Enquanto Rafa tentava se esforçar para correr atrás do Pack e segurar sua mochila nas costas ao mesmo tempo, ele observava a horda de Atiradores vindo por trás deles e o membro do Pack logo a frente dele. Eles não eram tecnicamente muitos, porém com aquelas armas trajadas Rafa e os outros estavam em desvantagem.

Obviamente, Andressa corria na frente de todos com pernas atléticas e esguias que mal pareciam tocar o asfalto de tão delicadas que eram. Mas apesar de ser bem rápida, Erick, com sua velocidade Lobisomem a ultrapassou sem nenhum esforço; ele nem sequer notou que o tinha feito, Andressa por outro lado apertou os olhos e bufou. Eduardo corria ofegante e Fernando seguia logo atrás, os passos contidos na calçada.

Quando percebeu o esforço de Rafa para continuar andando, se virou para os outros:

– Não podemos parar em algum lugar? – ele gritou para ser ouvido.

– Parar e ser morto? – Erick respondeu com sua audição sobrenatural, o sotaque inglês afinando no final da frase. – Não, obrigado.

– Não é sua decisão – Eduardo retrucou no mesmo tom enquanto acompanhava com os olhos o matagal que percorria a avenida. – Podemos nos jogar aqui.

– Eles vão ver! – Andressa avisou ofegante. – É melhor continuarmos correndo!

– Ei, nem todos nós temos velocidade sobrenatural! – Rafa reclamou olhando para as costas de cada um.

Fernando foi o único que assentiu.

– Precisamos parar – ele indicou acenando para Eduardo com a cabeça. – Quem sabe uma distração?

– Tá legal – o amigo revirou os olhos e começou a parar de correr.

Rafa passou por ele e olhou para trás. Eduardo agora respirava fundo e erguia as duas mãos para frente, como se fosse pedir para um carro parar. No começo nada aconteceu, mas então a avenida vazia que eles percorriam começou a zumbir embaixo de seus pés.

Em segundos uma rachadura surgiu na frente de Eduardo e se projetou em um enorme ziguezague na direção dos Atiradores. Rafa observou enquanto vários pontos pretos a distancia paravam ao mesmo tempo, olhando o pandemônio.

Eduardo sorriu lascivamente para eles.

– Eu vou beber o sangue de vocês vivos – ele riu.

E então, com mais um solavanco ele abriu fogo para uma enorme bola de fogo. Ela girou como um globo pelo ar e implodiu no outro lado da avenida. Rafa só conseguiu cair para trás enquanto o brilho alaranjado o cegava. Tarde demais, ele notou que alguém o segurava.

– Você os matou! – Andressa comemorou com um sorriso orgulhoso.

– O que diabos é você? – Erick gritou olhando Eduardo com uma expressão incrédula.

Eduardo deu a ele um sorriso de escarnio.

– Nada comparado ao poder de Alfa, hein?

Fernando ajudou Rafa a se levantar e este por sua vez sorriu para ele timidamente. Estava totalmente agradecido, mas aqueles olhos azuis e verdes ainda o intimidavam.

– Para onde vamos agora? – Rafa perguntou.

– Qualquer lugar salvo – Fernando respondeu, mas então desviou o olhar. – Mas antes... – ele olhava Erick. – Precisamos que nos dê algumas explicações.

Erick hesitou e Eduardo e Andressa começaram a cerca-lo.

– Por que estava seguindo o Rafa? – Andressa questionou erguendo o braço direito. A agulha surgiu da blusa de manga longa branca.

– Quem é esse? – Erick franziu a testa.

– Eu – Rafa apontou o próprio peito timidamente. – Por que estava me seguindo? – perguntou, tentando soar mais ameaçador que os outros.

Erick não respondeu e isso não ajudou em nada. Rafa só pode observar enquanto Eduardo e Fernando trocavam um olhar rápido e conspirativo.

– Vocês não entendem... – Erick gaguejava em seu sotaque para se explicar. – Os Atiradores... Eles vão vir atrás de vocês.

Rafa mediu o dono do sotaque com relutância. Era mais alto que ele e estava sem camiseta, o dorso moreno exposto, e uma calça jeans preta justa. O cabelo preto era desgrenhado e ele possuía uma tatuagem na parte superior das costas.

O símbolo era familiar demais para Rafa. O Triscele.

Andressa seguia o olhar de Rafa e moveu a agulha para os dedos habilidosos.

– Eles estão mortos, os Atiradores – ela deu um passo para o Lobisomem. – Estão mortos e logo você vai estar também se não nos disser por que estava seguindo o Rafa.

Erick não se intimidou com a aproximação dela, o desafio estampado em seus olhos escuros.

– Vou estar, é? – ele cravou as unhas, deixando-as enorme, em desafio a agulha de Andressa.

Antes que Erick pudesse se virar para ver, Fernando mirou seus olhos nele. A forma como ele encarava o lobo o fazia parecer um anjo da morte loiro. Ele se antecipou rapidamente para frente e, com as mãos habilidosas, quebrou o pescoço de Erick.

O lobisomem caiu flácido na frente dele e Rafa arfou de surpresa.

– Você o matou? – ele questionou.

– Não – Fernando sorriu para ele em resposta. – Apenas causei um ferimento muito grave.

Enquanto Rafa lutava para se lembrar de onde tinha escutado aquela frase, Eduardo se moveu para mais perto do jovem inconsciente e cruzou os braços.

– Para onde o levamos agora?

– Não é obvio? – a voz estridente de Andressa irrompeu. – Para La Iglesia. Disque o número da Anna e...

– Perdão – ele, Eduardo, ergueu a mão para interrompê-la. – Mas desde quando foi que decidimos que você pode voltar a opinar?

Os olhos verdes de Andressa quase arderam de incredulidade.

– Como é que é?

– Você sumiu do nosso radar por dias – ele retrucou em uma voz séria. – E agora, quer o que, voltar a dar ordens? Depois de passar a semana inteira com...

Ele parou de falar e Andressa o encarou de volta.

– Com o que? Com um bando de humanos? – ela questionou, irritada. – É isso que ia dizer, Edu? Um bando de humanos? Porque até onde eu sei todos nós aqui somos.

– Mas você é diferente – ele apontou. – Você é uma caçadora. Aja como uma.

Um olhar de magoa cruzou o rosto de Andressa por um tempo e pareceu a Rafa que ela se sentiu traída ao avaliar o rosto dos outros. Porém, eu questão de um segundo, ela se ajeitou, empinou o queixo e jogou o cabelo por sobre o ombro. Pronto, a garota magoada não estava mais ali.

– Eu sei de um lugar onde podemos leva-lo – Rafa ergueu a mão meio hesitante. – Um lugar que provavelmente não vai atrair outros Atiradores.

– Onde? – Fernando questionou.

Rafa apenas deu de ombros e começou a andar, sugerindo que eles deveriam segui-lo.

***

– Sua casa? – Andressa guinchou quando eles passaram pela porta. – Você disse que ia nos levar até um lugar onde os Atiradores não iriam e escolhe logo a sua casa?

