O banquete noturno em Astúria era uma exibição de opulência, mas o ar na mesa real estava carregado de uma tensão que nem o melhor vinho de safra conseguia relaxar. Caelum, agora investido de sua autoridade como Príncipe Herdeiro, comia seu bife com uma lentidão calculada. Seus olhos azuis, no entanto, não estavam no prato; eles estavam fixos em Catarina, que sentava-se à sua frente.

​Catarina sentia o peso daquele olhar. Cada vez que ela levantava os olhos para pegar o cálice, encontrava o semblante dele — calmo, mas com uma intensidade que a fazia recordar o beijo e a urgência de horas atrás no quarto. Ela desviava o olhar rapidamente, focando na conversa entre Aria e Katrina, mas a ponta de seus dedos batucava nervosamente na mesa de carvalho.

​O ambiente estava descontraído entre os outros. Claire e Katrina trocavam confidências sobre os preparativos para o bebê, enquanto Richard e Gaspar discutiam os novos cavalos das cavalariças. Até que Julian, limpando os lábios com um guardanapo de linho, quebrou o silêncio com um tom casual que caiu como uma bomba:

​— Sabe, Caelum... — começou Julian, sorrindo de forma travessa — O Lorde Stefan Drake me procurou logo após a reunião do conselho. Ele foi muito polido. Disse que ficou encantado com Catarina e me pediu permissão, como irmão mais velho, para começar a cortejá-la formalmente.

​O som metálico da caneca de vinho de Caelum batendo contra a madeira da mesa ecoou como um disparo pelo salão. O vinho estremeceu dentro do cálice, e todos os diálogos cessaram instantaneamente. Katrina parou de falar no meio de uma frase, olhando assustada para o filho.

​— Catarina é mulher demais para um sujeito como o Drake — sentenciou Caelum, a voz baixa, mas vibrando de uma autoridade possessiva. — Ele não conseguiria lidar com a "tormenta" do Norte nem que tivesse mil anos de prática. Seria um desperdício de tempo para ela e um vexame para a nossa corte permitir tal união.

​Catarina, sentindo o sangue subir às bochechas pela audácia dele em tentar ditar sua vida em público, soltou um riso sarcástico e desafiador.

​— E quem é você para decidir o que eu posso ou não desperdiçar, Vossa Alteza? — rebateu ela, encarando-o de volta sem piscar. — Talvez eu queira ser cortejada por ele. Stefan é leve, divertido e, acima de tudo, não tenta controlar cada passo que eu dou no jardim. Diferente de certas pessoas, ele parece saber que uma mulher aprecia um pouco de... cortesia e atenção.

​Caelum inclinou-se para a frente, ignorando os olhares de advertência de Richard.

— Cortesia ou bajulação barata? Você realmente quer trocar o seu tempo por poesias mal escritas e sorrisos de pavão? Achei que você tivesse mais discernimento, Catarina.

​— O que eu quero é alguém que não se esconda atrás de silêncios pesados e olhares de julgamento! — Catarina levantou a voz, a loba do Norte despertando sob a seda do vestido. — Se Stefan quer me cortejar, que venha! Pelo menos ele tem a coragem de dizer o que quer em vez de agir como um vulcão prestes a explodir e depois fingir que nada aconteceu quando as luzes se apagam!

​— Eu não finjo nada! — exclamou Caelum, levantando-se da cadeira em um solavanco que quase derrubou seu prato. — Eu protejo o que é valioso para este reino, e você...

​— Eu não sou propriedade deste reino, Caelum! — Catarina levantou-se também, as mãos espalmadas sobre a mesa, enfrentando-o olho no olho. — E se eu decidir que o Lorde Drake é o meu "bom partido", você terá que se contentar em assistir da sua janela enquanto eu aceito as flores dele!

​O silêncio que se seguiu foi absoluto. Julian olhou para Aria, que apenas sorriu de canto, vendo que a faísca finalmente se tornara um incêndio impossível de apagar. Richard e Gaspar trocaram olhares de "eu avisei", enquanto os dois continuavam em pé, desafiando um ao outro no meio do banquete.