O silêncio nos aposentos de Aria foi quebrado pelo estrondo da porta se abrindo. Caelum entrou como uma tempestade, a fúria emanando de cada cicatriz em seu rosto. Ele parou a poucos centímetros dela, a respiração pesada, os olhos azuis faiscando de um ciúme que ele tentava, em vão, mascarar como autoridade.

​— Julian é o seu escudo, Aria. Nada mais — ele sentenciou, a voz rouca e vibrante. — Ele está aqui para vigiar as sombras, não para ocupar os seus pensamentos ou receber esses seus olhares. Eu proíbo você de se interessar por ele. Entendeu bem? Eu proíbo!

​Aria soltou uma risada alta e amarga, um som que ecoou pelas paredes de pedra.

— Você proíbe? Quem você pensa que é? O meu dono? O meu noivo? — Ela deu um passo à frente, o rosto vermelho de indignação. — Você abriu mão desse direito no momento em que aceitou se vender por um contrato de casamento!

​Em um movimento súbito, movida por uma raiva acumulada de dias de desprezo, Aria desferiu um tapa sonoro no rosto do primo. O impacto fez a cabeça de Caelum virar para o lado. O silêncio que se seguiu foi elétrico.

​Caelum voltou o rosto lentamente, os olhos agora sombrios. Antes que ela pudesse reagir, ele a segurou pelos braços com força, sacudindo-a.

— Eu te odeio, Aria! Eu odeio o modo como você me olha, odeio o modo como você me desafia e odeio o fato de que eu tive que me destruir para te salvar! — ele rugiu, o rosto a milímetros do dela.

​— Pois eu te odeio mais! — ela gritou de volta, tentando se soltar, mas colando o corpo ao dele no processo. — Odeio a sua covardia, odeio o seu orgulho e odeio o fato de que você ainda respira o mesmo ar que eu!

​A fúria atingiu o ponto de ruptura e, em vez de outro golpe, os lábios se encontraram em um beijo desesperado, uma mistura de ódio, urgência e uma devoção que nenhum sermão fora capaz de apagar. Era um beijo de guerra e de entrega.

​— PAREM COM ESSA LOUCURA!

​Claire estava parada à porta, o rosto pálido e a voz carregada de uma dureza que Aria nunca imaginara ver na mãe. Ela não gritou, mas o peso de suas palavras foi pior que qualquer açoite.

​— Caelum, saia daqui. Agora — Claire ordenou, apontando para o corredor. O rapaz, ainda atordoado e com os lábios marcados, soltou Aria e saiu sem olhar para trás, a cabeça baixa pela primeira vez.

​Claire caminhou até a filha, que tentava recompor o vestido e o fôlego.

— Você não aprendeu nada com a dor que causamos a esta família? — a rainha perguntou, a voz gélida. — Seus atos são egoístas, Aria. Você está brincando com fogo em um palácio de papel.

​Aria tentou desviar o olhar, mas Claire segurou seu queixo.

— Julian é um conde honrado, é bonito, charmoso e, ao contrário do seu primo, ele pode lhe oferecer um futuro sem sombras e sem vergonha. Ele seria um partido maravilhoso para uma princesa que realmente se importa com o seu povo e com a sua própria dignidade.

​Claire deu as costas e saiu, fechando a porta e deixando Aria mergulhada no silêncio sufocante do quarto. A princesa sentou-se na cama, o calor do beijo de Caelum ainda queimando em seus lábios, enquanto as palavras da mãe sobre Julian ecoavam como uma sentença. Ela estava dividida entre a chama que a consumia e o porto seguro que todos esperavam que ela aceitasse.