Rafa revirou os olhos para ela e deu graças a Deus por Rogério não ter chegado em casa. Eduardo e Fernando procuram um lugar em um dos sofás da sala enquanto Andressa se espreguiçava na poltrona. O corpo de Erick estava adormecido no piso de madeira do hall da casa, dando a casa um contraste supernormal.

– Relaxa – Rafa se recostou atrás de um dos sofás para encarar todos eles. – Você fala como se os Atiradores passassem na rua da minha casa todo santo dia. Não seja tão dramática.

– Dramática? – ela repetiu rangendo os dentes. – Mataram um cara na rua da sua casa, e não de uma forma normal e o seu seguidor esta adormecido na entrada da sua casa... Oh, eu estou mesmo sendo dramática?

– Está – Rafa provocou erguendo uma sobrancelha e ela lançou uma almofada nele.

– Ela meio que esta certa – Eduardo disse. – Rafa, e se os Atiradores souberem que esse seria o primeiro lugar que viriam?

– E se não for? – ele questionou de volta. – E vocês só dizem isso por que acham que os Atiradores estão atrás de mim. E reparem no modo como eu disse “acham”.

– Não é questão de achar – Fernando comentou. – Carolina se referiu a você como o garoto que abriu a caixa. Como acha que ela tem essa informação?

Rafa deu de ombros.

– Vocês falaram bem alto naquela tarde – ele brincou. – Talvez toda a comunidade de Vallywood tenha escutado.

– Isso é sério – Eduardo sibilou. – Se Carolina sabe coisas sobre você só pode significar que ela colocou alguém para perseguir você todo esse tempo.

Dessa vez Rafa engoliu em seco.

– Quão tempo seria “todo esse tempo”? – perguntou.

Eduardo fechou a cara.

– Desde o dia em que conhecemos você.

Rafa arfou e não foi o único. A campainha tocou na deixa e Rafa trocou um olhar assustado com todos eles. Andressa levou a mão à boca.

– Ai meu Deus, são os Atiradores.

– Se fossem eles não teriam apertado a campainha – Fernando balançou a cabeça.

– Como você sabe? – ela deu de ombros. – Quem sabe eles não sejam do tipo que batem e depois decidem atirar?

Rafa revirou os olhos para os dois e foi para a porta, passando pelo corpo inerte de Erick. A silhueta lançava sombras da porta e isso fez com que Rafa estremecesse.

Mas ao girar a maçaneta só o que ele teve tempo de sentir foi uma surpresa.

– Lucas? – ele guinchou.

– Ei – ele lançou a ele um sorriso envergonhado e coçou a parte detrás da cabeça. – Eu preciso mesmo, mesmo, mesmo falar com você.

Ao dizer aquelas palavras, ele fez com que Rafa acordasse para a realidade daquele momento. Andressa e os outros estavam ali dentro com ele.

– Lucas... – ele começou a balançar a cabeça.

– É sobre a Vick – ele começou a se adiantar na varanda. – Você não vai acreditar o que eu...

Ele estancou lançando um olhar para trás e Rafa se virou também. Lucas encarava Erick deitado no chão.

– Não é o que parece – Rafa se virou de volta para ele.

Lucas arregalou os olhos.

– Sempre quando você diz isso é exatamente o que parece – ele assoviou. – É algum tipo de fetiche novo?

Rafa estava prestes a inventar alguma mentira, mas Lucas olhou de novo para trás dele.

– Ah, beleza – ele disse. – O bonde todo está completo.

Fernando, Andressa e Eduardo tinham se juntado a eles, encarando Rafa com um olhar urgente.

– Isso é algum tipo de conferencia? – Lucas questionou. – Porque se for... Ou você vai sumir por mais uma final de semana?

As coisas estavam indo muito rápido e Lucas não estava o deixando falar. Na frustração, Rafa suspirou e um brilho atrás do amigo chamou a atenção dele. Bem na frente da casa, um homem careca vestido todo de preto olhava para eles de um jeito vazio.

Demoraram segundos para Rafa perceber que a arma em sua mão tinha refletido na luz do sol.

– Se abaixa! – Rafa se jogou com Lucas no chão.

Eles ouviram o tiro estalar no ar e alguém gemer. Rafa olhou para trás e viu Andressa e Eduardo no chão, enquanto Fernando tirava algo que só poderia ser a bala do ombro. O lugar ali onde a bala tinha acertado começou a escorrer sangue.

– Fernando... – Rafa começou a se levantar.

– Eu vou ficar bem – ele balançou a cabeça. – Fique abaixado!

Rafa retorceu o rosto e se voltou para o lado de fora da sua casa. Agora outros três homens e duas mulheres surgiam de vários lados da rua, as armas apontadas para frente da casa.

Rafa puxou Lucas com ele para dentro da casa enquanto Andressa, Eduardo e Fernando recuavam para a cozinha. Ao chegarem ofegantes lá, Lucas arregalou os olhos para eles.

– O que esta acontecendo?

– É complicado – Rafa respondeu e então olhou para os outros. — Precisamos sair daqui. Agora!

Andressa bufou.

– Eu disse que esse era um péssimo esconderijo.

Fernando e Eduardo trocaram um olhar e Rafa começou a bater o pé impaciente.

– Temos um lugar – Fernando explicou. – Mas vamos ter que fugir pelos fundos.

Um silêncio pairou enquanto eles ouviam os tiros começarem do lado de fora.

– Tudo bem – Andressa assentiu. – Rafa, você nos conduz?

– Espera, aonde vamos? – Lucas guinchou. – E o que diabos está acontecendo? Por que estão atirando?

Em todas as perguntas o amigo olhava apenas para Rafa, implorando por alguma resposta, o rosto mais pálido do que nunca.

– Eu explico depois – Rafa respondeu. – Mas no momento, precisamos que você venha conosco.

Érika sentiu suas costas baterem duramente na parede da sala. Lentamente, ela deslizou até o chão e seus braços caíram flácidos ao lado de seu corpo. Olhou para as próprias mãos, as unhas se projetavam para a cima, mais afiadas do que qualquer facão.

– Eu desisto – ela arfou. – Pode fazer o que quiser, eu desisto.

Carla riu educadamente e desfez sua posição de ataque. Seus olhos voltaram ao tom escuro e ela cruzou os braços enquanto andava até Érika.

– Vamos mais uma vez – ela insistiu. – Você esta quase pegando a pratica!

Érika abafou uma risada cansada.

– Tá de sacanagem, não é? – ela fungou. – Eu nunca vou conseguir. Além de ser uma loba iniciante e Beta tem algo pior do que eu ser péssima em briga?

Carla analisou a pergunta dela cuidadosamente enquanto se recostava no batente no meio da sala.

– Ser Beta não significa que você é menos forte do que eu, Érika. Só significa que você ainda tem muito que aprender e...

– E muito a apanhar, também! – Érika a interrompeu. – Fala sério, Carla, você tá curtindo demais essa coisa de maltratar, não é?

