Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
39 Conselhos
O sol da tarde atravessava as janelas do gabinete real, onde a tensão dos mapas e decretos era quase sufocante. Gaspar e Richard analisavam um novo acordo de fronteiras, enquanto Caelum, encostado no batente da janela, parecia mais interessado no movimento lá fora do que nas palavras de seu pai.
Lá embaixo, sob a sombra das mesmas acácias onde eles discutiram no dia anterior, Catarina e Stefan Drake protagonizavam uma cena digna de um romance de corte. Ela ria, jogando a cabeça para trás com uma leveza que Caelum raramente via quando ele estava por perto. Stefan, aproveitando a abertura, segurava a mão dela com delicadeza, aproximando-se para sussurrar algo galanteador no ouvido da jovem.
Caelum soltou um riso seco e nasal, um som carregado de puro escárnio.
— Olhem para aquilo — Caelum disse, atraindo a atenção de Richard e Gaspar. — Stefan Drake tentando ser um homem de ação. É como ver um bezerro tentando imitar o passo de um corcel.
Richard aproximou-se da janela, observando o nobre galantear seu alvo.
— Ele parece estar se saindo bem, Caelum. Ela está rindo.
— Ela está rindo dele, não com ele — debochou Caelum, cruzando os braços. — Olhe como ele segura a mão dela. Stefan tem tanta força de vontade quanto uma folha de outono. Se um vento soprar um pouco mais forte, ele cai em prantos. A dignidade dele cabe em uma colher de chá, e ainda sobraria espaço para o açúcar. O homem não sabe distinguir uma espada de um espeto de carne, quanto mais como lidar com uma mulher como Catarina.
Richard soltou uma gargalhada, batendo no ombro de Gaspar.
— Ouviu isso, Gaspar? Nosso príncipe herdeiro agora é um crítico de cavalaria. Mas cuidado, Caelum, o "bezerro" está ganhando terreno enquanto você fica aqui em cima rosnando como um cão de guarda sem coleira.
Gaspar, porém, não riu. Ele afastou-se da mesa e caminhou até o sobrinho, com um olhar que misturava sabedoria e severidade.
— Vocês acham que o amor e o poder são conquistados com palavras afiadas em gabinetes? — perguntou Gaspar, fazendo o silêncio voltar à sala. — Eu e seu pai, Caelum, não chegamos onde estamos apenas por linhagem. Richard teve que lutar contra o próprio orgulho para conquistar Katrina, e eu... eu tive que provar a Claire que eu era mais do que uma coroa e um título de rei. Nós provamos com atos, com presença, com sacrifício.
Gaspar colocou a mão no ombro de Caelum, forçando-o a olhar para ele.
— Se você realmente gosta dessa moça, Caelum, xingar o Stefan pelas costas ou bater com canecas na mesa durante o jantar não vai te levar a lugar nenhum. Isso só prova que você é um menino ciumento, não um homem pronto para o trono.
— Eu não estou com ciúmes, eu apenas... — Caelum tentou intervir.
— Se quiser a loba, terá que ser o lobo — cortou Gaspar. — Prove com atos. Mostre a ela que você é o único homem capaz de sustentar o peso dela sem vergar. Brigas na mesa são para tabernas. Um príncipe conquista com a mesma firmeza com que governa.
Caelum engoliu em seco, voltando o olhar para o jardim. Stefan ainda segurava a mão de Catarina, mas as palavras de seu tio queimavam mais do que qualquer provocação. O deboche havia morrido, dando lugar a uma compreensão fria: a guerra por Catarina não seria vencida com insultos, mas com a coragem que ele ainda temia demonstrar.
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