O sol da tarde banhava o jardim real com uma luz dourada, criando uma cena que parecia tirada de um conto de fadas — pelo menos para uma parte dos presentes.

​Próximos à fonte, Aria e Julian caminhavam de braços dados, rindo abertamente. Julian gesticulava, descrevendo as montanhas nevadas de Valória, enquanto Aria o ouvia com olhos brilhantes, descansando a cabeça no ombro dele por um instante. A felicidade deles era radiante, quase palpável, e preenchia o ar com uma leveza que o castelo não conhecia há anos.

​Afastada dali, sentada sob a sombra de um chorão cujos ramos tocavam o chão, Catarina tentava se concentrar em um livro de poesias. Ela queria dar privacidade ao irmão e à futura cunhada, mas a paz durou pouco.

​Uma sombra alta e imponente projetou-se sobre as páginas de seu livro. Ela não precisou levantar a cabeça para saber quem era.

​— Poesia, Catarina? — a voz de Caelum surgiu, carregada de um desdém refinado. — Achei que mulheres do Norte preferissem manuais de caça ou tratados sobre como amestrar cavalos.

​Catarina suspirou, virando a página sem olhar para ele.

— E eu achei que Duques amargurados preferissem se esconder em bibliotecas mofadas. O que houve? O mofo atacou seus pulmões ou você só veio aqui para garantir que o sol não brilhe demais para o resto de nós?

​Caelum contornou a árvore e parou bem na frente dela, bloqueando a luz que incidia sobre o livro. Ele parecia ter recuperado um pouco da sua arrogância habitual, mas havia um brilho provocador em seus olhos que ele raramente demonstrava.

​— Vim observar a "harmonia" — ele disse, indicando Aria e Julian com um aceno de cabeça. — É curioso, não acha? Como o seu irmão parece um cachorrinho adestrado seguindo a dona. Ele sempre foi assim, ou Astúria amoleceu o pouco de espinha dorsal que ele tinha?

​Catarina fechou o livro lentamente, mantendo o dedo entre as páginas, e olhou para ele com um sorriso cínico.

— O nome disso é amor e felicidade, Caelum. Coisas que, eu entendo, devem parecer línguas estrangeiras para você. Mas me diga... essa sua obsessão em vigiar os dois... é saudade do que perdeu ou você está apenas esperando o momento certo para latir e ver se alguém te joga um osso?

​Caelum deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela.

— Você tem uma língua muito afiada para alguém que está aqui apenas como convidada. Deveria ter mais cuidado. Este jardim tem muitos espinhos.

​— E eu estou olhando para o maior deles agora — ela rebateu, levantando-se. — Você é patético. Está tão desesperado por atenção que veio tentar irritar a irmã do homem que te venceu. O que vem a seguir? Vai esconder os sapatos do meu pai? Ou vai escrever cartas anônimas dizendo que o Julian não sabe usar a espada?

​Caelum soltou uma risada ríspida, inclinando-se para perto do ouvido dela.

— Eu não preciso de cartas, Catarina. Eu sou o Duque de Astúria. Eu sou o sangue desta terra. Enquanto o seu irmão é apenas... um substituto temporário. E você? Você é só a distração barulhenta que ele trouxe para tentar me manter ocupado. Mas saiba de uma coisa: você não chega nem perto de ser um desafio à minha altura.

​Ele deu um sorriso de lado, vitorioso, achando que a calara. Foi o erro dele.

​Em um movimento rápido e certeiro, Catarina levantou o livro — um tomo pesado de capa dura — e o acertou em cheio no peito de Caelum. O impacto fez um som seco: BUM!

​— AI! — Caelum exclamou, recuando dois passos e levando a mão ao peito, surpreso.

​— Isso é para você aprender que, em Valória, quando alguém nos irrita, nós não usamos palavras, usamos o que estiver à mão — ela disse, com os olhos faiscando e um sorriso de puro triunfo. — E da próxima vez que você se aproximar de mim para falar bobagens, eu não vou usar um livro de poesias. Vou usar algo que realmente doa na sua cabeça oca.

​Longe dali, Aria e Julian pararam de rir por um segundo ao ouvir o barulho e a exclamação de Caelum. Julian olhou para a irmã e para o amigo, vendo Caelum massagear o esterno enquanto Catarina voltava a se sentar com a maior calma do mundo.

​— O que foi aquilo? — perguntou Aria, curiosa.

​Julian sorriu, voltando a caminhar com ela.

— Acho que o Caelum finalmente encontrou alguém que não tem medo das sombras dele. Deixe-os. Minha irmã sabe muito bem como lidar com lobos solitários.

​Caelum, ainda sentindo o impacto no peito, olhou para Catarina, que já havia reaberto o livro como se nada tivesse acontecido. Ele sentia uma mistura de fúria e algo que, para sua total confusão, parecia um rastro de admiração involuntária. Ninguém nunca o havia golpeado com um livro. E, estranhamente, o silêncio que se seguiu não era mais tão amargo.