Carla estava prestes a negar com a cabeça, mas quando a questionou com os olhos azuis puros ela não soube bem o que dizer de volta. O cabelo de Érika estava molhado na testa, de tantas as vezes que tinha caído. E isso só deixava aquelas pontas loiras mais brilhantes ainda.

– O que foi?

Carla pulou de susto.

– Nada, eu estou bem – ela balançou a cabeça. – E não estou curtindo nada... Estou te ensinando Érika. Te ensinando, ok?

A expressão no rosto de Érika era curiosa e Carla, por mais que a conhecesse há pouco tempo, sentia que ela estava desconfiada de alguma coisa. Mas fosse o que fosse, Érika resolveu deixar para lá e se levantou parecendo subitamente decidida.

– Ok, então – ela apertou os olhos em desafio. – Me ensine.

Carla se desencostou do batente e Érika mostrou as garras, grunhindo com diversão para a Alfa. Novamente, as duas começaram a “dança”. Érika tentou um ataque direto e Carla desviou levemente, empurrando ela de lado para que ela caísse. Érika aguentou e tentou soca-la na barriga. Carla defendeu pegando os pulsos dela com a mão e a empurrou novamente, repelindo seu ataque.

Os olhos de Érika assumiram um brilho dourado e ela levantou a garra novamente para que Carla instintivamente se defendesse. Quando Carla o fez, Érika aproveitou para passar sua perna na dela.

– Ah – Carla quase escorregou, mas se segurou nos braços de Érika.

Em resposta a isso, Érika se libertou e avançou. Carla dessa vez deixou ser conduzida até a parede, a Beta prendia uma das mãos dela na parede e tinha os dentes amostra perto de sua clavícula.

– Parece que estou ganhando pratica – ela sussurrou contra o pescoço de Carla, respirando acaloradamente contra a pele dela.

Carla sorriu em resposta e Érika estancou. A Beta podia ter a prendido, mas isso não tinha impedido Carla de cravar sua unha maior na nuca dela.

Érika ficou molenga e caiu em cima de Carla, o rosto descansando em seu ombro. Por um segundo, nenhuma das duas respiraram. Os olhos estavam cravados em lugares diferentes, mas provavelmente as duas pensavam o mesmo.

Carla enfim cansou daquele suspense todo e pegou o rosto da loira com as mãos, forçando ela a olhar dentro de seus olhos. Olhos azuis mirados em olhos escuros; era isso que tinha durado segundos antes de Carla aproximar ainda mais o rosto...

Num rompante, a porta da frente da casa se abriu. Érika voou com tudo para trás e Carla se agachou na direção da porta, os dentes ficando mais amostra, o rugido se intensificando na casa.

Mas eram apenas Rafa, Eduardo, Fernando, Andressa e um garoto de pele muito pálida e cabelo muito escuro que Carla nunca tinha visto em sua vida.

Eduardo foi o primeiro a tomar a frente, olhando para Carla com urgência.

– Precisamos da sua ajuda.

A alfa ficou mais tranquila, mas ainda podia sentir alguém rugindo. Olhou para Érika de lado e nem precisou olha-la nos olhos para que ela se retesasse também.

– Que novidade – Carla revirou os olhos. – Qual é o problema dessa vez? Querem saber algo mais sobre os Atiradores?

– Na verdade – a voz de Rafa era estridente. – Eles são a última coisa que queremos saber a respeito.

Carla franziu a testa para ele e esperou que ele continuasse, mas ambos foram interrompidos por um barulho irreconhecível de disparos. Balas entraram pela janela da sala, quebrando cada quadradinho de vidro. Outra porção de balas também atravessavam as paredes.

Todos começaram a correr para a cozinha e Rafa teve que olhar duas vezes para ter certeza que ninguém tinha se machucado seriamente. Parece que os atiradores de Elite não eram tão elites assim...

– Precisamos fugir daqui – Eduardo disse. – Por onde ficam os fundos da casa?

Carla apenas apontou para um canto da cozinha, olhando frustrada na direção da frente da casa. Deveria ser horrível ver Atiradores detonando o único lugar que você poderia chamar de casa.

– Então vamos – Andressa apressou todos.

– Espera – Lucas pegou Rafa pelo braço. – Não antes de você me dizer o que esta acontecendo e quem são aqueles atirando!

Rafa abriu a boca para falar, mas o som da porta da frente sendo arrombada fez com que todos pulassem. Sem conseguir pensar muito, ele puxou o amigo com ele enquanto os outros o seguiam.

Em questão de segundos eles estavam fora da casa, correndo para dentro da floresta. Pensaram em parar, mas os atiradores saíram do mesmo local que eles na mesma hora. Começaram a atirar, mirando atrás das arvores onde eles se escondiam.

Andressa se agachou para desviar de uma bala e olhou para Eduardo.

– Precisamos ir para algum lugar!

– Eu não tenho ideia pra onde – ele deu de ombros. – La Iglesia?

– Não – Fernando balançou a cabeça. – Se levarmos os Atiradores até lá eles podem matar todos novamente.

A bile de Rafa subiu enquanto ele pensava em Balu.

– Ele esta certo precisamos ir para outro lugar.

– Pra onde? – Carla questionou.

Lucas timidamente ergueu a mão pálida.

– Eu conheço um lugar – disse. – Uma amiga minha mora praticamente em uma rua deserta, acho que esses caras nem desconfiariam daquele lugar.

– Uma amiga? – Rafa questionou. – Qual?

– Você não conhece – Lucas enrubesceu. – Eu a conheci na internet.

Andressa gemeu de frustração, mas Fernando assentiu.

– É melhor do que nada – ele defendeu. – Nós leve até lá.

Depois de Eduardo planejar mais uma distração para cima dos Atiradores, lançando rajadas e mais rajadas de vento para retarda-los, eles seguiram rapidamente por uma trilha conhecida por Lucas na floresta. Rafa sabia onde aquele caminho ia dar, na Rua St. Flora, uma parte de Vallywood meio deserta, mas com casas de tamanhos coloniais.

O grupo andava no meio da rua parada de jeitos completamente desproporcionais. Carla e Érika beiravam para a calçada, os olhos cautelosos. Andressa e Eduardo percorriam a calçada, cansados, mas trocando comentários sobre o fato de eles terem deixado o corpo de Erick na casa de Rafa. Lucas andava ao seu lado, a expressão muito calma para alguém que tinha acabado de escapar de um tiroteio.

– Você tá legal? – Rafa perguntou.

Lucas levantou o olhar.

– Consideravelmente bem – ele respondeu. – Apesar de você não me contar absolutamente nada e mentir para mim por mais de uma semana.

– Lucas, você não entende...

– Não entendo mesmo – ele assentiu. – Eu gostaria muito que você realmente confiasse em mim, mas pelo visto acho que nunca confiou o bastante.

Magoado demais, Rafa se deixou calar, sabendo que ele só tinha falado verdades.

Finalmente, Lucas saiu do meio da rua e seguiu para virar em uma propriedade isolada com portões de ferro enormes. Dali de onde estava Rafa podia ver uma casa vermelha de aparentemente três andares atrás dos portões.

