. Ele não teria mais que abrir a boca sobre nada.

– E pode chamar a policia e os caralhos a quatro – ele sussurrou. – Mas chame pra mim. Com isso, eu posso lidar. Apenas eu e mais ninguém.

E com isso Rafa saiu dali, não acreditando em fim que finalmente tinha ganhado uma de suas guerras. Bom, pelo uma de suas guerras.

Na hora da saída, Rafa tinha feito exatamente como Andressa tinha pedido. Sair sozinho. Foi um pouco difícil convencer Roberto a deixa-lo ir sozinho, mas quando disse que ele precisava conversar com os pais mais tarde sobre a escolha que tinha feito ele tinha conseguido.

Como o ensaiado, Rafa começou a subir a rua da escola sem nenhuma pressa. Sabia muito bem que estava sendo seguido pelo sujeito que Eduardo e Fernando tinham encontrado antes, mas, como o planejado, ele se deixaria ser seguido.

O pior era que o seguidor não mantinha nenhuma descrição, Rafa podia ouvir seus passos enquanto ele se escondia atrás cada poste e pisava na calçada. Será que ele pegaria Rafa? Ou só ficaria perseguindo?

Bem, fosse o que fosse Andressa, Eduardo e Fernando estavam à espreita, esperando por qualquer ataque. Rafa teve pena de quem quer que fosse.

O ritmo do perseguidor aumentou e Rafa sabia que algo estava prestes a acontecer. Ele apertou os próprios punhos e se preparou para se virar para quem quer que fosse.

O estranho finalmente chegou perto e Rafa se virou com tudo para ele.

– Não grite – o sujeito avisou, com um olhar assustado.

Rafa o avaliou, com o coração cavalgando no peito e viu que não era apenas um sujeito. Era um garoto. Com mais ou menos a idade dele.

– Quem é você? – Rafa questionou, um pouco para trás. – Por que esta me seguindo?

– Meu nome é Erick – seu tom era tenso e (aquilo era um sotaque em inglês?) ele olhou para algo atrás dele. – E você esta correndo perigo!

Antes que Rafa pudesse dizer ou fazer algo, os outros entraram em ação. Fernando surgiu de um arbusto e o atacou. Erick se desviou dele sem dificuldade e o socou no rosto.

Andressa logo tentou acertar ele com a agulha, mas Erick a pegou pelo punho e jogou com tudo no chão. A agulha rolou pelo chão com um barulhinho.

Ele se virou para Rafa e, na mesma hora, Eduardo o acertou com uma rajada de vento.

– Não se mexa – Eduardo ergueu a mão na direção dele. – Mais um passo e eu te queimo vivo.

Erick se sentou no chão completamente assustado e Rafa viu que seus olhos brilhavam. Eram vermelhos.

– Um Alfa? – Andressa estava de volta. – Por que um lobisomem esta seguindo você? – ela olhou para Rafa.

– Eu não sei.

– Não sou eu que esta te seguindo – o sotaque de Erick estancou. – São eles.

– Eles? – Fernando questionou.

– Eles quem? – Rafa perguntou a Erick.

E então eles viram. Uma horda inteira vestida de preto vinha na direção contraria de onde eles se encontravam. Por um segundo Rafa ficou confuso e não fazia ideia de quem podia ser. Mas então... A ficha caiu.

Homens de preto.

– Atiradores! – Rafa gritou. – Atiradores!

E todos começaram a correr. E muito.