Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
31 A Dança do Gelo e do Fogo
O Salão de Cristal estava em chamas. Milhares de velas refletiam-se nos espelhos dourados, e o aroma de gardênias e vinho caro preenchia o ar. A Saga Herdeiros de Astúria vivia sua noite mais luxuosa: o Baile das Nações, marcando a união oficial entre o Sul e o Norte.
No centro do salão, Aria e Julian abriam a pista. Aria parecia uma divindade em seda branca e fios de ouro, enquanto Julian, em seu uniforme de gala de Valória, a conduzia com uma destreza que fazia todos os presentes suspirarem.
— Você está deslumbrante, minha rainha — Julian sussurrou, girando-a com suavidade.
— É fácil brilhar quando o meu escudo reflete tanta luz — Aria respondeu, sorrindo verdadeiramente, ignorando por um momento o peso das coroas que os rodeavam.
Nas laterais, os pais observavam. Gaspar e Valmor discutiam política entre goles de hidromel, enquanto Claire e Elara trocavam elogios sobre a decoração. Até Richard, com sua rigidez habitual, parecia menos tenso ao ver a ordem restaurada no salão.
A Aparição
O burburinho, porém, mudou de tom quando Catarina desceu a escadaria principal. Ela não estava de azul ou verde, as cores usuais. Trajava um vestido de seda vermelho-sangue, com um decote estruturado e os ombros à mostra. Seus cabelos escuros estavam presos em um penteado alto que revelava seu pescoço longo, e o brilho em seus olhos era mais afiado que qualquer joia.
Caelum, encostado em uma pilastra na penumbra, sentiu o ar escapar de seus pulmões por um microssegundo. Ele a vira de pijamas, molhada na cachoeira e irritada na biblioteca, mas aquilo era diferente. Ela não era apenas a irmã irritante de Julian; ela era uma força da natureza.
Ele se recompôs rapidamente, vestindo sua máscara de deboche, e caminhou em direção a ela antes que qualquer outro nobre pudesse se aproximar.
O Convite e o Embate
— Cuidado, Catarina — Caelum disse, parando à frente dela e bloqueando sua passagem. — Com esse vestido, as pessoas podem confundir você com um incêndio e tentar apagar sua chama com um balde de água gelada.
Catarina arqueou a sobrancelha, abrindo um leque de penas negras com um estalo elegante.
— E você, Duque? Ainda está com a marca do meu livro no peito ou veio aqui apenas para garantir que ninguém se divirta mais do que o permitido pelas suas leis de amargura?
— Vim garantir que você não envergonhe Valória tropeçando nos próprios pés — ele estendeu a mão, o olhar azul fixo no dela, desta vez com uma intensidade nova, que ela não soube decifrar. — Concede-me esta dança? Ou tem medo de que eu seja tão bom conduzindo quanto sou sendo insuportável?
— Eu não tenho medo de nada que venha de você, Caelum — ela disse, colocando a mão enluvada sobre a dele.
A Dança dos Rivais
Eles entraram na pista no momento em que a orquestra iniciava uma valsa rápida e dramática. Julian e Aria pararam por um segundo para observar o par inusitado.
— Olhe para eles — Aria cochichou para Julian. — Se não se matarem antes do refrão, será um milagre.
— Minha irmã está adorando cada segundo — Julian riu, apertando a cintura de Aria. — Ela gosta de desafios, e Caelum é o maior que ela já encontrou.
Na pista, Caelum conduzia Catarina com uma força surpreendente. Ele a girava com precisão, os corpos se aproximando mais do que o protocolo exigia.
— Você está... aceitável hoje, Catarina — Caelum murmurou perto do ouvido dela, o tom de voz baixo e perigoso. — Quase me faz esquecer que você tem a língua de uma víbora.
— E você está quase parecendo um ser humano, Caelum — ela rebateu, sentindo o calor da mão dele em suas costas. — Se ficasse calado, as pessoas poderiam até se esquecer de que você é o homem mais difícil de Astúria.
— É uma pena que eu não tenha intenção de ficar calado — ele deu um giro rápido, trazendo-a para perto de seu peito, seus rostos a centímetros de distância. — O que foi? O coração do Norte está batendo mais rápido? Ou é apenas o cansaço da dança?
Catarina sentiu o rosto esquentar, mas não desviou o olhar. O deboche de Caelum estava lá, mas o modo como ele a segurava era firme, protetor e, pela primeira vez, carregado de uma admiração que ele se recusava a admitir em voz alta.
— É a indignação, Duque — ela mentiu, com um sorriso desafiador. — De saber que você dança melhor do que lê poesias.
Eles continuaram a valsa, um contraste perfeito sob os cristais: o Duque de sombras e a dama de fogo, enquanto o castelo inteiro assistia, percebendo que uma nova e inesperada chama começava a arder nos corredores de Astúria.
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