Lucas ficou na ponta do pé para tocar um comunicador na frente do portão e uma voz chiada respondeu depois de alguns segundos:

– Quem é? – perguntou uma voz de menino.

– Lucas – ele respondeu para a voz. – Sou amigo da Rita.

A voz demorou alguns segundos para responder e Rafa pensou ter ouvido alguém suspirar.

– Rita, é aquele seu amigo estranho da internet! – o garoto gritou no comunicador.

Carla e Érika reclamaram do barulho e Lucas revirou os olhos.

– Estranho é ele, isso sim – ele resmungava.

Depois do que pareceu uma eternidade, Rafa viu a porta da casa vermelha se abrir e dela sair uma garota magra de cabelo cacheado castanho e olhos verdes. Usava um vestido preto e um colar brilhante com contas brilhava sacudia na frente de seu corpo quando ela se mexia. Seu andar elegante lembrava Rafa a uma daquelas mulheres finas em restaurantes caros.

Rita, ele presumiu, olhou cada um deles com a testa franzida enquanto pegava uma chave e abria o portão. Porém, quando Lucas tomou sua visão, seus olhos brilharam.

– Oh, Lucas! – ela disse assim que terminou de abrir os portões. – Eu nem acredito que é você!

Lucas enrubesceu um pouco, mas forçou um sorriso tímido para ela.

– Rita – seu tom era solene. – Que bom finalmente te conhecer pessoalmente.

Eles trocaram um abraço e Andressa pendeu a cabeça de lado quando viu que ela descansou a cabeça no ombro magro dele. Rita ergueu o olhar e olhou ela com evidente curiosidade.

– E quem são estes? – pergunto num tom interessado.

– Ah, esse é o Rafa de quem eu te falei – ele apontou para o amigo. – Rafa, esta é Rita de Cássia, minha amiga que conheci na internet.

– Prazer – ela ofereceu a mão para ele.

– Prazer – Rafa ignorou isso e a beijou no rosto.

Ela se afastou um pouco surpresa, mas deu a ele um sorriso muito branco.

– Ouvi falar tanto de você! – ela exclamou e olhou Lucas de lado. – Ele nunca esconde nada de mim.

Rafa franziu a testa para a ultima frase dela, mas Rita não notou, ocupada demais avaliando o resto de seus novos “convidados”.

– Então – ela prosseguiu em um tom leve. – Estes são mais de alguns amigos seus?

– Claro – os olhos de Lucas eram inexpressivos. – Eu sei que parece meio em cima da hora, mas poderíamos dar uma parada na sua casa?

Rita pensou um pouco sobre a proposta dele enquanto avaliava cada um. Eduardo nem piscava, Fernando olhava Rafa distraidamente, Andressa batia o pé impaciente, Érika fazia um rabo de cavalo improvisado e Carla murmurava algo sobre o tamanho do portão de ferro da casa.

– Claro – um sorriso se estampou no rosto de Rita. – Sintam-se a vontade e não reparem na bagunça, por favor.

Ela se virou e Lucas a seguiu para dentro da propriedade, seguido por Rafa e os outros que mais pareciam um bando menores abandonados entrando em uma instituição chique.

Ao passar pela porta, Rita apontou estrategicamente para cada cômodo da casa, como uma anfitriã.

– Ali fica a sala – ela apontou para um canto com uma televisão de tela plana e um hack com o dobro de tamanho de todos eles. – E ali fica o quarto e o banheiro para visitas – ela apontou para um corredor que fazia ziguezagues pela casa. – E ali a cozinha – ela apontou para uma soleira sem porta, onde uma área branca e enorme brilhava com móveis de ferro. – Eu vou aproveitar e fazer alguns cookies para vocês. Querem se juntar a mim? – ela se dirigiu a Andressa, Carla e Érika, que ficaram assustadas com a cortesia dela.

– Vai ser um prazer – Andressa entrou no papel e entrelaçou o braço com ela para entrar na cozinha. Carla e Érika se olharam uma vez e deram de ombros antes de segui-las também.

Na privacidade da sala, Lucas e os outros se reuniram no sofá em U no meio dela. Eduardo parou de olhar por onde as garotas tinham saído e encarou Lucas.

– Ela é só sua amiga de internet e vem com toda essa hospitalidade? – questionou.

– Rita é educada – Lucas explicou. – E nos conhecemos muito pela internet. Ela me falou dos pais que quase sempre estão viajando, do irmão mais novo que precisa tomar conta e de algumas coisas que ela gosta de fazer. Eu sou basicamente o terapeuta dela.

Rafa bufou.

– Percebi – ele caçoou. – E cadê a ética ao entrar na casa de uma paciente sem mais sem menos?

Lucas revirou os olhos.

– Escutem, vocês queriam um esconderijo – ele deu de ombros. – Esse foi o primeiro lugar que eu pensei. Tem sorte de nem precisarmos andar tanto pra chegar aqui.

Fernando balançou a cabeça.

– Queríamos um esconderijo e não tirar férias na mansão da Paris Hilton brasileira!

Rafa se virou para Eduardo.

– Quanto tempo até os Atiradores nos rastrearem?

– Eu nãos sei – Eduardo chacoalhou a cabeça. – Não sei nem como eles conseguiram nos rastrear na casa da Carla. Parece que eles estão em todo o maldito lugar.

– Pode ser que eles não precisem de um rastreador – Fernando opinou. – E se o Erick ainda estiver nos seguindo?

O rosto de Rafa empalideceu.

– Espera o que esses Atiradores querem a final de contas? – Lucas questionou totalmente perdido.

– Nos matar – Rafa suspirou. – Basicamente, nos matar.

– Mas por quê? – a voz de Lucas minguou.

– Eles acham que temos algo que eles querem – Eduardo respondeu. – Uma caixa.

– Tudo isso por causa de uma caixa?

– Não é uma caixa qualquer – Eduardo defendeu.

– E não é apenas a caixa – Rafa engoliu em seco. – Eles me querem também. Mandaram aquele cara de antes desmaiado na frente da minha casa me seguir.

Os olhos de Lucas estavam arregalados.

– Por que iriam querer isso, Rafa? – seu tom apresentava preocupação. – Você não fez absolutamente nada.

Rafa estava prestes a abrir a boca para se explicar sobre a caixa e sobre todas as lendas sobrenaturais serem verdadeiras, quando um garoto de cabelo castanho curto com a idade de Rogério, o caçula de Rafa, surgiu de uma escada enorme em espiral. Ele tinha os olhos focados no celular e se recostou no batente da casa, nem notando a presença dos três.

Os garotos se calaram e ficaram olhando até que ele levantou um par de olhos castanhos inteligentes. O rosto dele se contorceu de horror ao avaliar cada um deles.

– Que porra é essa? – ele se dirigiu a ninguém em particular.

Lucas ergueu a mão e tentou um sorriso.

– Você deve ser o Marco, não é?

Mas o suposto Marco mostrou o dedo do meio para ele e lançou um olhar para o segundo andar.

