O sol da tarde dourava as águas do lago, criando um cenário de tranquilidade que contrastava com a tempestade que Aria carregava no peito. Ao seu lado, Julian caminhava com a postura relaxada de quem estava acostumado a terrenos difíceis, mas sua presença era leve, desprovida da tensão sombria que acompanhava cada passo de Caelum.


​Aria observava Julian de soslaio. Ele não parecia um soldado em guarda, mas sim um companheiro de passeio. Curiosa, e talvez querendo abafar as vozes em sua cabeça, ela quebrou o silêncio.

​— Conte-me sobre Valória, Julian. Sobre sua família e como é a vida onde o gelo nunca derrete totalmente. Quero saber quem é o homem que meu primo confia tanto a ponto de entregar a minha vida em suas mãos.

​Julian soltou uma risada curta e melodiosa, parando à beira da água para observar um cisne.

— Valória é um lugar de contrastes, Alteza. É duro e implacável, mas as auroras boreais fazem tudo valer a pena. Venho de uma linhagem de condes que valorizam mais a palavra dada do que o ouro guardado. Meu pai me ensinou a ler o vento antes de desembainhar a espada.

​Ele se virou para ela, os olhos verdes brilhando com uma sinceridade desarmante.

— Tenho duas irmãs que falam mais que um regimento inteiro e uma mãe que governa a nossa casa com mais punho de ferro que meu pai no campo de batalha. Fui criado para ser leal, mas também para apreciar a beleza onde ela existe. E devo dizer... Astúria é muito mais quente do que os mapas sugeriam, em todos os sentidos.

​Aria sorriu genuinamente pela primeira vez em dias. — Suas irmãs... elas são como eu?

​— Elas têm o seu espírito, mas talvez não a sua paciência — Julian brincou, fazendo Aria rir. — Elas teriam adorado ver como você enfrentou aquele banquete. No Norte, admiramos mulheres que não abaixam a cabeça.

​A Sombra à Distância

​A poucos metros dali, escondido sob a sombra dos arcos de pedra do claustro, Caelum observava a cena. A mandíbula dele estava tão travada que os músculos do pescoço saltavam. Ver Aria rir — um riso que ele não ouvia há dias — e vê-la olhar para Julian com aquela curiosidade descontraída era como sentir uma lâmina sendo girada em suas entranhas.

​Ele apertava o parapeito de pedra com tanta força que pequenas lascas de calcário se soltavam sob seus dedos.

​— Ele está fazendo exatamente o que eu pedi — Caelum sussurrou para si mesmo, a voz carregada de uma amargura tóxica. — Ele a está protegendo. Ele a está distraindo.

​Mas a racionalidade de Caelum estava perdendo a batalha para o instinto. Ele odiava o modo como Julian gesticulava, odiava como Aria inclinava a cabeça para ouvi-lo. Ele queria descer lá, arrancar Julian de perto dela e gritar que aquele riso pertencia a ele, e a mais ninguém.

​A raiva que ele sentia não era mais apenas pela quebra de protocolo ou pelo perigo da coroa; era a raiva pura e simples de um homem que via o seu mundo sendo ocupado por outro, enquanto ele mesmo se condenara ao papel de espectador silencioso nas sombras.

​Aria, sentindo-se observada, olhou rapidamente para o castelo. Ela não viu Caelum, mas sentiu o peso do olhar dele. Em resposta, ela se aproximou um pouco mais de Julian, tocando levemente o braço do Conde enquanto faziam o caminho de volta, deixando claro para quem estivesse olhando que o "escudo" estava cumprindo seu papel com perfeição — e que a princesa estava disposta a seguir o conselho de sua mãe, custasse o que custasse ao seu próprio coração.