Saga Herdeiros de Astúria Livro 2
37 A discussão e a entrega ao medo
Caelum desceu os degraus do jardim com a elegância de um predador. O rosto era uma máscara de polidez glacial, mas seus olhos queimavam. Stefan Drake, ao notar a aproximação do Príncipe Herdeiro, empertigou-se imediatamente, tentando manter o sorriso galanteador.
— Lorde Stefan — começou Caelum, a voz suave como veludo sobre uma lâmina. — Que dedicação louvável ao entretenimento de nossa convidada. No entanto, lembro-me de ter visto seu pai procurando-o no conselho para tratar das divisas das terras ao norte. Um assunto urgente, receio. Não gostaria de deixá-lo esperando, não é?
Stefan gaguejou, sentindo a pressão invisível que Caelum emanava.
— Ah, claro... Vossa Alteza. Eu não sabia... Lady Catarina, foi um prazer imenso. Espero continuarmos nossa conversa em breve.
Com uma reverência apressada, o nobre praticamente fugiu em direção ao castelo. Catarina, que observava tudo com um brilho de puro deboche no olhar, soltou um suspiro exagerado enquanto abria seu leque.
— Que pena, Caelum. Ele estava no meio de um elogio fascinante sobre a cor dos meus olhos. Stefan é um cavalheiro adorável, não acha? Educado, sorridente... um excelente partido para qualquer dama, eu diria.
Caelum sentiu o sangue latejar nas têmporas.
— Ele é um tolo que não sabe distinguir uma loba de uma ovelha. Se você se contenta com elogios vazios de um "bom partido" como aquele, talvez o tempo no Norte tenha amolecido seu julgamento.
— Ou talvez eu tenha aprendido a apreciar quem não me trata como se eu fosse um fardo — ela rebateu, seguindo-o enquanto ele se virava e marchava irritado para dentro do castelo. — Por que está tão estressado? Ficou muito tempo trancado com o trigo e as leis?
Caelum não respondeu. Subiu as escadarias em direção aos seus aposentos, mas Catarina não se deu por vencida. Ela subia os degraus logo atrás dele, falando sem parar, provocando-o sobre o brilho das joias de Stefan e como o Sul parecia ter homens muito mais "interessantes" agora.
O Conflito e a Faísca
Ao entrar no gabinete de seus aposentos, Caelum tentou fechar a porta, mas Catarina a empurrou, entrando logo atrás.
— Vai me ignorar agora? — ela gritou, a voz ecoando nas paredes de pedra. — Você age como se fosse o dono da minha vontade! O que foi? O Príncipe Herdeiro não suporta ver que eu posso me divertir sem as suas sombras por perto?
Caelum girou sobre os calcanhares, a fúria explodindo.
— Cala a boca, Catarina!
Ele avançou, prendendo-a contra a parede ao lado da cama grande. O silêncio que se seguiu foi carregado de eletricidade acumulada por três anos.
— Você não faz ideia do quanto me irrita — ele sussurrou, a centímetros do rosto dela. — E não faz ideia do quanto eu tive que lutar para não tirar aquele idiota de perto de você no primeiro minuto.
Catarina abriu a boca para retrucar, mas o insulto morreu em sua garganta quando Caelum a tomou em um beijo urgente, faminto e desesperado. Não havia nada de "azedo" naquele toque; era puro fogo. Ele a jogou sobre a colcha de seda da cama, subindo sobre ela sem quebrar o beijo por um segundo. A urgência crescia, as mãos dela perdidas nos cabelos dele, as dele segurando o rosto dela com uma possessividade que ela nunca sentira antes.
O Silêncio e a Fuga
Subitamente, Caelum parou. Ele respirava com dificuldade, a testa encostada na dela. Em um movimento brusco, ele se afastou, jogando-se de costas ao lado dela na cama, encarando o dossel com o peito subindo e descendo.
O silêncio que se seguiu foi denso e desconfortável. Por longos minutos, apenas o som da respiração de ambos preenchia o quarto.
— Catarina, eu... — começou Caelum ao mesmo tempo que ela dizia:
— Foi o momento, eu não...
Ambos pararam, notando o tom sem graça em suas vozes. A tensão agressiva havia dado lugar a um constrangimento palpável. Catarina sentou-se rápido, ajeitando o vestido com as mãos trêmulas. Sem olhar para trás, ela se levantou e saiu quase correndo do quarto.
No corredor, ela dobrou a esquina e trombou com Aria, que caminhava devagar devido à gravidez.
— Catarina? O que houve? Você parece que viu um fantasma... ou um monstro — brincou Aria, mas seu sorriso sumiu ao ver a expressão confusa da amiga.
— Eu... Caelum... — Catarina respirou fundo e contou o que aconteceu em um sussurro rápido.
O rosto de Aria iluminou-se. Ela segurou as mãos de Catarina.
— Catarina, isso é maravilhoso! Eu sabia que esse fogo entre vocês dois não era apenas ódio. Ele te ama, do jeito torto dele, mas ama.
Mas Catarina não sorriu. Seus olhos estavam perdidos no corredor escuro.
— Eu não sei, Aria. Eu tenho medo. Eu vi o olhar dele quando estava com ciúmes. E se aquele lado sombrio de antes voltar? E se o príncipe que ele se tornou for engolido pelo homem amargurado que eu conheci? Eu não quero ser a causa de mais destruição.
Aria observou a amiga, sentindo que, embora a porta do coração de Caelum tivesse sido aberta, o caminho para o qual ele levava ainda estava cheio de neblina.
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