– Rita? – ele gritou pela casa. – Rita, tem um bando de mendigos mal vestidos na nossa sala! Pode, por favor, vir aqui e me ajudar a enxotar esses babacas pra fora? Obrigado, de nada.

– Ei, não estamos mal vestidos! – Rafa grunhiu.

– Não? – Marco o avaliou. – Ah, então essa deve ser a roupa de dormir de vocês, não é?

Ofendido demais, Rafa não disse nada até que Rita veio da cozinha, com passos leves e uma expressão curiosamente educada no rosto belo.

– Que foi irmão? – ela questionou.

– Mendigos – Marco apontou para eles. – Pode pegar aqueles cachecóis do inverno passado e doar para eles? Não quero que roubem meu Xbox.

Rita cruzou os braços para o irmão mais novo.

– Eles não são mendigos...

– Ah, então por que estão vestidos desse jeito? É alguma festa a fantasia? O tema é “Vá Com A Roupa Que Seu Pai Menos Usa?”.

– Não é nada disso – Rita fincou o pé. – Eles são meus hóspedes. Eles são meus amigos.

Marcos gemeu para ela e semicerrou os olhos para Lucas.

– Aquele é o estranho com quem você vem conversando, não é?

– Acorda Marco – Rita suspirou. – Estranho é o novo chique.

Marcos bufou.

– Não sei aonde.

– Rita? – Andressa surgiu da soleira saltitante. – Ei, os cookies estão quase queimando, corre aqui!

– Eu já vou – Rita sorriu para ela.

Marco parecia petrificado.

– Espera quem é o anjo? – ele piscou rapidamente.

Andressa franziu o cenho e olhou para trás para ver se era com ela.

– Eu?

– Tem outra morena gostosa de olhos atraentes?! – Marco estalou os dedos e olhou a irmã. – Quero ela pra mim, agora!

– Marco – ela o reprimiu. – Pare de ser indelicado com os meus convidados.

Marco revirou os olhos, mas se virou para dar um sorrisinho falso para os garotos.

– Sintam-se a vontade – ele fez uma reverencia e depois se virou de novo. – Posso beijar sua mão? – perguntou com os olhos brilhantes para Andressa.

– Não! – Eduardo e Lucas disseram ao mesmo tempo.

Enquanto isso em Vallywood, Vick se adiantava do lado de fora da casa de Lucas, tocando a campainha fortemente. Precisava falar com o garoto a todo custo. Sobre o beijo, sobre a confissão dele, sobre... Tudo. A cabeça da garota estava girando mais que tudo. Cenas se repetiam em sua cabeça, memórias tomavam cores diferentes em sua mente... Lucas era apaixonado por ela e só agora tinha descoberto isso.

– Lucas? – ela continuou chamando na porta, estranhando o fato de ele demorar tanto para responder. – Lucas, abre, por favor!

– Vick?

Ela se virou esperançosa que fosse ele, sem sequer se importar se não estava preparada para confrontar ele daquela forma. Os dois precisavam conversar de qualquer forma.

Mas era Roberto.

– Ah – ela não conseguiu esconder a decepção em sua voz. – É você, Roberto.

– Ai – ele brincou cutucando o ombro dela. – Essa doeu.

Ela passou a mão na testa e suspirou.

– Desculpa, é que eu estou tão frustrada. O Lucas não tá em casa! Dá pra acreditar?

– Não dá não – Roberto murmurou balançando a cabeça.

– E logo depois de me beijar ainda!

– Que? – Roberto foi para trás. – EITA GIOVANNA!

– Pois é! – Vick guinchava.

– Mas ele não... – Roberto se interrompeu.

– Ele não... – Vick incentivou. – Roberto, o que você ia me dizer?

O nadador loiro quis mudar de assunto, mas o olhar de Vick era autoritário e, pela forma como seus pés batiam no chão, era melhor ele não tentar provoca-la.

– Tudo bem – ele suspirou. – Eu achei que ele agora estava com a Andressa.

Vick bufou.

– Quem é Andressa? – ela deu de ombros. – Eu também achava antes de ele fazer isso hoje!

– Caramba, e agora ele sumiu?

– É – ela assentiu. – Faz alguma ideia de onde ele possa ter ido?

– Bom, eu não sei – Roberto suspirou. – Mas só sei que não esta na casa do Rafa.

– Por quê?

– Porque eu acabei de passar lá – ele respondeu. – Ele não esta em casa também.

Vick ofegou.

– Se os dois estão desaparecidos...

– Quer dizer que estão juntos? – Roberto questionou com uma sobrancelha erguida. – É, também tive essa teoria.

– Que interessante – uma voz disse atrás deles.

Os dois se viraram para encarar Gabriella parecendo vestida para um baile de gala, o vestido cinza parando no alto do joelho e uma bolsa da mesma cor ao lado do corpo.

– É bom saber que vocês tem uma teoria – sua voz era sarcástica. – Podem me acompanhar na delegacia? Quero mostrar as minhas para vocês.

Sem muitas opções, Roberto e Vick aguardavam em silêncio enquanto Gabriella estacionava na frente do Departamento de Policia de Vallywood. Vick já tinha estado ali uma vez, para testemunhar no desaparecimento de Henrique – o ex-namorado de Taffara – Roberto por outro lado apenas acompanhou seu irmão mais velho uma vez, quando um idiota decidiu roubar seus óculos.

Mas estar na delegacia naquele dia não parecia o dia correto. Várias viaturas saiam a jato dali, quase roçando umas nas outras ao fazer isso. Policiais irritados gritavam uns com os outros sobre a falta de rosquinhas e um homem loiro tinha acabado de ser enxotado para fora.

– EU SÓ QUERIA UMA GOIABA! – ele chutava para se liberar do aperto dos tiras. – E NÃO AQUELE MALDITO ONIBUS!

Vick e Roberto encararam, mas Gabriella deu de ombros e chutou as portas duplas da delegacia para entrar. Ela passou pelo escritório abarrotado de tiras e decidiu parar para pegar uma chave do bolso de uma sala na frente deles.

– O que tem lá dentro? – Vick questionou.

– Vocês vão ver – Gabriella sorriu. – Aposto que já estão familiarizados.

– O que quer dizer com isso? – Roberto questionou.

Gabriella não respondeu a abriu a porta rudemente, sugerindo que eles entrassem na frente. Dentro da sala com apenas uma mesa longa e um espelho enorme eles se deram conta de que era uma sala de interrogatório.

E na mesa já havia uma pessoa sentada... Ou melhor, pessoas.

Taffara encarava seu reflexo. Rael tinha um bico na frente da expressão. Camilla Alves roía as unhas. Camilla Polli quase dormia na mesa. Rodolfo balançava a cabeça como se escutasse alguma musica. Diogo também olhava seu reflexo de uma forma derrotada. E o monitor Sr. Ávila, em pé no canto, se recusando a se sentar com os alunos.

– O que esta acontecendo? – Vick avaliou cada um deles.

Nenhum deles respondeu e Gabriella bateu a porta atrás deles.

– Todos vocês – ela cruzou os braços. – Todos são suspeitos de ter contratado um assassino.

– O que? – Roberto guinchou.

– Como sabe disso? – Vick questionou.

– Porque eu pesquisei e descobri – ela bateu o punho na mesa e virou o pescoço de um jeito meio Exorcista. – Descobri quem de vocês é o assassino.

***

– Então, quando você e Lucas se conheceram? – Andressa perguntou a Rita, levando a xicara de chá de aparência cara até os lábios, tentando imitar a garota rica na sua frente.
– Bem – ela olhou para o garoto do outro lado, que trocava ofensas com Marco no centro da mesa, para ver quem pegaria os cookies. – Foi em um site de relacionamento, não vou mentir – ela sorriu como quem se desculpa. – Mas eu realmente gostei dele.
Andressa assentiu levemente enquanto abaixava a xicara.
– Ele parece dar um bom namorado, não é? – ela instigou.
Rita quase caiu para trás, mas moveu a cabeça para trás delicadamente.
– Namorado? Pelo amor de Deus, não – ela revirou os olhos. – Somos só amigos.
– Sei – Andressa provocou fazendo um biquinho. – É só aprofundarem essa intimidade querida.
– Não é nada disso – Rita riu e balançou a cabeça. – Nós apenas conversamos sobre nossas vidas, é um lance de amizade. Eu o aconselho, ele me aconselha. Como uma âncora, entende?
Aquela frase deixou Andressa intrigada e seu olhar cruzou com o de Edu do outro lado da sala. Ele conversava com Fernando e Rafa em voz baixa, possivelmente discutindo sobre os Atiradores, mas ainda tinha os olhos cravados nos dela. O que aquilo significava? Ele gostava dela?
Às vezes era preciso se perguntar.
– Me entende? – Rita questionou de novo, trazendo ela de volta.
– Entendo – Andressa lutou para se virar. – Entendo perfeitamente.
– Eu não entendi nada – Eduardo cochichou. – Mesmo que o Erick parecesse não querer nos matar, ele nos atacou e definitivamente estava te seguindo, Rafa.
– Eu sei que estava – ele retrucou. – Eu podia escutar os passos daquele maldito de longe, como acha que eu me senti.
– Não sei, me diz você – Fernando resmungou.
– O que foi?
– Eu vi você analisando o dorso dele – Fernando apertou os olhos.
– O que? – Rafa guinchou.
– Pessoal – Eduardo suspirou. – Deixemos a DR pra depois, será que podemos focar na nossa situação? A qualquer momento, qualquer momento mesmo, os Atiradores podem entrar por aquelas portas e nos detonar de novo!
– Quem? – Marco se infiltrou na conversa, o cookie comido pela metade na palma da mão. – Atiradores, você disse?
Rafa empalideceu e Fernando gaguejou.
– Eu quis dizer Juan e Benito – Eduardo limpou a garganta.
– E quem são esses? – Marco questionou ceticamente.
– Putos – Rafa disse.
– Travestis – Fernando corrigiu.
– Garotos de programa para nós – Eduardo sorriu falsamente.
Marco olhou de um para o outro.
– Pra vocês?
– Sim – responderam os três em uníssono.
– Garotos são a nossa praia – Rafa assentiu, sabendo que estava mais para ele. – Não é, Edu?
O olho esquerdo de Eduardo fez um tique enquanto ele fazia que sim com a cabeça de forma mecânica.
– Amo, sou – ele riu fracamente.
Marco olhou para ele com nojo e se afastou murmurando algo sobre o estranho do Lucas ser o novo chique.
– Eu odeio isso – Eduardo bufou. – De quem foi a ideia de ficarmos na casa do Senhor Esnobe?
– Era isso ou ter os Atiradores na nossa cola.
– Eu preferia os Atiradores – Fernando reclamou.
Rafa balançou a cabeça.
– Eu acho que é como aquela vez com a Carla – ele disse. – Achamos que ela estava com as Bruxas, mas ela nos ajudou a mata-las na verdade. E vocês viram que ele tentou me avisar, não viram?
– Eu só vi ele derrubando a Andressa – Eduardo rebateu olhando o outro lado da sala. – Se ele tocasse em mais um fio de cabelo dela...
– Que seja – Rafa o interrompeu. – Eu acho que ele ainda é inocente e esta sendo manipulado por eles. Não é isso que eles sabem fazer?
– Acho que quem esta sendo manipulado é você – Fernando rebateu. – Rafa, ele estava te seguindo!
– Eu sei disso caramba – ele ficou bravo. – Mas ele tentou me matar ou quebrar o meu pescoço alguma dessas vezes?
Aquilo foi baixo e Fernando e Eduardo queriam dizer algo, mas um barulho alto tocou na casa toda. Uma sirene.
– O que é isso? – Érika se levantou do sofá, tapando um dos ouvidos.
– É o alarme – Rita respondeu, se levantando com um olhar preocupado.
– Desliga – Carla ordenou, olhando para Érika.
– Espera – Rafa se moveu para frente. – Alarme? – ele se virou para Rita. – Isso quer dizer que tem alguém invadindo?
Marco fez um “duuur” e fechou a cara para ele.
– Sim – Rita respondeu confusa.
Rafa olhou para os outros e eles o seguiram enquanto ele corria para a porta da frente. Mas nem precisaram chegar tão longe, porque na sala já tinha alguém bem ali deitado no carpete.
Erick.
– Por favor... – ele ofegou para eles. – Me ajudem!
Rafa primeiro olhou a porta aberta que ele provavelmente arrombou e depois encarou o dorso descoberto de Erick. Um pouco acima do umbigo sangue despejava no carpete.
Carla e Érika se moveram, analisando o ferimento.
– Ele levou um tiro – Érika respondeu.
– Precisamos remover a bala – Carla sugeriu com o rosto meio pálido. – Rita, será que você...
– Rita nada – Eduardo se colocou para frente. – Ele não pode ficar aqui – ele olhou dentro dos olhos das duas lobas.
– O que? – Rita questionou. – Por que não? Ele está ferido, não esta vendo?
– Ele só vai atrair mais Atiradores – ele olhou Andressa e Fernando. – Me ajudem, por favor!
Fernando deu um passo, mas Rafa o segurou pelo ombro.
– Pelo amor de Deus – ele o olhou nos olhos. – Ele está ferido.
O loiro decidia enquanto Andressa passava pelos dois.
– Rita, Carla e Érika, levem ele lá para cima – ela instruiu. – Marco e Lucas, procurem álcool e qualquer coisa pontuda na cozinha.
– Não... – Eduardo começou a protestar.
– Não o que, Edu? – ela ergueu uma sobrancelha. – Vamos deixar ele morrer?
Eduardo fechou a cara para ela.
– É uma opção – seus olhos escureceram.
– Do que estão falando? – Marco questionou. – Claro que não vamos deixar ninguém morrer! Quem são vocês, hein?
Ele puxou Lucas com ele para cozinha. Carla e Érika passaram os braços de Erick por seus ombros e começaram a rebocá-lo para o segundo andar. Rita as seguiu, esbarrando em Eduardo no caminho.
Andressa encarou Eduardo. Rafa soltou o ombro de Fernando.
– Eles vão vir atrás de nós – Eduardo falou baixo para que os outros não escutassem. – E vão colocar essa mansão para baixo, escute o que eu estou falando. E vai ser culpa sua!
E com isso ele virou um dos corredores que levavam para o banheiro ou para um dos quartos de hóspedes.
Fernando suspirou para Andressa.
– Uma hora ele caí em si – ele disse.
– Ele já caiu – ela deu de ombros. – A culpa vai ser minha. Porém, se o Erick morrer, vai ser minha culpa também.
E então subiu para ajudar as outras a cuidar de Erick.
Fernando se virou para Rafa e eles se encararam por longos segundos antes de alguém dizer alguma coisa.
– Vá falar com seu amigo – Rafa sugeriu. – Diz pra ele que vai ficar tudo bem.
Fernando bufou, mas seus olhos continuavam nos dele.
– Quer que eu diga isso a ele ou a você?
E com isso ele o deixou ali sozinho na sala.

– Isso vai demorar muito? – Taffara tirou as mãos da mesa e ajeitou o cabelo castanho no espelho. – Eu estou cansada e – ela olhou diretamente para Vick. – Olhando para essas caras de fome, eu só consigo ficar com mais fome ainda.
– Por que você não cala essa boca, Taffara? – Vick rebateu. – Provavelmente você é quem pagou o assassino, por isso que estamos todos aqui.
O olhar surpresa de Taffara e a risadinha dela fez Roberto suspirar alto. Rael encarou Roberto com nojo e mal disfarçou quando esse o olhou de volta.
– Isso é uma acusação? – Taffara olhou para Gabriella. – Eu posso denunciar ela por calunia, não posso?
– Você é menor – Gabriella rebateu sem levantar o olhar para qualquer uma delas. – E eu só posso deixar você fazer isso se eu acreditasse em você – ela levantou o olhar. – Note que eu disse “se”.
Vick deu um sorriso e Taffara semicerrou os olhos.
– Ouvir ela falar de fome me deixou com fome – Rodolfo ergue a mão. – Posso sair?
– Não.
– Tá – ele parou. – E agora?
– Não.
– Tá – ele parou. – E agora?
– Não, Rodolfo.
– NÃO ME CHAME DE RODOLFO – ele gritou.
– Mas é o seu nome – Camilla Alves apontou.
– E daí? – ele deu de ombros. – Eu não gosto que me chamem de Ro- ... Deixa quieto.
O Monitor Ávila se remexeu na parede e olhou Gabriella de lado.
– Eu preciso mesmo ficar aqui? – perguntou irritado.
– É crucial que você esteja aqui – ela pegou uma papelada enquanto falava. – Alguém precisa dizer em breve a todos na escola, fazer um comunicado se preciso.
– Comunicar?
– Que tem um assassino na escola – Gabriella rebateu.
– Tem certeza que é um de nós? – Diogo questionou. – Só vejo um bando de idiotas que eu sempre sou obrigado a ver na escola.
– Idiotas? – Taffara olhou para o outro lado da mesa. – Achei que você e Vick namoravam.
Diogo a encarou e Vick o encarou de volta. Eles não se falavam desde o dia em que Andressa havia aparecido no corredor e ajudado ela. Vick de repente se tocou que devia uma a ela.
– É, eu também – Diogo engoliu em seco.
– Podemos focar, por favor? – Camilla Polli esperneou. – Eu quero saber quem é a droga do assassino!
– Olhe a boca, garota – Gabriella a respondeu. – Essa não é sua casa, é uma delegacia. Isso não é um programa de TV, é um interrogatório. Se ponha no seu lugar.
Camilla Polli moveu a franja de lugar enquanto tentava não aparentar medo. Roberto ergueu a mão.
– Sim? – Gabriella sorriu para ele.
– Pode me responder uma coisa?
– Dependendo.
– Se um de nós apenas é o assassino, por que chamar todos.
Gabriella suspirou.
– Esse é o meu jeito de resolver as coisas – ela se explicou. – Sei que é meio disfuncional...
– Meio? – Rael pigarreou.
– Não ligue pra ele – Roberto olhou com desprezo. – Eu sou o atual do ex-namorado dele.
Rael fechou a cara.
– Que interessante – Gabriella se levantou de onde estava. – Mas não viemos falar de ex-namorados gays, garotas de salto quinze ou do quanto vocês se amam e se odeiam.
– Viemos falar do assassino – Taffara assentiu. – Ou de quem contratou ele para ser exato.
– Exatamente – Gabriella olhou Taffara. – Que bom saber que você está a par de tudo.
Taffara apenas deu de ombros.
– Você já se cansou de dizer isso, eu só repeti.
– Sabe quem mais repetiu? – Gabriella se sentou na beira da mesa, olhando ela de cima. – Seu namorado, Henrique. Sabia que ele anda sumido por uns tempos?
Taffara não disse nada.
– Onde acha que ele foi, hein?
Roberto e Vick trocaram um olhar. Diogo percebeu isso e virou de lado para Rael. De repente a temperatura daquela sala começou a subir.
– Por que estamos falando do Henrique? – Vick riu nervosamente. – Vamos falar do caso.
– Segura aí, baixinha – Gabriella piscou. – Ei, Taffara, pode me responder?
– O que você quer?
– Quero saber onde você acha que esta seu namorado?
– Eu não sei.
– Não sabe? – o tom de Gabriella era carregado de ceticismo. – Achei que ele fosse seu namorado.
– Achou errado – Taffara tinha um tom enigmático. – Nós terminamos e ele foi embora.
– Sério? – Gabriella se aproximou.
– Sério – Taffara a olhou nos olhos.
Mais alguns segundos de tensão e Gabriella decidiu por fim se levantar e dar um fim ao mistério. Futricou uma das pastas amarelas e, de uma delas, tirou uma foto.
Todos olharam para a foto que Gabriella ainda não tinha virado. Vick respirou fundo. Roberto cruzou e descruzou os braços. As Camillas tocaram suas mãos. Rael piscou várias vezes. Rodolfo quicava em seu lugar. Diogo tinha os olhos excitados. Ávila se colocou para frente. Taffara olhou para o seu reflexo e empinou o queixo.
Enfim Gabriella jogou a foto no meio da mesa e todos puderam ver quem era o grande culpado. O que se seguiu dali foi vários rostos de horror ao verem quem era.
– Eu nunca disse que estava entre vocês o culpado – Gabriella sorriu. – Disse que vocês eram suspeitos, apenas.
E Gabriella tinha razão. A culpada não estava entre eles porque ela tinha sumido recentemente.
Marta Joane.

– Por que estava seguindo o Rafa? – Fernando foi direto ao ponto como se seu tempo dependesse disso.
– Eu fui forçado – Erick respondeu, o sotaque beirando na última palavra.
– Pelos Atiradores? – Rafa perguntou.
Erick apenas ergueu os braços com exaustão.
– Parece haver outra organização de psicopatas por aqui?
Eduardo continuou teimosamente recostado na parede, em silêncio.
– O que mais pode nos dizer deles? – Andressa questionou.
Erick parecia decidido a falar, mas Rita entrou no quarto, atrapalhando o interrogatório.
– Desculpem – ela disse enquanto carregava uma bandeja de sopa até Erick. – Beba tudo, por favor. Sei que já retiramos a bala, mas você está bem longe de ficar recuperado.
– Obrigado – Erick sorriu para ela. – Você parece entender bem disso.
– Do que? De medicina?
– Não – Erick a olhou nos olhos. – De cuidar de alguém.
Os dois se encararam por tanto tempo que só quando Andressa fez cara de vomito para Rafa foi que ele notou o clima que rolava entre os dois.
– Er, Rita – ele chamou. – Pode ir lá embaixo chamar o Lucas para mim?
Ela assentiu, sorrindo para Erick.
– Posso sim – ela cambaleou para sair do quarto. – Se precisarem de Erick... Digo, se precisarem de mim, me chamem.
– Eu chamo – Erick sorriu ainda mais e piscou.
Rita quase desmaiou e foi preciso Andressa chutar a porta para ela sair. Eles se voltaram para Erick, que estava esparramado na cama king-size no quarto de Rita.
Eduardo se desencostou da parede e o encarou.
– Que foi? – Erick questionou.
Edu não disse nada e andou até ele, depois apertou onde a bala tinha sido retirada. Erick gritou e foi preciso Fernando e Andressa para afastar o mais velho do Pack.
– Conte logo o que os Atiradores querem – Eduardo ameaçou. – Ou da próxima vez esses dois não vão me impedir de matar você.
Erick engoliu em seco e em seguida apontou para Rafa.
– Eu não sei de muita coisa, mas Carolina falou dele.
– De mim? – Rafa apontou para o próprio peito.
– Sim – ele assentiu. – Ela me mostrou uma foto há dois meses, pediu para eu ficar de olho em você.
– Dois meses? – Fernando guinchou. – É mais tempo do que conhecemos ele!
– Ela disse que queria ter certeza – ele continuou.
– De que? – Andressa perguntou.
– De que ele ia abrir a caixa.
Rafa arfou e sentiu os olhares de todos pesarem nele.
– Como ela sabia que ele ia abrir a caixa? – perguntou Fernando.
Erick balançou a cabeça.
– Não sabia. Um garoto veio nos visitar uma vez. Dizia te conhecer, dizia que tinha sonhos com você... Com você abrindo a caixa.
Rafa quase sentiu perder o chão. Carolina já sabia que ele abriria a caixa há muito tempo. Alguém tinha dito a ela. Alguém que conhecia Rafa. Um garoto que tivera sonhos com ele.
Quem?
– Quem? – Rafa ecoou o próprio pensamento.
Mas Erick apenas balançou a cabeça.
– Não me lembro bem do rosto – ele franziu a testa. – Ele usava um sobretudo para que não víssemos seu rosto. Carolina matou um dos Atiradores que tinham visto seu rosto uma vez.
Rafa levou as mãos ao rosto. Era tudo pior do que ele pensava. Ele não tinha sido arrastado para aquele mundo de jeito nenhum... Ele já fazia parte dele muito antes.
– Meu Deus – ele arfou. – O que os Atiradores querem comigo agora?
Erick olhou de um rosto para o outro.
– Honestamente? – ele tomou folego. – Matar. Matar você, seus amigos e qualquer pessoa que você conheça.
Rafa foi para trás, ao mesmo tempo em que o alarme soou na casa inteira. Não demorou muito para Carla entrar no quarto e avisar a eles de um jeito arfante.
– Eles estão aqui.
Nem foi preciso ela dizer quem eram “eles”.
Rafa se aprumou na janela e pode ver uns onze Atiradores se aproximando da casa, os vultos pretos se aproximando de forma bem abrupta e pulando o portão de ferro.
– Por onde vamos correr agora? – Lucas perguntou da porta.
Algo na maneira que ele disse aquilo fez com que Rafa balançasse a cabeça. Correr nem sempre era a solução.
– Lugar nenhum – ele respondeu.
– Rafa? – Fernando chamou e ele se virou. – O que quer dizer com isso?
– Não vamos correr dessa vez – Rafa repetiu olhando todos no quarto. – Vamos ficar e lutar.
Eles desceram sem pressa nenhuma para o segundo andar. Rita que estava no pé da escada olhou preocupada para ele.
– Rafa, o que esta acontecendo? – ela questionou. – Quem são aqueles homens lá fora?
Ele pensou em mentir, mas refletiu que não adiantava de nada.
– Atiradores – ele respondeu. – Vá com o Marco e o Lucas para a cozinha, eu e os outros vamos dar um jeito neles.
Ela arregalou os olhos, mas então engoliu em seco e se endireitou.
– Meninos – ela chamou os dois. – Venham comigo.
– Por quê? – Marco se queixou.
– Só me siga – ela ordenou e tocou a mão de Rafa antes de entrar na cozinha. – Tomem cuidado.
Rafa olhou admirado enquanto ela sumia. Eles tinham se conhecido hoje e ela já sabia tudo sobre ele.
– Vamos – Rafa foi até a porta da frente.
– Espera – Andressa olhou para ele. – Tem certeza?
Rafa apenas a olhou e abriu as portas da casa, ficando de frente para os Atiradores. Instintivamente eles ergueram as armas, mas não atiraram ainda.
Érika e Carla flanquearam o lado direito, Eduardo e Erick o esquerdo. Andressa e Fernando estavam duros ao lado de Rafa, esperando qualquer movimento súbito.
E então veio, eles atiraram.
Mas não aconteceu nada. As balas caíram no chão antes de chegarem neles. Só então Rafa notou que sua habilidade tinha voltado. A barreira estava funcionando.
Eduardo aproveitou isso e soltou bolas de fogos em três Atiradores, queimando eles na hora. Andressa investiu no ar contra eles, rápida demais para ser atingida. Fernando se protegia dentro da barreira, mas pegou quebrou um pedaço da soleira da porta e lançou no meio do corpo de um atirador. Carla e Érika investiam contra os Atiradores também, movendo-se como vultos. Erick apenas deu um rugido e um atirador asiático desmaiou.
Logo eles tinham sido derrotados. Rafa olhou para um que apontou bem para a cabeça dele, mas apenas ergueu a mão – o atirador voou e bateu a cabeça em uma arvore.
– Conseguimos – Eduardo se virou para ele com um sorriso. – Nós realmente conseguimos!
Mas como qualquer comemoraçãozinha, aquela foi cedo demais. Outros vultos em dobro de número e vindo de vários lugares da densa floresta começaram a surgir, disparando com suas armas letais.
Eles não tiveram outra opção se não voltar dentro para a casa e correr novamente. Parecia que não haveria fim. Os Atiradores eram muitos e eles eram poucos.